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O que a crise da água em Almada ensina sobre experiência dos cidadãos

Um novo jardim pode encantar. Uma app municipal pode facilitar. Mas tudo isto se torna irrelevante quando falha uma expectativa básica. Antes de encantar, é preciso cumprir.

André Carvalho
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Há serviços que só notamos quando falham. A água é o exemplo perfeito. Abrimos a torneira sem pensar no sistema que torna esse gesto possível. Não agradecemos à rede, aos reservatórios, às equipas técnicas nem à manutenção. Não pensamos na complexidade logística nem no custo de tudo isto. Simplesmente esperamos que funcione.

Quando a água falha, deixa de ser invisível. Passa a dominar a rotina, a conversa pública e a confiança nas instituições. Foi o que aconteceu em Almada, com falhas de abastecimento, cortes e restrições a afetarem seriamente a vida de muita gente.

Convém dizer o que este texto não é. Não é uma avaliação da gestão camarária nem um comentário político. A crise de Almada é multifatorial, junta um verão de consumos recorde, uma rede envelhecida, perdas elevadas e dependências antigas entre municípios, e a sua gestão é genuinamente complexa. Interessa-me outra coisa: o que este caso ilustra sobre a experiência das pessoas com os serviços de que dependem.

No mundo empresarial, falamos muito da experiência do cliente. As empresas perceberam, muitas vezes à força, que não é relativa a imagem, simpatia ou design. É a forma como uma pessoa vive cada ponto de contacto com uma marca: o produto, o preço, o atendimento, a entrega, a fatura, a app, a loja, a reclamação.

E aprenderam outra coisa: nem todos os elementos de uma experiência têm o mesmo peso. É aqui que entra o modelo Kano.

Criado por Noriaki Kano, este modelo distingue tipos de expectativas. Há funcionalidades básicas, de desempenho e atrativas. De forma simples: há coisas que têm de existir mesmo que não gerem satisfação visível, coisas que quanto melhor feitas mais satisfação geram, e coisas inesperadas que surpreendem positivamente. Num banco, aceder ao dinheiro e fazer pagamentos é básico. A qualidade da app, a rapidez a aprovar um crédito ou a facilidade em resolver um problema são fatores de desempenho. Uma recomendação financeira útil e não solicitada pode encantar.

Kano acrescenta um detalhe decisivo e quase sempre esquecido: estas categorias movem-se no tempo. O que ontem encantava, hoje é esperado e amanhã é básico. O WiFi grátis já foi um mimo de hotel; hoje, a sua ausência é motivo de queixa. As expectativas só sobem. E é precisamente por isso que o básico é tão traiçoeiro de gerir: torna-se invisível quando funciona, as pessoas habituam-se, e o investimento em mantê-lo raramente gera aplauso.

Na gestão de serviços públicos, a lógica é a mesma. Só muda o contexto. Ter água em casa é uma expectativa básica, como a recolha do lixo, o saneamento, a iluminação, a segurança ou transportes previsíveis. Não geram entusiasmo quando funcionam. Mas quando falham, geram indignação imediata.

Esta assimetria é o ponto. Um novo jardim pode encantar. Uma app municipal pode facilitar. Uma ciclovia bem desenhada melhora a vida. Mas tudo isto se torna irrelevante quando falha uma expectativa básica. Antes de encantar, é preciso cumprir.

E o básico tem duas particularidades que o tornam difícil de gerir. A primeira é de incentivos: a infraestrutura que funciona é, por natureza, discreta, e cumprir raramente dá votos ou manchetes. Só o que falha se torna visível. A segunda é que o básico não depende apenas de quem fornece o serviço, depende também de como todos o usamos. Quando a procura dispara acima daquilo para que o sistema foi desenhado, o essencial estala mesmo com boa gestão. Cuidar do básico é, em parte, gerir expectativas e comportamentos, e não só ativos.

E é aqui que este caso deixa de ser sobre Almada e passa a ser sobre qualquer organização. A mesma armadilha existe dentro das empresas. Investimos no que brilha, um rebrand, uma nova app, um assistente de IA, enquanto os básicos da experiência vão apodrecendo em silêncio: a fatura que vem errada, o login que falha, o email de apoio que fica sem resposta, a entrega que atrasa sem aviso. Nada disto encanta ninguém quando corre bem. Tudo isto destrói confiança quando corre mal. E, tal como em Almada, a conta chega sempre, só que mais tarde, sob a forma de clientes que saem sem dizer porquê.

A pergunta que deixo a qualquer decisor é simples: quais são as torneiras da sua organização? Aqueles serviços tão básicos que ninguém os nota, até ao dia em que secam. Sabe quais são, sabe em que estado estão, e está a investir neles antes de falharem, ou só depois?

Na gestão, como na vida pública, o básico não encanta. Mas quando falha, destrói. E a confiança, essa, também não volta à torneira no dia seguinte.