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Maria do Divino Coração: de condessa na Alemanha a quase santa em Portugal

Tia distante da noiva de Dinis de Bragança, Maria nasceu condessa na Alemanha mas aos 25 anos renunciou à nobreza para viver como religiosa no Porto. O processo de canonização está em curso em Roma.

Sâmia Fiates
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A irmã Maria do Divino Coração marcou a Igreja Católica apesar de ter servido como religiosa durante pouco mais de dez anos — cinco deles no Convento do Bom Pastor do Porto. O seu nome é reconhecido pela influência que teve no papado de Leão XIII para a consagração do mundo ao Sagrado Coração de Jesus. Foi beatificada em 1975 pelo Papa Paulo VI, e atualmente decorre o processo de canonização, que poderá resultar na atribuição oficial do título de santa à freira, que morreu em Portugal em 1899. Mas antes da vida religiosa, Maria foi condessa na Alemanha — e vinha de uma linha de nobreza da Vestfália com raízes comuns às da família da noiva de Dinis de Bragança.

Maria Droste zu Vischering era irmã mais velha do trisavô de Anna Schaffgotsch von und zu Kynast und Greiffenstein, o conde Wilhelm Emanuel Droste zu Vischering. A condessa integrou uma família de várias gerações de membros importantes da Igreja Católica, destacando nomes como o Arcebispo de Colónia entre 1835 e 1845, Clemens August II, ou o Cardeal Clemens August Graf von Galen, Bispo de Munster entre 1933 e 1946.

Entre os séculos XVII e XX a residência oficial da família Droste zu Vischering foi o Castelo de Darfeld, uma propriedade cujos primeiros registos datam do século XI. Era neste espaço que a família hospedava padres jesuítas, e onde também o pai de Maria, o conde Clemens Heidenreich Droste zu Vischering, em 1857, organizou um grupo de amigos próximos para exercícios espirituais — num ambiente de Kulturkampf, em que a Alemanha recém-unificada sob Bismarck tentava submeter a Igreja Católica ao Estado prussiano — o que deu origem, em 1861, à Associação de Nobres Católicos da Alemanha. O conde defendia que a nobreza deveria atuar por meio da atividade política, na imprensa e na literatura, a promover o fundamento de um lar genuinamente católico, longe dos luxos e ostentação. Para Clemens Heidenreich Droste zu Vischering, a riqueza da nobreza pertencia à sua linhagem e à Igreja. Através do Partido de Centro, chegou a integrar o Parlamento alemão no final do século XIX.

Mas terá sido a sua mãe, a condessa Helena von Galen, que trouxe a devoção ao Sagrado Coração de Jesus para o seio familiar — especialmente no mês de junho, quando todos os anos a matriarca fazia questão de ter uma imagem exposta na capela da propriedade da família.

Saúde frágil atrasou a vocação

“Nasci em Munster no dia 8 de setembro de 1863, eu e o meu irmão gémeo Max”, escreve a beata, numa das cartas autobiográficas redigidas no leito de morte ao seu confessor, o Padre Teotónio Manuel Ribeiro Vieira de Castro. “O primeiro favor que recebi de Nosso Senhor foi o de ser batizada imediatamente, por estar em perigo de vida. Quem me batizou foi o médico, o chefe dos mações em Munster. Nosso Senhor quis assim livrar-me, desde o primeiro instante da minha entrada no mundo, do poder do demónio, e tomar posse de mim”, assinala ainda, fazendo referência aos problemas de saúde que a acompanharam ao longo de toda a vida.

Nas suas memórias, Maria Droste descreve por várias vezes estar “doente e com bastantes sofrimentos”, mas não dá detalhes dos sintomas, nem em que idade terão efetivamente começado. “Cheguei à idade de 21 anos, mas não me foi possível realizar a minha entrada num Convento por falta de saúde. Continuei, portanto, em casa de meus pais até à idade de 25 anos”, escreve. Noutro trecho, fala que o irmão gémeo também padecia de uma “doença grave”, sem dar detalhes do que sofria Max. Em determinado momento, Maria Droste escreve que “não queria morrer sem ser freira”. Os registos históricos apontam para o diagnóstico de tuberculose óssea, documentada pelo menos a partir de 1896, quando uma paralisia tê-la-á levado ao leito, onde permaneceu até à morte, em 1899, aos 36 anos.

