“Quanto é que fizeste desta vez?”, ouve-se em plena Travessa do Poço da Cidade, ao final da tarde desta segunda-feira. A questão é lançada pelo funcionário de um restaurante a um homem que passava por aquela rua estreita com um saco transparente cheio de garrafas vazias. Entre águas, sumos e refrigerantes, Adilson estima carregar cerca de 50 embalagens consigo, conta ao Observador e ao funcionário curioso que o observa à porta do restaurante.
O seu destino é um supermercado que fica a poucos metros de distância. “É o único aqui que tem a máquina azul a funcionar”, explica, descrevendo o dispositivo que agora marca presença em vários espaços comerciais no país: o Volta. Durante o dia, Adilson faz as camas e trata das limpezas de diferentes Airbnbs na zona do Bairro Alto, em Lisboa. No final do seu dia de trabalho, recolhe todas as garrafas de plástico e latas que vai encontrando nestas propriedades e dirige-se ao mesmo supermercado. O lixo de uns é o tesouro de outros e, neste caso, aquelas embalagens deixadas para trás valem, cada uma, 10 cêntimos.
Naquele saco, Adilson transporta cerca de cinco euros em garrafas. “Não é nada de mais, mas já ajuda”, confessa. Começou a fazê-lo “há pouco mais de um mês”, como explica ao Observador. Mas sabe de casos de pessoas que, durante o dia e a noite, percorrem os caixotes do lixo em diferentes pontos da cidade à procura de embalagens de plástico ou latas que possam depositar “na máquina”. É o caso de Filipe, o funcionário do restaurante que falou com Adilson sem sequer o conhecer. Esclarece que não é um hábito recorrente que tenha, mas quando vê uma embalagem à mostra nos caixotes, não hesita em recolhê-la.
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“Vou apanhando e, ao fim de dois ou três dias, tenho 40 ou 50 para ir depositar”, conta. O fenómeno da “caça ao lixo” tem vindo a crescer desde que, em abril deste ano, o sistema de incentivo à reciclagem foi introduzido em Portugal. “Onde há contentores fixos, as pessoas vão lá ver se encontram garrafas”, afirma a presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, uma das localidades da capital onde a prática é mais comum. Uma prática que, percebe-se numa passagem rápida pela baixa lisboeta, atravessa idades, nacionalidades e estratos sociais.
Por mais vantagens que a iniciativa tenha a nível ambiental, a autarca Carla Almeida sublinha que também está a trazer graves problemas à cidade. “Muitas vezes, os trabalhadores [de limpeza urbana] iniciam o seu turno a encontrar lixo espalhado no chão e, ao longo do dia, mesmo depois de limparem os locais, os contentores voltam a ser revolvidos e o lixo volta a espalhar-se”, afirma a socialista. “Compreendemos os objetivos ambientais do programa, mas é urgente encontrar soluções que evitem estes impactos no espaço público”.


Os 15 minutos a inserir garrafas e o casal que faz mais de 100 euros por dia
As máquinas Volta “lá em baixo” não estão a funcionar e, por isso, as pessoas que querem reciclar as suas garrafas têm de se deslocar ao Largo Calhariz para receber o depósito já cobrado. Desde que o sistema foi adotado, as garrafas de plástico e as latas viram uma subida de preço nos supermercados e noutras superfícies comerciais. Os 10 cêntimos que as pessoas recebem quando colocam o lixo naqueles dispositivos azuis são, na verdade, apenas o retorno da caução que pagaram no momento da compra.
Mas, no caso de Dipon, o custo foi nulo e o retorno é de mais de 10 euros, detalha à porta do único supermercado com este equipamento naquela zona, já que as instaladas em Santos e no Cais do Sodré não estão a funcionar, como descrevem ao Observador as pessoas que por ali vão passando com sacos cheios do material reciclável. Tal como Adilson, Dipon trabalha na área das limpezas na zona do Bairro Alto e, ao longo do dia, vai recolhendo várias garrafas num saco do lixo para depois receber o valor do depósito.
Fruto da recente onda de calor, o consumo de água nas ruas da capital — seja por turistas ou moradores — aumentou exponencialmente, o que se traduziu numa maior quantidade de garrafas nos contentores. Podem ser pequenas ou grandes, mas não garrafões. E não podem ter vincos ou estar amachucadas, além de ser obrigatório apresentarem o rótulo com o símbolo do programa “Volta” ainda intacto, explica Dipon em inglês. Por ter um saco volumoso, o funcionário de limpezas deixa algumas pessoas passarem-lhe à frente na fila para também elas fazerem uso da máquina azul. Entre a entrada do Observador no supermercado e a conversa com Dipon, um dos funcionários apercebe-se de que o sistema atingiu o seu limite e precisa de mudar o saco que recolhe o material que será reciclado posteriormente.
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O homem revela que, agora, tem de fazer esta troca “mais de 10 vezes por dia”, devido à elevada procura pelos serviços da “máquina”. Dipon acredita que tem cerca de uma centena de garrafas e latas com ele naquele momento, mas admite que é possível que nem todas sejam recolhidas pelo aparelho por haver danos nas embalagens. Ao todo, demorou 15 minutos e 56 segundos a finalizar a operação. O resultado, tal como previsto, traduziu-se em três talões. Nestes pequenos papéis, que mostra com orgulho ao Observador, confirma-se: 87 garrafas e 27 latas, onze euros e quarenta cêntimos.


