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(A) :: Sexy, kinky e maximal. O lar lisboeta de Julien Leroy, o "Papa Lisboa" que trouxe o Mama Shelter para Portugal

Sexy, kinky e maximal. O lar lisboeta de Julien Leroy, o "Papa Lisboa" que trouxe o Mama Shelter para Portugal

Entre matraquilhos com padrão de tigre, "toilet selfies" com o amigo Carlos Moedas, e as obras e Bordallo Pinheiro e Vihls, o dono do Mama Shelter encontra equilíbrio neste refúgio no Chiado.

Sâmia Fiates
text
Inês Lacerda
photography

Tocamos à campainha do rés-do-chão de um prédio com porta para uma rua estreita no Chiado. Há música francesa a tocar — mas somos recebidos com um “bom dia, tudo bem?”. O dono da casa, Julien Leroy, usa calças de ganga dobradas, uma camisa branca desabotoada na parte de cima, e um colar com uma pedra castanha, que podemos arriscar ter alguma relação com boas energias. Está descalço. A forma como se veste e a sua postura transmitem logo um ar de proximidade. Pede-nos para esperar — são 10h e está mesmo a terminar uma “reunião” com amigos no jardim de casa. Despede-se do casal em francês, para depois passar as próximas duas horas a falar num português fluente, embora com sotaque, um pouco brasileiro e um pouco europeu; e com muita gíria.

“A língua não é só língua, é cultura”, destaca o empresário francês, que abriu em 2022 o Mama Shelter, o restaurante/bar/hotel no centro de Lisboa, primeiro da rede francesa na Península Ibérica. Foi neste mesmo ano que Leroy aprendeu português, apesar de já ser fluente em espanhol depois de ter vivido quatro anos em Barcelona. “Bochecha de porco é bochecha de porco, arroz de pato é arroz de pato. Podes dizer em inglês ‘duck rice’, mas não tem a mesma história de família”, dispara o homem que assumiu o alter ego “Papa Lisboa”, e não esconde que o storytelling é a alma do negócio. “O ‘Papa Lisboa’ tem esta coisa de estar nas festas, de vestir-se de uma maneira que normalmente os adultos não fazem. Tenho a síndrome de Peter Pan, de nunca querer crescer”, ri-se o empresário, que circula tão bem numa parada gay quanto numa festa dentro de uma casa de banho; não perde uma aula de yoga; e mantém o papel de marido e pai intacto, garante.

Mestre em marketing com especialização em hotelaria, trabalhou por seis anos na Disney Company antes de abrir uma empresa de publicidade, que vendeu em 2016, mesmo ano em que criou um fundo de investimentos — que o permitiu adquirir os prédios dos quais é dono em Lisboa. A primeira vez que veio, entretanto, foi em 2014, quando visitou o primeiro edifício que comprou com o sócio, na Lapa. Atualmente Leroy tem todos os seus negócios na capital portuguesa, entre o Mama Shelter e outras propriedades residenciais, e é aqui que passa a maior parte do ano. O apartamento que visitámos no Chiado é uma das três residências da família, que mantém casa em Barcelona e um refúgio de férias nos Pirineus — para onde vai quando pode, apenas com uma mochila, especialmente para fazer ski ou “fugir” do calor do verão.

Reconhece que quando chegou a Portugal encontrou “um país bastante católico e clássico, especialmente quando estamos a falar de pessoas com dinheiro”, e que aproveitou este ambiente para criar “uma personalidade mais sexy, kinky e um pouco desrespeitosa com as coisas pré estabelecidas.” O apelo sexy traduz-se na própria casa: maximal, com uma mistura de cores, formatos e padrões. Na sala, uma mesa de matraquilhos divide espaço com um piano e uma guitarra (“ontem à noite voltei para casa e toquei por meia hora”, conta-nos). Na parede uma fotografia gigantesca de si mesmo em palco. “Foi um presente da minha mulher para tratar o meu ego“, ri-se.

Mas é do lado de fora, numa selva urbana em que os prédios dos arredores isolam-nos da zona turística e onde o silêncio surpreende, que decorre a maior parte das quase duas horas de conversa. É onde Julien tem também o seu escritório, bem ao lado da mesa de jantar, protegidos apenas por um janelão de vidro estilo “jardim de inverno”, porque “não queremos esconder-nos no primeiro andar”. Onde um macaco em porcelana de Bordallo Pinheiro divide espaço com uma secretária vintage saída de uma loja de móveis usados ou com uma mesa de centro que serve de apoio para um livro com a fotografia de Carlos Moedas na capa. “Temos sorte de ter um Presidente da Câmara que está atento ao que aconteceu em Barcelona e olha para as regras locais, para a habitação social e para os transportes públicos”, elogia o Papa Lisboa, que não parece ver no autarca um concorrente ao título que assumiu para si. Pelo contrário, aponta a proximidade como a sua forma de “colaborar” com a cidade. “Estou a militar por um comboio de alta velocidade entre Madrid e Lisboa, acho que tem potencial”, diz-nos, sobre uma das várias vezes em que citou o nome do presidente da Câmara Municipal. A outra foi para contar que Moedas alinhou numa “toilet selfie”, que Leroy diz já ter mais de 500 com personalidades públicas, empregados, amigos e conhecidos.