Foi a doença que atrasou o início da sua vida na clausura. Na autobiografia, a beata diz que já na data da sua primeira comunhão, a 25 de abril de 1875, “suspirava pela vida religiosa”. “Nosso Senhor, porém, não me concedeu nesse dia a graça que tanto desejava. Esperava, então, pelo dia do crisma. E no dia 8 de julho do mesmo ano 1875, imediatamente depois de ser crismada, senti nascer em mim a graça da vocação, e nunca mais a perdi. Ela ia crescendo pouco a pouco comigo.” A freira assume que seguiu “guardando o meu segredo de me fazer religiosa” ao longo da infância. “Foi na idade de 12 a 16 anos que mais ofendi a Nosso Senhor, mas Ele não me abandonou”, assume. “Eu, naquele tempo, parecia mais rapaz que menina, e julgava que não havia ninguém no mundo tão feliz como eu. Desejava sempre ter sido rapaz para me poder fazer Jesuíta e ir para as Missões de África.”

Em 1879 Maria Droste entrou para o Colégio das Religiosas do Coração de Jesus, em Riedenburg. “Antes de ir para lá, Nosso Senhor quis mostrar-me mais claramente a minha vocação. Foi no dia 21 de novembro de 1878 quando assistia a um sermão feito pela Cura da freguesia, na Igreja paroquial de Darfeld”, relata. “Ninguém, porém, desconfiou de mim, porque fiquei como dantes: amiga de brincar, saltar, cantar, dar passeios com os meus pais e irmãos, a burro ou a cavalo, etc”, escreve a beata. Esteve dois anos e meio no Colégio, onde terá vivido novos momentos de “chamamento”. “Em 1880 (foi outra vez no dia 21 de novembro) assisti a uma tomada de hábito. Um Padre da Companhia de Jesus, apóstolo do Coração de Jesus, pregou”, descreve. “No fim da cerimónia o Padre mandou-me chamar (ele era conhecido de meus pais, mas eu nunca o tinha visto). Depois de algumas relutâncias, principiei a confiar-lhe o que se passava na minha alma. Foi a primeira vez que rompi o segredo, e com muito custo. O Padre conheceu logo a minha vocação. Animou-se muito. E quando ele voltou ao Colégio, no dia 25 de março de 1881, a coisa já estava tão adiantada que ele me aconselhou a falar com a Superiora e com a minha mãe, nas férias da Páscoa.” Maria Droste descreve que foi a 5 de agosto daquele ano que se declarou aos pais sobre a sua “resolução definitiva” de se fazer religiosa. “Eles ficaram no auge de júbilo, porque só tinham o desejo de consagrar uma filha a Nosso Senhor. Mas como eu, desde o último ano que estive no Colégio, andava bastante adoentada, e como se receava uma lesão nos pulmões, meu Pai disse-me que eu devia esperar até aos 21 anos.”

Em junho de 1884, durante o período da Festa do Sagrado Coração de Jesus, Maria rezava na capela diante da imagem do coração exposto, após comungar, quando terá ouvido uma voz no seu interior. “Tu serás a esposa do Meu Coração”. “Que instante mais feliz! Esposa do Seu Coração! Mas como? Quando?”, escreve a beata. A data marca o início do seu “voto de castidade perpétua”. Foi a primeira de muitas experiências místicas que a freira relatou nas suas cartas ao confessor.

Entretanto, até 1886 viveu em casa da família: “só meus pais, irmãos e alguns parentes sabiam o meu desejo”. “Tínhamos em casa uma vida muito regular: a Missa todos os dias, eu comungava três vezes por semana, tínhamos a nossa meditação, leitura com os meus pais, terço em comum e, durante o dia, trabalhávamos na direção da casa. Minha mãe exigia que aprendêssemos tudo o que fosse necessário para governar uma casa. Éramos muito unidos uns com os outros, e meus pais nunca nos perturbavam nos exercícios de piedade nem nas obras de caridade. A Capela era sempre a nossa maior alegria. Naquela época eu dirigia o canto, e era a maior consolação de meu Pai ouvir-nos cantar na capela. Foram anos realmente felizes e muito favorecidos pelo Santíssimo Coração de Jesus.” Diante da doença, Maria Droste acabou mesmo por iniciar a vida religiosa ainda na casa dos pais. “Vesti-me de preto, arranjei o meu quarto da maneira mais simples possível, fiquei dispensada de parecer diante das pessoas de fora, assim como dos trabalhos da direção da casa. Ocupei-me daqui por diante a rezar e a ler, a trabalhar para os pobres e para as Igrejas, a tratar e a visitar os doentes. Todos em casa respeitavam o meu quarto como se fosse a cela de uma freira; e foi ali que gozei da companhia do meu Divino Esposo, durante dois anos”, relata.

