Os tijolos vermelhos chamam a atenção numa zona com construções modernas. Carregam uma história centenária, assistiram à transformação do bairro e sofreram com a degradação causada pelo tempo. “Pedi apenas que não caísse o prédio em cima, porque estava muito mal”, recorda Ricardo Marques, sobre a primeira vez que entrou no edifício. “Estava totalmente devoluto. Todas as entradas estavam tapadas com tijolo”, conta o médico-dentista, que lembra de ter encontrado muito entulho no andar de baixo, e no mezanino alguns documentos antigos de uma empresa de construção que ocupou o espaço entre os anos 1980 e 1990. O prédio foi construído em 1897 e funcionou até 1960 como a antiga fábrica de cerâmica de Montargila. Depois, outros negócios funcionaram no edifício, que ficou vazio a partir de 2005. Em 2009 foi classificado como Património Industrial do município de Oeiras, e em 2015 foi a leilão — quando Ricardo Marques viu ali uma oportunidade. Mas as histórias do médico-dentista e do prédio já haviam se cruzado no passado.

Hoje os tijolos vermelhos servem de moldura para um painel gigantesco de Joana Vasconcelos; ou para uma escultura em homenagem à identidade portuguesa feita por Bordalo II, ou para as obras de Siza Vieira e Mestre Cargaleiro. Mas no final do século XIX e início do XX, aqui funcionava uma das principais fábricas de tijolos, azulejos e telhas da região — e também o lar de artistas ao seu tempo. Atribuem-se ao azulejista José Estevão Cacella de Victoria os painéis que decoram o interior do Picadeiro da Cordoaria de Rio Frio ou a Estação Ferroviária de Óbidos. Na altura, a fábrica não ocupava apenas este edifício: o complexo incluía os fornos onde hoje estão os parques de estacionamento, a pedreira de onde se extraía a argila, que atualmente está ocupada por edifícios residencias, e pelo menos uma vila operária, onde viveram as famílias que ali trabalhavam. E que serviu de casa também para os avós de Ricardo Marques.




Do lado de fora lê-se, na placa original sobre a porteira que agora é uma janela, a palavra “direção”. É aqui que o médico-dentista instalou o seu gabinete, e onde recebe o Observador, entre uma consulta e outra. “Costumo dizer que a história da minha família começou aqui”, começa por contar. “As histórias que acostumei a ouvir enquanto criança foram acerca deste edifício”, recorda, ao falar sobre os avós, que vieram de uma pequena aldeia da Beira Baixa para trabalhar na fábrica no auge do seu funcionamento. “O meu avô tinha, muitas vezes, que ficar acordado a noite toda, porque os fornos necessitavam sempre de estar quentes para que pudessem cozer o barro. Portanto, a minha avó aquecia a comida precisamente na parte exterior do forno. E no fundo, as reuniões de família eram assim, à volta do forno, de cerâmica e sem televisão”, conta.
As histórias acompanharam-no enquanto crescia, sempre a cruzar com a casa da antiga fábrica pelo caminho. “Muito embora este edifício sempre tenha feito parte da minha infância, porque eu sempre ouvi histórias, o meu pai brincava aqui, os meus avós estavam aqui, nunca fiz qualquer tipo de demarcha de modo a poder adquirir a casa. Nunca fez parte da minha ideia”, assume. Até que em 2015 o prédio foi a leilão — numa altura em que o próprio estava à procura de um novo espaço para ampliar a sua clínica dentária. “A sorte é quando a oportunidade encontra um homem que está preparado. E acho que foi isso que aconteceu. No fundo, foi um acaso da vida.”
Edifício classificado mas sem benefícios do Estado
Quando a antiga fábrica foi a leilão, Ricardo Marques apresentou uma licitação sem sequer entrar no prédio. “Foi um valor muito engraçado porque acabei por licitar por 321.008 euros. Oito, que é o meu número da sorte. E basicamente consegui comprar este edifício por 1.008 euros a mais do que a segunda maior licitação. Se eu tivesse posto 1.008 euros ou 1.010 euros a menos, talvez hoje não estaríamos aqui”, assinala. Gastou 3,6 milhões de euros nas obras de remodelação e quase nove anos entre a aquisição do prédio e a inauguração da Le Art Clinic. Pelo caminho, algumas dores de cabeça. “Foi a primeira vez que me envolvi numa obra de reabilitação deste tamanho. E não sei se gostava de repetir”, brinca.


