Era muito mais do que uma meia-final de um Campeonato do Mundo. Em Atlanta, Inglaterra e Argentina disputavam história, décadas de ressentimento e uma vontade de vingança — por motivos muito diferentes, mas por motivos que juntavam os dois países na diferença. Esta quarta-feira, não importava só vencer e chegar à final. Importava vencer, chegar à final e derrotar um verdadeiro némesis, algo que até levou a cidade norte-americana a pedir e executar um reforço policial para evitar problemas entre os adeptos.
Do lado de Inglaterra, a má memória era fácil de explicar: 22 de junho de 1986, no Estádio Azteca da Cidade do México, quando Diego Armando Maradona fez um golo com uma mão tocada por Deus e outro em que ele próprio encarnou esse Deus para marcar o tornar um dos melhores do século. Há 40 anos, os ingleses caíram nos quartos de final do Campeonato do Mundo contra uma Argentina que acabaria por levantar o troféu — e aquela injustiça, a injustiça da bola desviada pela mão na cara de Peter Shilton, alimentava a vontade de fazer diferente.
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“É uma grande rivalidade”, reconheceu Thomas Tuchel na antevisão da partida. “São duas grandes nações do futebol, toda a gente que gosta de futebol sabe disso. Estamos à espera de um jogo intenso, de um jogo emocional. Espero um jogo com muitas mudanças de ascendente, algo contrário iria surpreender-me. Não usamos a história entre os dois países como gasolina, sabemos o porquê de estarmos aqui, sabemos o que queremos. Nunca tivemos medo de esperar isso de nós mesmos, de o dizer, de sonhar com isso. Respeitamos o nosso adversário, mas não mergulhamos em eventos históricos e não os tornamos maiores do que são”, acrescentou o selecionador inglês.
Do lado da Argentina, a má memória era mais geopolítica. Apesar de ser uma espécie de nota de rodapé na centenária história de Inglaterra, a Guerra das Malvinas é uma ferida aberta na América do Sul. Os argentinos nunca perdoaram a perda das Falkland Islands e de centenas de vidas às mãos dos britânicos na sequência do conflito nos anos 80, com Margaret Thatcher como principal protagonista, e cantam isso mesmo na canção que tem sido dita e repetida entre os adeptos desde o início do Mundial 2026: “Por Malvinas, por el Diego, por la última de Leo, Argentina quiero verte bicampeón”.
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Lionel Scaloni, porém, queria separar as águas. “É um jogo de futebol. Não posso misturar as coisas, especialmente por respeito ao que aconteceu há tantos anos. Foi um período muito triste da nossa história e não há muito que possamos fazer a esse respeito, essa é a realidade. E é um jogo de futebol, é só isso. Misturar as duas coisas seria uma loucura. Lembramos aquelas pessoas, sem dúvida, mas isto é um jogo de futebol e não devemos confundir os tempos em que vivemos”, disse o selecionador argentino. Ainda assim, por coincidência ou não, os argentinos pediram para jogar com o equipamento alternativo, azul escuro, muito parecido com o daquele dia na Cidade do México em 1986 e também da vitória contra os ingleses nos oitavos de final do Mundial de 1998.
Rivalidade histórica à parte, Inglaterra tinha a possibilidade de chegar à segunda final de um Campeonato do Mundo da história — precisamente 60 anos depois de conquistar o troféu, em casa, contra a RFA. Thomas Tuchel lançava Morgan Rogers e não Madueke ou Bukayo Saka, com Djed Spence e Reece James nas laterais. Já a Argentina podia carimbar a segunda final de Campeonato do Mundo consecutiva, a sétima em termos absolutos, e sonhar com o bicampeonato e o quarto troféu do palmarés. Lionel Scaloni surpreendia e deixava Lautaro e Rodrigo De Paul no banco, apostando em Giuliano Simeone e Julián Álvarez no apoio e Lionel Messi. À espera, já no sofá e depois de ter eliminado França na outra meia-final, estava Espanha.
A primeira parte não teve golos, não teve qualquer oportunidade clara de golo e teve raras situações de perigo — mas teve muitos duelos, muitas faltas e muitos confrontos, ficando clara a ideia de que os argentinos tudo iriam fazer para irritar e provocar os ingleses, que procuravam responder na mesma moeda. John Stones teve o primeiro lance mais relevante com um cabeceamento ao lado depois de um livre na esquerda (33′) e Enzo Fernández ficou perto de marcar com um remate de fora de área que passou por cima (38′), mas o jogo chegou mesmo ao intervalo ainda empatado sem golos. Nenhuma das equipas teve um verdadeiro ascendente, com Inglaterra a ter mais bola e maior presença no meio-campo contrário e a Argentina a procurar o jogo que queria, de transições e saídas rápidas para explorar a profundidade.
