Os dois grandes sismos que atingiram o nordeste da Venezuela a 24 de junho não destruíram apenas milhares de edifícios, causando ainda um número de vítimas desconhecido. Em algumas zonas, o terreno deslocou-se até cerca de 60 centímetros, mostram as novas imagens de radar divulgadas pela NASA. E esse foi apenas um dos efeitos de um fenómeno que mudou dois países: a apenas 11 quilómetros da costa venezuelana, na vizinha ilha de Trinidad, já em Trinidad e Tobago, uma praia elevou-se cerca de seis metros em poucos segundos e centenas de peixes, raias e caranguejos ficaram presos acima da nova linha de maré. E enquanto na Venezuela se abriram grandes fendas no terreno, estradas e passadeiras ficaram desalinhadas, dias depois, ao largo da costa sul de Trinidad, surgiu ainda um novo vulcão de lama. O que aconteceu entre a Venezuela e Trinidad tornou-se um dos exemplos mais impressionantes dos últimos anos de como um grande sismo pode alterar permanentemente a geografia de uma região.
As imagens parecem retiradas de um filme-catástrofe, mas correspondem a alguns dos efeitos geológicos mais impressionantes provocados pelos dois sismos de magnitude 7,2 e 7,5 registados a 24 de junho na fronteira entre as placas tectónicas das Caraíbas e da América do Sul. Enquanto as equipas de emergência continuavam concentradas nas vítimas, nos edifícios destruídos e na recuperação das zonas mais afetadas, geólogos e sismólogos começaram a perceber que a história daqueles sismos ia muito além da destruição provocada à superfície. Em poucos segundos (entre um e outro sismo houve menos de 40 segundos de distância), a própria crosta terrestre deformou-se de forma permanente. Em alguns locais elevou-se, noutros deslocou-se lateralmente e, noutros ainda, abriu caminho para que lama, água e gases escapassem do subsolo. Mais de duas semanas depois, cientistas da NASA, da Universidade das Índias Ocidentais (UWI), do Centro de Investigação Sísmica das Caraíbas e de várias instituições internacionais continuam a estudar um acontecimento raro que alterou a geografia de parte da Venezuela e da vizinha Trinidad e Tobago.
Os dois sismos surpreenderam os próprios especialistas porque, em vez da sequência habitual de um grande terramoto seguido por dezenas ou centenas de réplicas significativamente mais fracas, se registaram dois sismos principais, ambos de grande magnitude. Os sismólogos chamam-lhe doublet ou um duplo sismo (earthquake doublet), um fenómeno relativamente raro em que dois grandes terramotos ocorrem muito próximos no tempo e no espaço, mas correspondem a ruturas diferentes. Segundo explicou Antonio Villaseñor, investigador do Instituto de Geociências de Barcelona, do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), o primeiro sismo redistribui de forma brusca a tensão acumulada na crosta terrestre e pode funcionar como um gatilho para uma falha vizinha que já se encontra perto do limite de rutura. Em vez de uma réplica, ocorre um segundo grande terramoto, libertando nova energia quase de imediato. Foi precisamente isso que aconteceu na fronteira entre as placas tectónicas das Caraíbas e da América do Sul, uma das zonas sísmicas mais ativas do planeta.
Estradas e passeios desnivelados: ruas empurradas para cima mais de meio metro
A violência desse movimento começou rapidamente a tornar-se visível na Venezuela. Em várias localidades próximas do epicentro abriram-se grandes fendas no terreno e surgiram deformações impressionantes nas infraestruturas. Algumas estradas deixaram de encaixar, os passeios ficaram desnivelados e há imagens em que passadeiras aparecem literalmente partidas ao meio, como se uma metade da rua tivesse sido empurrada para cima. Numa das fotografias mais divulgadas, um passeio apresenta um desnível de cerca de 57 centímetros em relação à estrada, uma imagem que ajuda a compreender o que significam, na prática, os cerca de 60 centímetros de deformação medidos posteriormente pelos satélites. Noutras zonas, especialmente no estado de Yaracuy, epicentro do primeiro sismo (7,2), surgiram ruturas superficiais que racham agora caminhos e terrenos agrícolas durante centenas de metros (às vezes quilómetros). As equipas técnicas continuam a cartografar essas fraturas para perceber até onde se prolonga a deformação provocada pela rutura da falha geológica.
