(c) 2023 am|dev

(A) :: Lavar o pão e rapar as batatas

Lavar o pão e rapar as batatas

Memórias de um tempo que o interior não pode deixar cair no esquecimento.

Nuno Pires
text

Ao longo da vida são inúmeras as vezes em que regressamos ao passado através da memória, quase sempre em função do presente. Fazemo-lo espontaneamente, comparando aquilo que hoje somos e vivemos com o que guardamos na lembrança de outros tempos. Esse exercício de memória, por vezes nostálgico e outras vezes reflexivo, ajuda-nos a compreender melhor o caminho percorrido e as mudanças que moldaram a sociedade.
Podemos ler muito, estudar ainda mais e ouvir relatos de quem viveu outras épocas. Contudo, nada se compara à experiência vivida. Aquilo que sentimos e experimentamos na própria pele tem sempre uma autenticidade que nenhum livro consegue reproduzir por inteiro. É essa memória vivida que permite estabelecer comparações mais honestas entre o presente e o passado.
Se os tempos atuais são, de forma geral, conhecidos e sentidos por todos, cada um à sua maneira, dentro do seu ambiente social e dos valores que o rodeiam, já o passado recente do interior rural permanece desconhecido para grande parte da população, sobretudo para quem cresceu nas grandes cidades. Recordá-lo pode, por isso, servir não apenas como exercício de memória, mas também como forma de partilhar um modo de vida que marcou gerações inteiras.
Falo de um tempo em que a vida nas aldeias do interior profundo decorria num ritmo muito diferente do atual. As comunicações eram escassas, quase inexistentes, e o desenvolvimento chegava lentamente, passo a passo, ao ritmo paciente de um caracol. Só depois da Revolução de Abril de 1974 o interior começou verdadeiramente a despertar. Aos poucos, as estradas melhoraram, a informação passou a circular com mais facilidade e os horizontes rurais começaram a alargar-se.
Recordo, por isso, com particular nitidez, a década de sessenta do século passado, quando eu próprio vivia os meus anos de infância, uma infância que, no mundo rural, rapidamente se confundia com responsabilidade. Não éramos propriamente meninos no sentido despreocupado da palavra. O trabalho infantil não era encarado como crime ou exploração; era antes parte natural da aprendizagem da vida, sobretudo entre os mais pobres.
E pobres, diga-se, éramos quase todos no interior rural. Pobres em bens materiais, mas não pobres de espírito, nem de convivência, nem de vida comunitária. Havia solidariedade, entreajuda e uma forte ligação à terra e às pessoas. Vivíamos, é certo, pouco informados sobre o que se passava no resto do país e no mundo, mas profundamente ligados ao pequeno universo que nos rodeava.
Curiosamente, muitos daqueles que hoje ocupam cargos importantes, ou que já os ocuparam, também nasceram nesses mesmos ambientes humildes. Alguns percorrem hoje os corredores do poder com naturalidade, como se esse passado tivesse ficado distante ou esquecido.
Apesar das limitações, à nossa maneira éramos livres. Vivíamos intensamente o espaço natural da aldeia e aprendíamos com as próprias experiências. Aprendíamos a nadar sozinhos na ribeira, sem professores nem piscinas, apenas com a curiosidade da infância. Bebíamos água diretamente da corrente, de bruços sobre as pedras, num tempo em que a poluição era inexistente. A água era tão límpida que se via claramente o fundo da ribeira, o seu leito de pedras claras iluminadas pelo sol.
Mas a vida no campo era dura, muito dura. Em certas épocas, a comida escasseava em muitas casas.
As crianças também participavam nas tarefas do dia a dia. Muitas vezes descalças, ajudávamos no que fosse preciso: levar as vacas, os burros ou os machos para os lameiros ao nascer do dia, guardar o meloal, fazer bancelhas para atar os molhos do cereal ou regar a horta.
Entre as muitas recordações desse tempo permanece viva a imagem de duas tarefas muito particulares: rapar as batatas novas e guardar o pão novo.
Antes mesmo de começarem as grandes segadas, alguns lavradores segavam um carro de cereal sobretudo centeio, que amadurecia mais cedo, para o levar à malhadeira, quase sempre movida por motores “Lister” ou “WM”. O objetivo era simples: começar a comer do pão novo, porque o velho já tinha acabado. Por vezes, na tulha já não restava um único grão.
Depois da pequena malha, de um simples carro de bois carregado de molhos atados à mão, conseguiam-se apenas três ou quatro sacos de grão. Esse cereal era então levado para a ribeira e cuidadosamente lavado na água corrente. Depois espalhava-se ao sol, sobre erva curta, utilizando velhos lençóis de linho ou mantas de farrapos, tecidos pela tecedeira da aldeia no compasso ritmado do seu tear.
Recordo-me bem de a minha mãe me confiar a tarefa de guardar aquele grão enquanto secava. Era preciso vigiar para que galinhas, pássaros ou outros animais famintos não viessem roubar aquela preciosa colheita.
Depois de seco, o cereal era guardado em sacos de linho caseiro. O moleiro aparecia então com o seu jumento, carregava o grão e levava-o até ao moinho. Dias depois regressava com a farinha, que daria origem ao pão cozido no forno a lenha da família.
Também as batatas passavam por uma fase de “experimentação” antes da colheita definitiva. Mesmo antes de estarem totalmente curadas, a necessidade obrigava a arrancar algumas para o consumo diário. Como descascá-las significava desperdício, optava-se por lhes rapar apenas a pele fina. Assim surgia o gesto de rapar as batatas, grandes ou pequenas, conforme aparecessem, mas sempre saborosas.
Tudo isto fazia parte de um quotidiano simples e duro, numa sociedade onde o atraso era evidente e onde a sobrevivência dependia muitas vezes do esforço coletivo.
É verdade que o país mudou. Muito mudou. O progresso chegou a muitos lugares e a vida transformou-se profundamente. No entanto, também é verdade que o interior continua, em muitos casos, a sentir o peso do abandono. Muitos daqueles que aqui vivem persistem em manter viva uma terra que parece, por vezes, esquecida.
Mesmo alguns que aqui nasceram e cresceram, mas que, entretanto, seguiram outros caminhos, parecem esquecer facilmente aqueles que lhes deram confiança através do voto.
Recordar o tempo de “lavar o pão e rapar as batatas” não é apenas um exercício de nostalgia. É, também, um lembrete da resiliência de um povo e da dignidade de quem construiu o país com trabalho silencioso.
Talvez, por isso, seja importante que aqueles que hoje têm responsabilidades na administração do território nacional não se esqueçam das gentes do interior. Para além das promessas de campanha, seria desejável uma reflexão séria sobre o futuro destas regiões.
Porque valorizar o interior não é apenas uma questão de desenvolvimento económico. É também uma questão de justiça territorial e, acima de tudo, de respeito por quem continua a cuidar da terra onde sempre viveu.