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Ginásio, comida de chef, chinelos nos pés, e Benito no ar: uma manhã no quartel general da Zara

Imagine que recebe uma notificação de cada vez que se vende algo na Zara. Na sede da Inditex, em Arteixo, vimos o planeamento ao segundo -- e como nasce uma peça até chegar às lojas em duas semanas.

Maria Ramos Silva
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Sem sanduíches disponíveis a bordo, resta-nos enganar a fome com uma paleta de ibéricos, uma escolha tão inusitada quando oportuna. Georgina Rodríguez, a mesma que no seu reality show revelava a elasticidade do gosto, não enjeitaria a escolha: “Me encanta Hermes, me encanta Gucci, me encanta Prada, me encanta Louis Vuitton, me encanta el grupo Inditex, me encanta Decathlon.” é umas das frases que se poderia estampar numa t’shirt – e eventualmente estar pendurada num destes charriots.

Também a gigante espanhola é democrática no público que abrange e na receção de visitantes na sua sede, de Anna Wintour e as páginas glossy da Vogue a Rosalía, que provocou um frisson em 2024 quando apareceu para visitar o quartel-general da Zara em A Coruña, guiada por Marta Ortega e o seu marido, Carlos Torreta. “Esteve aqui, mas não chegou a cantar. Fez uma visita menos detalhada que a vossa”, explicam-nos, quando entramos no auditório com palco, onde um dia antes decorreu a reunião anual do conselho consultivo.

Se a cantora catalã já colaborara com o grupo para uma linha na Pull&Bear, recentemente outra associação de peso deu que falar. Bad Bunny, ele mesmo, não só atraiu milhões de olhos sobre si no último Super Bowl e na Met Gala, vestido de Zara, como convocou para a sua famosa casita durante um dos concertos em Espanha a presidente do conselho de administração. Benito Antonio está um pouco por todo o lado neste complexo de edifícios, onde o cru industrial do exterior, ao estilo de naves de betão, contrasta com a tranquilidade do branco dos interiores, ou as enormes janelas com vista para o verde em redor e para uma região onde os meses estivais são tímidos e, sem surpresas, permitem uma folga de pelo menos dez graus em relação à temperatura em Lisboa.

Bad Bunny está também na banda sonora em fundo, e nos vídeos gigantes instalados em cada piso, que fazem eco da sua coleção especial para a marca, com peças produzidas em Portugal. Não se confirma nem desmente que se tenha submetido a prova de fitting no departamento de patronagem, onde mãos atarefadas tratam dos moldes de cada peça piloto, que uma vez terminada segue para os fornecedores. Mas não custa imaginar que tenha voado de “Nueva Yol” para o norte de Espanha.

Ao estilo de campus universitário de topo, há um ginásio para os colaboradores Zara com diferentes modalidades e slots, e um refeitório por 3,50 euros para uma escolha variada que vai da grelha aos pratos flexitarianos, das sugestões de chef à fruta da época – e onde não é impossível avistar o fundador Amancio Ortega, cuja omnipresença aos 90 anos se mantém, garantem-nos. Contam também com o restaurante Metropolitano e o Amazónico, que resulta de parcerias rotativas com restaurantes locais (e um novo está a caminho).

O horário laboral é das 9 às 18, sexta-feira só se trabalha de manhã, e é possível estar à secretária de chinelos nos pés e com eles circular pelos milhares de metros quadrados de área — só o novo edifício, inaugurado em janeiro de 2025, tem 150 mil. Mal seria se a casa que acompanha ao segundo o que se veste lá fora fugisse ela própria às tendências. Não há um uniforme oficial, nem é forçoso vestir Zara – “posso vir como quiser, de H&M e ténis Nike”, partilham – mas a parceria recente com a Havaianas talvez ajude a explicar a concentração de borracha nos pés que vimos nesta manhã de julho. E é natural que encontre meio mundo vestido com produtos da casa – até porque, sim, têm desconto na compra e acesso a um silo de recolha específico para as compras que os funcionários Zara fazem online. E, não, não vimos ninguém tropeçar com as já famosas “calças assassinas”, o fenómeno viral do verão.