De conversa fácil e sem medo de dar opiniões controversas, é adepto da política do “falem bem ou falem mal, mas falem de mim”. Fala com propriedade sobre a causa LGBT+, mesmo afirmando-se heterosexual e feliz com o corpo em que nasceu; emociona-se ao dar o exemplo da mãe, o respeito que nutre pelas mulheres e pelo seu direito à libertação sexual; e mostra que nenhum tema é tabu, dentro ou fora de casa. Defende um setor da hospitalidade mais unido para tornar a capital mais “atrativa”, reconhecendo que para o desenvolvimento económico é preciso “ter estrangeiros a gastar dinheiro, mas não transformar a cidade numa “Disneylandia” sem espaço para os locais“. E nesse aspeto, orgulha-se de apresentar uma carta “acessível”, à sua clientela de “maioria” portuguesa, e de ter tratado logo de aprender o idioma local, no estilo clássico fake it until you make it.

Quando é que aprendeu a falar português?
Aprendi em 2022, com a abertura do Mama. É super recente. Estou ainda a aprender, e gosto muito da língua. Não digo isto pelo lado espanhol, até tenho preferência pelo português. É uma língua que uso no dia a dia porque estou a trabalhar com a equipa toda em português agora; nunca usamos inglês, francês ou espanhol. O meu assistente, Ricardo, tem como regra que tudo seja em português, só no momento em que me falta o vocabulário.

Muitos estrangeiros dizem que é difícil aprender porque os portugueses respondem logo em inglês. Isso acontece consigo?
Tenho uma maneira de fazer, que é: finjo não falar inglês. Foi o mesmo quando aprendi espanhol em 2018. Digo: ‘Desculpa?’ Mesmo que seja verdadeiramente difícil, porque é uma vergonha não se saber falar — especialmente para um adulto ou para o dono numa reunião. Não é fácil ser a pessoa que não tem o vocabulário, mesmo tendo o poder. Mas, no final, digo às pessoas que não percebo nada do inglês.

É preciso confiança.
No final, a conversa é a única maneira de aprender um idioma. Para mim, deve ser imersão: estar no país com a rádio, televisão e o telemóvel. Quando cheguei, passei o telemóvel para o português. Ficas perdido no início, no momento em que procuras uma aplicação que conheces perfeitamente em francês ou inglês, por exemplo. Há muitos estrangeiros em Lisboa que passam o primeiro e o segundo ano sem aprender e depois o sistema fica bloqueado; nunca mais terão outra oportunidade de chegar lá. A minha recomendação é fazer o esforço desde o primeiro dia: imersão, fingir que não falas outra língua e tentar, porque, depois de passar o primeiro momento de se sentir mal, chega um ponto em que te sentes confortável.

O facto de o chefe falar português faz as relações profissionais serem diferentes?
É o tema do respeito. Sempre falamos disso, com a equipa completa. Tenho 130 empregados no Mama e 100% falam português, mesmo as pessoas estrangeiras. Temos um pouco na cozinha, como o chef executivo que é peruano e, obviamente, fala mais espanhol, e uma parte da equipa da pizzaria também, mas o português é a língua comum. Para mim, foi esta ideia a transmitir à equipa: “mesmo que eu seja o dono, mesmo que eu seja francês e a marca seja francesa, a integração e ser  ‘bem tuga’ é fundamental”.

Acha que falar português muda a forma como o público local vê o negócio?
A maioria dos clientes do restaurante são portugueses. Falar português faz uma diferença enorme. Uma noite estava no rooftop com advogados portugueses que pensavam que o dono não falava português, e depois viram que falo e que me encanta falar. Acho que faz diferença também porque a língua não é só língua, é cultura; com a língua vem um pouco de história, dos costumes e das coisas familiares. Isso ajuda muito a desenvolver a parte criativa, como a carta e o menu. Bochecha de porco é bochecha de porco, arroz de pato é arroz de pato. Podes dizer em inglês “duck rice”, mas não tem a mesma história de família. Como no Mama todo o posicionamento é sobre pratos com a generosidade da mãe para partilhar com a família, faz todo o sentido fazer isso em português. Assim, faz uma diferença para os clientes e para os empregados, que são clientes também, e temos muito cuidado para que queiram ficar.

