O XVII Congresso do LIVRE fez uma coisa importante: retirou ao partido uma ambiguidade. O LIVRE já não quer apenas influenciar políticas, puxar o debate para a esquerda ou aumentar a sua representação. Quer governar. Para quem está fora, esta proclamação pode ser lida como um sinal de confiança. Para quem está dentro, deve ser recebida sobretudo como uma obrigação. Dizer que se quer governar é fácil; construir um partido capaz de o fazer é difícil; governar bem é ainda mais difícil.
A distância entre estes três momentos não é retórica. É organizacional. Um partido pode ter boas ideias, crescer eleitoralmente e chegar relativamente depressa a posições de poder sem ter construído as pessoas, as equipas e os processos necessários para as exercer. Pode conquistar lugares antes de saber como os preencher e receber responsabilidades antes de ter aprendido a distribuí-las. A chegada ao poder não corrige estas fragilidades. Expõe-nas.
É por isso que a capacidade governativa não começa num programa eleitoral nem se adquire depois de uma vitória. Constrói-se muito antes, na forma como o partido trabalha. Uma organização prepara-se para governar quando sabe transformar participação em experiência, experiência em responsabilidade e responsabilidade em capacidade coletiva. Isso exige conhecer o trabalho que é realizado, perceber quem demonstra aptidões, criar oportunidades para as desenvolver e garantir que o conhecimento adquirido não desaparece sempre que mudam os órgãos, os candidatos ou os eleitos.
O LIVRE ainda escolhe muitas pessoas como se os seus membros continuassem todos na mesma sala. O modelo fazia sentido numa organização pequena, em que o conhecimento pessoal e a experiência partilhada permitiam avaliar razoavelmente quem se apresentava a uma responsabilidade. A abertura das candidaturas e a eleição direta não eram apenas formalmente democráticas: apoiavam-se numa comunidade em que grande parte das pessoas conhecia o trabalho das restantes.
Com milhares de membros e apoiantes, essa comunidade já não existe da mesma forma. A regra pode ser a mesma, mas as condições que lhe davam sentido mudaram. Continuamos a pedir a um universo muito alargado que escolha diretamente entre pessoas sobre cujo trabalho não dispõe de informação institucional suficiente. A democracia mantém-se aberta na forma, mas começa a assentar numa ficção informacional: a de que o direito de votar vem acompanhado do conhecimento necessário para escolher.
A eleição da Assembleia, órgão máximo do partido entre congressos, tornou esta tensão particularmente visível. Centenas de eleitores foram chamados a comparar um número elevado de candidaturas individuais, reunidas num documento com mais de duzentas páginas. O problema não está em saber se votaram bem ou mal. Está em perceber que o partido não consegue assegurar uma base comum de informação para essas escolhas. O processo formal apresentou candidatos; não produziu conhecimento sobre o trabalho político que cada um realizou.
Esse vazio não fica vazio. Quando a organização não medeia o reconhecimento, ele passa a ser produzido por relações pessoais, encontros nacionais, proximidade territorial, exposição pública, redes sociais e circuitos informais. Isto não é uma falha moral de quem participa. É aquilo que acontece em qualquer organização quando os mecanismos formais deixam de acompanhar a sua dimensão. A questão não é a existência de mediação — ela é inevitável —, mas o facto de ocorrer fora de regras transparentes e sem ligação clara entre trabalho, reconhecimento e responsabilidade.
A horizontalidade, nessas circunstâncias, pode tornar-se apenas uma descrição estatutária. O poder não desaparece por não ser formalizado. Passa para quem é mais conhecido, está presente nos espaços certos ou circula nas redes com maior capacidade de produzir confiança. Um sistema pode ser muito aberto no momento da candidatura e bastante fechado no processo real através do qual algumas pessoas se tornam reconhecíveis e outras permanecem invisíveis.
Este problema ganha outra gravidade quando o partido afirma querer investir na formação. Quadros políticos não se produzem acrescentando seminários a um calendário. Produzem-se ligando aprendizagem a trabalho concreto, trabalho a responsabilidades crescentes, responsabilidades a avaliação e avaliação a futuras escolhas. Sem esta sequência, a formação pode aumentar o conhecimento individual, mas não cria capacidade organizacional.
A contradição é simples: como pode um partido preparar os seus futuros candidatos e responsáveis se o processo pelo qual essas pessoas são escolhidas está desligado do processo pelo qual foram preparadas? O LIVRE pode formar pessoas que nunca serão chamadas a assumir responsabilidades e escolher pessoas cujo percurso nunca foi orientado para as funções que passam a exercer. Nesse modelo, a coincidência entre preparação, notoriedade e seleção ocupa o lugar que deveria pertencer à organização.
Não se trata de criar uma carreira partidária, entregar a escolha das pessoas a uma direção ou reduzir a participação dos membros. Trata-se de deixar de fingir que todas as funções podem ser selecionadas pelo mesmo método e que a abertura formal basta para garantir democracia substantiva. Uma eleição não se torna plenamente democrática apenas porque todos podem votar; depende também da informação disponível, da possibilidade de atribuir responsabilidades e da capacidade de tornar visível o poder informal.
É por isso que a revisão estatutária não poderá ser um exercício de manutenção jurídica. Os Estatutos codificam uma determinada ideia de partido: quem decide, quem seleciona, como se reconhece o trabalho, que papel cabe às estruturas locais e temáticas e como se controla o poder. Se o LIVRE mudou de escala e decidiu mudar de função, passando de partido de influência a partido com ambição de governo, dificilmente poderá conservar intacta uma arquitetura construída para outro momento.
Também aqui não basta proclamar a mudança. É possível rever os Estatutos e deixar o essencial na mesma. Podem criar-se mais órgãos, mais procedimentos e mais burocracia sem aproximar a formação da seleção, sem tornar o trabalho visível e sem construir equipas capazes de aprender em conjunto. A direção da mudança importa tanto como a mudança em si. Uma má revisão pode institucionalizar precisamente os circuitos informais que deveria substituir.
O LIVRE terá, por isso, de responder a uma pergunta que é anterior a qualquer solução concreta: que organização precisa de construir para governar bem? A resposta terá de relacionar aquilo que hoje aparece separado — participação, trabalho, formação, reconhecimento, escolha e prestação de contas — e aceitar que os mecanismos adequados à fase fundacional podem não ser suficientes para a fase seguinte.
O maior risco não é o LIVRE nunca chegar ao poder. É chegar. Um partido pode viver durante anos com uma distância considerável entre aquilo que proclama e aquilo que é capaz de fazer. O Governo transforma essa distância em resultados públicos, em erros concretos e em responsabilidade eleitoral. Depois de afirmar que quer governar, o LIVRE já não precisa de repetir a ambição. Precisa de transformar a organização para a tornar verdadeira. Sem essa transformação, estará condenado a falhar antes de chegar ao poder ou, de forma mais grave, depois de lá chegar.