Os danos não ficaram limitados às infraestruturas visíveis. Utilizando imagens de radar dos satélites Sentinel-1, do programa europeu Copernicus, especialistas em observação da Terra realizaram uma primeira avaliação automática dos estragos provocados pelo sismo e identificaram cerca de 58.870 edifícios potencialmente danificados ou destruídos entre a região do epicentro, nas proximidades de San Felipe e Yumare, e a área metropolitana de Caracas. Trata-se de uma estimativa preliminar, baseada em algoritmos que detetam alterações na resposta do radar antes e depois do sismo, e que continua a ser validada por equipas no terreno. Ainda assim, fornece uma primeira dimensão da extensão dos danos e demonstra como os satélites se tornaram ferramentas fundamentais para avaliar rapidamente catástrofes naturais em zonas muito extensas.
A cerca de 11 quilómetros da costa venezuelana, do outro lado do Golfo de Paria, os efeitos dos sismos foram completamente diferentes, mas igualmente impressionantes. Na península de Cedros, no extremo sudoeste da ilha de Trinidad — a maior ilha do país caribenho Trinidad e Tobago — a paisagem mudou em poucos segundos. Em Galfa Point, uma praia elevou-se cerca de seis metros, deixando exposta uma área do fundo marinho que até então permanecia submersa. Quando os habitantes regressaram ao local, encontraram uma faixa de costa muito mais extensa do que a da véspera. Centenas de peixes, raias, caranguejos e outras espécies marinhas tinham ficado encalhados acima da nova linha de maré, incapazes de regressar ao oceano. As imagens rapidamente correram mundo via redes sociais e despertaram o interesse de geólogos e geofísicos, que passaram a estudar um dos efeitos mais espetaculares provocados pelos sismos. A descrição do fenómeno foi feita no terreno pelo geocientista Xavier Moonan e está a ser acompanhada pelo Centro de Investigação Sísmica da Universidade das Índias Ocidentais (UWI).
A praia que subiu seis metros noutro país que também ganhou um vulcão de lama
As primeiras equipas científicas a chegar ao local concluíram que não se tratava apenas de uma oscilação temporária do nível do mar. O terreno tinha sido permanentemente elevado. Xavier Moonan explicou à agência EFE que tudo indica que as fortes vibrações sísmicas desencadearam um deslizamento do subsolo que funcionou como uma espécie de alavanca, empurrando para cima parte da costa e do leito marinho. O investigador sublinha, contudo, que os trabalhos continuam e que serão necessários estudos geológicos mais detalhados para compreender exatamente como ocorreu um levantamento tão expressivo numa área relativamente limitada. O fenómeno está agora a ser analisado pelo Centro de Investigação Sísmica da UWI, pelo Instituto de Assuntos Marinhos de Trinidad e Tobago e pela empresa ResiLog, que recolheram amostras e iniciaram uma campanha de monitorização da zona.
Se o levantamento da praia já parecia extraordinário, os dias seguintes trouxeram uma nova surpresa. Ao largo de Palo Seco, também na costa sul de Trinidad, investigadores identificaram uma pequena formação que não existia antes dos sismos. Tratava-se de um novo vulcão de lama, localizado cerca de 2,5 quilómetros a leste de Beach Camp e a aproximadamente 3,3 quilómetros do conhecido vulcão de lama de Anglais Point. A estrutura ergue-se cerca de quatro metros acima do fundo marinho e é constituída essencialmente por argilas macias expelidas do subsolo, misturadas com fragmentos de rocha e grandes blocos ricos em calcite. Ao contrário dos vulcões tradicionais, não existe aqui magma nem lava. O que emerge à superfície é uma mistura de lama, água e gases, normalmente metano, que encontra um caminho de saída através das fraturas abertas na crosta terrestre. As análises laboratoriais em curso deverão permitir confirmar a origem do material e perceber se o vulcão foi efetivamente desencadeado pelos sismos.