Ainda assim, é um setor com grande rotatividade.
É verdade. Existem perfis de empregados que querem mudar para lugares internacionais, e há restaurantes a abrir todos os dias em Lisboa à procura de bons profissionais. O Mama, por sorte ou azar, está identificado como um lugar onde temos empregados com bom estilo. Acho que, mais do que a parte técnica, é a parte do caráter, do saber estar e do contacto com os clientes. O recrutamento no Mama é muito sobre o perfil e a personalidade, muito mais do que saber levar um prato, que podes sempre aprender. Uma pessoa com empatia, sentido de humor e capacidade de saber quando estar próximo ou ter distância — isto é educação, experiência e natureza; não se pode ensinar.

"Quando cheguei a Portugal, que é um país bastante católico e clássico, especialmente quando estamos a falar de pessoas com dinheiro, comecei a fazer o Instagram do Mama com uma personalidade um pouco sexy, kinky e um pouco desrespeitosa com as coisas pré estabelecidas. Não é qualquer "mama", é uma "mama cool". Tenho muitos amigos portugueses mais clássicos que diziam: "Julien, não podes fazer isso", e era exatamente isso que eu procurava."

É difícil encontrar esse tipo de profissional em Lisboa?
Acho que pode ser difícil para outra marca. No Mama, até a maneira como anunciamos uma posição para recrutar tem um “tom de voz” diferente; não é o clássico, tem sempre um pouco de humor e até um pouco de desrespeito, mas no bom sentido. Quando cheguei a Portugal, que é um país bastante católico e clássico, especialmente quando estamos a falar de pessoas com dinheiro, comecei a fazer o Instagram do Mama com uma personalidade um pouco sexy, kinky e um pouco desrespeitosa com as coisas pré estabelecidas. Não é qualquer “mama”, é uma “mama cool”. Tenho muitos amigos portugueses mais clássicos que diziam: “Julien, não podes fazer isso”, e era exatamente isso que eu procurava. Não que as pessoas digam que é horrível, mas que sintam que está no limite do que se pode mostrar ou dizer.

Autoentitular-se “Papa Lisboa” também faz parte dessa provocação?
Isso vem dos clientes. Mudei para “Papa Lisboa” cerca de seis meses depois da abertura do Mama. Abri com um perfil que era “Julien Leroy” e, pouco a pouco, os clientes vinham e diziam: “É, tu és o Papa Lisboa, realmente”. Agora, digo sempre aos meus filhos que é uma personagem. O “Papa Lisboa” tem esta coisa de estar nas festas, de vestir-se de uma maneira que normalmente os adultos não fazem. Eu tenho a síndrome de Peter Pan, de nunca querer crescer. O mais difícil para mim é estar calmo; tenho a experiência de empresário, mas gosto muito de me vestir de maneira diferente para um evento, criar uma temática e fazer coisas um pouco loucas. Tenho uma disciplina diária de yoga, meditação e desporto que é essencial para o “Papa Lisboa” estar bem. Esta personagem é um estilo de vida que envolve festa, desporto, viagens e o lado humano de encontrar pessoas. É o que chamamos em francês de “o sal da vida”; sem sal, a cozinha não tem interesse. O sal dá um gosto melhor e mais interessante. Até o Carlos Moedas gosta do “Papa Lisboa”!

Essa criação de personagem e o trabalho de “chocar” vem da sua experiência com marketing?
Sim, faz parte. Há duas coisas. Primeiro, frequentei uma escola de marketing e negócio, onde aprendi as técnicas clássicas. Mas o mais importante foi o meu primeiro trabalho na Walt Disney Company, no Disneyland Park. Ali aprendi que o storytelling é a base de qualquer produto ou serviço que queiras comunicar ou vender. Muitas pessoas dizem que estou no negócio de restaurantes, mas o storytelling é óbvio. Se estás a vender massas ou qualquer coisa, tem de haver uma história. A primeira coisa que faço ao criar uma empresa é definir a história. O Mama é uma personalidade; tem os traços de uma rapariga, de uma mãe que não quer ser clássica, que é generosa, aberta e inclusiva. O tema da inclusão é essencial no posicionamento.

O que importa mais na hora de tomar uma decisão acerca do negócio?
O primeiro ponto é o que eu chamo de”Mamaness”, que é o filtro por onde tem de passar qualquer ideia para ver se fica bem ou se não é Mama. Há muitas ideias boas lá fora que não alinham com o nosso posicionamento. A segunda coisa é o tema da encarnação: mesmo sendo uma personagem ou uma história, a única maneira de ter sucesso é viver essa história como se fosse o “Actor’s Studio”. Eu vivo como o Papa Lisboa 99% do tempo. A única exceção é que, às vezes, tenho de ser o Julien Leroy quando sou o pai dos meus filhos no Liceu Francês, onde o ambiente é um pouco mais clássico.

