Uma professora de Matemática que foi convocada esta segunda-feira para classificar exames nacionais somava, cerca das 12 horas do dia seguinte, 444 itens “para concluir”. E todas essas respostas chegaram à professora apenas desde as 9h30 desta terça-feira, denuncia Cristina Mota, porta-voz do movimento Missão Escola Pública. “Temos outros colegas que também nos reportam que ainda têm folhas de continuação [de resposta] em falta, que continuam a receber itens, portanto, temos aqui um conjunto de situações que mostra que de forma alguma vamos ter o período de classificação concluído sem problemas.”
A quantidade de itens ainda por corrigir e que inclui os que só esta terça-feira foram distribuídos aos classificadores levou o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) a alterar — mais uma vez — a data-limite, mas só para os “exames que não estejam classificados até ao final do dia de hoje”. Uma decisão imputada ao EduQA, a agência do Ministério responsável pela avaliação, e que segundo a mesma “não põe em causa a afixação das pautas na sexta-feira, existindo margem temporal suficiente para executar as etapas necessárias entre o fecho do processo de classificação e a afixação dos resultados nas escolas na sexta-feira, dia 17″.
O prazo para a classificação dos exames nacionais — totalmente digital este ano — já tinha sido adiado para dia 14 no início de julho, perante os relatos de dificuldades técnicas nas duas plataformas usadas no processo: a Plataforma de Classificação e Supervisão (PCS, que é desenvolvida pelo EduQA) e o Sistema de Classificação Online do Iave (SCOI, que foi criado pela empresa Blat Studios).
https://observador.pt/especiais/sob-pressao-ministerio-da-educacao-vai-monitorizar-classificadores-e-da-aos-alunos-acesso-gratuito-aos-exames-duas-plataformas-falharam/
Perante os relatos dos professores, o Ministério reconheceu os problemas, que esta terça-feira resumiu a três: “novas digitalizações de folhas ou de provas de alunos, por deteção de falhas de digitalização; reclassificações de itens já antes avaliados pelos professores classificadores, por correção de uma folha de enunciado ou de continuação na prova do aluno; entregas tardias, pelas escolas, de provas de alunos que deveriam ter sido devidamente entregues às forças de segurança para transporte para a Imprensa Nacional – Casa da Moeda”.
Está em curso um “processo de verificação e validação, indispensável para assegurar o rigor e a qualidade do processo de classificação eletrónica” e, no dia em que forem afixadas as notas, os alunos terão um acesso inédito às suas provas digitalizadas, sobre o qual os estabelecimentos de ensino — a que cabe desfazer o anonimato das provas — ainda não receberam um aguardado guião.
https://observador.pt/2026/07/13/algumas-escolas-nao-entregaram-folhas-de-resposta-dos-exames-nacionais-as-forcas-de-seguranca-diz-ministerio-da-educacao/
Data-limite de classificação devia ser adiada, defende Missão Escola Pública
“No dia 17, se não tivermos as pautas afixadas, acima de tudo temos que garantir o rigor”, sustenta Cristina Mota. “As responsabilidades políticas serão apuradas atempadamente, mas agora temos que garantir o rigor. O período de afixação de pautas foi aumentado em três dias, mas o período de classificação foi aumentado apenas em dois dias úteis”, recorda. Antes do anúncio do Ministério, considerava importante um adiamento de pelo menos um dia para que os professores que só hoje receberam os itens tivessem “pelo menos mais de 24 horas” para os classificar — o que acabou por acontecer. Ao que o Observador apurou, esse contacto só ocorreu cerca das 17 horas desta terça-feira, quando os professores que só hoje receberam os seus itens para corrigir foram informados, pelos agrupamentos do Júri Nacional de Exames, que dispunham de até às 12 horas de dia 15 para proceder às correções.
Segundo a agência Lusa, há professores que foram convocados esta manhã e que, à hora de almoço, não tinham recebido nada. “O ministro prometeu dez dias e nem dez horas temos [para classificar]”, lamentou a professora de Português.
O processo de classificação em curso aplica-se aos exames nacionais realizados na primeira fase; mas ainda se segue a segunda fase. “Mais uma vez, apelávamos a que a segunda fase [dos exames nacionais] passasse para o início de setembro, se se conseguir concluir esta primeira fase de forma mais tranquila, e aferir se vale a pena mantermos a classificação digital nos modos em que ela está”, afirma Cristina Mota. A segunda fase dos exames nacionais tem arranque previsto para 21 de julho, depois da alteração de datas decidida pelo Governo.
A seu cargo, a também professora de Matemática teve a classificação de 324 itens e deu conta de 90 nulos, ou seja, itens em que a resposta dada pelo aluno foi em branco. A sua correção está terminada, mas na plataforma ainda falta um elemento importante: o botão de “finalizar”, último passo de todo o processo.