Um dos grandes desafios do projeto desenvolvido pelo atelier Pais Ministro & Partners (e que venceu o European Property Awards 2025/2026 nas categorias Melhor Reabilitação de edifício Comercial eMelhor Arquitetura para edifício de uso Público), foi “começar-se a fazer a obra de restauração sem que as paredes começassem a cair ao mesmo tempo”, assume Ricardo Marques. Isso porque o edifício é original — incluindo as suas fundações — o que tornou o trabalho de engenharia ainda mais complicado. Se no interior foi preciso reforçar as estruturas e criar um ambiente amplo para receber os equipamentos médicos modernos previstos para a clínica, no exterior era preciso encontrar tijolos equivalentes que pudessem substituir os danificados, e manter as características da fachada original, exigências que vêm implícitas ao adquirir um prédio classificado (e que significaram também os atrasos intrínsecos ao ir e vir de um projeto que precisa corresponder às autorizações da Câmara Municipal).
É neste ponto que a conversa com o médico-dentista muda um pouco o tom. A voz calma e por norma feliz dá lugar a um discurso mais crítico e ponderado. Ricardo Marques queixa-se, por exemplo, de ter pago 23% de IVA para a recuperação, reconhecendo que o código do IVA garante a taxa reduzida de 6% desde que a empreitada de reabilitação esteja inserida numa área de reabilitação urbana para a qual exista uma operação de reabilitação urbana (ORU) aprovada pela autarquia, o que não é o caso da antiga fábrica de cerâmica. O médico-dentista afirma ainda ter tido acesso a “zero” benefícios fiscais ou auxílios do Estado, tendo financiado todos os custos da recuperação do edifício classificado através de meios privados.
“Portugal é um país com oito séculos e realmente existem muitos edifícios como este, até património nacional e de interesse público, que estão abandonados, que o Estado não tem como recuperar, e não precisam de ficar no erário público ou fazer parte do espólio do Estado. Acho que devia ser realmente dada oportunidade a quem pode fazer a recuperação, mesmo que seja para o uso privado”, assinala, considerando que a própria empresa atua como um mecenas para o espaço. “Como este edifício pode não pertencer à história do país, mas pertence a esta comunidade, há muitas pessoas com quem eu ainda hoje cruzo e que falam: ‘Ah, eu sei que fez aquilo lá, muito obrigado porque realmente foram vários anos a passar aqui, a ver um prédio tão bonito, a degradar-se’. Mas é pena realmente o Estado, o nosso Governo, não permitir que haja mais episódios destes em que pessoas singulares ou até mesmo em sociedades comerciais possam tomar conta de edifícios que são de interesse público, como proprietários, e que possam dar o uso que entenderem”, defende.




