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Alma Maior: quando uma Nação decide ser apenas uma equipa 

Vivemos numa sociedade que, tantas vezes, insiste em catalogar pessoas, criar  categorias e sublinhar aquilo que nos distingue. O desporto português escolhe fazer  precisamente o contrário. 

Ricardo Afeiteira Marques
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Há momentos na vida de um país que passam despercebidos no instante em que  acontecem, mas que, anos mais tarde, são reconhecidos como verdadeiros pontos  de viragem.

Suspeito que Los Angeles 2028 será um desses momentos.

Não apenas pelos resultados que Portugal venha a alcançar, pelas medalhas que  possa conquistar ou pelos recordes que os nossos atletas possam estabelecer.

Mas porque, pela primeira vez, Portugal apresentará ao mundo uma única  identidade: “Equipa Portugal”.

Poderíamos olhar para esta decisão como uma simples opção de comunicação  institucional. Seria um erro.

Os símbolos nunca são apenas símbolos. Traduzem sempre uma forma de pensar,  uma visão do país e uma ideia de futuro.

Durante décadas aceitámos, quase sem questionar, que existissem duas  representações nacionais. Dois momentos de celebração. Duas narrativas. Duas  formas de comunicar o mesmo orgulho.

Na verdade, nunca existiram duas formas de representar Portugal.

Existiram sempre homens e mulheres que, através do talento, da disciplina, da  coragem e do trabalho, carregaram ao peito a mesma bandeira.

A única diferença estava no olhar de quem observava.

Talvez por isso esta decisão tenha um significado que ultrapassa largamente o  universo desportivo.

Ela obriga-nos a refletir sobre a própria ideia de comunidade nacional. O que faz uma equipa?

Será a modalidade que pratica?

Será a competição em que participa?

Será a condição física dos seus atletas?

Ou será, simplesmente, o compromisso coletivo de representar um país? A resposta parece evidente.

Uma equipa não nasce da uniformidade.

Nasce da identidade.

As grandes equipas nunca foram constituídas por pessoas iguais. Foram sempre  construídas sobre pessoas diferentes que partilhavam um propósito comum.

É exatamente isso que Portugal decide afirmar ao criar uma única Equipa Portugal. Não existem duas formas de servir o país.

Não existem duas formas de honrar a bandeira.

Não existem duas categorias de representação nacional.

Existe apenas Portugal.

Durante muitos anos, o desporto paralímpico foi frequentemente apresentado  através de uma narrativa que privilegiava a diferença antes da excelência.  Contavam-se histórias de superação, importantes, sem dúvida, mas esquecia-se,  demasiadas vezes, aquilo que verdadeiramente distingue um atleta de alto  rendimento: a competência, a preparação, o rigor, a capacidade competitiva e a  busca incessante da vitória.

Sem nos apercebermos, fomos criando uma distinção subtil.

Admirávamos uns pelo desempenho.

Admirávamos outros pela adversidade.

Mas o alto rendimento nunca pediu compaixão.

Pediu respeito.

E o respeito conquista-se reconhecendo que todos os atletas vivem a mesma  exigência, enfrentam a mesma pressão e perseguem exatamente o mesmo sonho.

Representar Portugal.

É precisamente aqui que a Equipa Portugal ganha a sua verdadeira dimensão. Ela não elimina diferenças.

Elimina barreiras.

Não uniformiza percursos.

Une propósitos.

Não apaga identidades.

Constrói pertença.

Vivemos numa sociedade que, tantas vezes, insiste em catalogar pessoas, criar  categorias e sublinhar aquilo que nos distingue. O desporto português escolhe fazer  precisamente o contrário.

Escolhe começar fatores que nos une.

E essa talvez seja a sua maior lição.

Porque uma Nação não se mede apenas pela sua riqueza, pelo crescimento  económico ou pelos indicadores sociais.

Mede-se também pela forma como olha para aqueles que a representam.

Um país amadurece quando deixa de perguntar por que motivo um atleta compete  numa determinada prova e passa apenas a reconhecer que compete por Portugal.

Essa mudança de perspetiva parece subtil.

Na realidade, transforma tudo.

Transforma a forma como comunicamos.

Transforma a forma como educamos.

Transforma a forma como as crianças olham para os seus ídolos. Transforma a forma como os patrocinadores investem.

Transforma, sobretudo, a cultura desportiva de um país.

Naturalmente, esta visão não dispensa aquilo que continua a ser essencial. Os  atletas precisam de melhores condições de preparação, estabilidade financeira,  investimento continuado na ciência do desporto, treinadores qualificados,  estruturas de apoio e políticas públicas consistentes.

Nenhuma marca resolve esses desafios.

Mas também é verdade que nenhuma política produz resultados duradouros se não  for acompanhada por uma cultura que lhe dê sentido.

É por isso que Los Angeles 2028 representa muito mais do que uma edição dos  Jogos.

Representa uma oportunidade para Portugal afirmar uma nova forma de entender  o mérito.

Uma forma de entender que a excelência não precisa de adjetivos. É apenas excelência.

O lema escolhido para este ciclo é “Alma Maior”.

Não poderia existir expressão mais feliz.

Porque uma alma maior não é aquela que olha para alguns.

É aquela que consegue abraçar todos.

Não é a que cria distinções.

É a que constrói pertença.

Não é a que celebra diferenças para as transformar em barreiras.

É a que reconhece que o talento, o esforço, a disciplina e a dedicação não  conhecem limitações.

Que “Alma Maior” seja, por isso, muito mais do que um slogan.

Que represente a capacidade do desporto português de unir sem apagar  identidades, de incluir sem paternalismos, de inspirar através da excelência e de  elevar o nome de Portugal no mundo.

Dentro de dois anos, quando a bandeira nacional entrar em Los Angeles, o mundo  verá atletas.

Os portugueses deverão ver algo muito maior.

Deverão ver uma Nação que decidiu apresentar-se como sempre foi. Uma só.

Uma só bandeira.

Uma só ambição.

Uma só equipa.

Porque, quando chega o momento de representar Portugal, nunca existiram duas  formas de o fazer.

Existiu sempre uma única “Alma Maior”.