Após 21 anos, as seleções da Argentina e da Inglaterra voltam a cruzar-se esta quarta-feira, nas meias-finais deste Mundial-2026. E para o relvado transportam o peso de uma rivalidade que não se limita ao futebol e que tem raízes profundas no Atlântico Sul, onde uma disputa entre os dois países custou a vida a 649 argentinos e 255 britânicos.
Foi em abril de 1982 que a Guerra das Malvinas explodiu. A Argentina invadiu o território que estava sob administração britânica, por considerar que historicamente o arquipélago lhe pertence. Em Londres, a primeira-ministra Margaret Thatcher decidiu que o Reino Unido iria resistir e mobilizou meios militares para a região. Durante 74 dias, os dois países combateram, mas foi a Inglaterra que saiu vencedora — e as Malvinas continuam até hoje a ser oficialmente um território autónomo sob jurisdição britânica.

A vingança da Argentina chegou quatro anos mais tarde, mas no campo, com a vitória sobre a Inglaterra nos quartos de final do Mundial de 1986, marcada por dois golos de Maradona. Um deles, aos 51 minutos, foi conseguido com a mão, num lance que ficou eternizado como “A Mão de Deus”.
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O outro, menos de cinco minutos depois, é considerado um dos mais ilustres da história do futebol. Apesar da técnica demonstrada por Maradona, o “Golo do Século” ganhou uma dimensão mítica sobretudo pela voz do jornalista uruguaio Víctor Hugo Morales, no seu relato radiofónico.
https://twitter.com/rootedinthegame/status/2076366758152171877
As duas equipas defrontaram-se novamente no Mundial de 1998, quando a Argentina eliminou a Inglaterra, desta vez nos penáltis. Neste jogo, David Beckham foi expulso após um confronto com Diego Simeone e recebeu bastantes críticas, inclusivamente dentro do Reino Unido, por ter deixado a equipa com menos um.
“Houve muitas ameaças e não apenas contra mim, mas também contra toda a minha família. Essa foi a parte mais difícil”, disse o jogador, citado pela ESPN. “Cheguei a pensar em jogar fora [da seleção inglesa]. Tinha apenas 23 anos e queria jogar pela equipa que amava, mas muitos diziam-me que não deveria ir a determinados estádios em Inglaterra”, explicou.
Simeone reconheceu um ano mais tarde que o cartão vermelho foi injusto — “o mais correto teria sido um amarelo” —, reconhecendo que exagerou. “Digamos que o árbitro caiu na armadilha”, disse, segundo a BBC.
No entanto, Beckham conseguiu deixar uma marca diferente no Mundial de 2002, quando marcou um penálti decisivo para eliminar a Argentina. Desde esse encontro, as duas seleções apenas se cruzaram num jogo amigável em 2005, vencido pela Inglaterra. Mas, nesta edição do Mundial, os argentinos prometem entregar mais, com a particularidade de ser a primeira vez que Lionel Messi defronta a equipa dos Três Leões.
Depois de eliminarem a Suíça no prolongamento, os jogadores sul-americanos celebraram no balneário com cânticos que evocavam as feridas do passado. Imagens partilhadas na internet mostram a seleção a entoar frases como “Pelas Malvinas, pelo Diego [Maradona], pela última de Leo [Messi]”, frases que constam na tradicional música cantada desde os tempos do Mundial do Qatar, em 2022. Os jogadores também se juntaram a adeptos em cânticos que diziam “Quem não salta é inglês”.
En Argentina, nací
Tierra de Diego y Lionel
De los pibes de Malvinas que jamás olvidaré
No te lo puedo explicar
Porque no vas a entender
Las finales que perdimos, cuántos años las lloré
Pero eso se terminó
Porque, en el Maracaná
La final con los brazucas la volvió a ganar papá
Muchachos
Ahora nos volvimos a ilusionar
Quiero ganar la tercera [cuarta]
Quiero ser campeón mundial
Y al Diego
En el cielo, lo podemos ver
Con don Diego y con La Tota
Alentándolo a Lionel
https://www.youtube.com/watch?v=Y_uw6v_rM_A&list=RDY_uw6v_rM_A&start_radio=1
Outros vídeos divulgados nas redes sociais mostram adeptos com mais cânticos que visam a seleção de Inglaterra, como este, onde dizem: “Já nos vamos encontrar, os ingleses têm medo”.
https://twitter.com/derechazoar/status/2076684543973601521
O jogador argentino José Manuel López reconheceu que o encontro entre Argentina e Inglaterra não é apenas sobre futebol. “É óbvio que dentro e fora das quatro linhas do campo é um jogo que tem muita História, muita dor e muita coisa por trás”, disse, citado pelo The Times.
https://twitter.com/CrewsMat10/status/2076169550777684325
O sentimento de posse sobre as Malvinas não é exclusivo dos jogadores. Recentemente, o ministro dos Negócios Estrangeiros argentino, Pablo Quirno, qualificou a população das ilhas como um grupo artificialmente implantado pela potência ocupante [a Inglaterra], rejeitando a legitimidade do referendo de 2013, no qual os habitantes escolheram manter-se sob administração britânica — com mais de 90% dos eleitores a votarem a favor da manutenção do statu quo. Também o presidente da Argentina, Javier Milei, tem reafirmado publicamente a soberania sobre o arquipélago, descrevendo-o como um território intrinsecamente argentino. “As Malvinas foram, são e sempre serão argentinas”, declarou este ano.
https://twitter.com/JMilei/status/2047776613408940158
No dia 15 de julho, na disputa das meias-finais, Argentina e Inglaterra irão protagonizar neste Mundial mais um episódio de uma rivalidade futebolística que, após tanto tempo, continua a ser alimentada por uma animosidade que desafia as gerações e as linhas do campo.