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(A) :: Quem era Gianni e como foi construído Infantino: o perfil do todo poderoso advogado suíço que controla o futebol mundial

Quem era Gianni e como foi construído Infantino: o perfil do todo poderoso advogado suíço que controla o futebol mundial

Aos 18 anos ganhou as eleições no FC Brig-Gils prometendo que a mãe faria a lavandaria de borla, aos 56 anos tornou-se um dos homens mais influentes do futebol. Mas como é que tudo isto aconteceu?

Bruno Roseiro
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Nasceu como característica, cresceu como tique, tornou-se uma obsessão: tem de controlar tudo para saber como controlar todos. Foi por isso que aquela grelha, que tem tudo controlado ao segundo, saiu do controlo. Decorria o 76.º Congresso da FIFA, na cidade canadiana de Vancouver, quando Gianni Infantino quis calçar os sapatos de Donald Trump, o homem a quem dera quatro meses antes o Prémio da Paz FIFA em forma de Nobel para os pseudo-concorrentes vencidos. Arriscou o número com todos os holofotes em cima de si, ficou de mão pendurada como um trapezista que tem o seu circo, quer ser protagonista principal mas salta para o vazio sem nada para se agarrar. Aconteceu em abril mas, mesmo sendo uma exceção à regra, é o espelho real de quem é, no que se transformou e onde quer chegar o homem mais poderoso do futebol mundial.

Basim Sheikh Suliman, vice-presidente da Federação de Futebol de Israel, ficou de olhar meio perdido no palco. Jibril Rajoub, líder da Federação de Futebol da Palestina, agiu com a coragem de ambos para dizer que nunca iria  cumprimentar quem causara tanto sofrimento ao seu povo. A leitura era óbvia – a beatificação futebolística de Infantino ao longo de uma década só chega a milagres que se possam comprar. Aqui, não era o caso. Ao longo de 110 longos segundos, Rajoub foi explicando tim-tim-por-tim-tim as razões pelas quais nunca iria entrar no número que estava a ser montado. Infantino sorria, dava um passo atrás, agarrava as mãos do representante palestiniano, sussurrava algumas palavras, voltava a sorrir (não com aquela expressão de quem ganhou, que vai exibindo nas tribunas dos estádios norte-americanos no Mundial, mas com ar quase de resignação pelo falhanço). Não deu a parte fraca – e lá remediou dentro do possível o incidente.

“Por favor, deixem-me dizer uma coisa”, atirou já no palanque, com Rajoub a olhar de frente e Suliman meio de lado, na mesma posição onde tinha sido deixado por Infantino depois de discursar. “Deixe-me agradecer aos representantes de Israel e da Palestina, que têm os mesmos direitos, os mesmos deveres e as mesmas obrigações enquanto membros da FIFA. Presidente Rajoub, vice-presidente Suliman, vamos trabalhar em conjunto, vamos trabalhar para dar esperança às crianças. Vamos trabalhar juntos para isso. Temos um torneio Sub-15 lindo a chegar, onde vamos convidar os 211 países para marcarem presença. Todas as crianças do mundo, vamos fazer isso. Por favor, têm o meu compromisso, vamos trabalhar juntos…”, prosseguiu, com a sala a começar uma ovação enquanto Jibril Rajoub já estava a voltar de novo à carga. Shukran jazilan [Muito obrigado]”, rematou, antes de nova investida para um aperto de mãos que voltou a não aparecer. Ainda assim, foi cumprimentado por Rajoub, foi cumprimentado por Suliman, voltou para a cadeira com o tal sorriso que exibe nas tribunas dos estádios norte-americanos durante o Mundial. “Problema” resolvido.

Essa é uma das virtudes do atual presidente da FIFA – destacar-se quando ganha, dar a volta quando perde como se fosse uma vitória. Derrotas, para ele, não existem. Há crises que se transformam em oportunidades, há contratempos que fazem acelerar outras coisas, há problemas que apenas servem para chegar às melhores soluções. Derrotas, não existem. E conhecer Gianni ajuda a perceber como foi construído Infantino, o líder que emergiu como “milagreiro” para dar uma segunda vida ao órgão que tutela o futebol mundial em 2016 entre casos de corrupção, acusações de branqueamento, lavagem de dinheiro e uma imagem arrasada.

Hoje, o suíço decide como, onde e quando interromper sessões de encerramento de Congressos FIFA, virando ao contrário programas pensados ao detalhe, mas chega a todo o lado. Aliás, faz questão de mostrar que está em todo o lado – essa é uma das obrigações da realização televisiva das partidas deste Mundial, passando a imagem do líder na tribuna a acompanhar o jogo pelo menos uma vez. Com outra regra: nesse momento, não pode estar a mexer no telemóvel. Entre o jeito para as letras, a cabeça está quase formatada em células Excel de números entre um estilo que lidera por regras que são leis. Entre essa forma de ser, o desafio passa por perceber como alguém com pouco jeito para a bola desde pequeno se tornou o dono da bola aos 56 anos.

O miúdo ruivo que lia a Kicker e a Gazzetta, torcia pelo Inter mas não tinha jeito para a bola

Giovanni Vincenzo Infantino, o mais novo de três irmãos (sobre os quais há pouca ou nenhuma informação por vontade da família), nasceu em Briga, na região suíça de Valais, mas tem muito de italiano na maneira de ser – ou não fossem os pais transalpinos. Vincenzo Infantino, o pai, originário da zona de Reggio Calabria, trabalhava na companhia de caminhos de ferro, mais em específico nas carruagens-cama e nos comboios noturnos. A mãe, Maria Minolfi, que nasceu e foi criada na parte este da Lombardia (Val Camonica), tinha um quiosque que vendia jornais, revistas e tabaco num estação de comboios. Uma das marcas que ficou em Gianni foi o sentimento de discriminação que os italianos que viviam em terras helvéticas sentiam, numa marca que lhe foi toldando também a forma de olhar para a vida. A metamorfose dessa questão, numa perspetiva conjuntural ou estrutural, chegou através do futebol, o troço que desde cedo escolheu para subir na vida e tornar-se num autêntico TGV no mundo da bola. Para isso, recuemos então ao ano de 1982.

