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"A Odisseia”: Christopher Nolan retalha e destrata Homero

Christopher Nolan pegou na "Odisseia" de Homero e filmou uma versão "woke", fatiada, baralhada e deficitária de empolgamento e de maravilhoso do poema épico. Eurico de Barros dá-lhe uma estrela.

Eurico de Barros
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Se, antes de realizar A Odisseia, Christopher Nolan tivesse visto filmes como Helena de Tróia, de Robert Wise e Raoul Walsh (1956), A Guerra de Tróia, de Giorgio Ferroni (1961), ou Ulisses, de Mario Camerini (1954), esta a mais bem conseguida adaptação de sempre da Odisseia ao cinema, com Kirk Douglas no melhor Ulisses de todos, o mais próximo, física, emocional e psicologicamente, da descrição de Homero; ou mesmo a minissérie Odisseia, de Andrei Konchalovsky (1997), produzida pela Zoetrope de Francis Ford Coppola, quase de certeza que o seu filme tinha sido diferente.

Mas não o deve ter feito, e ainda por cima, curvou-se à ideologia vigente. Em A Odisseia, além de maltratar de forma desastrada o poema épico de Homero, Nolan aplica-lhe à força, e contranatura, a pauta woke. A Grécia antiga nele representada faz-se de uma multiculturalidade anacrónica que se estende às personagens mitológicas e mesmo aos deuses do Olimpo. É absurdo, tapeado e ridículo, é moeda falsíssima, historica, mitologica e culturalmente falando. Christopher Nolan transformou Homero em “Wokemero”.

[Veja o “trailer” de “A Odisseia”:]

https://www.youtube.com/watch?v=Mzw2ttJD2qQ

O realizador de O Terceiro Passo e Interstellar tinha o trabalho facilitado por Homero, mas em vez de optar pela narração linear, clássica, preferiu complicar. E ao complicar, retalhou e baralhou A Odisseia com toda a precisão de um talhante canhestro e com pretensões a cirurgião. O filme é uma constante jiga-joga, decorre numa complicação temporal, não pára de andar para trás e para a frente, dificultando a leitura e a compreensão ao espectador. Veja-se o episódio de Ulisses e de Calipso, que surge abruptamente e vai sendo (mais ou menos…) explicado aos bochechos, para logo a seguir o herói aparecer, de súbito, na praia em Ítaca. Se quem conhece e leu o poema deita as mãos à cabeça, quem nunca o leu, fica a ver navios.  

Christopher Nolan também não percebeu que A Odisseia é uma grande aventura fantástica, uma das maiores e mais inventivas da história da literatura do Ocidente. O filme é falho dessa dimensão, deficitário no rasgo de empolgamento, no sobressalto de maravilhoso, na capacidade de espantar. Como se vê nas sequências da caverna do ciclope Polifemo e da passagem de Cila e Caríbdis, filmadas como num jogo de vídeo; ou no banalíssimo encontro com Circe, que em vez de um palácio vive num casebre e transforma os homens de Ulisses em porcos à mão (!). Mais trivial e rasamente imaginativo, é difícil. (E por que cargas de água está o Cavalo de Tróia meio enterrado e torto na praia? E porquê transformar o massacre final dos pretendentes de Penélope numa cena de filme de ação espalhafoso?)

[Veja uma entrevista com Christopher Nolan:]

https://www.youtube.com/watch?v=p9FVmn4DUog

Ulisses é sem dúvida uma figura complexa, mas em A Odisseia, Christopher Nolan parece querer despi-lo em grande parte da sua condição heróica, ao mesmo tempo que esbate a dimensão épica da história. A inteligência, a coragem e a astúcia da personagem são relegadas para segundo plano. Este Ulisses de Matt Damon é soturno e ensimesmado, torturado e assaltado por dúvidas, e o seu ato de contrição piedoso e “pacifista” no flashback do saque de Tróia soa postiço e deslocado, não pertence à personagem nem à época. É um discurso bem próprio do nosso tempo que lhe é enxertado na boca.

[Veja uma entrevista com Matt Damon:]

https://www.youtube.com/watch?v=yFlK6ZRAsao

O elenco é outro dos aleijões de A Odisseia. Do Ulisses monocórdico e trombudo de Matt Damon, que mais se diria um trolha desempregado de Brooklyn do que um herói mitológico, ao Telémaco pião das nicas de Tom Holland, passando pelo Antínoo indiferente de Robert Pattinson, pelo inverosímil soldado do meia-dose Elliot Page ou pela Atena enjoadinha de Zendaya, não há no filme um só ator que tenha o físico e a atitude, os traços característicos, o porte ou a garra dramática requeridos pela personagem que encarnam. E ao contrário de praticamente todas as versões para cinema e televisão que a antecederam, esta Odisseia não tem um único intérprete grego, nem sequer num papel secundário.   

Junte-se a tudo isto a duração mal gerida e mal aproveitada do filme (quase três horas); a banda sonora ribombante e inútil, e a dramaturgia pobrezinha; a ausência de um arco dramático que nos transmita a progressão da narrativa e a passagem do tempo (as personagens estão sempre a falar dos muitos anos que passaram, na guerra de Tróia, na viagem de volta e na espera por Ulisses, mas nunca os sentimos); e a disparidade abissal entre os meios financeiros, técnicos e tecnológicos de que Christopher Nolan dispôs — a rodagem foi em IMAX —, e os modestos e contestáveis resultados que apresentou, e só apetece dizer perante A Odisseia: valha-nos Zeus mais todos os habitantes do Olimpo.