“Falta o botão. Numa das intervenções da plataforma, desapareceu. Se bem que ele não está previsto no guião… Eu por exemplo, tenho as minhas classificações dadas por concluídas e não me aparece o botão do finalizar. Não sei se elas estão entregues; o manual do classificador diz que o processo está terminado quando todos os itens forem dados por concluídos. Efetivamente, eu tenho neste momento todos os itens dados como classificados — e não consigo finalizar“, explica Cristina Mota.
Na plataforma MetaProf, que recolhe e valida os testemunhos de professores classificadores de todo o País, outra professora relatou que, no fórum da supervisão e classificação, leu que “o botão Finalizar será disponibilizado na data-limite definida para o processo de classificação”. Mas surgem ainda queixas de classificadores com folhas em falta, problemas no acesso ao SCOI e até de itens só com folhas de continuação, isto é, sem o início da resposta.
No dia 13, a Missão Escola Pública detalhou ainda que os agrupamentos do Júri Nacional de Exames (JNE) tinham contactado os secretariados de exame das escolas via email com vista a esclarecer sobre a que versão do exame, A ou B, responderam os alunos, “porque não conseguem saber qual a versão a que aquelas provas dizem respeito”. “Já li que o aluno não preencheu, que as escolas é que não enviaram, mas com tudo o que tem acontecido, neste momento a minha principal questão é: o que é que nos diz que não foi uma folha extraviada no centro de digitalização?”
Escolas aguardam guião para disponibilizar provas aos alunos
As regras determinam que, antes de avançarem para a reapreciação do exame nacional, os alunos devem consultar a sua prova através de um pedido ao diretor. Porém, este ano, as escolas ficarão aliviadas desse processo devido à disponibilização da prova a cada aluno, através de um link.
“A confiança no rigor da avaliação externa é indispensável para a credibilidade no sistema educativo. Essa confiança constrói-se com transparência, razão pela qual o MECI tornará simples e rápido o acesso dos alunos às suas provas digitalizadas, permitindo-lhes verificar a integridade das suas provas e conhecer as suas classificações”, frisou a pasta liderada por Fernando Alexandre no comunicado desta terça-feira. “Esse acesso será concedido através das escolas, uma vez que o anonimato dos exames apenas pode ser quebrado nas escolas, não havendo forma de, centralmente, fazer corresponder os números convencionais das provas e a identidade dos alunos.”
Os representantes dos diretores escolares souberam alguns detalhes no dia 14, quando se reuniram com o ministro. Filinto Lima, da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), explica ao Observador que as escolas — onde é desfeito o anonimato das provas — vão receber um guião sobre como proceder.
https://observador.pt/2026/07/13/diretores-nao-tem-relatado-constrangimentos-na-correcao-dos-exames-nacionais/
“Vamos fazer uma tarefa numa plataforma que o Ministério irá disponibilizar em breve, com o email do encarregado de educação e o número convencional da prova. Os alunos vão ter acesso automaticamente à sua prova”, descreve ao Observador. “Só nós é que temos acesso a esses dados, quando estivermos a tirar o anonimato.”
As provas foram digitalizadas folha a folha nas 70 máquinas colocadas no armazém em Mem Martins. Primeiro, foi captada folha a folha, a que corresponderam ficheiros PDF organizados por escola e código de prova. De seguida, estes foram cortados item por item, sendo que cada um foi carregado numa plataforma de distribuição para ser acedido pelos professores classificadores que, este ano, corrigiram itens em vez de uma prova inteira.
https://observador.pt/2026/07/14/professores-convocados-para-classificar-exames-a-poucas-horas-do-fim-do-prazo/
Cristina Mota preocupa-se com a integridade das provas que possam chegar aos alunos. “Não sabemos em que estado poderá estar neste momento o exame de um aluno. O que é certo é que não se conseguiu associar folhas de continuação a todos os exames.”
Por todos os problemas, Filinto Lima antecipa que a percentagem de provas de que é pedida a reapreciação — e que estima em 2% — cresça. Os pedidos podem ser feitos, mediante requerimento, nos dois dias úteis seguintes à afixação das notas. “Estou preocupado com a situação se o número aumentar substancialmente”, confessa. “Mas neste momento, temos que aguardar.”
[Um poderoso empresário concorre à Câmara de Lisboa e vai fazer tudo para ganhar as eleições, ao mesmo tempo que vive um drama familiar: o filho foi raptado e está desaparecido há quase um mês. Onde está afinal José Valbom? “O Candidato Perfeito” é o novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, e é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]