Equipas comerciais começam por definir o preço que cada artigo deve custar

Imagine que recebe uma notificação no seu telefone de cada vez que se vende uma peça da Zara. Na Inditex, não se trata propriamente de um smartphone mas de um ecrã gigante onde os empregados se inteiram das vendas em tempo real, oriundas das lojas e do online (que representa cerca de 25 por cento do volume global de negócios do grupo). Uma ferramenta decisiva para perceber o que vende mais, onde, quando e por que motivo, por exemplo, produtos iguais têm desempenhos diferentes em mercados comparáveis. A resposta pode estar em atributos tão simples mas relevantes como o nível de exposição na loja.

São métricas como esta que permitem garantir que duas vezes por semana as lojas Zara físicas e canais online, recebem novas coleções, para uma resposta praticamente em tempo real à vontade do cliente. A esta hora da manhã, o mercado Europeu ainda abre a pestana, enquanto a Ásia já fecha as contas do dia. O painel acompanha o desempenho das diferentes categorias dentro da loja, das peças mais tendência que se arrumam na entrada dos espaços, à gama mais casual e de fatos, e por fim, no fundo das lojas Zara, o streetwear ou urban. Neste caso, mostra-nos os campeões de vendas atuais no segmento masculino: um blusão preto, umas calças de ganga cinzentas e uma t’shirt preta. Até esta altura, 88 mil unidades no total tinham sido vendidas, para um encaixe de cerca de 520 mil euros.

Se o aparelho concentra atenções de quem passa, qual efeito magnético de uma slotmachine, o ambiente clean nestes vastíssimos open spaces com mesas corridas, ecrãs e espaço desimpedido das mesas é de um nível de ruído quase impercetível. Mal se ouve um alfinete, num contraste absoluto com a agitação das lojas, sobretudo em época de corte nos preços. “Estamos em fase de transição, mais parada, entre saldos e nova coleção.”, enquadram.

Fiel ao próprio conceito Zara, assente no retalho tradicional e reforçado pelo digital, também os velhos métodos entram em cena para formar o balanço. Num ritmo quase diário, explicam-nos que os responsáveis de loja de todo o mundo ligam ou enviam emails para este departamento fornecendo contexto sobre a marcha das vendas, o que é preciso afinar ou compreender melhor sobre o desempenho de cada produto. Ter à venda peças de 169 euros? Pode não ser habitual num destino mas justificar-se o encaixe especial numa semana da moda. Já agora, fica a saber que sempre que há jogo do Benfica (ou concerto de Bad Bunny, sempre ele, no estádio da Luz), as vendas disparam na loja do CC Colombo, o que pode motivar um reforço de roupa mais festivaleira.

Pedro Sousa, português há dez anos na Galiza (e um dos muitos nacionais na empresa) começou na loja Zara da Boavista, no Porto, um trajeto semelhante ao de muitos funcionários da casa, que se estrearam no atendimento ao público e foram escalando. Hoje mostra-nos os diferentes pontos deste piso onde se entrecruzam algumas das etapas, em regime de grande proximidade. Ao fundo, um pequeno ajuntamento de responsáveis de países confere de perto as novidades da estação que vai entrar em loja em setembro e outubro, despistando necessidades. Todas as temporadas fazem duas apresentações, ao longo das quais é possível traçar algumas preferências consoante os distintos mercados. O gorpcore e o vestuário técnico dominam na Ásia, os responsáveis dos países quentes como Porto Rico e Panamá costumam pedir adaptações de coleções, e as compras especiais que são feitas para as lojas portuguesas incluem muito vichy, chinos e camisas de popeline.