Infantino foi um dos milhões de miúdos que ficaram fascinados com a figura do Naranjito, uma das primeiras mascotes mais mediáticas da competição. No entanto, esse seria apenas o início de toda a história. Sem que nada ou ninguém pudesse prever, a Itália, que começou essa fase final de 1982 com três empates diante de Polónia, Peru e Camarões, conseguiu ser mais forte do que aquela que ficou como a melhor equipa de sempre do Brasil com um hat-trick de Paolo Rossi, “vingou-se” da Polónia com mais dois golos do avançado que era então da Juventus e sagrou-se campeã mundial batendo a RFA por claros 3-1. “Essa vitória permitiu que pudéssemos crescer. Para mim, pessoalmente, acho que esse Campeonato do Mundo de 1982, em Espanha, foi o momento em que entrou em mim o vírus do futebol, que se tornou parte da minha vida e do meu corpo”, admitiu num discurso que teve em 2021. Com uma curiosidade: Alessandro Altobelli, um dos seus grandes ídolos, marcou o golo que fechou as contas numa equipa que só não tinha aquela que era a sua maior referência, o médio ofensivo Evaristo Beccalossi (ou Beck, ou Becca, ou simplesmente… Il Genio).

"Essa vitória permitiu que pudéssemos crescer. Para mim, pessoalmente, acho que esse Campeonato do Mundo de 1982, em Espanha, foi o momento em que entrou em mim o vírus do futebol, que se tornou parte da minha vida e do meu corpo."
Gianni Infantino, num discurso em 2021

Uma reportagem da The New Yorker resume esse momento para toda a geração de suíços descendentes de transalpinos como Infantino como “uma sensação de riscatto – redenção e libertação”, ao mesmo tempo que ia recordando a forma como o líder da FIFA mais vezes se descreve: “uma personalidade que combina toda a criatividade italiana com a precisão suíça”. Nesse mesmo dia em que a squadra azzurri conquistou a terceira de quatro estrelas, que continua sem exibir porque não consegue chegar a uma fase final desde 2014, toda a família passou a fronteira de Briga (muito perto do local de nascimento do antecessor, Joseph Blatter) para Domodossola e, perante o facto de todas as bandeiras trasalpinas estarem esgotadas, a mãe comprou pedaços de pano vermelhos, brancos e verdes para juntá-los e improvisar um adereço alegórico dessa vitória.

Piccolo, como também era tratado, nunca foi alguém talhado para o desporto, apesar das recomendações para que fizesse mais desporto na sequência das complicações de saúde que obrigaram a que precisasse de uma transfusão de sangue quando era mais novo (em 2016, quando assumiu a FIFA, contou que o sangue que lhe salvou a vida chegou de dois doadores, um da cidade inglesa de Bristol e outro da então capital da Jugoslávia, Sarajevo). Gostava, ao invés, de ler, de saber, de procurar mais informação. Desde miúdo que se começou a habituar a ler a revista alemã Kicker e o jornal italiano Gazzetta dello Sport, que vinham do quiosque que era gerido pela mãe, numa extensão para aquela que seria uma das principais “armas” ao longo da carreira: a facilidade para falar várias línguas. Com o tempo, iria tornar-se fluente em italiano, francês, alemão, inglês, espanhol e português, falando também árabe por razões familiares (casaria com uma libanesa).

Foi também nessa altura que começou a ir ao futebol e ao estádio do “seu” clube: o Giuseppe Meazza (ou San Siro), do Inter. Quase todos os primeiros ídolos que teve eram do conjunto de Milão, no final da década de 70 e no início dos anos 80, e o pai era também adepto ferrenho dos nerazzurri. Até pelo sangue italiano que corria na família, e apesar das condições humildes em que viviam, Vincenzo fazia questão de levar o seu filho Gianni ao futebol sempre que conseguia, até para manter essa ligação que a distância de “casa” poderia arrefecer. No entanto, também ele, à sua maneira, tentou ser como Altobelli e Beccalossi. Faltava o jeito. Faltava mesmo muito mais jeito. Perdeu-se um jogador, ganhou-se um dirigente. Ali, na UEFA, até ao topo.

Foi no modesto FC Brig-Gils que morreu um sonho e começou outro – e tudo até aos 18. “Era muito fácil de aprender com ele. Vinha para casa da escola e a primeira coisa que abria era logo a Gazzetta dello Sport, para ver os resultados dos jogos, as próximas jornadas. Era apenas desporto, desporto, desporto, futebol, futebol, futebol”, contou Daniel Nellen, primo de Gianni Infantino, ao The Athletic. “Não conseguiu progredir na terceira equipa do FC Brig-Gils, mas começou a organizar as coisas, a procurar patrocínios, a ver camisolas. Ele gostava de toda essa parte”, acrescentou. Já ao Le Monde, o mesmo Nellen destacou a inteligência do agora presidente da FIFA, recordando aquela que foi a primeira ocasião em que Infantino se mexeu nos “bastidores” mais políticos de um clube de futebol: a proposta para que o FC Brig-Glis integrasse uma outra equipa construída com imigrantes de segunda geração, o Folglore. Convenceu tudo e todos. Conseguiu.

O jogo de cintura nos bastidores dos escritórios era bem melhor e mais eficaz do que aquela que apresentava em campo. Quando participa agora naqueles jogos de solidariedade com algumas das maiores figuras do jogo já reformadas, Gianni Infantino gosta de passar aquela imagem de alguém que no mínimo tem sensibilidade para o futebol, alguma técnica, capacidade de fintar e rematar. Quando era mais novo, o filme era outro, até contado por antigos companheiros que se tornaram amigos para vida. Exemplo? Rinaldo Arnold, magistrado suíço e Procurador-Geral de Haut-Valais, fala de Gianni como “um número 10 bastante mau porque não tinha nem técnica, nem resistência, que muitas vezes jogava saindo do banco e que quando era titular acabava por ser substituído”. Arnold, anos depois, faria parte de uma lista de práticas que geravam controvérsia no interior da FIFA. Infantino, ou melhor Gianni, parece outra pessoa descrita em Briga.

Nessa comuna no Cantão Valais, com menos de 13.000 habitantes, “só se fala bem ou tudo é bom”, como diz a Der Spiegel. É ali que se encontra o pão Gianni, com azeitonas e tomate em massa de centeio, na padaria Imboden. Foi ali, no pequeno complexo desportivo de Geschina, com menos de 5.000 lugares, que nomes como até Diego Armando Maradona já passaram em jogos de solidariedade. Será ali que o líder da FIFA terá sempre a sua zona de conforto, entrando nos balneários ou sentando-se nas bancadas sem ter de pedir ou dar licença a alguém e sem que tenha de estar preocupado com aquilo que todos os outros pensam. “Ele é um homem totalmente diferente daquele que podem ver em Zurique”, resume Arnold, também ele um antigo presidente do FC Brig-Gils. “O Gianni sempre quis apenas promover o futebol, não tem nada a ver sobre ele. Não toma decisões para que passa melhorar a sua situação mas pelo bem do futebol”, acrescenta.

Numa das muitas investigações que a revista fez em torno de assuntos ligados ao futebol, também no papel de fundadora e parceira ativa da EIC (European Investigative Collaborations), o nome de Rinaldo Arnold aparece numa troca de emails com Gianni Infantino, em maio de 2016, poucos meses depois de ser eleito presidente da FIFA. “Quero agradecer-te por me convidares para ir ao México. Estou entusiasmado e muito interessado. E obrigado também pelos bilhetes para a final da Liga dos Campeões. O meu filho mais novo vai com a minha mulher porque tenho de estar num evento do FC [Brig-Gils]”, dizia o magistrado, que andou em mais eventos de topo como o Mundial de Clubes do Japão de 2015 ou um Espanha-Rússia do Mundial de 2018, em lugares para onde não se compram bilhetes e só há convites. A isso, Arnold não respondeu.

"Gianni era um número 10 bastante mau porque não tinha nem técnica, nem resistência, que muitas vezes jogava saindo do banco e que quando era titular acabava por ser substituído"
Rinaldo Arnold, magistrado suíço, Procurador-Geral de Haut-Valais e amigo de infância de Gianni Infantino

Não foi a única vez em que os nomes de Arnold e Infantino apareceram em conjunto, com trocas de emails que levantam muitas dúvidas pelo seu teor numa fase em que as autoridades suíças começaram a investigar a UEFA por um contrato televisivo suspeito, numa altura em que o dirigente estava ainda no órgão que tutela o futebol europeu. “Foi aberta uma investigação, é certo, mas contra Pessoa Desconhecida. Não há nada contra ti”, escreveu, entre várias “sugestões” de ajuda. “Foram contactos estritamente profissionais”, alegou à Der Spiegel. Assim, sobraram apenas elogios à figura de Gianni Infantino, também ele ex-líder do FC Brig-Gils com apenas 18 anos. E com uma particularidade: quando fez campanha, sendo uma pessoa conhecida como jogador ou ex-jogador do clube, prometeu que a mãe lavaria todos os equipamentos… de borla.

A ligação a Platini, a crise que se tornou oportunidade na FIFA e um discurso de 13 minutos

Aos 18 anos, ainda antes de chegar à faculdade para prosseguir o caminho académico, Gianni Infantino já era presidente. Apesar da falta de experiência nessas lides, o rapaz ruivo e com sardas conseguiu vencer a corrida contra dois adversários mais velhos. Aí, mostrou algo que todos lhe reconhecem: visão, capacidade de trabalho, facilidade em criar redes de ligações, muito entusiasmo em tudo o que faz, sagacidade. Foi assim que, além da promessa palpável das camisolas lavadas, garantiu que iria trazer novos patrocinadores e fontes de receita a uma realidade amadora que pouco ou nada tinha (e que deixara de contar com o Gianni jogador).

Garantias teóricas, certezas práticas, o triunfo que, de acordo com o The Guardian, deu a receita para tudo o que se seguiria: uma enorme ambição que às vezes parece desmesurada, mas que consegue transformar em realidade e uma ainda maior capacidade de dizer aquilo que as pessoas querem ouvir e não aquela linguagem mais tecnocrata como é habitual. Mais: “com todas as probabilidades contra si, Infantino já tinha percebido a primeira regra da política: em qualquer posição ou em qualquer circunstância, todos têm podres a esconder de que estão desesperados por se livrar”. Essa foi outra das chaves da constante progressão na vida, daquelas com que se nasce e não se aprende. Além disso, a Universidade de Friburgo também deu uma ajuda.

Pelas condições humildes da família, Infantino terá mantido alguns trabalhos menores para pagar o curso de Direito na faculdade alemã – e as viagens de ida e volta a casa, de que não prescindia. Aliás, a própria escolha do local para seguir os estudos privilegiou também essa parte da localização, entre outros argumentos como a própria reputação da Universidade de Friburgo ou a capacidade de projetar os jovens acabados de formar em carreiras internacionais. De acordo com o Neue Zürcher Zeitung e o Le Temps, Infantino foi sempre um aluno focado, ambicioso e capaz de aproveitar a facilidade com línguas para estreitar relações, neste caso passando mais ao lado de uma vida estudantil que pouco ou nada lhe podia garantir depois no futuro.

Depois de concluir a formação, apontando sempre que possível para a direção do desporto, o atual líder da FIFA tirou uma pós-graduação em Direito Desportivo Internacional e foi essa a janela de oportunidade que lhe abriu a primeira porta real no mercado de trabalho: entrou no Centro Internacional de Estudos do Desporto (CIES, que tem o “patrocínio” da FIFA), na Universidade suíça de Neuchatel, já depois de ter sido consultor de clubes e da liga helvética com um triunfo que lhe aumentou o currículo na defesa do Sion num caso contra o Spartak de Moscovo. Em 2000, com apenas 30 anos, quando já era secretário-geral do CIES,  Gianni Infantino iniciou a ligação à UEFA, numa primeira instância como mero consultor e, a partir de 2004, como responsável do Departamento Jurídico para assuntos legais. O caminho já estava desbravado.

Infantino era um nome cada vez mais consolidado no órgão que tutela o futebol europeu, reforçando essa posição em 2007 quando Michel Platini ganhou as eleições a Lennart Johansson. Com a habitual sagacidade na leitura de um sufrágio, o advogado “apostou” no francês contra o sueco e essa vitória trouxe-lhe depois a promoção a secretário-geral interino, antes de se tornar efetivo a partir de 2009. Com menos de 40 anos, já era o braço-direito de Platini (tendo uma relação que passava e muito os gabinetes, a ponto de o antigo avançado gaulês ser padrinho de um dos quatro filhos), um número 2 da UEFA em termos executivos. Na sua cabeça, amizades à parte, esse era um ponto de partida e nunca de chegada. E o tempo veio dar-lhe razão.

Em 2000, com apenas 30 anos, quando já era secretário-geral do CIES,  Gianni Infantino iniciou a ligação à UEFA, numa primeira instância como mero consultor e, a partir de 2004, como responsável do Departamento Jurídico para assuntos legais. O caminho já estava desbravado.

“Quando entrou na UEFA, depois do CIES, era um colega de trabalho afável, educado e que se conseguia dar bem com qualquer pessoa com quem o visse falar”, contou Dan O’Toole, antigo gestor de marca da UEFA, ao The Athletic. “Nos primeiros anos em que lá esteve, costumávamos sair juntos e ir a casa dele. Era alguém sossegado. Não era tímido, era meio sossegado”, acrescentou. “Achava que ele era quase um bagageiro, o homem que levava as malas”, disse também um dirigente inglês. “Por exemplo, uma vez no aeroporto, estava rodeado por membros do Comité Executivo e conseguia cativar toda a gente pela maneira como estava a contar piadas em cinco ou seis línguas diferentes. Achei aquilo extraordinário”, defendeu O’Toole. “O Gianni de que me lembro era alguém educado, sério, trabalhador, mas também divertido. Havia momentos em que queríamos uma coisa, a Alemanha talvez quisesse outra, outros países tinham as suas opiniões, mas o Gianni e o Theo [Theodoris, secretário-geral adjunto da UEFA] arranjavam maneira”, referiu Alex Horne, que foi secretário-geral da Federação Inglesa de Futebol entre 2010 e 2015. Mais uma vez, os tais elogios.

Nesse papel, Gianni estava mais do que consolidado. No entanto, esse papel, por mais consolidado que estivesse, não tinha caminho para o acesso à personagem principal que alguém tão ambicioso desejava. Na manhã de 27 de maio de 2015, um terramoto abalou o futebol mundial e a FIFA. Era o tempo de Platini.

Resumo: depois de uma longa investigação feita pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e pelo FBI, as buscas que tiveram início no luxuoso hotel Baur au Lac, em Zurique, fez várias detenções, terminou com mais de 40 dirigentes e/ou associados da FIFA acusados de fraude e teve 27 a declararem-se culpados. A recolha de material, só nesse dia, fez com que inspetores da polícia suíça estivessem quase 14 horas na sede da FIFA. Foram levada centenas de caixas com documentos, contratos e pens. Foi levada a alma da FIFA, qualquer que ela fosse depois dos longos anos de gestão entre João Havelange e Joseph Blatter – que, seis dias depois, teve de anunciar a sua demissão. Em condições normais, Michel Platini, que estava há muito a ser preparado para saltar da UEFA para a FIFA, tinha a porta escancarada. Para Infantino, estava em cima da mesa o cenário de win-win: ou acompanhava o amigo para a FIFA ou tentava liderar a UEFA.

Quatro meses depois, o provável win-win passara a possível lose-lose por causa de uma fatura. Uma única fatura. Quando Blatter caiu (ou tudo o que Blatter representava caiu, de forma mais concreta), não houve propriamente sinais de “surpresa”. Quando a divisão de crimes económicos suíça voltou à FIFA para fazer interrogatórios a Blatter e Platini, a perceção era diferente. O antigo avançado era descrito como alguém mais puro, do jogo, que saíra dos relvados para os gabinetes sabendo o que custa ganhar em campo, que não tinha ou não mostrava a veia política que Blatter ganhara de Havelange mesmo sendo o seu “delfim”. Foram os dois ouvidos de forma separada por um pagamento de dois milhões de francos suíços, foram os dois acusados de fraude, falsificação de documentos e branqueamento de capitais, foram os dois absolvidos de toda e qualquer irregularidade – já agora, o pagamento tinha sido feito no final dos anos 90, quando Platini ainda não estava na UEFA, por um trabalho de consultoria pedido por Blatter. Mas o mal já estava feito.

Com a devida distância temporal, parecia tudo demasiado coincidência para não parecer “plantado”. No entanto, os principais edifícios do futebol mundial estavam arruinados. No caso da FIFA, que ficou com uma liderança interina do camaronês Issa Hayatou até às eleições, os alicerces que serviam de base tinham caído. Do lado da UEFA, que ficou na gestão do vice Ángel Maria Villar, só uma parte estava abalada. E Infantino?

Entre os caminhos possíveis, Infantino sonhou alto e apontou à FIFA, percebendo aquilo que era evidente para todos: a próxima era teria de trazer uma nova FIFA ou algo que se parecesse como tal. Quando surgiu como nome indicado pela UEFA ao sufrágio, onde só teria um real adversário, o Sheikh Salman bin Ebrahim al-Khalifa, do Bahrain, que liderava a Confederação Asiática do Futebol e tinha uma larga experiência de negociações com a FIFA, todos achavam que Infantino estaria apenas a fazer uma ponte para o regresso de Michel Platini após limpar o seu nome e imagem de todos os casos. Todos não, quase todos. Ou melhor, os que conheciam bem o advogado suíço há muito tinham percebido que ele queria chegar para ficar. Queria tanto que, com muitos milhares de euros investidos pela UEFA na campanha, assumiu a presidência.

“Foi uma campanha muito bem feita, porque ele basicamente viajou por todo o mundo e encontrou-se com toda a gente. Era como um rolo compressor em cada paragem e essa foi a maior das surpresas”, explicou o jornalista francês Philippe Auclair, recordando deslocações a sítios que poucos sequer se lembram de estar no mapa como Papua Nova Guiné ou Montserrat – que valiam tanto como qualquer outra federação. Com um grande envolvimento também de Portugal (com Fernando Gomes, José Mourinho e Luís Figo, que admitiu poder avançar com uma candidatura) e de portugueses como Tiago Craveiro ou Onofre Costa, a campanha de proximidade trazia frutos mas faltava a cereja no topo do bolo: o discurso de 13 minutos no Congresso.

"Temos falado nos últimos meses sobre muitas, muitas coisas. Corrupção, tribunais, advogados, polícia, o que quer que seja. Aquilo que proponho é simples: duplicar o valor das receitas que a FIFA dá aos seus membros para o desenvolvimento do futebol local, num total de 1,2 mil milhões de dólares. Quando falo de números, sei do que falo. Este dinheiro da FIFA é o dinheiro de todos. Não é o dinheiro do presidente da FIFA, é o dinheiro de todos vocês."
Gianni Infantino, no discurso de 13 minutos que deu no Congresso onde acabou por ser eleito presidente da FIFA, em 2016

A 26 de fevereiro de 2016, Gianni Infantino teve o dia de uma vida por uma razão simples: ali, mais do que nunca, soube “ler” o Hallenstadion, no norte de Zurique. O suíço podia ser um jogador mediano, mas estava prestes a mostrar que, com a bola na cabeça e não nos pés, podia fazer a diferença. Fez mesmo. As eleições pela liderança da FIFA tiveram uma segunda volta como há muito não se via, mas a vitória que muitos já iam dando a Salman Bin Ibrahim Al-Khalif teve uma viragem de última hora nas duas rondas de votações.

Quando falou, Infantino foi buscar alguns argumentos que tinha utilizado quase três décadas antes para vencer as eleições de um clube amador da Suíça e moldou-os às exigências daqueles que podiam inverter o rumo do sufrágio. “Temos falado nos últimos meses sobre muitas, muitas coisas. Corrupção, tribunais, advogados, polícia, o que quer que seja. Aquilo que proponho é simples: duplicar o valor das receitas que a FIFA dá aos seus membros para o desenvolvimento do futebol local, num total de 1,2 mil milhões de dólares. Quando falo de números, sei do que falo. Este dinheiro da FIFA é o dinheiro de todos. Não é o dinheiro do presidente da FIFA, é o dinheiro de todos vocês”, destacou numa preleção que começou em inglês e passou por mais cinco línguas, entre italiano, alemão, francês, espanhol e português. Tão ou mais importante, falou na língua que todos entendiam melhor do que nunca e melhor do que ninguém: dinheiro, mais dinheiro. Assim, já nem era preciso prometer que a mãe faria a lavandaria de forma gratuita todas as semanas…

Tokyo Sexwale, empresário sul-africano, fez o seu discurso e desistiu da corrida. Jérôme Champagne, que desempenhara cargos executivos no órgão, teve pouco mais do que o mínimo para poder marcar presença no sufrágio (sete votos). O príncipe Ali Hussein, da Jordânia, que era vice-presidente da FIFA, ainda se tentou intrometer na luta, mas não foi além dos 27 votos. Infantino, a candidatura da UEFA, e Al-Khalifa, a da Ásia, praticamente dividiram ao meio as intenções de voto com uma pequena vantagem para o suíço (88-85). A parte mais diplomática e tecnocrata entrava em cena, com o desvio dos EUA e de vários outros países da CONCACAF de Ali Hussein para Infantino a fazer a diferença no final para uma vitória por 115-88. Sunil Gulati, que liderava a Federação de Futebol dos Estados Unidos, não tem propriamente uma relação estreita com Donald Trump, mas terá sido na sua mudança de intenção que tudo virou. Apenas dois anos depois, num Congresso realizado na Rússia, que recebia o Mundial-2018, a fase final de 2026 foi parar aí.

“Chegou a altura de mudar a situação da FIFA e acredito, como homem íntegro, que sou a pessoa certa para isso porque sei liderar pelo exemplo”, disse. Infantino ganhou também pelo “projeto Forward”, gizado com a ajuda do norueguês Kjetil Siem, chefe de estratégia da FIFA, mas foi a partir daí que começou a sentir, em paralelo, os primeiros problemas: todos os fluxos de dinheiros foram escrutinados para evitar más práticas do passado, a lista nunca revelada publicamente de federações que tinham acesso restrito ou proibido aos fundos por incumprimento de regras ia aumentando até um total de quase 40, as perguntas e críticas iam começando a acumular-se. “A distribuição dos milhões do programa Forward é atualmente o maior ponto fraco e o maior risco da FIFA. Ninguém pode ter a certeza se grandes somas de dinheiro são desviadas para atividades criminosas ou mal utilizadas”, comentou um antigo funcionário à Der Spiegel.

“Em vez de pagar com base em despesas e projectos, o pagamento é feito antecipadamente. O risco de danos é preocupante. Riscos para a reputação do programa e da FIFA”, assumiu Kjetil Siem num relatório interno da FIFA que foi revelado pela revista germânica. A metamorfose de uma ideia aconteceu a partir daqui, apesar da mensagem que, como recorda o The Times, continuava a ser passada: “A nova FIFA que tinha emergido do período anterior de convulsão assentava num sistema “limpo, transparente e responsável”.

“O reformista que se tornou reaccionário mal foi eleito” (mas que cumpre promessas)

A ESPN recorda um raro dia de festa em que Gianni Infantino confraternizou com os jornalistas. Um dia que, claro está, coincidiu com a vitória nas eleições da FIFA. O novo líder eleito chegou mesmo a pagar algumas rodadas de cervejas aos presentes no bar de um hotel em Cardiff, no País de Gales. Também ele funcionava como uma nova cara do sistema que tinha colapsado por acusações de suborno e corrupção. Ali estava um homem acessível, agregador, apostado em restaurar aquilo que se perdera com o tempo: reputação.

Desde esse dia até hoje, não mais ninguém arriscou sequer desafiar Infantino e a sua liderança. Ganhou nas eleições de 2019, num mandato mais curto tendo em conta o sufrágio antecipado extraordinário depois da demissão de Sepp Blatter, voltou a ser aclamado por unanimidade em 2023, prepara-se para novo “passeio” no próximo ano a não ser que, por alguma razão que é hoje complicada de perceber, uma figura como Nasser Al-Khelaïfi, presidente do PSG e da Associação Europeia de Clubes, decida apresentar-se a eleições. No entanto, esse deverá mesmo ser o fecho de um ciclo. Segundo as várias fontes contactadas pela ESPN, 2031 deverá marcar o adeus de Infantino à FIFA na sequência de um novo mandato de quatro anos. Razão: todo o desgaste que a função arrasta consigo, algo que antes nunca demoveu o advogado suíço de seguir em frente.

Porquê? Gianni foi construindo Infantino mas, com o passar do tempo, Infantino foi perdendo a sua parte de Gianni. Tornar-se o homem mais poderoso do futebol trouxe muitos amigos, mas ainda mais inimigos.

Todas as histórias de encantar num meio como este, em que milhões de fãs olham e gostam de ver fintas nos relvados mas muitas vezes desconhecem que os verdadeiros duelos de jogo de cintura são fora de campo, têm um outro lado. “Ele decide tudo sozinho e por ele”, queixou-se um ex-membro da FIFA à The New Yorker, numa ideia partilhada em vários outros perfis ou podcasts sobre o suíço, como o da BBC. “Em todas as vezes em que estivemos frente a frente, deparei-me com alguém que parecia estar com medo, como se fosse fazer um teste”, descreveu o jornalista Patrick Oberli, que entrevistou o líder da FIFA quatro vezes. O estatuto de Infantino mudou, o próprio órgão foi mudando com isso – de tal forma que, quando cumpriu há poucos meses o décimo aniversário no cargo, a campanha lançada nas redes sociais com a marca “INFANTI10” tinha a descrição da FIFA a colocar Infantino como “o homem que dá felicidade à humanidade”. “É seguro dizer que não existe numa decisão macro no órgão ou no Mundial que não envolva Infantino”, disse outra fonte.

Ao The Telegraph, uma antiga figura do futebol europeu que trabalhou na UEFA reforça esse traço: “Para ele, todos os meios justificam os fins”. Ninguém o assume de forma direta e por estas palavras mas, quando se olha para Gianni Infantino e se pensa que tem no telefone os números de Donald Trump, da família real da Arábia Saudita, dos maiores influenciadores do Qatar (onde chegou a viver em 2021, quando dois dos filhos estudavam na universidade de Doha) ou de Vladimir Putin, aquilo que para muitos pode ser visto como um sinal claro de poder transforma-se, para outros, numa espécie de venda de alma ao diabo. Lá está, todos os meios justificam os fins. E, mesmo com cada vez mais antipatias, os resultados financeiros estão à vista. Um exemplo prático: o grande sonho de lançar um novo Mundial de Clubes com 48 equipas disputado de quatro em quatro anos só foi possível depois de uma participação saudita de mil milhões de dólares na plataforma de streaming DAZN. Outro exemplo recente: o Mundial-2026 bate recordes impensáveis de receitas.

"Ele decide tudo sozinho e por ele", queixou-se um ex-membro da FIFA à The New Yorker. "Para ele, todos os meios justificam os fins", contou uma antiga figura do futebol europeu que trabalhou na UEFA ao The Telegraph.

Ainda em 2018, quando levava cerca de dois anos no cargo, a Der Spiegel traçava o perfil de alguém que era despesista, recordando os charters em dezembro de 2017 de Zurique para o Kuwait ou de Genebra para o Dubai via Riade que, em conjunto, chegaram aos 100.000 euros. Os tempos em que viajava “por norma” em voos comerciais foram passando, a utilização de viagens privadas tornou-se mais recorrente. “Para ele, ou se é um amigo ou se torna um inimigo”, contou à revista uma fonte que conhecia há alguns anos o advogado suíço. “Querem transparência com Infantino? Esqueçam, ele só quer ser reeleito”, acrescentou o alemão Hans-Joachim Eckert, que liderava o Comité de Ética da FIFA. Duas visões que acabaram por sustentar a maior conclusão sobre os documentos do Football Leaks que envolviam Infantino, entre emails, mensagens trocadas no Messenger e atas de reunião: “o reformista que se tornou reaccionário mal foi eleito”.

Os vários trabalhos de investigação feitos ao longo da última década sobre Gianni Infantino apontam para alguém que não tem um meio termo – ou se está com ele, ou se está contra ele –, que gosta de se rodear das mais altas esferas de influência mundiais mesmo confiando apenas num par de pessoas e com a necessidade de controlar sempre a narrativa, qualquer que ela seja. Também falam de alguém que consegue ser bondoso, com sentido de humor, atencioso, muito trabalhador, mas sempre com um qualquer senão. O pior de todos, esse, resume-se numa frase: “O Infantino não quer mudar a FIFA, quer moldá-la à sua vontade”.

A forma como foi trabalhando nos bastidores com o PSG e com o Manchester City para evitar qualquer tipo de sanções para os clubes depois da introdução das novas regras do fair play financeiro, neste caso quando ainda estava na UEFA, ficou sempre como uma sombra entre muitas outras revelações saídas do Football Leaks, já depois de ter visto também o seu nome nos Panama Papers. Outra foi a influência que teve, também numa postura longe do centro decisor mas suficientemente perto para mexer na decisão, na elaboração do novo Código de Ética da FIFA, que mais tarde iria abrir as portas a contratos multimilionários para o órgão. Nada de “ilegal” foi apontadado (e comprovado) a Gianni Infantino. Isso é o que fica, dez anos depois.

Entre tudo o que se foi falando e entre tantas críticas que apontavam para conflitos de interesse, ligações a Estados que não respeitam os direitos humanos ou uma governance obscura da FIFA, Infantino não só ficou como foi reforçando a sua posição. Estranho? Não. Naquele dia de fevereiro de 2016, quando disse naquele discurso de 13 minutos que ia distribuir mais dinheiro por todos, prometeu o que ainda hoje cumpre: a FIFA deu um salto enorme em termos comerciais, desenvolveu-se enquanto organização com muito mais tecnologia, potenciou o futebol feminino e tornou-se uma máquina de faturar milhões e milhões de euros.

A “Trumpificação” da figura Infantino, jatos do Qatar e um Mundial com 64 seleções

Quando assumiu o cargo, Infantino já sabia que o Mundial de 2018 se iria realizar na Rússia e que a edição de 2022 seria organizada pelo Qatar. Não teve influência nas decisões, influenciou em tudo o que conseguiu antes e durante as fases finais, dando a cara por opções que não eram suas, que foram amplamente alvo de críticas mas que envolviam a FIFA – a ponto de ser condecorado com a Ordem da Amizade em 2019, pelas mãos de Vladimir Putin. Daí para a frente, as escolhas já tinham o seu cunho. A candidatura conjunta de Estados Unidos, México e Canadá venceu a corrida pelo Mundial de 2026 e houve quase um “acordo” global para que 2030 ficasse entre Espanha, Portugal e Marrocos com alguns jogos realizados também na América do Sul por ser a edição centenária do evento. Porquê? A Arábia Saudita ficava com caminho livre para vencer sem oposição a organização do Mundial de 2034. Mais um objetivo cumprido – mas não só.

Há dois episódios nos últimos anos que não passaram ao lado de ninguém. Com importâncias diferentes, com pesos distintos, com a ideia de que Infantino “ganhara” a Gianni. No primeiro, em 2023, o líder da FIFA foi apanhado a tirar algumas selfies com antigas estrelas do futebol mundial no funeral de Pelé, tão só um dos maiores jogadores de sempre. No segundo, em 2025, durante o Congresso da FIFA na cidade paraguaia de Assunção, quando chegou com um atraso de quase três horas ao evento depois de ter estado com Donald Trump e outros líderes de países do Médio Oriente – a ponto de a delegação da UEFA, incluindo o seu presidente Aleksander Çeferin (com quem não tem uma relação fácil), ter abandonado a sala em protesto. Quem o criticava por não saber “ler uma sala” não conhecia todo o seu passado, tendo em conta que foi precisamente a “ler salas” que chegou onde estava. Ao invés, Infantino entrara numa nova “era”.

Para simplificar, alguns órgãos escreveram sobre uma “Trumpificação” do futebol. Aquilo que os últimos meses mostraram foi sobretudo uma “Trumpificação” da figura de Gianni Infantino. E assim continua.

Em 2017, com apenas um ano no cargo, o advogado lançou duras críticas aos Estados Unidos pela proibição de emissão de vistos à maioria dos países muçulmanos. “Quando toca às competições da FIFA, qualquer equipa que esteja qualificada, incluindo toda a delegação e os seus adeptos, tem de entrar no país. Caso contrário, não há Campeonato do Mundo. É uma coisa óbvia”, apontou. Nesta fase final, da entrada negada pelos Estados Unidos ao árbitro somali Omar Artan (o melhor de África) à necessidade de saída do país logo após os encontros do Irão, aconteceu de tudo um pouco. Infantino encolheu os ombros, disse que não podia fazer nada, tentou remediar à sua maneira – pagando a totalidade prevista pela participação no Mundial ao árbitro africano e descendo ao balneário do Irão para elogiar o seu exemplo e a sua coragem.

O caso Balogun, com a Casa Branca e o próprio Donald Trump a terem uma intervenção direta para que o avançado dos norte-americanos fosse despenalizado para a partida dos oitavos com a Bélgica após ter sido expulso com vermelho direto no encontro anterior diante da Bósnia, foi um exemplo paradigmático de tudo o que se foi construindo em torno deste Mundial. Não começou aí, longe disso. Em 2020, num jantar realizado durante a cimeira económica global de Davos, Infantino já chamava Trump de “grande amigo”. Mais tarde, no ano passado, o líder que entretanto tinha sido novamente eleito nos Estados Unidos foi ao centro do relvado do MetLife Stadium, em Nova Jérsia/Nova Iorque, entregar as medalhas aos vencedores do Mundial de Clubes (neste caso o Chelsea, que bateu o PSG), recebeu uma de Infantino como se fosse também ele um campeão e fez questão de ficar na fotografia da festa depois de entregar o troféu a Reece James.

Quando se fala no Prémio da Paz FIFA que Trump recebeu em dezembro, por altura do sorteio da fase final do Mundial, e que tanta celeuma continua a criar pelas várias queixas apresentadas ao Comité de Ética da FIFA pela violação da regra de neutralidade política que consta nos estatutos, tudo o que se tinha passado antes era mais do que uma prova de que Infantino mudara. Agora, qual todo poderoso, fazia o que queria.

"Ele parece alguém que acordou na manhã de Natal como uma criança e olha para todos aqueles presentes que estão na árvore. E esse entusiasmo fica-lhe muito bem, tenho de dizer. O presidente da FIFA é um grande amigo. É uma espécie de rei do soccer... Acho eu... De certa forma."
Donald Trump, falando publicamente sobre Gianni Infantino na Casa Branca

“É fantástico. Ele parece alguém que acordou na manhã de Natal como uma criança e olha para todos aqueles presentes que estão na árvore. E esse entusiasmo fica-lhe muito bem, tenho de dizer”, chegou a descrever, em plena Casa Branca, Donald Trump. Infantino riu-se. Muito. “O presidente da FIFA é um grande amigo. É uma espécie de rei do soccer… Acho eu… De certa forma”, acrescentou. Infantino sentiu-se poderoso. Ainda mais. “Não sei para onde é que a FIFA está a caminhar”, já chegou a comentar o antecessor, Blatter.

