Escrevo este texto não para contar apenas a minha história. Escrevo porque acredito que ela representa a realidade silenciosa de muitos pequenos proprietários que, ao contrário da imagem frequentemente construída, não são especuladores, nem investidores, nem fundos imobiliários. São pessoas comuns que trabalharam uma vida inteira para adquirir um único imóvel e que hoje vivem a amarga sensação de que cumprir a lei, agir de boa fé e confiar nos outros se transformou numa fragilidade.
Há oito anos tomei uma decisão que julgava correta.
Uma pessoa encontrava-se numa situação difícil. Pretendia comprar o meu apartamento, mas precisava de tempo para resolver a sua vida.
Em vez de escolher a solução financeiramente mais vantajosa, escolhi a solução que me parecia moralmente correta.
Reduzi o preço de venda.
Aceitei uma renda muito inferior ao valor de mercado.
Dispensei fiadores.
Dispensei caução.
Alonguei os prazos.
Fiz tudo aquilo que hoje nenhum consultor financeiro aconselharia.
Fi-lo porque acreditava que ajudar alguém era um dever e que a confiança ainda tinha valor.
Hoje continuo proprietária dessa casa.
Mas não posso viver nela.
Enquanto isso, eu e o meu marido fomos perdendo praticamente tudo.
Fomos vítimas de uma burla financeira que destruiu o património construído durante anos.
Vivemos em quartos arrendados.
Abandonei o doutoramento por falta de dinheiro para pagar as propinas.
Vendemos as alianças de casamento.
Hoje vivemos provisoriamente em casa de uma familiar, que também já necessita da sua habitação.
Corremos o risco real de ficar sem qualquer teto.
O paradoxo é difícil de explicar.
Sou proprietária de uma casa.
Posso acabar sem casa.
Durante anos tentei resolver esta situação pela via do diálogo.
Enviei notificações.
Procurei acordos.
Esperei.
Continuei a pagar o crédito bancário, os seguros, o condomínio, os impostos e todas as despesas associadas ao imóvel que não posso utilizar.
Quando deixei de ter meios económicos para contratar um advogado, recorri ao apoio judiciário.
Foi o próprio Estado que reconheceu que não tenho recursos para suportar os custos de acesso à justiça.
É talvez uma das maiores ironias da minha vida.
Preciso de apoio do Estado para tentar recuperar a única casa que possuo.
Enquanto isso, a pessoa que ocupa o imóvel exerce funções num dos mais prestigiados escritórios de advogados do país. Naturalmente, conhece um contexto jurídico muito diferente daquele que eu conheço. Eu não tenho equipas jurídicas, nem recursos financeiros, nem experiência processual. Apenas tenho a esperança de que a justiça funcione.
Mas a esperança começa a transformar-se em desespero.
Cada semana que passa representa mais uma semana de incerteza.
Mais uma semana sem saber onde vou viver.
Mais uma semana de silêncio.
Mais uma semana de humilhação.
A maior deformação desta história não é apenas jurídica.
É moral.
A palavra “solidariedade” perdeu significado.
A palavra “confiança” perdeu significado.
A palavra “boa-fé” perdeu significado.
Até a palavra “justiça” começa a perder significado.
Vivemos num tempo em que se fala muito de direitos.
E os direitos são fundamentais.
Mas quase deixámos de falar de deveres.
De responsabilidade.
De reciprocidade.
De consciência.
Pergunto-me, muitas vezes, se faria hoje aquilo que fiz há oito anos. A resposta entristece-me.
Não.
Hoje pediria todas as garantias possíveis.
Exigiria fiadores.
Exigiria cauções.
Praticaria a renda máxima que o mercado permitisse.
Nunca mais facilitaria a vida de ninguém.
E esta conclusão assusta-me.
Porque significa que esta experiência não destruiu apenas a minha estabilidade financeira.
Destruiu também uma parte da pessoa que eu era.
Destruiu a confiança nas pessoas.
Destruiu a crença de que a honestidade compensa.
Destruiu a convicção de que fazer o bem acaba, mais cedo ou mais tarde, por encontrar justiça.
Não escrevo estas palavras movida pelo ódio.
Escrevo-as movida pelo cansaço.
Pelo medo.
E, sobretudo, pela sensação de impotência.
Não procuro privilégios.
Não peço tratamento especial.
Peço apenas que o sistema seja capaz de olhar para as pessoas concretas. Porque a vulnerabilidade não depende apenas de quem arrenda.
Também existe do lado de quem é proprietário.
Também existe do lado de quem perdeu tudo.
Também existe do lado de quem hoje vive emprestado em casa de familiares enquanto continua a pagar uma casa onde não pode entrar.
Esta não é apenas a história de um conflito entre senhorio e arrendatário. É a história de uma sociedade onde começamos a ensinar que confiar é perigoso. Onde ajudar pode transformar-se numa condenação.
Onde cumprir a palavra pode sair mais caro do que ignorá-la.
Se esta for a mensagem que o sistema transmite, estaremos perante algo muito mais grave do que um problema de habitação.
Estaremos perante a deformação da própria palavra.
E quando uma sociedade deixa de acreditar na palavra, deixa de acreditar nas pessoas. E quando deixa de acreditar nas pessoas, perde muito mais do que uma casa. Perde aquilo que a mantém verdadeiramente unida.