“Tudo começa e acaba no controlo de gestão, dos orçamentos à análise de resultados. Do design ao merchandising, é um ciclo que conecta todas as equipas.” A área onde estamos é ocupada por 350 designers Zara, metade do número total de designers do grupo Inditex, cujo trabalho começa em sintonia com o departamento de tecidos, para fazer os primeiros recortes. Alguns padrões já estão gravados. Se parte dos funcionários estão de volta da coleção de setembro, outros já a pensar no próximo ano.

É na mesa de compras que se negoceiam as matérias-primas, e detalhes de  produção, definindo datas de entrega. O grupo não assume um volume elevado de compras no início de cada estação e uma parte muito significativa  da produção — principalmente os artigos com uma forte componente de tendência, que requerem capacidade de reação ao longo de cada campanha — é realizada nos mercados próximos da sede, uma estratégia de flexibilidade que permite ainda que as equipas comerciais definam primeiro o preço a que cada artigo deve ser  disponibilizado e, a partir dessa decisão de marcação, estabeleçam os processos necessários para o alcançar.

Da ficha técnica de cada produto às lojas-piloto de cada secção

Em redor, avistam-se vários charriots com roupa suspensa, réguas, fitas métricas que se desenrolam dos bolsos ou se penduram no pescoço, alfinetes, rolos de tecido, e manequins que replicam as dimensões exatas dos tamanhos que trabalham, e que os fornecedores também têm na sua posse. Quando chegam à amostra final, entram ao serviço os modelos de carne e osso a experimentar as peças ao fundo, para ver se tudo assenta como esperado.

Num outro ponto, faz-se o double check a todos os pequenos erros que é preciso corrigir, depois de um controlo de qualidade final no armazém onde recebem os artigos. “Também o departamento de sustentabilidade se mete se no meio para garantir cumprimento dos parâmetros.”

Cabe aos designers de cada família de produto das cadeias do Grupo Inditex (Zara, Pull&Bear, Massimo Dutti, Bershka, Stradivarius, Oysho, Zara Home e Lefties), analisar as vendas de produtos comparáveis do ano anterior — trabalho desenvolvido  pelos gestores de produto, compradores e pela equipa de controlo de gestão comercial. A abordagem parte de uma primeira versão em papel, integra a tela de ensaio, a gradação de tamanhos e as provas de entretela. Ao longo de  aproximadamente uma semana, são produzidas várias amostras de cada peça, que as equipas de design, modelagem  e comercial analisam em pormenor até validarem a ordem de produção.

Cada novo design é registado numa ficha técnica, a partir da qual a área de modelagem prepara, na sede do Grupo, um primeiro protótipo industrial. Essa fase é desenvolvida num piso inferior, no centro de patronagem, uma espécie de “zona zero” de operações. “Pode haver muitas ideias lá em cima mas é aqui que tudo se materializa e de onde sai a ficha técnica para o fornecedor. Num ambiente de moldes e tecido, assistimos às tarefas das modelistas, sendo que cada protótipo é feito do princípio ao fim por uma só pessoa. Mais adiante, encontramos manequins com bebés com fralda e de diferentes tamanhos de adulto suspensos em charriots que servem de base à criação; máquinas de recorte a laser de onde saem as diferentes peças de cada puzzle de roupa; e por fim a sala onde costureiras unem mangas e outras partes, finalizando o resultado. Numa área à parte, ganham vida os protótipos da Zara Studio, o segmento premium.

Há diferenças na gestão de senhora e homem?, interrogamos. “Ligeira diferença, o produto vai mais agrupado para as lojas, há mais recorrência à loja nas senhoras, mais novidade, menos coleção fechada”, enquadram-nos, confirmando que as senhoras compram muito mais do que os homens.

Seguimos para o departamento Zara.com, onde o foco está em tudo o que se passa na web do universo Zara, e onde as áreas de homem, mulher e criança surgem juntas. “O comportamento de um cliente é misto, pode começar por ver a coleção do Benito e acabar em mulher”. Por aqui concentram-se também digital, marketing, análise de problemas de tráfego, a gestão dos pushs na aplicação Zara – “temos política de não saturar o cliente” – ou as newsletters. Ao lado, o departamento de atenção ao cliente e a coordenação dos call centers.