Mas aí comporta-se de modo diferente? Troca de roupa ou muda o tom de voz, por exemplo?
Nunca! Há uma história: eu estou sempre sem sapatos em casa e no trabalho. Às vezes os managers do Mama dizem que eu não posso fazer isso, mas aquilo é a minha casa. Um dia estava super quente mas tinha chovido um pouco, estava agradável, e fui buscar os meus filhos ao Liceu Francês sem sapatos. Entrei no carro e fui buscá-los. Eles ficaram felizes e perguntaram se podiam tirar os sapatos também, e eu disse que sim, desde que tivessem cuidado com vidros ou coisas perigosas. Lisboa é limpa, caminhas só dois minutos até ao estacionamento, estava tudo bem. Mas recebi uma mensagem da minha mulher 30 minutos depois; três mães tinham mandado mensagem para ela, que é presidente da associação de pais, a dizer que o marido dela não podia estar sem sapatos e que não era um bom exemplo. Nessas alturas tenho de decidir: ou o “Papa Lisboa” diz que faz o que gosta para mostrar aos pequenos que eles podem decidir se os sapatos são ou não para eles, ou sou o Julien Leroy, marido da presidente da associação de pais, e respeito o papel dela. Não pedi desculpas, mas disse que não o faria mais para não molestar os outros. Tenho uma vida rica e intensa, mas não quero que a minha mulher tenha problemas. Essa espécie de desrespeito tem um limite, que é quando incomoda quem está a fazer o seu trabalho. Ajusto-me ao ambiente.

Essa forma de estar descontraída repete-se na família?
Sim. Atrás das portas fazemos muitas festas em casa. Temos sempre música no interior, no exterior, em todos os quartos. Temos malas com vestidos para nos vestirmos de maneira diferente. Os meus filhos têm 15, 14 e 13 anos — são três rapazes, uma equipa de futebol — também dão as suas preocupações ao pai, mas o sentido de humor na família é um valor central. O tema do sexo é omnipresente. Tenho essa versatilidade; posso aparecer na Pride Parade e parecer super gay e as pessoas comentam, mas está tudo bem.

Sente que os seus filhos têm liberdade para falar sobre tudo consigo?
Sim, acho que faz parte desses valores. No nível global da história do mundo nada é tão importante quanto estar no momento presente com as pessoas que amamos, com sentido de humor e num espaço seguro. Quando os nossos filhos eram mais novos, com cerca de 8, 9 e 10 anos, tínhamos o “jantar de gala” ao domingo à noite. Os meninos tinham a responsabilidade de preparar a mesa e vestirem-se de maneira diferente. Cozinhávamos juntos e a regra era que podiam fazer qualquer pergunta. Como podes imaginar, 90% das perguntas de três rapazes de 10 anos eram sobre sexo. Mas depois de alguns jantares, passas para outras coisas. É essencial perceber o corpo e a dimensão emocional. Como pai de rapazes, sinto que tenho a responsabilidade de contrariar a história de alguns influenciadores que vendem que os rapazes são superiores e as raparigas submetidas. Ensino igualdade, respeito e validação.

O Julien vem de uma geração em que esses temas não eram tratados. Como foi a sua criação?
Tenho 52 anos e o meu pai era super “macho”. Não sabia bem onde era a cozinha, nunca o vi pôr nada na máquina de lavar loiça; era muito estilo Mad Men, a ler o jornal com um whisky. Mas ele tinha duas qualidades incríveis: um sentido de humor muito divertido e uma cultura geral super boa por ler o jornal todos os dias. Tenho um irmão com menos um ano e, quando tínhamos oito e nove anos, os meus pais separaram-se e ficámos com a minha mãe. Aprendemos que a mulher é a pessoa mais importante da família. Ela é dentista, trabalhou todos os dias para cuidar de nós e aprendemos a cuidar dela e a respeitá-la. Sou muito feliz com isso, emociona-me positivamente. Ela tem 83 anos e ainda trabalha três dias por semana como dentista em Paris. Adora Portugal, mais do que as casas de Barcelona ou de França. Ela é muito “hippie”, viveu a libertação sexual de 1968 aos 25 anos. Por um lado, tenho esse respeito enorme pela mulher e, por outro, o tema de não respeitar as normas, o lado “Peter Pan” de celebrar a vida e o amor em todas as cores.