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Nenhum dos treinadores fez alterações ao intervalo e Julián Álvarez poderia ter inaugurado o marcador logo nos instantes iniciais, obrigando Jordan Pickford a uma defesa apertada com um remate cruzado na área (47′). Os argentinos pareciam ter regressado bem melhor do balneário e estavam entusiasmados, mas os ingleses só precisaram de um lance para fazer a diferença: na insistência depois de um corte de Tagliafico e com Harry Kane a mexer-se de forma brilhante para soltar marcações, Morgan Rogers recebeu na direita e encontrou Anthony Gordon ao segundo poste, que só precisou de encostar para abrir o marcador (55′).
A Argentina roubou a bola depois do golo e inseriu-se por completo no meio-campo contrário, enquanto que Inglaterra estava tranquila com a ideia de esperar pela oportunidade para soltar o contra-ataque. Lionel Scaloni fez a primeira substituição nesta fase, trocando Leandro Paredes por Nico González, e Pickford foi crucial ao evitar o empate do avançado recém-entrado com uma enorme defesa a um cabeceamento na área (69′).
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Tuchel tirou Gordon para blindar a defesa com uma linha de cinco e Ezri Konsa, enquanto que Scaloni pôs Montiel, Otamendi e Rodrigo De Paul de uma vez. Mac Allister acertou no poste de cabeça (76′) e os argentinos iam carregando cada vez mais, com os ingleses a abdicarem de atacar ou tentar ter mais bola para se preocuparem exclusivamente com a defesa. Enzo Fernández voltou a rematar por cima, rematou para Pickford defender e, à quarta tentativa, não falhou: canto curto na direita, Messi deixou à entrada da grande área e o médio do Chelsea, em jeito, conseguiu empatar (85′). Pouco depois, já nos descontos e quando todos pensavam no prolongamento, Lautaro apareceu sozinho na área a cabecear para um cruzamento de Messi e carimbou a reviravolta (90+2′).
A Argentina venceu Inglaterra em Atlanta e está novamente na final do Campeonato do Mundo, marcando encontro com Espanha no próximo domingo. Mais do que uma vitória dos argentinos, que nunca baixaram os braços e acreditaram sempre que ainda podiam inverter o resultado, foi uma derrota de Thomas Tuchel — que optou por retirar toda a equipa do campo, colocou todos os defesas que tinha à disposição e abdicou de jogar futebol depois de se ver em vantagem.
A estrela
- Se é certo que Lionel Messi assinou as duas assistências decisivas e voltou a ser o espírito imortal de uma equipa que nunca desiste, esta foi a noite de Enzo Fernández. O médio do Chelsea foi o principal inconformado dos argentinos durante a primeira parte, chegando a ficar perto do golo com um remate que passou por cima, e ainda tentou outras duas vezes no segundo tempo antes de finalmente conseguir bater Jordan Pickford para empatar. A 8, a 6, a 10 ou em qualquer outro sítio, Enzo continua a mostrar que o menino que explodiu no Qatar é agora um homem a brilhar nos EUA.
O joker
- Perdeu, mas fez tudo o que podia para não perder. Tido tantas vezes como o patinho feio de uma seleção inteira, por jogar no Everton ou até por nem sempre corresponder às expectativas e exigências de Europeus e Mundiais, Jordan Pickford voltou a mostrar o porquê de ser o titular da baliza de uma equipa que chegou às meias-finais de um Mundial e que leva duas finais consecutivas em Europeus. Fez várias defesas cruciais na segunda parte, a cabeceamentos e remates, e acabou traído pela eficácia de Enzo Fernández e Lautaro e a ideia de que nem sempre se defende melhor por se defender com muitos.
A sentença
- A Argentina vai disputar a segunda final consecutiva de um Campeonato do Mundo, podendo sagrar-se bicampeã mundial se vencer Espanha no próximo domingo. Em termos globais, os argentinos chegaram agora à sétima final de um Mundial e vão agora desempatar um registo que está completamente igualado: perderam três, em 1930, 1990 e 2014, e ganharam outras três, em 1978, 1986 e 2022.
A mentira
- Thomas Tuchel, afinal, não era a única coisa que faltava a Inglaterra para conquistar um Campeonato do Mundo. Numa meia-final de alta exigência em que os ingleses até marcaram primeiro e estiveram por cima praticamente durante toda a primeira parte, o treinador alemão conseguiu esvaziar a equipa depois do golo de Anthony Gordon, retirando avançados e médios para colocar centrais e laterais, e não conseguiu resistir à insistência da Argentina. No fim, sai por culpa própria — individual e não coletiva.
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