Para além das temperaturas elevadas que têm suscitado uma maior procura por garrafas de água e outros refrescos embalados em plástico, um funcionário do supermercado explica que a transmissão dos jogos do Mundial em espaços como o Terreiro do Paço também tem contribuído para o elevado volume de depósitos naquele local. “Há pessoas que vão para lá e ficam só à procura de garrafas, nem veem o jogo”, conta. Concluído o processo de alimentação da máquina, que se limita apenas pela capacidade dos sacos que transportam, o sistema devolve algumas opções para obter o valor correspondente.
Há quem prefira receber um vale que é convertido pelo supermercado em dinheiro; outros usam o valor integral das garrafas no supermercado. “Podes ainda doar o valor de depósito a uma instituição, dependendo do Ponto Volta onde estejas a devolver”, lê-se na página oficial da iniciativa. Um dos funcionários com quem o Observador contactou estima que aquela superfície comercial devolva mais de 250 euros diariamente e explica que existem pessoas que “fazem muito mais” dinheiro que Adilson, Filipe ou Dipon, aproveitando-se deste sistema para fazer múltiplas visitas diárias àquele espaço.
“Há um casal que acorda às 5h todos os dias para ir revirar caixotes”, admite o funcionário do supermercado. Estima que, num dia, marido e mulher, já reformados, extraiam mais de 100 euros das garrafas que encontram. “Fazem fila à porta da loja de manhã, com três ou quatro sacos e, se for preciso, voltam ao final do dia”, acrescenta. Para se ter uma ideia, para receber este montante em vales do sistema Volta, seria necessário entregar 1.500 garrafas ou latas.
Lixo no chão, “territorialismos” e as queixas das autarquias
Apesar de alguns utilizadores caracterizarem este comportamento como “inofensivo”, as autarquias têm apresentado várias queixas. A introdução deste novo Sistema de Depósito e Reembolso pretendia incentivar a separação do lixo e promover a redução do mesmo nos espaços públicos. Contudo, o resultado não tem correspondido às expectativas — mesmo que sejam celebradas as mais de 55 milhões de embalagens de bebida de utilização única que já foram admitidas nestas máquinas.
Como escreveu o Público num balanço feito aos primeiros três meses do sistema implementado em Portugal, são consumidas cerca de 2,1 mil milhões de embalagens de bebidas por ano. Ajustando esta contabilização ao período em que o Volta está em vigor, deverão ter sido consumidas cerca de 500 milhões de unidades entre abril e julho. As devoluções devem corresponder, então, a cerca de 11% do volume total consumido, de acordo com esta estimativa feita pelo jornal, relembrando que até 9 de agosto o sistema se encontra numa “fase de transição”, em que continuam a circular embalagens sem o selo necessário para fazer a devolução.
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Todas as manhãs, na hora da recolha do lixo lisboeta, os profissionais de higiene urbana deparam-se com um aumento dos resíduos na rua, fora dos caixotes e ecopontos. Nas ruas da capital encontram-se restos de comida, roupa ou caixas de cartão nos locais onde estão os contentores. Tudo menos latas e garrafas. “A situação é particularmente preocupante nesta fase de temperaturas elevadas. O lixo permanece espalhado durante horas, atraindo gaivotas e outras pragas e aumentando as preocupações com a saúde pública e a salubridade urbana”, alerta ao Observador a presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia.
Este é um tema que não se limita às zonas mais movimentadas da cidade, como sublinha Carla Almeida. Não é só na Baixa, também os presidentes de outras juntas lisboetas se manifestaram publicamente contra o elevado volume de pessoas a revirarem contentores e a deixar lixo no chão em busca de garrafas e latas. À agência Lusa, a Câmara Municipal de Lisboa assegurou estar atenta ao fenómeno e garantiu que iria continuar a monitorizar a sua evolução, para avaliar a necessidade de implementar “medidas que minimizem os impactos na higiene urbana e no espaço público”. A autarquia de Carlos Moedas garante que tem vindo a reforçar o investimento na fiscalização e que a vigilância tem sido intensificada com o aumento de fiscais municipais nas ruas da capital.
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Admitindo que esta nova realidade possa enquadrar um problema acrescido à realidade operacional dos profissionais da higiene urbana na capital, o Sindicato de Trabalhadores do Município de Lisboa (STML) diz que as principais queixas que têm registado “não são de agora”. “Há novos constrangimentos, mas somam-se a outros mais profundos. Prende-se a nível estrutural”, indica o dirigente sindical Luís Dias. “Por muito boas que sejam as intenções, trazem-nos este tipo de consequências”, acrescenta, admitindo no entanto que o sindicato “não tem recebido feedback” nesse sentido. Queixam-se de ter “viaturas insuficientes ou avariadas todos os turnos” e de ficarem determinados “circuitos por fazer” por falta de meios.


As autarquias notam também um aumento de episódios de violência associados “ao fenómeno da recolha de embalagens para depósito”. Como nota a presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, têm recebido relatos de moradores e comerciantes, de pessoas com comportamentos agressivos e violentos a revirar caixotes do lixo na busca de garrafas. Nos testemunhos recolhidos pelo Observador, percebe-se que começam já a existir “territorialismos”, onde certas pessoas “reservam” determinados espaços em que existem contentores — o que, por vezes, gera algum tipo de conflito. “É uma situação que tem sido comentada com regularidade por quem vive e trabalha na freguesia”, afirma Carla Almeida.
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Numa perspetiva díspar, um funcionário do supermercado mais concorrido no final desta “caça ao lixo” do Bairro Alto nota que esta iniciativa tem sido positiva para as populações menos favorecidas. “Desde que isto começou, as mesmas pessoas que encontrava a tentar roubar, agora têm poder de compra para conseguir comer.”
[Um poderoso empresário concorre à Câmara de Lisboa e vai fazer tudo para ganhar as eleições, ao mesmo tempo que vive um drama familiar: o filho foi raptado e está desaparecido há quase um mês. Onde está afinal José Valbom? “O Candidato Perfeito” é o novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, e é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]