Durante dias, os geólogos percorreram estradas partidas, mediram fendas e recolheram amostras de solo. Mas a dimensão real do que tinha acontecido só começou a ser percebida quando os cientistas olharam para a Terra a partir do espaço. As imagens divulgadas pelo NASA Earth Observatory mostram que os satélites conseguiram medir, com precisão ao centímetro, a forma como a superfície se deformou durante os dois sismos. Para isso recorreram à chamada interferometria por radar, uma técnica que compara imagens obtidas antes e depois de um acontecimento e deteta diferenças de apenas alguns centímetros na posição do terreno. Em vez de fotografias convencionais, os satélites utilizam radar, capaz de observar a superfície mesmo durante a noite ou através das nuvens. Ao comparar os dois conjuntos de dados, os cientistas conseguem construir mapas extremamente detalhados da deformação da crosta terrestre. Foi dessa forma que confirmaram que algumas zonas da Venezuela sofreram deslocamentos verticais próximos dos 60 centímetros, valores que ajudam a explicar por que razão estradas, passeios e edifícios deixaram subitamente de encaixar. A mesma tecnologia permite também identificar deformações muito mais pequenas, invisíveis a olho nu, tornando-se uma ferramenta indispensável para compreender o comportamento das falhas geológicas e avaliar os riscos depois de um grande terramoto. A Agência Espacial Europeia divulgou igualmente imagens do Sentinel-1, do programa Copernicus, onde é possível observar a deformação da superfície provocada pelos sismos.
Outros sismos que mudaram a geografia de países
Embora o caso da Venezuela e de Trinidad impressione pela sucessão de fenómenos observados em apenas alguns dias, está longe de ser único. A história da Terra está cheia de exemplos em que um grande sismo alterou permanentemente a geografia. Em 1960, o terramoto de Valdivia, no Chile, ainda hoje o mais poderoso alguma vez medido instrumentalmente, com magnitude 9,5, elevou partes da costa em mais de dois metros, afundou outras e alterou o curso de rios, modificando a paisagem do sul do país. Quatro anos mais tarde, o terramoto do Alasca, de magnitude 9,2, provocou levantamentos do terreno que chegaram aos onze metros em alguns locais, enquanto outras zonas costeiras afundaram mais de dois metros. A água salgada invadiu florestas inteiras, matando milhares de árvores que continuam hoje de pé, transformadas nas chamadas florestas fantasma (ghost forests), um dos exemplos mais conhecidos de como um sismo pode deixar marcas visíveis durante décadas. O USGS reúne alguns destes exemplos históricos e explica que os grandes sismos modificam frequentemente a posição relativa entre o mar e a terra, criando novas linhas de costa ou fazendo desaparecer outras.
Também o devastador terramoto de Sumatra, em 2004, deslocou horizontalmente partes da ilha em dezenas de metros, elevou algumas pequenas novas ilhas e fez outras afundarem, alterando a configuração da costa e contribuindo para gerar o tsunami que matou mais de 230 mil pessoas em todo o Índico. Em 2011, no Japão, o sismo de Tohoku deslocou a ilha principal de Honshu cerca de 2,4 metros para leste, deformou o fundo do oceano e desencadeou o tsunami que atingiu a central nuclear de Fukushima. Cinco anos mais tarde, na Nova Zelândia, o terramoto de Kaikōura elevou vários quilómetros de costa até cerca de seis metros, deixando expostos recifes, algas, mexilhões e outros organismos que viviam permanentemente debaixo de água. As imagens da costa levantada tornaram-se um dos exemplos mais impressionantes de deformação tectónica registados nas últimas décadas e continuam a ser utilizadas em universidades de todo o mundo para explicar como um grande sismo consegue transformar uma paisagem em poucos segundos.
Também Portugal conhece bem esse poder transformador. O grande terramoto de Lisboa de 1755 não destruiu apenas a capital e desencadeou um tsunami que atravessou o Atlântico. Os estudos geológicos realizados nas últimas décadas mostram que alterou setores da linha de costa portuguesa e espanhola, deixou depósitos sedimentares que ainda hoje permitem reconstruir a altura das ondas e provocou fenómenos de liquefação dos solos em várias regiões. No golfo de Cádis e em Huelva continuam a ser estudadas estruturas de expulsão de sedimentos que alguns investigadores admitem poder estar relacionadas com o grande sismo de 1755, embora essa ligação continue a ser objeto de investigação científica e não exista ainda consenso definitivo. É precisamente esta capacidade para alterar permanentemente a superfície terrestre que leva os geólogos a considerar os grandes sismos como alguns dos mais poderosos agentes de transformação da paisagem.
Costumamos medir um terramoto pela magnitude, pelo número de vítimas ou pelos prejuízos económicos que provoca. Mas há outra forma de avaliar a sua violência: olhar para um mapa antes e depois. Na Venezuela, o terreno deslocou-se até cerca de 60 centímetros. Na vizinha Trinidad, uma praia elevou-se cerca de seis metros, surgiu um novo vulcão de lama e a linha de costa mudou em poucos segundos. Os edifícios poderão ser reconstruídos e as estradas reparadas. A geografia, essa, já não voltará a ser exatamente a mesma.
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