É esse espírito que procura incutir também dentro dos seus negócios?
Sim. Fazemos festas, celebramos a vida, temos todas as cores do arco-íris. Vou para a Gay Pride, vou para a política. Gosto de estar com associações de transgéneros. Temos agora três pessoas que mudaram de género nos últimos quatro anos. É um caminho tão difícil, tão duro, fisicamente, socialmente, psicologicamente. Quanto mais dinheiro, empresas e poder tens, mais responsabilidade tens. O Mama cuida dos clientes, mas se não dermos alegria aos empregados, nunca vai funcionar. É um ecossistema para que as pessoas cheguem com problemas e saiam com um sorriso.

Fala muito sobre como encarnou o espírito do Mama Shelter, mas esta é uma marca francesa que já existia antes da abertura do hotel em Lisboa em 2022. Já tinha o edifício há mais tempo — como foi a decisão por esta marca em específico?
Sou dono do edifício e da empresa operacional. Neste negócio dos hotéis há duas opções. Podes criar a tua marca, como por exemplo um “Papa Lisboa”, que é uma ideia para o futuro, em que seria a minha marca e tudo “de casa”, sem se aproveitar de uma marca já existente. Outra opção é procurar uma marca existente, que já tenha muitas coisas feitas a nível de padrões e serviços, e que ajude a ir mais rápido e com mais segurança. Em 2016 comprei o edifício e em 2017 fiz uma consulta com cerca de 40 marcas. Cheguei a um ponto com três marcas, incluindo o Mama Shelter. Foi uma decisão bem simples. Escolhi-a porque achei que este conceito de “restaurante festivo” — um lugar com capacidade de mudar para o modo disco sem ser uma discoteca — tinha uma oportunidade enorme em Lisboa. Há o exemplo do Praia no Parque, acho muito interessante o trabalho do Nuno Santana e somos bons amigos. Há o JNCQUOI e depois há nightclubs, como o Lux ou o Lust in Rio. Mas esse posicionamento de um restaurante que passa para festa numa quarta-feira não havia. Segundo, é um conceito super acessível. Que não é o caso do Praia ou do JNCQUOI. Podes jantar e festejar por 40 euros por pessoa, o que o torna mais inclusivo e acessível.

Neste caso, em Portugal particularmente, o preço pode significar também se o espaço será ou não frequentado pelo público local.
Exatamente. A ideia é não ser tão elitista. Tens de pagar,  infelizmente não podemos dar bebida a todos. Mas mesmo com um salário clássico em Lisboa, podes aproveitar o Mama. É um destino de celebração, de grupos, de jantar de mulheres, porque é seguro, tem um design integrado na cultura local, uma comida fresca, não é tão caro, e ainda tem as bebidas. Na altura gostei do conceito e não sabia que teríamos o Covid — a pandemia aconteceu durante a reforma do espaço.

E afetou os planos?
Atrasou bem as obras e a abertura, porque afinal não quis abrir durante o Covid. Mas, seguindo a minha filosofia de vida não-dualista, o que parecia uma má notícia acabou por ser a melhor. Esperei três anos para ter o licenciamento para construir. Estávamos para abrir em dezembro de 2019, o que teria sido uma catástrofe.

Tem liberdade total na gestão ou tem de seguir regras estritas?
Sou super amigo dos fundadores, sinto-me como se fosse o fundador do Mama Shelter Lisboa. A primeira coisa é o conceito original, de 2009 em Paris, com o Philippe Starck, o Jérémie Trigano e o Cyril Aouizerate, que tem muito potencial em Lisboa. A segunda coisa é que tenho mãos livres. Temos de respeitar a ideia geral e o design é escolhido em conjunto, mas sou eu que pago e dou as direções locais. Integramos muitas coisas locais no desenho. O teto foi pintado à mão numa criação única que fizemos com o artista Benilois. A cozinha e a carta são totalmente construídas pela equipa local. A regra é ter pratos para partilhar com produtos 100% frescos. Fizemos provas com o chef Nuno Bandeira e escolhemos a primeira carta, que está a evoluir sempre. Temos o “prato do dia” para cada dia — quarta-feira é piano, que é o nosso best-seller. As batatas fritas são preparadas de uma maneira específica, frescas, e cozinhadas duas vezes. Acho que são as melhores da cidade — e é muito português dizer isto!

E quanto ao Mama Shelter no Porto?
Está em desenvolvimento; sou super amigo dos donos. É um fundo de inversão da Suíça, estou a colaborar com eles. Não sei qual vai ser a “pinta” do Papa Lisboa lá, talvez tenha de ter um “Papa Porto” no Instagram. O projeto envolve dois edifícios no centro do Porto: um será um Sofitel e o outro será um Mama. Vão operar de maneira conjunta mas separada. Mas não estou envolvido na parte do capital; é tudo do fundo de investimento. Eles estão a fazer o que se chama no imobiliário um “Greenfield”.

