Suspenda por um momento a imagem de Alain Delon e Romy Schneider, belos como dois demónios incarnados, na atmosfera de pecado iminente do filme de Jacques Deray. Ou a de Ludivine Sagnier e Charlotte Rampling, se for de memória mais recente. As águas em que vamos mergulhar são mais rasas. Menos (suspiro)… cinematográficas.
Comecemos por lembrar o tempo em que um primeiro-ministro pôs o melhor amigo a representar o Estado na nacionalização de uma companhia aérea, sem que ocupasse qualquer cargo institucional, sem ter sido eleito para isso, seleccionado ao menos pela CRESAP, oficialmente designado para o lugar (que não existia), sem que pudesse portanto ser responsabilizado, questionado, demitido, coisa nenhuma. Curiosamente, esse mesmo primeiro-ministro acabaria depois os seus dias enquanto tal dizendo que “um primeiro-ministro não tem amigos”, referindo-se, imagine-se, ao mesmíssimo amigalhaço que agora tinha aparecido a intervir em suposto nome dele nuns negócios ali para os lados da Costa Vicentina. Como evoluímos desde então. Neste curto espaço de quê? Dois loucos anos e meio?, repugna agora à consciência nacional que um ministro, ex-polícia, se diga amigo dum empreiteiro. Ainda por cima, um empreiteiro que nem é dos grandes. Um tipo lá de cima, que ninguém percebe muito bem como é que veio fazer obras abaixo do Douro.
Repare: ambos agiram mal ao confundir amizades pessoais com trabalho e, ainda por cima, com funções públicas; o que os distingue é uma questão de nível. Vamos imaginar que, num negócio, estavam em causa, por exemplo, uns 55 milhões de euros e, mais tarde, mais 3200 milhões de todos nós; e, noutro, 5 mil euros do ministro. Uma pessoa nem sabe o que são 55 ou 3200 milhões de euros. É outra esfera, outro campeonato, é o Ronaldo, o Musk, as Arábias – um indivíduo só sonha com aquilo e bate palmas. Agora, 5 mil? Se me puser em bicos de pés, ainda chego lá. A partir dum certo nível, as coisas tornam-se inatingíveis para o comum mortal e, portanto, admiráveis; abaixo, o contribuinte sente que também estão ao alcance dele, de maneira que logo conclui, em forma de pergunta retórica: mas quem é que o fulano pensa que é para se achar mais que os outros?
Ora, e é aqui, caro leitor, estimada leitora, que podemos passar ao fato de banho. Alongue essas costas. Balance esses braços. Vamos para a piscina.
O ministro sabia quando andou a rodear a questão. “Ah, foram só três paredes e uma casita de banho. Pronto, e um tanque.” Toda a gente percebeu na hora. Então, o homem mandou fazer um tanque num turismo rural? Em 2026? Para quê? Para os turistas terem a experiência vintage de lavar a roupa como antigamente? O toque holístico de beberem água ao lado do cavalo? Claro que o que ele tinha mandado o amigo empreiteiro fazer era – diga em tom malévolo, prolongando muito os “is”: uma piiiisciiiina, e logo apareceram as inevitáveis imagens a prová-lo. Mas quem sabe em rigor o que distingue o estatuto ontológico de um e outra? É uma caixa de betão com água! Um aquário sem peixes! Uma banheira de exterior!
Mas claro que todos sabemos – e o pudor do ministro mostra isso mesmo: ele sabia que, a partir do momento, em que se percebesse o que mandara realmente fazer, caía em desgraça. Em Portugal, pode-se ser pequeno e pode-se ser grande; não se pode é ser apanhado a tentar passar de uma coisa a outra. A diferença entre um tanque e uma piscina, num país pequenino que abre a boca de espanto com os negócios de milhares de milhões, mas não tolera o sucesso do vizinho, é a linha que separa o fracasso do sucesso, a pobreza virtuosa do luxo pecaminoso. É a pirâmide moderna, a Versailles em pastilha e deck de madeira, o Porsche amarelo do Futre em 87; a lagoa dos novos Palma Bravo. Por um lado, Shangri-la sonhado, eldorado; por outro, a opulência, obscenidade, o andar-cheio-dele.
Vejam as fotos das férias nas vossas redes. Não há primo em terceiro grau, antigo colega da quarta classe, ex-namorada da viagem de finalistas que não vá esfregar na cara do mundo ao menos uma foto a boiar numa piscina, preferencialmente agarrados a um flamingo insuflável. Seja deles, na casa de família, do amigo, no hotel ou nalgum turismo rural de um ex-ministro, o que importa é chegar lá, atirar aquele mergulho como quem alcançou o cimo da montanha, interrompeu o mundo, se danou para tudo. A piscina é a monarquia absoluta em forma líquida, o subsídio de férias materializado, o céu em dose expresso. Só o mar poderia ser melhor, mas tem o problema de ter muita gente. Bom, bom, era uma ilha privada, mas, lá está, isso é para semideuses como o Ronaldo ou o Musk; nós, aquilo a que podemos um dia deitar a unha é a um pequeno lago artificial nas traseiras. Uma imitação de mar só para nós, onde fazer o que quisermos, especialmente nada, senão limitarmo-nos a ficar ali a existir, a torrar ao sol e, de vez em quando, refrescar, beber uma mini ou um sumo de pacote. Com gelo. Sonho. E a coluna Bluetooth. Sonho. Chateiem agora a ver se eu oiço. Venham lá com as horas extraordinárias e os KPIs e a falta de água. Em setembro, logo te atendo.
Como é que o ministro sai desta, não faço ideia; se há mais histórias para descobrir no fundo do tanque, ainda menos. Mas, ao dia de hoje, as conclusões que podemos tirar são estas: um, em Portugal, até um ex-director nacional da PJ precisa de fazer uns dinheiros à parte para compor a reforma; dois, nem um ministro consegue que um empreiteiro lhe vá lá fazer uma obra de três meses em menos de dois anos.
Portanto, filhos, é relaxar. E não olhar muito para o pântano.