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Disperso, impaciente e a confiar no seu instinto. Como Trump se comporta nas secretas reuniões da Situation Room

Na Situation Room, Presidente dos EUA ouve com pouca paciência recomendações de aliados — e age mais por instinto. Trump já convidou Netanyahu para centro de comando e debateu efeitos do caso Epstein.

José Carlos Duarte
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Tem quase 500 metros quadrados. É mais do que uma sala: é uma infraestrutura num piso subterrâneo da Casa Branca. Não tem janelas e as comunicações externas são totalmente bloqueadas. Quem entra ali não pode ter telemóvel, computador ou smartwatch. Afinal, é naquele complexo que a maior parte das decisões importantes relativas à segurança nacional norte-americana são tomadas — seja o início de uma guerra no estrangeiro, seja a discussão de um tópico altamente sensível para a população dos Estados Unidos da América (EUA).

Celebrizada em filmes de Hollywood, a Situation Room é o espaço usado pelo Presidente norte-americano em funções quando precisa de um centro de comando de crises. O chefe de Estado senta-se ao centro da lateral da mesa castanha, virado para os ecrãs. À sua volta, costumam estar o vice-presidente, o Secretário de Defesa, o Conselheiro de Segurança Nacional e os líderes dos diferentes ramos dos serviços secretos. Esta terça-feira, num momento em que se intensificam os ataques contra o Irão, esta infraestrutura voltou a ser usada.

Segundo avança o jornal Axios, Donald Trump reuniu-se com o número dois JD Vance, o secretário de Estado Marco Rubio, o secretário da Defesa Pete Hegseth, o chefe do Estado-Maior Conjunto Dan Caine, o diretor da CIA John Ratcliffe, o enviado especial Steve Witkoff, entre outros. Estes homens debateram quais seriam as próximas fases da mais recente ofensiva norte-americana contra o Irão, após o colapso do memorando de entendimento — que previa um cessar-fogo.

Foi também na Situation Room que, em fevereiro deste ano, Donald Trump debateu o início da guerra com o Irão com os seus conselheiros. A decisão esteve longe de ser consensual, ainda assim: JD Vance, por exemplo, nunca escondeu a sua oposição a um conflito no Médio Oriente. Mesmo diante do ceticismo no seu círculo mais próximo, o Presidente norte-americano avançou com a Operação Fúria Épica. Sem grande paciência para ouvir explicações longas, o chefe de Estado incentivou o debate entre posições opostas na sala — mas a palavra final foi sempre dele.

John Bolton ocupou o cargo de Conselheiro de Segurança Nacional entre 2018 e 2019, período no qual esteve na Situation Room várias vezes para aconselhar Donald Trump. Numa entrevista à PBS News em 2020, o antigo aliado de Donald Trump afirmou que o Presidente norte-americano “não gosta” de estar naquela sala: “É o reflexo de que Trump acredita verdadeiramente que quantidades massivas de informação não são necessárias para tomar decisões de segurança nacional. Ele acha que pode confiar no seu instinto mais do que em informações ou em conselhos de especialistas”.

O falhanço em Cuba que levou JFK a criar um centro de comando

John F. Kennedy (JFK) foi quem teve a ideia de criar a Situation Room. Os Estados Unidos tinham falhado os seus objetivos durante a invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, em abril de 1961. A operação militar, que pretendia derrubar o regime comunista de Fidel Castro, expôs vários erros de coordenação e comunicação entre a Casa Branca, os serviços secretos e os militares. Convencido de que a presidência precisava de um centro permanente de comunicações que acompanhasse de perto eventuais crises, JFK ordenou a criação de um centro de comando, que devia ser mais do que um bunker ou uma simples sala para apresentar planos militares.

Desde o início dos anos 60, este centro de comando passou a servir todas as administrações norte-americanas. Nem todos os que por lá passaram gostavam do espaço, criticando a falta de conforto. O antigo secretário de Estado Henry Kissinger descreveu a Situation Room como “desconfortável, pouco estética e essencialmente opressiva”. Na sequência do 11 de Setembro e com o advento da internet, a infraestrutura sofreu uma profunda remodelação que elevou a sua segurança e conforto.