Chegou a considerar para Lisboa uma marca mais tradicional de hotelaria?
Eu sou de “lifestyle”. Não vou fazer um segundo Mama, porque tenho de me mover e fazer coisas diferentes nesta vida. Nunca vou reproduzir uma coisa só pelo dinheiro. Fazer um segundo Mama é mais óbvio, mas não tem o interesse ou o “sal” que procuro, que é o risco e a aprendizagem. É importante fazer coisas que não sabes fazer, especialmente depois dos 40 ou 50 anos.

"Tive uma conversa com o Carlos Moedas na semana passada, sobre o que estamos a fazer para que Lisboa ganhe contra o resto das cidades da Europa. Até mesmo contra o Porto, porque há um ponto desta competição -- Lisboa tem de ter mais atratividade."

Mas então está a considerar abrir um novo espaço com outras marcas?
Estou sempre a considerar e a falar. Sou amigo da Maude Bailly, que é presidente do Sofitel, dentro do grupo Accor, mas também de marcas como M Gallery e Emblems. Estas marcas têm um lado de lifestyle mais clássico, cinco estrelas, mas com capacidade de fazer algo único. O Mama Lisboa é único; não é como o Ibis, onde compras exatamente as mesmas coisas no mundo inteiro. Aqui, decidimos tudo localmente. O Emblems, por exemplo, tem edifícios históricos com animação e estilo, mas mantendo a ideia de cinco estrelas para a nossa geração. Em Lisboa há muitos palácios com potencial para fazer algo diferente. Um bom exemplo para mim é o The Standard, que vai abrir. São amigos meus, os da marca e os donos, conheço os dois lados. Gosto também do Andaz, que acabou de abrir e tem muitas pessoas que trabalharam no Mama. Estou sempre a dizer que somos uma família, não é só concorrência. Estamos a colaborar também. Tive uma conversa com o Carlos Moedas na semana passada, sobre o que estamos a fazer para que Lisboa ganhe contra o resto das cidades da Europa. Até mesmo contra o Porto, porque há um ponto desta competição — Lisboa tem de ter mais atratividade. Uma das coisas para o presidente da Câmara é a infraestrutura turística. Como chegar? O tema do aeroporto, do metro, do comboio entre Lisboa e Porto ou entre Lisboa e Madrid. Eu estou a militar por um comboio de alta velocidade entre Madrid e Lisboa, acho que tem potencial.

Essas relações de amizade também são determinantes a nível profissional.
É verdade. Tenho sorte nesta vida porque sempre tive este gosto pelas pessoas. Quando gostas das pessoas, tens a sorte de ter responsabilidades profissionais que tocam o lado social. Ser o “Papa Lisboa” dá a oportunidade de encontrar toda a gente. Ontem estávamos a escrever ao embaixador do Peru para organizar uma festa peruana no final de julho. Quando cheguei, procurei encontrar os donos de restaurantes, de hotéis e organizadores de festivais, como os do MOGA, do Goat Festival. Convidei o Presidente da Câmara para a abertura e foi aí que nos conhecemos. Uma semana depois, ele ligou-me para irmos à câmara tomar um café e falarmos de infraestrutura turística, associações de hoteleiros e restauração. Nunca podes chegar a lado nenhum sozinho; estamos a subir juntos.

Fala de elevar o nível das infraestruturas turísticas. De que forma isso também representa uma melhoria para quem vive cá, para os locais?
Isso também faz parte do trabalho. Vejo o exemplo dos meus empregados que vivem em Lisboa e precisam de poder arrendar um lugar e ter acessos fáceis. O desenvolvimento das cidades tem impactos clássicos, como em Paris, Nova Iorque ou Barcelona. Temos a sorte de ter um Presidente da Câmara que está atento ao que aconteceu em Barcelona e olha para as regras locais, para a habitação social e para os transportes públicos. A Carris é uma loucura, ter carro em Lisboa não é uma ideia genial, bicicleta aqui é perigoso… No Mama, temos um sistema de Bolt para os empregados que fazem o serviço da noite porque, às duas ou três da manhã, não há opções para voltar para casa. Acredito muito na parceria público-privada; o público não pode resolver tudo sozinho e o privado também não. Recentemente jantámos com o Carlos Moedas, o Philippe Starck e a Embaixadora de França para falar — em francês, porque o Carlos tem um francês perfeito e a sua esposa é francesa — da nossa responsabilidade comum, que temos todos, de pensar de maneira mais inclusiva e em como podemos ajudar. Há muito que se faz que não é publicado: há histórias que são para divulgar e outras que são para guardar e saber que estamos a fazer o bem.

