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(A) :: Brilhos, leques ao alto e ancas ao chão. "É clima de Carnaval em Portugal!", anuncia Anitta a 30 mil pessoas em Algés

Brilhos, leques ao alto e ancas ao chão. "É clima de Carnaval em Portugal!", anuncia Anitta a 30 mil pessoas em Algés

O primeiro concerto a solo da brasileira em Portugal teve estrutura de festival, atmosfera de Carnaval e fãs de vários países. Nos seus Ensaios da Anitta, dançou com 30 mil pessoas por cinco horas.

Larissa Faria
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Diogo Ventura
photography

Estamos num dia quente de julho em Lisboa, mas neste sábado o Passeio Marítimo de Algés foi também um pouco do que é o Brasil em fevereiro e março. E não falamos só das altas temperaturas: a atmosfera de liberdade, diversidade e alegria do Carnaval foi trazida por Anitta, que realiza pela primeira vez em Portugal um concerto a solo, com o seu Ensaios da Anitta. Já cá esteve em duas edições do Rock in Rio (2018 e 2022), Meo Marés Vivas (2022) e MEO Sudoeste (2019 e 2024), mas sabendo que conseguiria fazer o seu próprio festival, fê-lo.

Na fila, a maior parte dos fãs investiu em outfits que remetem ao tema desta digressão: cosmos. Anitta vestiu-se de encarnado, a incorporar a carta de tarot Imperatriz, que refere “recordar que beleza e força caminham juntas”. Estrelas, brilhos e lantejoulas eram os elementos mais presentes entre o seu público, com um acessório a destacar-se entre todos: o leque. Com as cores do arco-íris, estampado com o rosto de Anitta, personalizado com o seu nome com cristais. Por aqui, não tem só a função de refrescar, mas também de ser abanado com força ao ritmo das canções. Tal movimento que atravessou o Atlântico ganhou força no Brasil em concertos com o público LGBT. “Nenhum tipo de preconceito será tolerado”, diz um dos avisos no recinto antes de a cantora subir ao palco, pelo que o público vibra e aplaude. Há casais de todos os géneros, pais com os filhos e jovens, muitos jovens a dançar até ao chão.

Apesar do nome, não se trata de um ensaio. Os concertos ganharam este nome por seguirem o registo daqueles que a cantora do Rio de Janeiro organiza antes das apresentações carnavalescas — como uma antecipação para os milhões de pessoas que seguem o seu trio elétrico [um camião com palco, que se desloca ao longo de grandes avenidas durante o feriado religioso, como um concerto móvel]. “É para o público sentir que está numa festa junto comigo, um ensaio dentro da minha casa, algo mais intimista”, explica aos jornalistas nos bastidores.

Por cá não é feriado, mas Anitta esgotou os 30 mil bilhetes para quem queria não só vê-la cantar os seus principais hits de funk brasileiro com uma veia pop — que é como ela gosta de descrever o ritmo do qual é a percursora quando se trata de retirar o estigma de remeter somente às favelas e criminalidade. Incluiu também algumas das faixas do álbum mais recente, Equilibrium [cuja segunda parte será lançada a 23 de julho], e canções de axé de nomes como Ivete Sangalo. O tecnomelody e o brega pop, também ritmos de destaque nas plataformas de streaming de música, foram representados por uma participação breve da também brasileira Viviane Batidão.

Mal o NOS Alive foi encerrado na semana anterior, uma equipa de mais de duas mil pessoas começou a montar uma estrutura também digna de festival. Afinal, são cinco horas de concerto de Anitta, que aproveita para ir à casa de banho e hidratar-se quando os seus convidados entram para fazer participações no palco. Para esta edição, chamou Bárbara Bandeira, que confessou à plateia estar “muito, muito nervosa, mesmo estando em casa”. Depois, vieram os Calema para partilhar com ela o palco e a vibração do público. Anitta, de microfone na mão e claramente à vontade, não se intimida em pedir à produção para lhe entregar uma fatia de pizza para dar uma dentada entre uma dança e outra.

Apesar da lotação, há espaço suficiente para dançar ou mesmo sentar no chão, tal como na maioria dos festivais. Se a própria Anitta precisa das suas pausas, o público também. Afinal, alguns dos fãs chegaram a passar 18h na fila, como é o caso de Micael Jacob, português que vive na Alemanha. Após a viagem de avião, teve ainda energia para dormir com uma manta térmica no chão, à porta do Passeio Marítimo de Algés. Passou ali a madrugada, pois queria ser o primeiro da fila. Mas não foi o único a percorrer uma grande distância: num grupo de WhatsApp criado por fãs para partilhar fotos e informações sobre o evento, contabilizavam-se pessoas a viajar de França, Espanha, Inglaterra, Suécia, Itália e Luxemburgo. Houve até quem tenha fugido do inverno no Brasil para viver o Carnaval no verão de Portugal.

Anitta conhece a sua expansão internacional, e, por isso, cumprimentou o público em português, inglês, espanhol, francês e italiano. “Vou ter de aprender mais línguas“, ri-se. Anitta fala fluentemente todos aqueles idiomas, nos quais já gravou temas com artistas dos respectivos países. Mesmo que a maior parte das canções selecionadas para a apresentação em Lisboa sejam em português, o público acompanha letra a letra, entre bandeiras do Brasil, França, Cabo Verde e Portugal [Madeira incluída]. Excursões organizadas por fãs em várias zonas de Portugal rumo a Lisboa esgotaram, bem como as after parties temáticas das discotecas Posh e Trumps.

O quarto e último convidado da noite é o italiano Fred de Palma, com quem Anitta canta pela primeira vez num concerto La Testa Gira, anunciada em maio pela dupla e a canção mais ouvida nos streamings esta noite em Itália. Paloma e Un Altro Ballo, lançadas logo ao início da pandemia de Covid-19, também entraram na setlist, sendo agora cantadas a plenos pulmões pelo público que acompanha as letras em italiano.

Aos jornalistas, Anitta confessou que as primeiras edições dos seus Ensaios no Brasil, iniciados em 2019, foram “um fracasso”. Mas com a experiência acumulada ao longo dos anos, o evento consolidou-se. “Gosto de me dedicar em tudo o que faço. Não é fácil um artista preencher um espaço grande como este fora do seu país, então estou muito feliz e emocionada”, diz. Dadas as proporções do seu concerto, os Comboios de Portugal e a Polícia de Segurança Pública fizeram uma operação especial para dar apoio ao público, que permaneceu, em sua maioria, até ao final da festa. Com a atração principal a puxar por isto. “Há alguém aí cansado?”. Pelos gritos como resposta, parece que não. E então Anitta continua, mesmo que no dia seguinte tenha concerto marcado em Berlim como headliner no Lollapalooza alemão. Antes de partir para a viagem, cumpriu em Algés as cinco horas que prometeu entre cantar, dançar e acompanhar a sua banda a tocar alguns dos tambores, para um verdadeiro Carnaval brasileiro em Portugal.