Não está previsto, não é desejável, nem nenhum ministro alguma vez verbalizou junto da cúpula do Governo que defendia uma moção de confiança. O ex-ministro e antigo secretário-geral do PSD, Miguel Relvas, disse na segunda-feira na CNN que era possível o país cair “numa situação em que há vozes na área governamental que defendem que o Governo apresente uma moção de confiança.” Uma fonte destacada da AD diz ao Observador que se trata de “um delírio” do antigo homem forte do PSD de Passos Coelho.
A estratégia do Executivo é, aliás, contrária a qualquer ato, como seria uma moção de confiança, que provoque instabilidade política. O Governo de Montenegro quer deixar passar o comboio de tempestades políticas (de exames nacionais e obras de Luís Neves) e garantir uma tranquilidade que permita continuar a governar (via propostas no Parlamento e via Governo) e aprovar o Orçamento para 2027.
Uma outra destacada fonte do PSD, que em virtude das funções que ocupa fala transversalmente com todos os ministros, diz ao Observador que nunca ouviu “tal absurdo“, que as declarações de Miguel Relvas são a “coisa mais obtusa” que existe e encurta a conversa para dizer que nem quer “dar mais para esse peditório”.
Outro dirigente de topo da AD diz que uma moção de confiança “é um cenário que não está em cima da mesa, nem na gaveta”. A mesma fonte afirma que, “independentemente da imprevisibilidade das sondagens”, esta ideia “não tem sentido nenhum” e que “não há nos ministros qualquer tipo de inclinação para provocar uma crise política”. Além disso, acrescenta, “apresentar uma moção de confiança seria fazer favor aos dois líderes da oposição e um desfavor ao Presidente da República, que acabou de chegar, que tem como mantra a estabilidade e que disse que não dissolvia o Parlamento”.
A fonte social-democrata explica depois porque é que “a tese de Relvas não tem cabimento“, pelo menos do ponto de vista do Executivo: “Vamos começar a ter resultados mais para frente, com a entrega agora de 26 mil casas, mais os efeitos da desburocratização do Gonçalo Matias, que se vão começar a sentir, a crise do Irão vai começar a melhorar, por que razão é que nos vamos mandar para eleições quando os ativos eleitorais que eu tenho vêm todos mais tarde e os inativos eleitorais, que são os ministros pressionados, estão agora com toda a atenção mediática?” A mesma fonte diz ainda que a questão é “descabida do ponto de vista do Governo”, mas “pode não ser do ponto de vista do [Miguel] Relvas: se uma moção de confiança fosse chumbada, provocava a demissão do Governo, e ele pode achar que convocava um Conselho Nacional para escolher o outro que quer para primeiro-ministro”, numa referência a Passos Coelho.
O “Miguel conta zero” ou tem força no PSD?
Miguel Relvas tem sido dos maiores críticos do Governo de Luís Montenegro, em particular no espaço de comentário que tem na CNN Portugal. Mas não só. Nas vésperas do Congresso do PSD, em entrevista ao programa Vichyssoise, da Rádio Observador, criticou a falta de ímpeto reformista do Governo. E fê-lo de uma forma especialmente corrosiva: “Este Governo é muito parecido com o governo de António Costa e isso irrita-me profundamente”.
Questionado sobre essas parecenças com Costa, Relvas afirmou que os membros do Governo “gostam de estar submetidos à ideia de que são poder e o objetivo é perceber como é que conseguem continuar no poder”: “Acho que é muito mau. Temos de ter convicções. E quem vai para este Congresso a pensar que é dono do partido e que o partido o ama, esqueça.” E deixava ainda uma advertência: “Quem acha que o partido gosta deles, que os acha muito bonitos e tal, que o partido é deles… Não é. Toda a liderança é efémera.”
Fonte próxima da atual liderança do PSD desvaloriza o peso de Miguel Relvas, dizendo que, “neste momento, no PSD, o Miguel conta zero“. A mesma fonte admite que, no passado, o antigo secretário-geral teve “peso no aparelho” e que continua a ter “muitos amigos”, mas “tem muito pouca informação vinda de dentro”.
Miguel Relvas é visto como o “grão-mestre dos passistas”, numa altura em que o próprio Pedro Passos Coelho não só tem vindo a desvincular-se como tornou os seus reparos ao Governo de Luís Montenegro mais ácidos. Montenegro também continua atento a essas movimentações. Atualmente, só haverá um ministro que ainda fala com regularidade com Miguel Relvas. Há quem comente na AD que, embora não fosse a razão principal, também terão pesado nas saídas do ministro Pedro Reis, e especialmente do secretário de Estado das Comunidades, José Cesário, as ligações que mantiveram a Miguel Relvas quando estiveram no primeiro governo de Montenegro. Cesário, que é muito próximo de Relvas, fez questão de dizer publicamente que não tinha saído por vontade própria, mas do primeiro-ministro.
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