Existe a crítica de que os estrangeiros estão a “expulsar” os locais da cidade. Como olha para essa narrativa?
É lógico e, ao mesmo tempo, o desenvolvimento económico, que tem impacto positivo para todos, precisa de investimento, que vem muitas vezes com os estrangeiros. É como tudo na vida — festejar e descansar, comer demasiado e fazer desporto. O tema é o equilíbrio: ter estrangeiros a gastar dinheiro, mas não transformar a cidade numa “Disneylandia” sem espaço para os locais. Gosto muito de morar no Chiado — que é bem turístico — mas todos os meus vizinhos são portugueses. Nunca fazemos a assembleia de condomínio noutra língua que não o português. Para mim, esta é a maneira de estar bem integrado.

Como é que tomou a decisão de vir viver para Portugal?
Durante todo o processo de construção do Mama, eu vivi em Espanha, para onde me mudei em 2018 com a minha mulher e os três filhos. Em 2022, abrimos o Mama e decidimos em família que fazia muito mais sentido estarmos todos em Lisboa. Como empresário e pai, é difícil escolher entre estar com os filhos ou estar com o negócio e os parceiros locais. Os meus filhos eram pequenos quando mudámos de Paris para Barcelona, não se lembram, mas agora vieram para cá com 11, 10 e 9 anos.

Adaptaram-se bem à mudança?
A primeira coisa complicada foi a escola. Tivemos de obter três vagas no Liceu, o que é difícil porque está sempre bem cheio. O sistema francês é incrível porque tens escolas em todo o lado, até falámos em mudar para Palma de Maiorca a certa altura. Depois de resolver a escola, procurámos um lugar.

Como encontrou esta casa?
Arrendámos primeiro um apartamento, mas nós adoramos fazer obras e reabilitação. Queríamos um lugar que pudéssemos chamar “casa” e que tivesse espaço exterior para os filhos e para os nossos animais — um cão e um gato. Queria algo a 15 minutos a pé do Mama ou 5 minutos de moto, perto do Liceu Francês. Visitámos esta casa em novembro; estava num estado muito antigo e o jardim era quase um depósito de móveis. Estava ocupada por uma família portuguesa, a Madalena, que é arquiteta e que agora é nossa amiga. Ela tinha feito obras aqui há 15 anos. Fizemos três meses de obras para reformar tudo. Sinto que encontrámos o lugar. Quando passas a porta, tens a tranquilidade que o “Papa” precisa depois do Mama.

Qual foi a prioridade para a dinâmica do espaço?
Criámos um espaço de vida onde vivemos muito juntos. É importante ter uma sala de estar aberta onde podemos ler, jogar xadrez ou ver um filme, todos no mesmo lugar, mesmo que estejamos a fazer coisas diferentes. O escritório é na sala de jantar porque não queremos esconder-nos no primeiro andar; queremos estar no centro da vida. O nosso quarto é aberto para o jardim. Não temos muita privacidade, mas estamos onde a vida acontece. Temos também os vizinhos, como a Ana Maria e o seu estendal — há sempre uma meia ou uma T-shirt a cair, e então vamos lá devolver…

O estendal, também algo muito português.
Foi a primeira vez que ouvi esse nome, “estendal”, porque tivemos de substituir seis deles nas obras do condomínio. Não é uma palavra que aprendas no Mama Lisboa. Esta casa é o lugar para o Julian descansar e estar mais calmo. É um edifício super português, histórico, anterior ao Terramoto de 1755, como muitas igrejas aqui perto. Adoro esta rua e esta perspectiva. Aliás, comprei o edifício do Mama à Ordem de Fátima; foi doado por uma senhora portuguesa que não tinha herdeiros e fui assinar a compra com um padre. Acho que é bom ter Deus do nosso lado.

O Julien é católico?
Sou católico de educação e budista de evolução.

Tem aqui peças de decoração ou arte portuguesas?
A primeira coisa para mim é sempre Bordallo Pinheiro; tenho de ter. Temos este macaco, que foi a primeira peça que comprámos para aqui. Temos também mobiliário vintage português dos anos 50 e 60, como este pequeno escritório. Tenho duas reproduções numeradas do Vhils; gosto muito de street art e arte urbana portuguesa. Aqui dentro também tenho peças com influência africana. Temos também uma foto que é o “Papa Lisboa”, um presente da minha mulher para tratar o meu ego.

E quanto aos elementos arquitetónicos?
Fizemos tudo para sublimar as coisas únicas deste edifício, como o arco de pedra e as portas rotundas originais que estavam escondidas. Trabalhámos com a RMC, uma empresa portuguesa de pedra reconstituída, para fazer as mesas do Mama e elementos aqui em casa; não queríamos mármore italiano, tinha de ser português. Este espelho da cozinha também veio de um palácio histórico de Lisboa anterior a 1800; encontrámo-lo num armazém de peças antigas fora da cidade. Adoro misturar coisas históricas com coisas novas, e claro, também tenho coisas de lojas como La Redoute.