Em 2023, a Situation Room foi novamente alvo de uma remodelação que custou cerca de 50 milhões de dólares (cerca de 44 milhões de euros). O espaço modernizou-se, integrando grandes ecrãs e apostando em sistemas de comunicação blindados — essenciais para travar qualquer tipo de espionagem. É nesta nova versão da sala que Donald Trump se tem sentado desde que tomou posse em 2025, ainda que o Presidente norte-americano tenha simulado uma infraestrutura idêntica na sua mansão em Mar-a-Lago, na Florida. Foi daqui, aliás, que o chefe de Estado acompanhou a captura do ex-Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, a 3 de janeiro de 2026.

Normalmente, apenas assuntos sensíveis que dizem respeito à segurança nacional são tratados neste espaço. No seu primeiro mandato, em 2019, Donald Trump acompanhou atentamente a operação que resultou na morte do líder do autoproclamado Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi. Ainda em 2011, Barack Obama reuniu-se na mesma sala com membros da sua administração para assistir à operação que culminou na morte de Osama bin Laden, fundador da Al-Qaeda. A Situation Room serve não apenas para reuniões importantes, como também para vigiar a par e passo arriscadas movimentações militares.

Foi precisamente na Situation Room que, a 28 de fevereiro, quando a Operação Fúria Épica foi lançada, Donald Trump se instalou para monitorizar em tempo real os primeiros passos da ofensiva no Irão. Semanas antes, segundo avançou o New York Times, um convidado estrangeiro esteve nesta infraestrutura a conduzir um briefing sobre quais poderiam ser os objetivos por trás de uma guerra no Irão. O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, esteve na Situation Room — o primeiro líder estrangeiro a fazê-lo.

Obsessão por privacidade, a impaciência e o impulso como arma

A presença de um líder estrangeiro — mesmo que seja um aliado — na Situation Room rompe com o protocolo estabelecido pela Casa Branca. E não foi apenas Benjamin Netanyahu a integrar essa reunião: o diretor da Mossad, David Barnea, também fez parte do encontro, segundo o New York Times. Donald Trump deu luz verde para a sua presença, demonstrando que o Presidente norte-americano não hesita em quebrar regras protocolares, mesmo quando está no centro de comando mais vigiado do planeta.

Muitos antigos conselheiros descrevem que o Presidente norte-americano prefere agir de forma espontânea e sem ligar aos protocolos, incluindo na Situation Room. Apesar de muitas vezes haver um tópico específico para ser discutido, Donald Trump normalmente muda de assunto frequentemente sem aviso. “Não conseguíamos mantê-lo concentrado nas discussões sobre os assuntos em questão. Podíamos estar a falar sobre o Irão e acabávamos por falar sobre África, o Afeganistão, a Venezuela, a Rússia, a China, Israel e por aí fora”, relatou John Bolton.

"Não conseguíamos mantê-lo concentrado nas discussões sobre os assuntos em questão. Podíamos estar a falar sobre o Irão e acabávamos por falar sobre África, o Afeganistão, a Venezuela, a Rússia, a China, Israel e por aí fora."
John Bolton, antigo conselheiro de Segurança Nacional

“Houve momentos em que, num caso específico, Gina Haspel o interrompeu enquanto falava. Não posso dizer o que a [ex-]diretora da CIA [no primeiro mandato de Donald Trump] disse, mas sei que todos à mesa ficaram muito felizes com a interrupção, porque pelo menos fez-nos voltar a focarmo-nos”, lembrou John Bolton. Mesmo na Situation Room — onde estão a ser discutidos assuntos de elevada importância — Donald Trump prefere ser ele a comandar as discussões e a assumir o protagonismo.

Uma “obsessão” do Presidente norte-americano é com a privacidade. O antigo conselheiro de Segurança Interna dos Estados Unidos, Tom Bossert, contou que Donald Trump odiava que informações confidenciais vazassem para a imprensa. No entanto, o mesmo ex-responsável (que entrou em rota de colisão com o ex-chefe de Estado) indicou que uma vez “o apanhou” a falar com jornalistas sobre as conclusões de uma reunião na Situation Room. “Ele faz isto, porque assume que todos são como ele. A sua paranoia explica-se porque ele assume que toda a gente faz o que ele faz.”