Mais adiante, conhecemos um dos (atuais 30) centros de distribuição do e-commerce, onde funciona uma réplica do posto de trabalho, das caixas e papel que é necessário para embrulhar uma encomenda ao robot que recolhe da estante o que o funcionário precisa para despachar a caixa. Um ecrã gigante mostra em tempo real as movimentações no centro de distribuição mais próximo, um avassalador corropio de embalagens.

Por falar em compras online, quando clica numa peça no site da Zara e a vê vestida por um modelo, talvez não imagine que cada uma delas tem que ser fotografada ao vivo e a cores e em formato still life. Subimos aos estúdios de fotografia (plateaux), onde são produzidas as campanhas e os conteúdos visuais da marca – e provavelmente a única zona de todo o complexo onde se escuta música pelo espaço, e onde há pequenos cubículos. A banda sonora é sempre escolhida pelos manequins que estão a trabalhar, neste caso “Lay Lady Lady”, na voz de Bob Dylan. Uma equipa de fotógrafos, produtores, stylists, cabeleireiros e maquilhadores assegura que é possível realizar fotos a alta velocidade e fazer a seleção em tempo real, um processo que se repete milhares de peças, tantas quantas as peças disponíveis.

Já agora, desde dezembro de 2025 que uma nova funcionalidade da marca permite criar um avatar digital do cliente quando visita o site da marca. Em dois minutos, pode ver como fica com vários outfits da Zara fazendo um upload de uma foto de corpo inteiro – não estranhe se o feedback o beneficiar largamente e lhe der vontade de comprar mais.

A visita não termina sem uma passagem pelo longo corredor com lojas-piloto de cada secção, onde se ensaiam previamente disposições em loja, iluminação, banda sonora, sistema de ar condicionado, entre outros aspetos decisivos no processo de compra — além de podermos ver em jeito de preview parte da coleção que há-de chegar ao mercado em breve. Ao estilo apartamento, esmerado nas madeiras, cada espaço generoso está mobilado com ambição arquitetónica, uma fórmula que ainda não chegou em pleno a Portugal.

É também por aqui que se ensaiam renovadas experiências de venda que vão sendo implementadas nas diferentes lojas mundo fora. Desde logo, ir cortando nos frontais de lojas e nas inestéticas filas de espera, e reforçando as valências da tecnologia RFID (Identificação por Radiofrequência) integrada nas etiquetas de todas as peças de roupa para otimizar a cadeia de abastecimento e melhorar a experiência de compra. Este sistema permite uma gestão de inventário quase em tempo real, a substituição dos alarmes físicos tradicionais por fios integrados nas costuras e pagamentos rápidos através de caixas de autoatendimento que reconhecem os itens instantaneamente. Para já, a experiência está a ser feita em nove mercados, incluindo cinco lojas em Portugal, com a venda em mobilidade (o que permite por exemplo comprar em pontos como o provador, através dos aparelhos dos funcionários). A 1 de julho, apresentaram também a etiqueta acessível, por uma questão de inclusividade, que permite a invisuais um acesso facilitado aos detalhes de cada peça.

Uma das novidades aguardadas com mais curiosidade é o resultado da colaboração entre John Galliano e o arquivo da Zara, que “já está pronta”, mantida sob sigilo máximo, e que se estima que possa ser lançada por ocasião da semana da moda de Paris, em finais de setembro. Premium, de edição limitada e posicionamento mais elevado, esta linha tem cultivado ligação a nomes de primeira água do setor, como Stefano Pilati, ex-designer da Yves Saint Laurent e Ermenegildo Zegna, e a lente do celebrado fotógrafo Steven Meisel.

