Com a fase mais crítica do verão a aproximar-se, multiplicam-se os constrangimentos nos serviços de urgência do Serviço Nacional de Saúde (SNS). A urgência de Ginecologia/Obstetrícia do Hospital de Santarém vai encerrar durante pelo menos quatro dias já a partir do próximo domingo, dia 19, por falta de médicos para assegurar as escalas. E o Observador sabe que o hospital de Santo André, em Leiria, vai admitir a entrada nas urgências apenas às grávidas que sejam encaminhadas pelo INEM durante as duas primeiras semanas de agosto, também devido a limitações nas escalas. Os constrangimentos nestas duas regiões somam-se aos que já afetam as recém-criadas urgências regionais de Ginecologia/Obstetrícia, que funcionam nos hospitais de Almada e de Loures.
A urgência de Ginecologia/Obstetrícia do Hospital de Santarém vai encerrar durante pelo menos quatro dias, a partir da meia-noite do próximo domingo e pelo menos até às 23h59 da próxima quarta-feira, dia 22, segundo a informação disponível no portal das urgências do SNS. Dado que o portal só disponibiliza informação a sete dias, ou seja até dia 22, o Observador questionou a Unidade Local de Saúde da Lezíria (ULS) sobre o período total de encerramento da urgência, mas a ULS não deu mais esclarecimentos, referindo apenas que a resposta à população é assegurada em complementaridade com hospitais vizinhos.
Os constrangimentos no serviço de urgência obstétrica de Santarém vão começar a fazer-se sentir já a partir de sexta-feira, com a urgência a receber apenas grávidas encaminhadas pelo Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) do INEM em determinados períodos.
A ULS da Lezíria admite que as dificuldades na elaboração das escalas estão relacionadas com as férias dos profissionais. “O planeamento das escalas procura garantir que exista sempre, pelo menos, uma unidade [Lezíria, Médio Tejo ou Oeste] com capacidade de resposta […] Naturalmente, em período de férias, a tarefa de articulação de dias de funcionamento pode revelar-se mais desafiante“, refere o hospital, acrescentando que a administração se “encontra empenhada no reforço dos recursos humanos médicos que permitam assegurar as escalas”.
https://observador.pt/2026/07/08/urgencias-de-almada-ja-estao-a-recusar-gravidas-governo-tinha-concentrado-servicos-para-evitar-falta-de-medicos/
A falta de médicos obstetras para assegurar a urgência do hospital de Santarém durante o verão não é um problema novo. Em setembro de 2025, por exemplo, o serviço de urgência esteve encerrado em 12 dos 30 dias do mês, segundo as escalas divulgadas à data pelo jornal regional O Mirante. Tal como agora, a ULS da Lezíria recusou revelar àquele jornal os dias previstos de encerramento da urgência.
Ao Observador, o comandante dos Bombeiros Voluntários de Santarém, Rui Carvalho, adianta que, nos períodos em que se verificam constrangimentos na urgência obstétrica do hospital da cidade, as grávidas são encaminhadas, na maior parte dos casos, para o hospital de Santa Maria, em Lisboa, a 80 quilómetros de distância, ou para os hospitais das Caldas da Rainha [que integra a ULS do Oeste] ou de Abrantes [que integra a ULS do Médio Tejo], conforme a indicação dada a cada momento pelo CODU.
O presidente da Câmara Municipal de Santarém, também em declarações ao Observador, considera “inadmissível” o encerramento da urgência obstétrica e o encaminhamento de grávidas para hospitais que ficam a várias dezenas de quilómetros de distância daquela unidade hospitalar. “Considero inadmissível. Santarém é longe para instalar o novo aeroporto mas já não é longe para enviar grávidas para hospitais a 60, 70 ou 80 quilómetros de distância”, diz o social-democrata João Teixeira Leite, acrescentando que o encerramento do serviço de urgência durante vários dias “é inconcebível”.
“É uma resposta pública ausente do essencial, sobretudo nesta área da saúde, que é uma área delicada”, sublinha o autarca. Ainda assim, João Teixeira Leite diz ter recebido a garantia, por parte da ULS da Lezíria, de que estão a ser feitos esforços para ultrapassar as dificuldades. Esforços que, realça, serão complementados com o apoio da Câmara Municipal de Santarém, que, adianta, vai disponibilizar habitação a médicos que mostrem disponibilidade para trabalhar no hospital da cidade.