Durante as reuniões na Situation Room, Donald Trump não mostra muita paciência para receber informações detalhadas, sejam táticas militares muito elaboradas, sejam os possíveis impactos geopolíticos que pode acarretar uma guerra. Segundo o relato de vários antigos funcionários da Casa Branca, o Presidente norte-americano não é uma pessoa com muita disponibilidade para ouvir longas sessões e prefere incentivar o debate daqueles que estão presentes na sala.

https://www.youtube.com/watch?v=z8ADI9bQ9iw#:~:text=H.R.%20McMaster%20served%20as%20Donald%20Trump’s%20National,a%20lasting%20peace%20or%20end%20in%20disaster%3F

Numa entrevista ao jornal Times, o antigo conselheiro de Segurança Nacional H. R. McMaster (o antecessor de John Bolton) sublinhou que quem participava nas reuniões na Situation Room já conhecia a personalidade de Donald Trump — e adaptava as reuniões ao seu estilo. “Trump acredita realmente na [ideia] da America First. Ele quer saber porquê é que nós [os Estados Unidos] nos devíamos preocupar com esses assuntos. Que custo pode acarretar para o país?”

A partir desses pressupostos, enquanto era conselheiro no primeiro mandato, H. R. McMaster tentava apresentar as informações de uma forma que “fosse consistente com a maneira como ele as recebe”. “Ele não é um homem paciente”, lembrou o ex-responsável da Casa Branca. Assim sendo, o importante era apostar em pouca informação que ressoasse de certa forma com o líder norte-americano — ou com o que tinha lido nas notícias ou visto na televisão.

Por sua vez, John Bolton considera que Donald Trump prefere tomar decisões centralizadas consoante o que está a pensar naquele momento. Na Situation Room, ele “achava que havia demasiadas pessoas”. O ex-responsável comparou as conversas que manteve com antigo Presidente norte-americano na Sala Oval. “Eram menos estruturadas”, mas o Presidente “sentia-se mais confortável” — e era mais fácil de o convencer a agir de forma mais racional.

"O meu instinto diz-me mais do que o cérebro de qualquer pessoa pode dizer."
Donald Trump

No entanto, mesmo num centro de comando altamente avançado e com as melhores informações possíveis para tomar decisões ponderadas, Donald Trump parece ignorar muitos dos conselhos que ouve. Para o chefe de Estado, a sua intuição é uma ferramenta mais valiosa do que os conselhos dos especialistas. Numa entrevista ao Washington Post, o Presidente já admitiu que o seu “instinto” lhe diz “mais do que o cérebro de qualquer pessoa pode dizer”.

A reunião com Netanyahu e os avisos da administração: as reuniões antes de Trump iniciar a guerra no Irão

No livro escrito pelos jornalistas do New York Times Jonathan Swan e Maggie Haberman Regime Change: Inside the Imperial Presidency of Donald Trump, os dois repórteres que seguem a Casa Branca relatam as diferentes reuniões que Donald Trump manteve na Situation Room antes da guerra no Irão. A 11 de fevereiro, o líder norte-americano reuniu-se com Benjamin Netanyahu, que nunca escondeu a profunda animosidade que sente pelo regime iraniano.

Na Situation Room, o primeiro-ministro israelita realizou um briefing de uma hora para Donald Trump e outros membros da administração (à exceção de JD Vance, que estava de visita ao Azerbaijão), transmitindo-lhes a mensagem de que o regime iraniano poderia ser derrubado com facilidade, estando a ponto de cair após os violentos protestos que ocorreram em janeiro de 2026. Um dia depois, num encontro apenas com líderes norte-americanos, debateu-se a possibilidade de a República Islâmica cair. O diretor da CIA disse que esse cenário era “absurdo” e duvidou da versão de Benjamin Netanyahu. Marco Rubio foi mais direto e disse que era “um monte de treta”.

Contudo, Donald Trump parecia cada vez mais convencido de que teria atacar o Irão. Mesmo que tenha dito que a mudança de regime teria de ser um assunto com que Israel teria de lidar, o Presidente norte-americano aparentava estar interessado na ideia de matar o ayatollah Ali Khamenei e outros líderes da República Islâmica, assim como na perspetiva de dizimar o poderio militar iraniano.