Por falar em imagem, reforçar o vínculo à dimensão cultural do universo da moda tem sido um esforço da cúpula, desde logo através da fundação MOP. No porto de A Coruña, no lugar de antigos silos antigos que outrora armazenaram trigo, ganha vida o projeto lançado em 2022 por Marta Ortega (e a biblioteca de moda por si doada, acessível por requisição). Por estes dias, a fundação acolhe a exposição dedicada ao trabalho do fotógrafo italiano Paolo Roversi. Depois do light painting de Roversi e da sua câmara Deardorffm de grande formaro comprada em Nova Iorque em 1980, das polaroids e de todos os milagres de revelação e respetivas imperfeições acarinhados ao longo dos anos, David Simms é o nome que se segue. Desde o ano passado, passaram também a ter exposições no verão.

Fornecedores, colaboradores, um café e um Apartamento Zara

Pode parecer sugestão mas não estranhe se circular por A Coruña e sentir que quase todos estão vestidos de Zara, em particular, ou Inditex, em geral. Também não estranhe que alguém conheça sempre alguém que está ligado ao grupo, que só aqui neste complexo emprega cerca de 5 mil funcionários, mais 800 no vizinho polo da Bershka. É em Arteixo que se situa o centro da Zara e Zara Home, enquanto o resto do grupo está localizado em Barcelona. A produção é realizada em cerca de 50 países, sendo uma parte significativa concentrada em quatro pontos de proximidade: Espanha, Marrocos, Turquia e Portugal, onde a Inditex trabalha com mais de 400 fornecedores têxteis, especializadas em operações de corte, confeção, tingimento, lavagem, estampagem e acabamentos (em termos de volume, Marrocos e Turquia ultrapassam-nos). Segundo dados da marca partilhados com o Observador, o volume de produção no país tem-se mantido estável nos últimos anos. Dispõem de 11 centros logísticos, dos quais 10 estão localizados em Espanha e 1 em Lelystad, nos Países Baixos.

Ao ritmo da marca fundada em 1975 por Amancio Ortega, o futuro é planeado ao segundo e o longo prazo uma certeza altamente condicionada pelas tendências impostas pelo mercado. Mas uma coisa é óbvia: chegados a 2026, por mais que a revisão dos posicionamentos nos diga que vender roupa não basta – e esteja até para lá do aceitável num mundo saturado de têxteis – a verdade é que os números nus e crus são elucidativos sobre o desejo de compra. Entre fevereiro e abril de 2026, atingiram 8,75 mil milhões de euros em vendas, um aumento de 8,8% face ao periodo anterior. O lucro bruto aumentou 6,9% (para 5,4 mil milhões de euros) e o lucro líquido subiu 5,4%. Em março de 2026, a Comissão de Retribuições propôs e o Conselho aprovou relatórios de remuneração, com ajustes salariais aprovados para o CEO, Óscar García Maceiras, e para a presidente, Marta Ortega, o que se traduz num crescimento anual de 1.2 milhões de euros.

Portugal à lupa

  • Mercado historicamente estratégico para o Grupo, Portugal foi o primeiro mercado internacional da Zara, com a abertura da primeira loja fora de Espanha, no Porto, em 1988.
  • Atualmente, a Inditex está presente no país com todas as suas insígnias, através de lojas físicas e canais online.
  • Portugal integra um dos 10 clusters de fornecedores da Inditex, beneficiando da proximidade aos centros logísticos e da especialização da indústria têxtil nacional.
  • Sobre o valor do mercado nacional no conjunto de operações do grupo, a empresa não adianta números aproximados, apotando para um “desempenho comercial relevante no contexto do Grupo, refletindo a forte aceitação da proposta comercial pelos clientes portugueses.”
  • No final de 2025, o número de colaboradores no país ascendia aos 6.699, dos quais 88% com contrato permanente. Registaram-se 209 promoções internas no ano passado e 10 colaboradores assumiram funções noutras geografias do Grupo através de programas de mobilidade internacional.