Uma galeria com Joana Vasconcelos, Siza Vieira e Vhils, e um restaurante de fine dining
Quando a reabilitação ficou pronta, em 2024, Ricardo Marques transferiu a sua clínica de Miraflofes para a casa de tijolos vermelhos e batizou-a Le Art Clinic. E é aqui que entra a terceira componente deste projeto: a arte. Foi Joana Vasconcelos a primeira a ser abordada pelo médico-dentista. “Era um grande fã. Fui ter com ela ao atelier já estávamos quase na pandemia“, conta, assumindo que não a conhecia anteriormente nem tinha contactos que os pudessem ligar — apesar das fotografias nas paredes ilustrarem as boas relações que foi criando ao longo da carreira. “Comecei por lançar um repto à Joana. ‘Este é o meu projeto, a fábrica diz-me muito em termos familiares, gostava de fazer algo para a comunidade. Joana, o que é que achas?’ E tive a facilidade e a felicidade de ter outra pessoa da comunidade a ouvir-me. A Joana viveu praticamente a vida toda aqui em Linda-a-Velha e, portanto, é uma pessoa da terra e compreendeu perfeitamente“, recorda, afirmando ter encontrado na artista portuguesa também uma amiga.
O gigantesco painel em azulejo assinado por Joana Vasconcelos que ocupa a altura total do edifício do lado de fora não deixa o nome da clínica sem explicação — e não foi feito sem algum esforço para aprovar as alterações à fachada, assume Ricardo Marques. “Digo que foi a âncora do nosso projeto, porque a partir daí foi mais fácil quando abordei outros artistas e convidei-os para se juntarem“, assume. “Tive a felicidade de conhecer pessoas maravilhosas, algumas que já cá não estão, como o Mestre Cargaleiro. Estive alguns minutos com ele e aquelas conversas fizeram-me lembrar muito o meu avô”, conta o médico-dentista. “Bordalo II, uma pessoa muito irreverente, tem uma presença na comunicação social muito marcada, mas que eu tenho outro tipo de experiência porque o conheço para além do trabalho, conheço a pessoa. Álvaro Siza Vieira, o maior arquiteto português de sempre, a quem eu enviei um simples e-mail e no dia seguinte estava a me responder: ‘Sim, tenho muito gosto em participar no projeto’, e na semana seguinte eu já estava no Porto a falar com ele. Pessoas gigantes com uma humildade que impressiona”, elogia, afirmando que “não pediu nada” aos artistas, apenas que criassem “com o coração”.
Não é preciso entrar para ver do que Ricardo Marques fala. Além do painel de Joana Vasconcelos, em azulejos Viúva Lamego que se iluminam à noite; é mais fácil observar a escultura do Galo Monumental de Bordalo II, feita com materiais de reaproveitamento, a partir do passeio no outro lado da rua. Jà à entrada, o painel do ceramista Manuel Cargaleiro, que morreu em 2024 e faria 100 anos este ano; enquanto nos fundos está outro, um pouco menor, assinado por Álvaro Siza Vieira. Mas quem quiser explorar o interior da clínica também pode, garante-nos o médico dentista, que diz que a política é de “ter as portas abertas”. Lá dentro o público pode ver o painel de azulejos de ADD FUEL na receção, ou a parede criada por Vhils para homenagear os avós do médico-dentista — e em breve uma nova obra, prevista para o segundo piso, e que para já permanece em segredo.
Mas a verdade é que por entre obras de nomes conhecidos internacionalmente, há também peças que fazem parte da coleção privada do médico-dentista, como é o caso de uma armadura japonesa completa que decora a escadaria ou os itens de mobiliário antigo que compõe a receção. “Há muitos anos atrás, quando eu comprei a minha primeira casa, a primeira coisa que eu comprei foi um quadro. Não foi uma obra de arte, mas foi um quadro. Lembro-me perfeitamente de chegar ao apartamento vazio e ter ali o quadro encostado à parede e não ter mais nada, mas eu estava feliz”, recorda Ricardo Marques, que diz que escolheu uma releitura de um artista gráfico do quadro As Meninas, de Velázquez. O interesse do médico-dentista pela arte foi crescendo ao mesmo tempo em que a carreira profissional evoluía. “Não sinto a necessidade de ser um colecionador de possessão. As minhas obras de arte de um valor um pouco mais considerável, acabo por tê-las aqui. Não as tenho em casa fechadas, para mim. Estão aqui, partilhadas, para que toda a gente possa desfrutar delas. Também isso explica um pouco este edifício: quisemos fazer a renovação e devolvê-lo um pouco à comunidade.”

Do plano também fez parte uma espécie de festival de música nos jardins da clínica, no qual já se apresentaram artistas como Carminho e Tony Carreira. A próxima aventura, revela-nos, será a restauração. A sala onde hoje está a obra de Vhils, e que do lado de fora lê-se no letreiro original “refeitório”, vai dar lugar a um novo fine dining. “Estou muito convencido que este convite que vamos fazer à comunidade e aos nossos pacientes e clientes, para se juntarem e virem desfrutar das obras de arte e sentar à nossa mesa, é uma quadratura do ciclo que acaba por se completar.”
O vídeo promocional já roda num ecrã na sala, que agora serve como uma espécie de galeria. A proposta intimista, que prevê até 20 lugares e uma experiência omakase — um conceito japonês em que o chef cozinha em frente ao cliente, sem um menu fixo, mas seguindo as reações do seu público — poderá abrir no início de 2027. Para já Ricardo Marques revela pouco, apenas que já tem um chef: um brasileiro que trabalha atualmente em dois restaurantes com estrela Michelin. Sobre entrar num meio tão competitivo sem experiência no ramo, o médico-dentista mantém o discurso seguro de quem não dá passo maior que a perna. “Nunca achei que um insucesso fosse uma penalização, mas apenas uma forma de ter aprendido algo”, começa por justificar. “Apesar de não ter grande experiência, estou rodeado de algumas pessoas super capazes. Gosto de estar rodeado de pessoas jovens, mas com espírito maduro. Este projeto já começou, posso dizer, há mais de dois anos. Quando a equipa começar a trabalhar, ela já tem mais de dois anos de experiência. Nada é feito em cima do joelho, nada é feito ao acaso.”
No início da conversa, Ricardo Marques justifica a paixão pela arte como uma extensão daquilo que sempre viveu em casa. “Quando somos crianças, gostamos sempre de fazer gracinhas para os adultos. E no meu caso em especial, gostava de fazer uma gracinha para que o meu avô dissesse: ‘Oh, rapaz, és um artista’. E aquilo ficou-me.” Passada quase uma década desde que assumiu o desafio de recuperar o prédio que fez parte da história da comunidade e da própria família, reconhece com os olhos levemente marejados o que lhe diriam os avós: a frase que ouviu por tantas vezes na infância, e que ainda hoje aos 50 anos ecoa na sua memória. “És um artista”.