Tal como o Mama Shelter, não é nada minimalista.
O minimalismo não é o caso aqui. Não sou adepto disso. Escolher uma terracota como cor principal tem um pouco de risco, mas é um tema de equilíbrio. Nada parece novo ou perfeito; tem o calor e o cheiro de uma casa de família. A cozinha estava fechada por uma parede e agora está aberta. Esta mesa de madeira também foi feita 100% em Portugal. E aproveitámos a garagem para outras coisas. Temos um carro, um Fiat 500, mas fica na rua. Somos todos de desporto, por isso a garagem é uma zona familiar para isso. E depois tenho muitos objetos que recebi como presentes, especialmente livros. Como este, do Museu de Design de Lisboa, que estou super fã, tem desenhos incríveis.

Acompanha moda?
Sou mais do design. Quando vou para Milão, nunca vou para a Fashion Week, vou sempre para a Semana do Design. Mas aqui em Lisboa, já fizemos com o Mama Shelter eventos para a ModaLisboa. É mais sobre a oportunidade… Também fizemos muitas coisas relacionadas com música, com o MOGA e o Lisbon Dance Summit. O padre Guilherme foi ao Mama — não quis fazer uma toilet selfie com o Julien, mas nem todos podem. Quando fiz com o Carlos Moedas foi engraçado, ele perguntou: ‘Onde vamos?’ e eu disse: ‘À casa de banho’.

Como surgiu essa ideia das “Toilet Selfies”?
Foi uma ideia para a abertura, para não usarmos as redes sociais de forma normal. Fizemos um concurso de fotos na casa de banho na festa dos empregados e o prémio era um jantar para dois. No dia da abertura, 12 de janeiro de 2022, esperávamos 50 pessoas e vieram 300; foi o pior soft opening de sempre, a cozinha não estava pronta, mas tudo correu bem e a cidade começou a falar disso. Eu lancei a “Toilet Selfie” e já tenho mais de 500, passei semanas na casa de banho com todas as pessoas, conhecidos, amigos, empregados… E é bem Mama, porque não é normal ir fazer fotos na casa de banho. É um lugar um pouco sujo, um pouco ilegal, mas também um pouco sexy, kinky e subterrâneo. Agora fazemos uma vez por ano o “Toilet DJ”, com o DJ no corredor da casa de banho; num estilo boiler room, com influência nova-iorquina, e cabem 60 pessoas.

Como é que alguém tão festeiro foi parar ao yoga?
Foi por causa das mulheres (risos). Em 2014, eu trabalhava em publicidade tecnológica em França, tinha uma startup com muitas mulheres e elas pediram-me para pagar um professor de yoga uma vez por semana. Eu tinha 40 anos, uma flexibilidade péssima e algum peso a mais, mas como gosto de desafios, disse que ia fazer com elas. Tive a sorte de a primeira professora, a Maria, ser de Power Yoga. Sempre gostei de desporto, pratico kitesurf, tenis, ski, padel, surf… E adorei a dimensão física de suar e do esforço muscular. Entrei no yoga antes de saber nada da filosofia, da ayurveda, do tantrismo.

E tornou-se uma paixão?
Sim, comecei a praticar todos os dias para destressar e libertar energia. Eu tenho PHDA (Transtorno de Défice de Atenção com Hiperatividade) e quando entro em algo que gosto, sou extremo. Em Lisboa, encontrei o guru Manel Rodrigues e fiz um retiro em Sintra. Foi em 2019, antes do Mama, e adorei tanto que fiz o meu teacher training de 500 horas com ele, não para ensinar, mas para perceber o corpo.

Pratica todos os dias?
Todos os dias. A primeira coisa que faço, antes do telemóvel e o café, é a meditação. Tenho a minha almofada de meditação e o incenso à frente da lareira. Depois faço 15 minutos de yoga pessoal para abrir as articulações e às 7h30 vou para a aula no Baraza. Depois faço cycling no Amplify, ou bootcamp ou treino muscular. Com a minha idade, se queres continuar a fazer surf ou kitesurf, tens de manter a massa muscular. Para mim, o yoga é saúde mental; não conseguiria ser pai e empresário sem isso.

E com a programação do Mama e as aulas de yoga, dorme quantas horas?
Durmo 5 horas por dia. Deito-me às 23h e acordo entre as 4h e as 5h da manhã. Uso esse tempo antes de os filhos acordarem para meditar, criar e escrever. Preciso de tempo sozinho. Até tento dormir mais um pouco, mas o meu corpo acorda naturalmente. Tento nunca deitar-me depois das 2h da manhã, senão estraga o resto do dia e não consigo meditar ou estar na aula das 7h30.