Urgência de Obstetrícia de Leiria volta a estar limitada em agosto
Já a urgência de Obstetrícia do hospital de Leiria vai funcionar, “nas duas primeiras semanas do mês de agosto, em regime de referenciação pelo CODU/INEM”, adianta a Unidade Local de Saúde da Região de Leiria, referindo que os constrangimentos são causados pela “dificuldade na elaboração das escalas, que decorre do período de férias dos profissionais”.
O serviço de urgência obstétrica daquela unidade hospitalar funciona normalmente com um quadro de médicos reduzido e no limite dos rácios definidos pela Ordem dos Médicos, pelo que os períodos de férias se traduzem frequentemente em limitações na resposta. Em 2024, a urgência obstétrica do hospital de Leiria esteve encerrada durante 18 dias consecutivos, no mês de agosto, também devido à falta de médicos.
A ULS garante, ainda assim, que “esta organização foi definida em articulação com a Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS), no âmbito do plano de resposta para o período de verão, com o objetivo de garantir uma resposta assistencial segura, coordenada e adequada às necessidades das utentes”, acrescentando que será acionada a “articulação com a ULS de Coimbra”.
Nos próximos dias, estão ainda previstos os encerramentos da urgência de Ginecologia/Obstetrícia do hospital de Portalegre (esta quinta-feira) e da urgência de Ginecologia/Obstetrícia do hospital das Caldas da Rainha (esta sexta-feira).
Estes constrangimentos somam-se aos que afetaram, nos últimos dias, as urgências regionais de Obstetrícia da Península de Setúbal (cujo polo principal fica no hospital Garcia de Orta) e de Loures. A urgência regional da Península de Setúbal tem estado referenciada ao CODU durante vários períodos desde o dia 4 de julho e até esta quarta-feira, dia 15, por falta de médicos obstetras, como noticiou o Observador. No entanto, segundo o portal das urgências do SNS, não há previsão de constrangimentos nos próximos dias.
Também a urgência regional de Loures, sediada no hospital Beatriz Ângelo, não tem estado a receber grávidas em determinados períodos durante os últimos dias, devido à falta de vagas no bloco de partos, confirmou o INEM.
https://observador.pt/2026/07/14/urgencia-regional-de-loures-nao-recebe-gravidas-por-falta-de-vagas-no-bloco-de-partos-constrangimentos-em-almada-persistem/
Diretor-executivo do SNS admite dificuldades, mas desvaloriza
Já esta quarta-feira, e confrontado com as notícias de constrangimentos nas duas urgências regionais avançadas pelo Observador, o diretor-executivo do SNS admitiu dificuldades nos dois serviços de urgências, mas desvalorizou os problemas. “Historicamente, sabemos que há períodos de picos de procura que, se coincidirem com períodos em que há escassez de recursos humanos, nomeadamente médicos, geram constrangimentos nas urgências. Sempre tivemos esses constrangimentos”, afirmou Álvaro Almeida, à margem da “Conferência Global da OMS sobre IA: Moldar a IA na área da Saúde”, que está a decorrer em Lisboa.
“Esses problemas não vão acabar, porque os profissionais continuam a ter férias. Continuamos a ter uma escassez estrutural de recursos humanos e, portanto, os problemas não vão desaparecer de um dia para o outro”, avisou o responsável, citado pela agência Lusa.
Álvaro Almeida referiu que a criação das urgências regionais permitiu reduzir esses constrangimentos, “mas não necessariamente evitá-los, porque o problema de fundo, que é a escassez de recursos humanos, subsiste”. Destacou, contudo, que, desde a sua criação, as urgências regionais se mantiveram sempre em funcionamento, “contrariamente ao que se passava com as urgências dos hospitais que as compuseram, que frequentemente estavam encerradas”. O diretor-executivo do SNS reconheceu, no entanto, alguns constrangimentos nos últimos dias.
“Não significa que não possam existir pontualmente constrangimentos, como têm existido, mas aquilo que sabemos é que a criação das urgências regionais reforçou a nossa capacidade de resposta e permitiu manter sempre operacional essa resposta, quer em Almada, quer em Setúbal, quer em Loures”, vincou.