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Duas empresas históricas unidas. Ancor quer Ambar para "dar continuidade a uma história que merece continuar"

A Ancor quer comprar a Ambar. Duas empresas históricas que se juntam para ganhar dimensão. A operação está a ser analisada pela Autoridade da Concorrência.

Alexandra Machado
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Dormia no papel velho da “oficina” de pastas de arquivo instalada pelos pais. Nasceu no negócio. A Ancor tem origens nessa pequena instalação perto da Rua de Cedofeita, no Porto. Era aí que Francisco Correia, o seu atual diretor-geral, passava férias e fins de semana e viu desenvolver o negócio da família. António Correia, que emprestou as primeiras letras do seu nome e apelido à empresa, tinha “instinto, determinação, resiliência e ambição”, as quatro características pelas quais Francisco Correia descreve o seu pai e que ficaram como “a base dos valores da Ancor”, declarou ao Expresso.

“Vivi muito intensamente o que é o negócio da família. Nasci no negócio. Não me conheço sem a Ancor”. Estudou gestão de empresas e entrou na Ancor para ajudar o irmão a dar a volta. A Ancor atravessava dificuldades no final dos anos 1990. “Entrei para fazer um bocadinho de tudo” naquela que já tinha deixado há muito a oficina da Cedofeita. Instalou-se em Guilhabreu, em Vila do Conde, onde está o que Francisco Correia diz ser a empresa de base industrial. Atualmente a Ancor opera dois polos industriais e logísticos, em Guilhabreu (Vila do Conde) e na Maia, “a partir dos quais fabrica e comercializa uma vasta gama de artigos de papelaria em modelo B2B [para empresas]”, a “atividade que está na base da forte vocação exportadora da empresa, presente há mais de duas décadas em dezenas de países”, realça a empresa ao Observador.

A Ancor mantém ainda uma divisão de embalagens de luxo, “vocacionada para embalagens de elevado valor acrescentado destinadas sobretudo a empresas dos setores exportadores”, indica ainda ao Observador.

Metade das vendas da Ancor já são feitas fora do país, estando em 30 países. “Não aconteceu num dia, aconteceu em 55 anos da empresa”, nas palavras ao Expresso.

Francisco Correia é a segunda geração a liderar a Ancor. A terceira pode não chegar a entrar na gestão, mas Francisco quer que a empresa seja grande em dimensão e o mais profissionalizada possível para que os filhos “possam manter o capital sem terem de trabalhar lá”. “Não sei qual é o futuro dos meus filhos”, diz, mas quer garantir que a sobrevivência da empresa não depende deles, declara ao Expresso, a quem assume: “Não acredito na monarquia nos negócios” e, por isso, a estratégia é fazer crescer a empresa já no top 10 europeu. Na Península Ibérica, Francisco Correia assume a ambição de ser líder na papelaria. É preciso “crescer e sermos mais competitivos. A escala é fundamental”, realça, assumindo ter hoje uma “capacidade de competir que não tínhamos”.

"O valor da Ambar reside sobretudo na sua marca, na sua herança e no saber-fazer acumulado ao longo de décadas — são esses os ativos que estão na base do interesse da Ancor e que o projeto pretende preservar. Todo o racional da operação é de continuidade e de reforço de uma capacidade industrial nacional".
Francisco Correia, diretor geral da Ancor

A ambição de crescer passa, agora, pela compra da Ambar, “uma das marcas mais reconhecidas e acarinhadas da papelaria portuguesa, com um enorme valor histórico e afetivo”, realça Francisco Correia, em declarações escritas ao Observador.

Ambar quase centenária vai voltar a mudar de mãos

O nome nasce também pela junção das primeiras letras do nome do fundador. Américo Barbosa que, em 1939, funda no Porto a Ambar, para encadernação de livros e cujo negócio se expandiu para os produtos de escritório. Em 1968, poucos anos antes do nascimento da Ancor, já tinha 1.000 trabalhadores.

Só que em 1976, um incêndio consumiu as instalações da Ambar, que acabou a mudar de localização. A 6 de abril de 1976, o Diário de Lisboa noticiava que o fogo, no dia anterior, tinha deflagrado por volta das 15 horas “nas manufaturas Ambar, da Rua Manuel Pinto de Azevedo, à via rápida, no Porto”. E continuava: “O sinistro teve origem numa operação de soldagem em matéria plástica que, não tendo sido possível impedir de imediato, se alastrou com relativa rapidez, acabando por tomar conta da quase totalidade das instalações ao longo de cerca de 10 horas de fogo constante, apesar do esforço desenvolvido por 17 corporações de bombeiros e trabalhadores da empresa e de outras situadas na vizinhança”.

Concluía dizendo que “o estado em que ficaram as instalações da Ambar, praticamente destruídas, impede para já a continuação da sua laboração, o que afeta cerca de mil e cem operários”. Além dos danos no edifício ficaram destruídas máquinas, matérias-primas e produtos, “de várias dezenas de milhares de contos”.

A fábrica ainda hoje reside nessa morada, mas as instalações tiveram de ser reconstruídas. E mais tarde ampliadas. Até porque a partir do final dos anos de 1980 a Ambar expandiu-se para fora do país. Começou por Espanha onde abriu uma filial em 1987. Hoje faz negócio em mais de 25 países.

Os anos de 1990 chegaram e trouxeram ampliações e armazéns robotizados, mas também a mudança da gestão para a segunda geração. Isabel Barbosa chegou à liderança da Ambar, após a morte do pai. Duas décadas depois chegou outro desfecho. Cerca de 30 trabalhadores pediram, em 2013, a insolvência da empresa e acusavam a herdeira de “incapacidade pessoal, técnica e profissional”, segundo noticiou o Público. A empresa tinha chegado a faturar 30 milhões de euros e na gestão de Isabel Barbosa, acusaram os peticionários, a Ambar passou de um volume de negócios de 20 milhões de euros (em 2010) para seis milhões em 2012.

O administrador judicial chegou a defender a liquidação da Ambar, mas um grupo de credores prometeu um plano para retomar a atividade. E conseguiram, depois de convencerem o BCP, um dos principais credores, a não chumbar o plano. Não encerrou as portas. E continuou a produzir com 50 trabalhadores. “Acreditamos sempre que isto vai continuar”, declarou um desses trabalhadores, numa reportagem da RTP.

No ano seguinte, em 2014, chegou a salvação. José Costa, da Coscelos, e José Vilas Boas Ferreira, da Valérius (que também, anos depois, viria a salvar a Dielmar), entraram no capital da Ambar para a reorganizar e levá-la a colocar na mochila quatro áreas de negócio: escola, escritório, casa e a AmbarScience (para os brinquedos educativos), esta última já lançada pelos novos acionistas. Em 2017, José Vilas Boas Ferreira traçava ao Expresso como meta para 2022 alcançar um volume de negócios de 20 milhões, passando de 110 para 249 trabalhadores e duplicar a quota das exportações, até aos 60%. Aí já os empresários tinham a totalidade da companhia, tendo entrado na Ambar com uma parcela de 70%.

100% portuguesa, os empresários de Barcelos para aí levaram a companhia, ou pelo menos parte. Em 2019, e apesar da evolução da empresa não acompanhar as pretensões, José Vilas Boas Ferreira dizia à Lusa que não estava arrependido de ter apostado na Ambar. “Marcas com 80 anos em Portugal há poucas e neste setor é a única. Temos é que trabalhar para o futuro e ter produtos que vão apanhar as pessoas quando estão já em idade adulta, mas também fazer com que reconheçam a marca ainda na infância”, declarou então.

O volume de negócios que era de 5,4 milhões em 2015 passou para 8,25 milhões em 2019. Veio a pandemia e a faturação caiu. Segundo dados compilados pela Insight View, da Iberinform, a que o Observador teve acesso, voltou em 2022 e 2023 a atingir cerca de 8,3 milhões, caindo em 2024 para os 7,5 milhões. Os resultados foram, em 2023 e 2024, negativos.

Já a António Augusto Correia Lda registou um volume de negócios de 11,5 milhões em 2024. É esta empresa que se propõe comprar a totalidade do capital social da Ambar – Passion. Ao Observador a Ancor vai dizendo que “a operação foi notificada à Autoridade da Concorrência e aguarda a respetiva apreciação”, pelo que, “respeitando integralmente esse processo, não nos compete antecipar prazos”. A decisão poderá chegar nos próximos meses. Só depois dará os detalhes da integração. Não foi revelado, também, o valor do negócio.

Ancor quer Ambar com objetivo de “preservar e relançar”

“O projeto assenta numa lógica de investimento de longo prazo e de viabilização industrial, e não numa operação de curto prazo”, salienta ao Observador Francisco Correia, acrescentando que “o valor da Ambar reside sobretudo na sua marca, na sua herança e no saber-fazer acumulado ao longo de décadas — são esses os ativos que estão na base do interesse da Ancor e que o projeto pretende preservar. Todo o racional da operação é de continuidade e de reforço de uma capacidade industrial nacional”.

Por isso, acrescenta o mesmo responsável, “caso a operação venha a ser aprovada, o nosso objetivo é preservar e relançar a marca Ambar, dando-lhe a estabilidade industrial e a escala de que precisa para competir num mercado globalizado”, o que “passará por integrar capacidade produtiva, investir em modernização e sustentabilidade e continuar a apostar em projetos com identidade própria, como o AmbarScience”.

Para o responsável da Ancor, a Ambar “é uma das marcas mais reconhecidas e acarinhadas da papelaria portuguesa, com um enorme valor histórico e afetivo” e, num setor “cada vez mais dominado por grandes grupos internacionais e pela pressão da importação, acreditamos que faz todo o sentido que uma marca com esta história continue a ser portuguesa e industrialmente sustentável”.

Complementaridade e preservação são as duas palavras prometidas pela Ancor que pretende “unir uma marca histórica a uma empresa de confiança e com capacidade industrial, para lhe garantir futuro, escala e continuidade”. Francisco Correia conclui dizendo que “queremos manter a Ambar como uma marca portuguesa viva e com futuro, e não vê-la desaparecer ou ser absorvida. É esse, aliás, o sentido do projeto — dar continuidade a uma história que merece continuar”.