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O mundo ainda passa pelo cabo

Tem graça pensar que, mais de cinco séculos depois, a alternativa continua a passar pelo caminho aberto pelos portugueses quando decidiram que o mapa conhecido não lhes chegava.

André Gomes Luís
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Há uma curiosa tendência portuguesa para tratar as melhores páginas da nossa História como quem muda de assunto num jantar de família. Fala-se delas depressa, com algum embaraço, e passa-se para outra coisa qualquer. Entretanto, o resto do mundo continua a utilizá-las.

Quando há guerra no Médio Oriente, quando o canal de Suez se torna inseguro ou quando os estreitos por onde passa o comércio mundial começam a ameaçar fechar, acontece uma coisa extraordinária: muitos navios voltam a contornar África.

Não é uma homenagem a Portugal. É apenas a geografia a impor-se.

Mas tem graça pensar que, mais de cinco séculos depois, a alternativa continua a passar pelo caminho aberto pelos portugueses quando decidiram que o mapa conhecido não lhes chegava.

Antes da Índia houve o medo.

Houve o cabo Bojador, que durante anos pareceu o fim do mundo. Gil Eanes passou-o em 1434 e, ao fazê-lo, mostrou que o terror também pode ser apenas uma fronteira mal conhecida. Depois vieram outros. Diogo Cão avançou pela costa africana e chegou à foz do Congo. Bartolomeu Dias enfrentou o cabo das Tormentas e provou que o Atlântico comunicava com o Índico. D. João II, com uma confiança digna de quem já via o futuro, mudou-lhe o nome para cabo da Boa Esperança.

E depois Vasco da Gama chegou à Índia.

Hoje resumimos tudo isto em duas ou três datas. É uma crueldade da escola e uma comodidade da memória. Levou décadas. Foram viagens, naufrágios, erros, regressos, mortes, informações recolhidas, mapas corrigidos e uma teimosia quase ofensiva perante a dimensão do mundo.

Chamamos-lhe globalização. A palavra soa moderna, cheia de gráficos, conferências internacionais e siglas em inglês. Parece uma invenção da internet ou dos mercados financeiros. Na verdade, começou muito antes de existir eletricidade.

Entre 1415 e as primeiras décadas do século XVI, Portugal ligou oceanos que, para os europeus, pareciam pertencer a mundos diferentes. O Atlântico e o Índico passaram a fazer parte de uma mesma rede de circulação. Pessoas, mercadorias, plantas, animais, técnicas, línguas, crenças e doenças começaram a viajar em escalas nunca antes conhecidas.

Até Cristóvão Colombo, que navegou ao serviço de Castela, não pode ser separado desta experiência portuguesa. Viveu em Lisboa, conheceu os meios náuticos portugueses e casou com Filipa Moniz Perestrelo, filha de Bartolomeu Perestrelo, antigo capitão de Porto Santo. Colombo não aprendeu a atravessar oceanos numa tarde de inspiração. Parte dos conhecimentos marítimos, geográficos e cartográficos que utilizou foi adquirida no contacto com Portugal e com a experiência atlântica portuguesa.

Castela ficou com a viagem. Portugal ajudou a formar o navegador. É uma daquelas ironias históricas que mereciam mais atenção e menos azedume.

Depois veio Fernão de Magalhães, outro português ao serviço de Castela. Em 1519, partiu à procura de uma passagem para o Oriente pelo ocidente. Atravessou o estreito que hoje leva o seu nome e realizou a primeira travessia europeia do oceano Pacífico. Morreu nas Filipinas, em 1521, e não completou pessoalmente a viagem. Mas a expedição regressou em 1522, sob o comando de Juan Sebastián Elcano, concluindo a primeira circum-navegação do globo.

O mundo deixava, finalmente, de ser um conjunto de compartimentos separados.

Foi um processo contraditório? Sem dúvida. Trouxe comércio, conhecimento e encontros culturais, mas também guerra, escravatura e violência. Ignorar qualquer uma destas dimensões é fazer má História. Mas reduzir tudo apenas à violência também é.

A História raramente cabe numa palavra de ordem.

Há quem imagine que os Descobrimentos terminaram quando as caravelas regressaram aos portos portugueses. É um equívoco. Os Descobrimentos continuam a navegar diariamente.

Cada porta-contentores que atravessa o Índico, cada navio que dobra o cabo da Boa Esperança quando Suez está em risco, cada mercadoria asiática que chega à Europa por mar faz parte de um mundo que começou a ganhar forma quando os portugueses ligaram o Atlântico ao Índico.

A geografia tem um sentido de humor muito próprio. O século XXI prometeu um mundo digital, instantâneo e quase sem fronteiras. Depois basta fechar um estreito marítimo para percebermos que continuamos dependentes dos mesmos cabos, dos mesmos mares e das mesmas passagens.

Mudaram os navios. Mudaram as mercadorias. Mudaram as bandeiras.

O cabo continua lá.

Talvez seja essa a maior lição daquele tempo. Portugal não dominava a Europa, por isso procurou ligá-la ao resto do mundo. Gil Eanes venceu o Bojador, Bartolomeu Dias dobrou o cabo das Tormentas, Vasco da Gama chegou à Índia, Colombo atravessou o Atlântico levando consigo parte da experiência portuguesa e Fernão de Magalhães ajudou a provar que o planeta podia ser circum-navegado.

Não precisamos de transformar estes homens em santos nem em monstros. Basta reconhecer aquilo que fizeram.

Às vezes pensamos que a História serve apenas para recordar o passado. Talvez sirva, sobretudo, para reconhecer o presente.

Porque, sempre que o mundo volta a passar pelo cabo da Boa Esperança, também passa, ainda que por instantes, por uma das páginas mais extraordinárias da História de Portugal.