Do fundador à atual equipa em todo o globo, falamos de mais de 163 mil colaboradores, de 174 nacionalidades (74 por cento mulheres). O Grupo Inditex opera em 98 mercados com lojas físicas e está presente em 214 mercados através da rede física e/ou online. Até janeiro deste ano, detinham 5.460 lojas em todo o mundo, das quais 1.500 são Zara. A loja original fechou o ano passado depois de 50 anos em funcionamento, mas só em A Coruña há hoje cinco lojas.

O plano é privilegiar moradas de maior dimensão, mais eficientes e tecnologicamente mais avançadas. Em 2025, realizaram mais de 400 intervenções na rede comercial (aberturas, ampliações e remodelações integrais). Para 2026 prevê-se um crescimento de cerca de 5% da superfície comercial bruta, e um investimento (CAPEX) ordinário de cerca de 2,3 mil milhões de euros, destinado à otimização da rede comercial, tecnologia, plataformas online e reforço das capacidades logísticas. Em Portugal, em junho deste ano eram 263 as lojas, que se vão ajustando a esta tendência — a antiga Zara da Avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, por exemplo, deu lugar a uma Massimo Dutti no passado 1 de julho), ganhando em superfície comercial e apostando em edifícios em zonas históricas como o Rossio.

Quanto a investimento logístico, preveem um plano extraordinário de 1.800 milhões de euros em 2024-2025 e investimento previsto de 2.300 milhões de euros em 2026 para lojas, plataformas online e logística.

Nem sempre é possível apurar todos os detalhes que suscitam curiosidade numa máquina como esta, apesar da sobrecarga de números. Mal entramos nas instalações, pedem-nos que não fotografemos nada, mas o moodboard com Chloé e Zara lado a lado (os “dupes” são um daqueles segredos de polichinelo deste universo) não passa despercebido quando dobramos uma esquina no piso dos estúdios. Quando perguntamos pelo arquivo, sim, “existe”, mas é de acesso restrito. Sem organização hierárquica muito vertical, convidam-nos a dispensar a elencagem de cargos. E a informação que um dia se recolhe, no seguinte pode estar desatualizada: pouco depois da nossa visita, chegava uma notícia de peso: a da saída de Beatriz Padín, nome histórico da entourage de origem de Amancio Ortega, na empresa desde 1985. Mentora de Marta e até aqui responsável pelo departamento de design femino. Da da velha guarda da cúpula sobram agora apenas Jorge e Óscar Pérez Marcote.

Quando à dupla de palavras fast fashion, continua a ser um tema sensível, mas quanto a isso não há muito a fazer. “Não queremos que venham porque temos preços baratos, mas bons produtos”, é perentório Raúl Estradera, Chief Communication Officer. Depois de um mundo de moda rápida, o ultra fast fashion de marcas como a chinesa Shein, e de concorrentes nos básicos como a japonesa Uniqlo, carregou ainda mais no acelerador apesar de na Inditex acreditarem que esta não é tanto uma questão de velocidade mas “de precisão” no negócio. A empresa garante que o desperdício não vendido representa menos de um por cento anual. “Estamos sempre à beira da ruptura de stock, pensamos o negócio para que não nos sobre roupa, daí o EBITDA estar sempre a bater recordes. Ortega desde o início que quis vender tudo a full price, os saldos saem caros”. Uma vez feito o protótipo do fato, “como se fosse um alfaiate”, o fabricante reproduz o processo e devolve nos um protótipo industrial. “Agora dá me 50 mil como este”.

Com seis mil centros de produção pelo mundo, é no sudoeste asiático que se concentram fornecedores há muitos fidelizados, que sem surpresa envolvem custos de produção mais baixos e entram em campo quando os prazos são menos curtos. A fidelidade ao Código de Conduta Inditex e o crivo apertado não excluem nebulosas habitualmente associadas à moda de consumo rápido, como a proveniência das matérias-primas e as condições de trabalho. “Não compramos algodão, nem fio, já vem o pano, lidamos com empresas que trabalham com grandes volumes, não usamos Better Cotton como algodão preferível ao convencional. Preferimos o que vem de algodão reciclado ou de agricultura regenerativa.” Os responsáveis acreditam que o consumidor valoriza estas preocupações, mas se faz questão de saber estes detalhes na hora de comprar, isso já é outra questão, admitindo que em regra o design ocupa mais espaço na balança.

