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Fisioterapia em dor crónica. Mais do que aliviar a dor, devolver a vida

Quando deixei de trabalhar em Portugal e fui para Inglaterra mudei a forma de olhar e tratar a dor crónica. Em vez de perguntar onde dói tento perceber como a dor está a afetar a vida de uma pessoa.

Joana Rodrigues
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Durante muitos anos, achei que o meu trabalho como fisioterapeuta era simples: ajudar as pessoas a sentir menos dor. Hoje vejo isso de forma muito diferente. O trabalho é ajudá-las a voltar a viver, mesmo quando a dor continua presente. Essa mudança começou quando deixei Portugal para trabalhar em Inglaterra e descobri uma forma diferente de olhar para a dor crónica.

O meu percurso como fisioterapeuta na área da dor crónica começou em Portugal, logo após concluir a minha licenciatura, em 2019. A realidade do meu dia a dia era tratar várias pessoas por hora, com tratamentos prescritos, na sua maioria, por fisiatras e essencialmente passivos: massagens, calor e eletroterapia, complementados por exercícios simples. A minha perceção era de um sistema pouco personalizado, onde o envolvimento da pessoa com doença no seu próprio tratamento era reduzido. Apesar de a maioria das pessoas demonstrar gratidão pelos cuidados recebidos, sentia que faltava qualquer coisa.

Esse sentimento tornou-se ainda mais evidente quando me encontrava a massajar suavemente uma pessoa com fibromialgia, uma doença em que o sistema nervoso se torna extremamente sensível ao toque. A pessoa começou a chorar com dores e percebi que, sem qualquer intenção, estava a contribuir para o sofrimento de quem me tinha vindo pedir ajuda. Naquele momento questionei, pela primeira vez, se aquilo que estava a fazer era realmente a melhor forma de ajudar alguém com dor crónica.

Seguiu-se a pandemia, que me deu algo inesperado: tempo. Tempo para estudar, ler e perceber que a dor crónica é muito mais complexa do que eu imaginava. Embora possa começar com uma lesão ou uma doença, ao longo do tempo deixa de depender apenas do que acontece nos músculos, nas articulações ou noutras estruturas do corpo. O sistema nervoso adapta-se, tornando-se mais sensível, e fatores como o sono, o stresse, as emoções ou o contexto social passam também a influenciar a forma como a dor é vivida.

Percebi que, talvez a maior consequência da dor crónica não seja aquilo que acontece no corpo, mas aquilo que acontece à vida de quem sofre com esta doença ou aquilo que a dor rouba. Rouba noites de sono, autonomia, trabalho, momentos em família, passeios, hobbies e amizades. Rouba também a confiança no próprio corpo e, muitas vezes, a identidade de quem deixa, aos poucos, de fazer aquilo que dava sentido à sua vida.

Uma condição tão complexa dificilmente pode ser tratada apenas com abordagens e tratamentos passivos. Exige a integração de diferentes profissionais de saúde e a participação ativa da própria pessoa com doença, que é quem melhor conhece a sua realidade. Foi em Inglaterra que comecei a trabalhar integrada numa equipa multidisciplinar, em que fisioterapeutas, médicos, psicólogos, terapeutas ocupacionais e outros profissionais partilhavam objetivos comuns. O foco deixou de ser apenas reduzir a dor e passou a ser ajudar cada pessoa a recuperar qualidade de vida. Em vez de perguntar apenas “Onde dói?”, começamos também a perguntar: “O que é importante para si e de que forma a dor está a afetar essa parte da sua vida?” Há quem queira voltar a brincar com os netos. Quem sonhe regressar ao trabalho. Quem queira voltar a passear o cão ou simplesmente conseguir cozinhar o jantar. É aí que a fisioterapia deixa de ser apenas sobre o corpo.

Ajudar alguém com dor crónica passa também por desenvolver estratégias para lidar com o sofrimento, identificar aquilo que continua a dar sentido à sua vida e recuperar a confiança para voltar a fazer aquilo que considera importante. Modelos como a terapia cognitivo-comportamental (CBT) ou a terapia de cceitação e compromisso (ACT) fazem hoje parte deste trabalho integrado. Em vez de tentar eliminar pensamentos ou emoções difíceis, ajudam as pessoas a desenvolver ferramentas para viver uma vida com significado, mesmo quando a dor continua presente.

Trabalhar no Reino Unido, onde tenho também oportunidade de integrar um mestrado em Gestão Clínica da Dor, ensina-me muito. Não porque o sistema seja perfeito — está longe disso — mas porque me mostrou que tratar dor crónica é cuidar da pessoa como um todo, e não apenas da sua dor. O exercício continua a ser importante, tal como a medicação ou outros tratamentos, quando são necessários. Mas a abordagem é mais ampla: trabalha-se o sono, as emoções, o ritmo das atividades do dia a dia, o medo do movimento e estratégias para que cada pessoa consiga regressar, passo a passo, àquilo que dá sentido à sua vida.

Portugal tem excelentes profissionais. O desafio não está nas competências dos profissionais de saúde, mas na forma como organizamos os cuidados para quem vive com dor crónica. Consultas demasiado curtas, pouca integração entre profissionais, acesso desigual aos cuidados, excesso de foco em exames, tratamentos passivos ou soluções rápidas e a dificuldade em oferecer programas verdadeiramente multidisciplinares continuam a limitar aquilo que conseguimos fazer. Continuamos demasiado centrados na procura de uma solução rápida para um problema que raramente é simples.

Quando comecei a trabalhar, pensava que o sucesso era fazer desaparecer a dor. Hoje acredito que o verdadeiro sucesso é ajudar alguém a voltar a viver uma vida com significado, mesmo quando a dor continua presente. Talvez essa seja uma das mudanças mais importantes que a fisioterapia moderna tem para oferecer.

Joana Rodrigues é fisioterapeuta, licenciada pela Escola Superior de Saúde do Alcoitão, tem experiência clínica dedicada à dor crónica desde 2019. Atualmente trabalha como advanced physiotherapist practitioner (fisioterapeuta especialista) no NHS, no Reino Unido. Frequenta o mestrado em Gestão Clínica da Dor na Universidade de Edimburgo e é uma das cronistas convidadas da secção Dor do Observador, dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor, respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade.