A empresa Alcampos Unipessoal Lda. recebeu um total de 108 faturas, emitidas por 13 empresas diferentes — entre as quais a Construbarcelos, Unipessoal Lda., do empreiteiro João Carvalho —, num período compreendido entre 7 de fevereiro de 2024 e 26 de junho de 2026. O valor total faturado à empresa em nome da mulher de Luís Neves ascendeu a 23.118,19 euros.
Todos estes números constam de uma lista fornecida pelo Ministério da Administração Interna ao Observador, que detalha agora em pormenor as contas associadas às polémicas obras no terreno do ministro em São Teotónio (Odemira).
De acordo com os dados enviados, a Construbarcelos é a empresa com o valor mais alto faturado à empresa unipessoal da mulher do governante, através da emissão de duas faturas, nas datas de 11 e 20 de fevereiro de 2025, cada uma no valor de 2.500 euros, o que perfaz um total de 5.000 euros.
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Ou seja, está em causa cerca de 21,6% do total das despesas faturadas (23.118,19 euros) nas obras no monte em São Teotónio, que ainda não estão terminadas, para as quais não terá sido efetuada qualquer comunicação ou pedido de licenciamento à autarquia de Odemira — e cujos comprovativos de pagamento ainda não foram apresentados por Luís Neves.
A história da Construbarcelos
A sociedade foi constituída em Barcelos em março de 2015, com um capital social de 1.000 euros, no qual o empreiteiro João Carvalho detinha inicialmente a esmagadora maioria do capital (999 euros). Começou por ser uma sociedade por quotas, mas acabou por se tornar uma empresa unipessoal após a saída em 2017 de Isabel Cristina dos Santos Correia de Oliveira (que detinha o restante euro do capital).
A atividade da empresa centra-se na construção de edifícios e na compra e venda de imóveis, estendendo-se ainda ao comércio a retalho de materiais de construção e bricolagem, equipamentos sanitários, ladrilhos e artigos similares. De acordo com o que avançou o jornal Sol, a empresa enfrenta vários processos em tribunal, alguns dos quais relacionados com dívidas a fornecedores, e João Carvalho terá alegadamente sido investigado por supostos crimes de insolvência danosa — associada a uma empresa de pastelaria de que era proprietário — e falsificação de documentos.
Segundo registos da empresa consultados pelo Observador através do portal Iberinform, a Construbarcelos foi alvo de nove ações judiciais entre 2021 e 2025, entre processos comuns, cumprimentos de obrigações pecuniárias e execuções sumárias, estas últimas datadas do último trimestre de 2024 e no valor total de 34.300 euros. No cômputo geral das nove ações judiciais está em causa um somatório global em dívida de 148.900 euros.
Com base nos dados da Construbarcelos referentes a 2024, a empresa tinha 21 trabalhadores — chegou a ter 29 funcionários em 2022. Em termos financeiros, apresentou um ativo total de 837.303 euros, um passivo de 643.037 euros e capitais próprios de 194.266 euros.
João Carvalho e a Construbarcelos estão ainda ligados a uma outra empresa, a imobiliária Medicuca, uma sociedade por quotas com um capital de 15.000 euros, registada na cidade do Porto e repartida entre o empreiteiro (14.700 euros) e a construtora (300 euros).
Outras empresas envolvidas nas obras de São Teotónio
Em sentido inverso, a empresa com valor faturado mais baixo foi a sociedade Rodrigues & Nunes Lda, com um total que não foi além dos 87,66 euros, repartido por apenas duas faturas, referentes a 17 e 30 de maio de 2025, de 28,47 euros e 59,19 euros, respetivamente. Localizada no parque industrial de Odemira, a Rodrigues & Nunes Lda dedica-se ao comércio a retalho de materiais para construção e material elétrico.
Com sede em São Teotónio, a empresa de Simplício José Inácio centra a sua atividade na produção agrícola e animal, estando também associada a uma bomba de gasolina na região com o mesmo nome. Entre março e abril de 2024, registou um total de 142,40 euros faturados em duas transações.
Segue-se na contabilidade da empresa Alcampos o volume faturado pela sociedade Mirafrota — Transportes, Máquinas e Materiais de Construção Lda. Sediada na zona industrial de Boavista dos Pinheiros, em Odemira, esta empresa opera desde 1990 no setor dos transportes de mercadorias, aluguer de máquinas industriais e venda de materiais de construção. Nos registos analisados, conta com uma única fatura, emitida também em abril de 2024, no valor de 147,35 euros.
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Continuando o rastreamento das faturas emitidas à empresa da mulher de Luís Neves, segue-se uma empresa de âmbito nacional e não local: a Leroy Merlin, cujo nome formal é BCM Bricolage SA. Contudo, apesar da dimensão maior desta cadeia de lojas de material de construção e decoração, a fatura emitida foi de apenas 155,86 euros, sendo a mais antiga entre as 108 faturas discriminadas, ao remontar a 7 de fevereiro de 2024.
Já a Ecocampo Comercialização de Produtos Para Agricultura e Pecuária Lda, sediada no Fundão, Castelo Branco, foca-se na venda de produtos e máquinas para agricultura e pecuária, além de realizar projetos agrícolas e serviços de desinfestação. Esta empresa apresentou somente uma fatura à Alcampos, em abril de 2026, no valor de 777 euros.
Ainda abaixo dos mil euros de faturação nas obras surge a empresa Robert Mauser Lda, com sede em Loures e com mais de quatro décadas de presença no mercado. Conta com sete lojas físicas no país e dedica-se ao comércio de eletrónica especializada e de consumo, ferramentas, fichas e cabos. No cômputo global emitiu seis faturas em três períodos distintos — agosto de 2025, novembro de 2025 e março de 2026 —, com um somatório de 789,41 euros.
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Por sua vez, a Manuel Maria José Lda, localizada em São Teotónio, dedica-se há 36 anos ao comércio de rações, cereais, fertilizantes, drogaria e produtos para agricultura e animais de estimação. É uma das empresas com atividade mais constante nos registos, totalizando 905,14 euros distribuídos por 15 faturas: três em 2024, 11 em 2025 e apenas uma em 2026.
Também com sede em São Teotónio, a atividade da empresa Dos Santos & Conceição Cândido Lda abrange a instalação e manutenção de sistemas de rega e eletricidade, manutenção de jardins e consultoria agrícola. Esta sociedade local apresenta seis faturas (cinco de 2025 e uma de 2026) na listagem entregue pelo MAI relativamente às obras no monte de Luís Neves, cujo valor ascende a 970,03 euros.
Além da Leroy Merlin, surge ainda uma outra grande cadeia retalhista dedicada ao mobiliário e decoração nas contas da Alcampos Unipessoal Lda: o IKEA. O conhecido grupo sueco regista três faturas na lista em 2025, com um valor global de 1.441,11 euros.
As principais empresas que faturaram à Alcampos Unipessoal Lda
A partir daqui, os valores das faturas emitidas pelas empresas nas obras no monte de Luís Neves e da mulher em São Teotónio sobem exponencialmente.
Em sentido ascendente nos gastos da Alcampos Unipessoal Lda surge a empresa M. Rodrigues & Filhos, Limitada, com sede em Barcelos (tal como a Construbarcelos), que emitiu três faturas entre março e maio de 2024, no valor total de 4.037,20 euros. Segundo os dados do Portal da Justiça, a atividade desta empresa remonta a, pelo menos, 2006, então ainda sob a designação M. Rodrigues & J. Macedo, Lda, que entretanto mudou de nome, face à renúncia de um dos sócios-gerentes.
Outra das empresas que surge na lista de faturas, a Matonio Materiais Construção S. Teotónio Lda, igualmente com sede na zona do monte alentejano, “oferece uma gama completa de materiais para construção e canalização”, conforme indica no respetivo site. É a empresa que, de longe, detém o maior número de transações individuais, com 47 faturas — ou seja, quase 44% do total de 108 faturas —, somando um valor global de 4.143,19 euros entre os anos de 2024, 2025 e 2026.
Com atividade centrada também em Odemira, a sociedade Os Gregos — Transportes e Móveis, Lda. dedica-se a várias áreas de negócio, desde o transporte rodoviário de mercadorias e a preparação de locais de construção ao comércio a retalho de materiais de construção, mobiliário e artigos de iluminação.
Ao todo, esta empresa comunicou 19 faturas, entre 2024 e 2025, num volume de faturação que atinge os 4.521,84 euros, o que constitui o valor mais alto entre as 13 empresas, com exceção da Construbarcelos, do empreiteiro João Carvalho, que Luís Neves assumiu publicamente ter conhecido em 2023 e estabelecido uma relação mais próxima de amizade em 2024.
As origens, as adjudicações e uma amizade que se tornou uma dor de cabeça
Na origem deste caso está a contratação da Construbarcelos para realizar obras de renovação num terreno do ministro da Administração Interna, Luís Neves, em São Teotónio, Odemira. O contrato foi feito pela Alcampos, sociedade que pertence à mulher do ex-diretor da PJ, Luís Neves, como foi inicialmente revelado pelo Nascer do Sol. Iniciados em 2024, os trabalhos ainda não terminaram, mas até agora já custaram mais de 23 mil euros à Alcampos.
Qual o problema? A Construbarcelos ter celebrado diversos contratos de construção civil com a PJ entre 2019 e 2025. Desde que o caso estalou, a defesa de Luís Neves em relação a um eventual favorecimento pessoal com o empreiteiro tem assentado numa garantia dada nas suas diversas entrevistas televisivas nos últimos dias: a de que apenas conheceu João Carvalho na Guarda, em 2024, devido a atrasos na obra que ali estava a ser realizada.
Ora, como as principais obras para as instalações na Guarda e em Évora foram adjudicadas antes dessa data, Neves argumentou que nem sequer sabia quem João Carvalho era na altura das adjudicações. Aliás, ressalva que “mais de 70%” das mesmas ocorreram durante esse período em que ainda não conhecia o empreiteiro — entre 2019 e 2022.
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E os restantes 30%? Esses ocorreram entre 2024 e 2025 — quando já eram amigos. Depois disso, a PJ adjudicou contratos à empresa no valor total de 688 mil euros (que estão incluídos na soma global de 2,1 milhões de euros). O argumento do ministro é que esses contratos foram apenas extensões dos anteriores.
Mais: quanto ao pagamento dos serviços, a posição de Luís Neves é a de que o registo de faturas no portal e-fatura é, por si só, “um comprovativo de pagamento”. E, na ronda de entrevistas televisivas de domingo, acrescentou que “90% das faturas” foram pagas por transferência bancária ou por multibanco (quando pagas ao balcão). Detalhe importante: o contexto destas declarações prende-se com o pagamento dos materiais de construção e não com o pagamento dos 5.000 euros à Construbarcelos.
Fonte oficial do Ministério da Administração Interna afirmou que a intervenção na propriedade em causa ainda se encontra em curso e que só depois de concluída é que “será reunida e disponibilizada toda a documentação final que se revele pertinente”. “Até lá, não serão feitos mais comentários sobre este assunto”, concluiu a mesma fonte.
[Um poderoso empresário concorre à Câmara de Lisboa e vai fazer tudo para ganhar as eleições, ao mesmo tempo que vive um drama familiar: o filho foi raptado e está desaparecido há quase um mês. Onde está afinal José Valbom? “O Candidato Perfeito” é o novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, e é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]