No meio disto tudo, na Situation Room, o chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos tentava colocar água na fervura nos planos de Donald Trump. Dan Caine alertava para a possível falta de munições e para a possibilidade de o Irão bloquear o Estreito de Ormuz. Como escrevem Jonathan Swan e Maggie Haberman, o Presidente norte-americano parecia ignorar os potenciais problemas e estava somente interessado “naquilo que queria ouvir” — e aquilo que confirmava o seu instinto de que deveria atacar o Irão.

Face ao primeiro mandato, H. R. McMaster notou uma mudança na forma como Donald Trump se comporta. “Ele parece mais bombástico e menos sério”, observou. Antes do início da ofensiva do Irão, o antigo conselheiro de Segurança Nacional “tem a certeza” de que a “primeira coisa” que o chefe de Estado Maior das Forças Armadas lhe dissera era que o Estreito de Ormuz seria fechado. O Presidente norte-americano terá subvalorizado essa informação.

A 26 de fevereiro, o líder norte-americano organizou a derradeira reunião na Situation Room. Todos os presentes já tinham partilhado a sua posição. A equipa de comunicação liderada por Steve Cheung e JD Vance recordou-lhe que seria uma traição à base eleitoral, porque quebraria a promessa de Trump de que não começaria nenhuma guerra enquanto estivesse na Casa Branca. Marco Rubio foi ambíguo: não concordava com uma guerra para derrubar o regime iraniano, mas era a favor de uma ofensiva que destruísse as capacidades militares iranianas. A chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, mantinha várias dúvidas e lembrava as implicações que uma guerra poderia ter no desempenho do Partido Republicano nas eleições intercalares. O único que defendia uma operação militar mais ampla era Pete Hegseth, o secretário da Defesa.

Apesar de todos os problemas que apontavam alguns membros da sua administração, os instintos de Donald Trump de que o Irão nunca poderia desenvolver uma arma nuclear e que não poderia atacar o Médio Oriente vingaram. O plano foi avante: o impulso de Donald Trump concretizou-se.

Situation Room como centro para resolver caso Epstein?

No mesmo livro de Jonathan Swan e Maggie Haberman,, os jornalistas exploram que a Situation Room se transformou num centro de comando para tentar conter as polémicas associadas à divulgação dos ficheiros do caso Epstein. O possível envolvimento de Donald Trump na rede sexual montada por Jeffrey Epstein, assim como as críticas dos apoiantes do movimento Make America Great Again (MAGA) em redor deste tópico, fizeram soar os alarmes na administração norte-americana.

Por iniciativa de Susie Wiles, durante o verão de 2025 foram organizadas reuniões na Situation Room para lidar com todas as consequências que o escândalo poderia acarretar para a administração norte-americana. Juntamente com Donald Trump, o diretor do FBI Kash Patel, a então procuradora-geral Pam Bondi, o chefe de comunicação da Casa Branca Steven Cheung, vários advogados e o vice-presidente reuniram-se para debater como seria a resposta a esta crise.

JD Vance admitiu que se tratava de um “grande problema”. Durante o encontro na Situation Room, debateu-se a possibilidade de conceder um indulto presidencial a Ghislaine Maxwell, a ex-namorada e cúmplice de Jeffrey Epstein na rede sexual que envolvia menores. Condenada a 20 anos de prisão, a mulher poderia testemunhar no Congresso e contar uma versão que salvasse a pele a Donald Trump. Contudo, a proposta foi rejeitada — Steve Cheung advertiu que causaria um “problema de relações públicas” ainda maior.

O assunto não era de segurança nacional: era simplesmente uma crise de reputação do Presidente norte-americano. Em entrevista à CBS News, Jonathan Swan destacou que a Situation Room se “transformou no centro de respostas à crise Epstein”. “Vários dirigentes de topo no Governo norte-americanos juntaram-se para tentar encontrar uma estratégia para lidar com a crise Epstein”, prosseguiu o jornalista do New York Times, acrescentando que foram “encontrados muitas detalhes que eram embaraçosos para Trump”.

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Historicamente, um assunto do foro pessoal de um chefe de Estado nunca motivou uma sucessão de reuniões na Situation Room. Porém, o Presidente norte-americano veio alterar a dinâmica daquele centro de comando inaugurado por John F. Kennedy. Mesmo que o espaço continue a ser usado antes e durante importantes operações militares, Donald Trump não tem problemas em quebrar o protocolo. No fundo, o seu instinto é o que verdadeiramente importa.

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