Foi só em 1888, aos 25 anos, que ingressou na Congregação do Bom Pastor, em Munster, uma instituição dedicada a “cuidar de raparigas transviadas e de meninas órfãs ou abandonadas”. Recebeu o nome religioso de Irmã Maria do Divino Coração. Proferiu os votos perpétuos em 1891 e foi transferida para o Convento das Irmãs do Bom Pastor, no Porto, em 1894.

As cartas ao Papa e a consagração

Como superiora no Porto, ocupou-se de ajudar a comunidade pobre onde a congregação estava inserida, aplicando a disciplina dentro do convento. Mas terá sido nos seus últimos anos, já depois da doença a ter quase paralisado, que terá vivido as experiências místicas que a motivaram a contactar o Papa Leão XIII. “Nosso Senhor fala-me algumas vezes ou de todo interiormente (como muitas vezes depois da Santa Comunhão) ou também por algum meio exterior: crucifixo, estátua, etc.; a maior parte das vezes por meio do Santíssimo Sacramento, principalmente nos dias de Exposição, que, muitas vezes, foram para mim dias de abundantes graças”, descreve a beata.

Em 1897 terá ouvido a mensagem de que tinha a incumbência de comunicar ao líder da Igreja Católica sobre o pedido da consagração do mundo ao seu Sagrado Coração. Entretanto, nesta altura terá sido impedida pelo seu confessor: “A Sua Santidade já tem os seus conselheiros”, ter-lhe-á dito. Maria terá então ouvido a voz em outras duas ocasiões, a insistência necessária para que a beata decidisse agir. Enviou duas cartas a Leão XIII, em junho e dezembro de 1898, a transmitir as mensagens que havia ouvido.

“Fica sabendo, minha filha, que da caridade do Meu Coração quero fazer descer torrentes de graças através do teu coração para dentro do coração dos outros”, descreve Maria ter escutado. “Nosso Senhor tornou-me a falar na consagração do mundo ao Seu Divino Coração; mostrou-me interiormente o Seu Santíssimo Coração como uma luz que devia esclarecer todo o mundo”, lê-se numa carta da beata, de dezembro de 1898.

Já a 1 de janeiro de 1899, Maria antecipa a consagração que o Papa Leão XIII faria meses depois. “Não lhe posso exprimir o que sinto ao lembrar-me que este ano foi destinado por Nosso Senhor, para se cumprirem os desejos que Ele manifestou, e que de entre tantos milhões, Nosso Senhor escolheu-nos a ambos para comunicar-nos os segredos do Seu Divino Coração e os desígnios de misericórdia que Ele tem sobre o mundo.”

Em fevereiro o Papa exprimiu a intenção de consagrar toda a humanidade ao Sagrado Coração de Jesus. A encíclica Annum Sacrum, de maio de 1899, consolidou a consagração. “Vou praticar o ato mais grandioso de meu Pontificado. Sabemos por revelação divina que esse ato apressará as misericórdias que esperamos. Há no mundo almas que recebem comunicações do Céu, e algumas vezes elas são transmitidas ao Papa em circunstâncias tais, que é impossível duvidar que venham de Deus”, disse Leão XIII. A 8 de junho daquele ano, três dias antes da data marcada para a cerimónia de consagração, em Roma, Maria do Divino Coração morreu, na cidade do Porto.

O seu corpo incorrupto foi descoberto em 1944, durante uma exumação, parte do processo de beatificação. Maria do Divino Coração foi beatificada em 1 de novembro de 1975 pelo Papa Paulo VI, e o seu corpo exposto para veneração num Túmulo-relicário na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Ermesinde. O processo de canonização ainda se encontra em curso na Congregação da Causa dos Santos, em Roma.