Apesar das mais de 20 mil auditorias anuais aos fornecedores, e por mais que as condições de produção sejam imaculadas, os números de peças que todos os anos chegam às lojas num setor como este não nos deixam esquecer o impacto ambiental da indústria, ainda que os responsáveis relativizem a avalanche e revelem que metade do que desenham não chega sequer a ser fabricado, sendo frequente também recuperarem desenhos antigos e repensar a janela de campanha em que os vão lançar. Em termos de pegada, independentemente do local de produção, todos os artigos são expedidos a partir do fornecedor — principalmente por via marítima e terrestre — num prazo máximo de 48 horas (o que significa que uma peça fabricada na Ásia, vai sempre a Espanha antes de regressar eventualmente a solo asiático, agora para uma loja).

Quando questionamos sobre o número de toneladas de roupa que anualmente chega ao mercado, defendem que “não é prioritário”, sustentando que apesar de o grupo ser o maior operador do mundo neste segmento, a quota de mercado global é muito pequena num mercado tão espartilhado. Mas se quiser contribuir um pouco mais para a circularidade, tem sempre iniciativas como a Zara Pre Owned. Depois de Espanha, o mais expressivo em termos absolutos é o mercado dos EUA (com uma quota de 0,5) seguido de países como Franca, Itália, ou México. Fica por apurar o lugar exato ocupado pelo mercado nacional, mas arriscam que se situa no top 10.

Stradera sacode também a pressão quando o assunto são as tarifas e o reflexo no mercado norte-americano. Admite que afetam o negócio, mas nota que todos os países com os quais lidam estão em mudança constante neste particular, tendo já enfrentado desafios semelhantes vindos do México ou Colômbia. “Em alguns casos tens que sacrificar margem, não há hipótese.” Garante, no entanto, que a guerra no médio oriente tem muito mais impacto na margem bruta do que as tarifas, ao nível dos custos de produção, e distribuição, como energia. “Estamos num momento historicamente alto de margem bruta, que ronda os 60 por cento de média. Somos previsíveis, não sabemos se vamos crescer as vendas para o ano mas o mercado sabe”, mostra-se otimista.

[Um poderoso empresário concorre à Câmara de Lisboa e vai fazer tudo para ganhar as eleições, ao mesmo tempo que vive um drama familiar: o filho foi raptado e está desaparecido há quase um mês. Onde está afinal José Valbom? “O Candidato Perfeito” é o novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, e é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

Claro que não atrapalha explorar outros caminhos, vender experiências em vez de escoar apenas um saco cheio de acessórios. Daí uma oferta reforçada e diferenciada do habitual, como se vê na Zara da rua Compostela, em A Coruña, que visitamos antes do regresso a Lisboa: no piso térreo, um dos primeiros Zácaffé e um nicho dedicado ao merchadising da loja; no último piso, espraia-se El Apartamento, um conceito que abriga uma seleção de peças exclusivas de pronto a vestir, referências de mobiliário da secção Home, e ainda peças que resultam de parcerias com antiquários locais, mais um spot para café, ou ainda um recanto que às sextas e sábados se transforma em florista. A disposição deste híbrido passa por aumentar o valor sempre que se visita uma loja, acrescentando nuances e camadas ao retalho.

O modelo que convida a uma experiência alargada e integrada de todo o universo Zara está replicado em destinos como a renovada loja do madrileno bairro de Salamanca – e não excluem a chegada a outros pontos, incluindo Portugal, mas tudo depende de encontrar a localização adequada, que inclui metros quadrados suficientes e uma fisionomia adequada a esta vibe de open space onde apetece ficar.

O Observador viajou a convite da Inditex.