Os números dão uma ajuda para perceber esse sentido: as federações nacionais deverão receber no próximo ciclo de quatro anos um montante de 2,7 mil milhões de dólares através do supracitado programa Forward. Questão: isso representa apenas cerca de 20% do dinheiro previsto em revenues a nível global, com tendência crescente tendo em conta a capacidade que a FIFA encontra para encontrar novas receitas num mundo que não perdeu hábitos de consumo mas mudou-os de forma drástica. Neste ciclo, os valores que entram duplicaram; no total desde que Infantino assumiu a liderança do órgão, são quase oito vezes mais. Mas também existem paradoxos. Como aponta a The New Yorker, o Brasil, uma pátria do futebol com uma população de 213 milhões de pessoas onde um quarto vive na pobreza, recebeu 6,35 milhões de dólares entre 2023 e 2025. São Marino, com 34 mil habitantes e outro nível de vida, teve direito a mais 94 mil dólares. E, quando se chega aos Congressos eleitorais, Brasil e São Marino têm o mesmo peso de votação (um voto).

Essa tem sido uma das principais críticas apontadas por Miguel Poiares Maduro, professor universitário que esteve no Comité de Governação da FIFA durante oito meses, entre 2016 e 2017, e que acabou afastado “por tentar mudar processos que estão instalados há décadas”. “Tenho pena que o cumprimento sério e independente das nossas funções tenha, pelos vistos, gerado uma reação negativa num número suficiente de federações e também na FIFA para a não renovação do mandato. É uma mensagem negativa para um dos processos fundamentais para a reforma da FIFA. Há uma cultura instalada há décadas que é resistente ao escrutínio e à transparência. Estamos a falar em mexer em cargos com pessoas com bastante poder no futebol e até na política internacional. Isso terá causado desagrado. Estamos a falar na supervisão de eleições em federações que não estavam sujeitas a tal e isso criou alguns conflitos”, explicou depois da saída. “Sofri mais pressões do que na política”, admitiria mais tarde em entrevista ao Público.

O antigo ministro português olha para o atual edifício FIFA à luz dessas incongruências na distribuição de dinheiro a dois níveis. Por um lado, esse modelo faz com que não exista nenhum líder de federação que se atreva a desafiar Infantino em termos públicos. Por outro, existe um “conflito de interesses sistémico” entre a parte regulamentar da FIFA e a rentabilização do futebol. “Se pudéssemos organizar um grande evento em qualquer país do mundo, até na Coreia do Norte, seria o primeiro a ir“, chegou um dia a dizer Infantino, o líder que não se furta ao trabalho quase de relações públicas como qualquer multinacional faz para chegar aos seus objetivos e que faz questão de dizer sempre que a FIFA tem mais membros do que as Nações Unidas. Sempre com um propósito: “É o futebol que tem de unir as pessoas e que tem de dar esperança ao mundo”.

São poucas as vozes dentro do sistema a dizer o que quer que seja sobre o modus operandi de Infantino. Há exceções, raras exceções, como Lise Klaveness, presidente da Federação Norueguesa de Futebol (que saiu deste Mundial como um dos grandes destaques da prova). “Estava sentada em Washington, numa sala cheia de presidentes de federações de futebol, e senti a dolorosa sensação de ficar refém de algo que está errado. Foi uma sensação de que o rei não só está nu como também nos está a conduzir numa direção perigosa, ao mesmo tempo que não o posso impedir, comentou dois meses depois do sorteio da fase final do Mundial, realizado em Washington, que coincidiu com a entrada do Prémio da Paz FIFA a Trump.

Casado com a libanesa Leena Al Ashqar e pai de quatro filhos, Gianni Infantino, que entretanto pediu e já recebeu a cidadania libanesa, tem receitas, de acordo com a revista Time, de seis milhões de dólares ao ano só da FIFA. No entanto, não é apenas por isso que entra na lista das pessoas com mais influência no desporto. “Tem líderes mundiais, incluindo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o príncipe herdeiro Mohamed bin Salman, da Arábia Saudita, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, no speed dial do seu telemóvel. Viaja num jato privado fornecido pelo Qatar e, quando regressou a Cardiff, no início deste ano, para a cimeira anual da International Football Association Board (IFAB) no luxuoso resort de Vale of Glamorgan, uma década depois daquela noite comemorativa no bar, ficou hospedado mesmo ao lado, no Castelo de Hensol, do século XVII. Por acidente ou por intenção, isso só serviu para enfatizar a realidade de que o homem de 56 anos era agora um imperador sobre tudo o que contemplava”, descrevia o texto.

Gianni Infantino não gosta de dar entrevistas. Agora, é cada vez mais raro isso acontecer, tendo chegado até a dizer que não percebe porque é que os principais meios de comunicação são tão “maus” para ele. No entanto, de quando em vez, lá vai falando para deixar publicamente alguns projetos de futuro. O próximo, de forma “indireta”, pode chegar a Portugal em 2030: perante o “enorme sucesso” do aumento para 48 equipas, não está colocada de parte a possibilidade de incremento para um total de 64 seleções. “Todas as seleções estiveram a um nível elevado, marcaram golos, fizeram pontos. Nove das dez equipas africanas passaram à fase a eliminar. Isso mostra como é importante envolver todas as equipas e dar-lhes a oportunidade de participarem no evento. Se não dermos esse incentivo, é mais complicado desenvolverem-se”, disse.

As bases do futuro estão lançadas: mais equipas no Mundial, mais oportunidades para países com menor expressão, mais jogos, mais dinheiro, mais mediatismo. Provavelmente, mais Gianni Infantino.