“Estás em cima de uma alface.” Não é todos os dias que damos por nós num festival de música em que o concerto — neste caso, o do ensemble sueco-dinamarquês BITOI, que explora um diálogo musical entre o baixo e um coro de três vozes — acontece na horta da Dona Maria dos Anjos, onde há que ter cuidado com o sítio onde se colocam os pés.
Numa era em que tanto se discute o futuro dos festivais de música, que têm vindo a enfrentar uma certa saturação — o aumento dos preços e dos custos no pós-pandemia, a quantidade de eventos, os cartazes repetitivos, o baixo poder de compra do público, o aparente desinteresse das novas gerações por experiências de campismo, cenário que já levou à queda de eventos históricos em Portugal, como o Super Bock Super Rock e o Sudoeste — há um oásis chamado Nascentes que acontece há cinco anos na aldeia das Fontes, no concelho de Leiria. Este ano, decorreu entre 1 e 5 de julho.
Este é um festival de pequena dimensão, com poucos milhares de pessoas por dia e uma eclética programação internacional, sem cabeças de cartaz, sempre com entrada gratuita. Durante cinco dias, a aldeia bucólica onde nasce o rio Lis transforma-se num recinto para música exploratória dos quatro cantos do mundo. O mais fascinante é o profundo envolvimento comunitário dos habitantes das Fontes: além dos espaços públicos, as atuações acontecem nas hortas, quintais, eiras ou adegas da população local, que também acolhe os artistas e ajuda a montar todo o evento. Numa escala mais pequena, e por isso mais familiar, é como se o Nascentes fosse um filho da programação do Tremor com a experiência comunitária de aldeia dos Bons Sons.
A música de todo o mundo cabe numa aldeia
Ao segundo dia de festival, depois de o público se concentrar no centro da aldeia, junto da Associação Cultural e Recreativa Nascente do Lis, somos levados natureza adentro até um local secreto onde iremos presenciar uma performance de Tó Trips. Envolto pelo verde de uma encosta, sobre uma série de texturas eletrónicas, o guitarrista leva-nos numa viagem sonora contemplativa a que se juntam todos os pequenos insetos voadores do bosque, curiosos e pouco habituados à presença de várias dezenas de pessoas naquela clareira.




O concerto dos BITOI acontece num cenário rústico onde tudo é cuidado. Aqui, as baias de segurança não são grades metálicas, frias e impessoais, mas antes arranjos de flores que surtem o mesmo efeito com um calor e um acolhimento distintos. A voz usada de forma rítmica, que explora a respiração e que canta uma língua inventada e inspirada no som dos pássaros, transporta-nos para o imaginário de um filme como Midsommar, para o solstício nórdico de verão, um sonho campestre de comunhão mas sem o terror do cineasta Ari Aster.
Rumamos de seguida à Casa da Lisete, outro dos palcos, um quintal com uma vista panorâmica transformado em recinto de festival ao pôr do sol. Os Plaka — trio de Barcelos, com apenas dois singles editados, que propõe uma música instrumental de tons quentes, que passa pelo afrobeat ou pelo funk — deixam a parte da habitação que estão a usar como camarim para subirem ao palco perante uma moldura humana em crescimento, sentada, deitada ou em pé sobre o relvado da moradia.
Mais tarde, ainda temos a experiência de assistir ao punk rock dos Sunflowers na Adega do ‘Nharro, um dos produtores de abafado da aldeia, que abre as portas do seu armazém aos festivaleiros que chegam de todo o país (e até do estrangeiro), como se aquele espaço agora profissionalmente iluminado e com uma bola de espelhos no centro do palco fosse um clube de rock n’ roll com uma programação regular.
Os riffs de guitarra cortantes, o baixo pulsante e a bateria a alta velocidade provocam o moshpit. Um concerto de punk rock com centenas ou milhares de pessoas numa adega numa aldeia remota de Leiria parece igualmente um cenário de filme, mas tudo ali encaixa e nos deixa a refletir: afinal, pode-se mesmo organizar um festival de música em qualquer lugar.
Curiosas, as crianças — e são muitas, ao longo de todo o Nascentes — aproximam-se do palco para espreitarem e ouvirem de perto aquela música estranha com letras semi impercetíveis que despertam os seus sentidos. O registo é familiar: depois das atuações, é comum ver os artistas a descobrirem o recinto, que é como quem diz a passearem pela aldeia, ou a darem por si noutras interações artísticas improváveis, como quando o baterista dos Plaka se aliou a duas das cantoras dos BITOI para uma quase roda de samba transformada em claque a torcer pela Seleção Nacional portuguesa no jogo frente à Croácia.
Existem jogos tradicionais espalhados, bancas de artesanato e especialidades gastronómicas, mas sem qualquer lógica invasiva de marcas. “Aqui não temos brindes, o maior brinde que aqui há é o amor e a ternura e é gratuito”, declara Guilherme Garrido no final de um espetáculo. Pela aldeia estão espalhadas tabuletas nesse mesmo sentido: “Elogia alguém”, “Muito amor”, “Olha para algo bonito e tira uma fotografia” ou “Empatia todo o dia” são algumas daquelas com que nos vamos deparando.

No dia seguinte, a artista contemporânea sul-coreana Dasom Baek transforma o Bosque do Manel Vale da Mata numa paisagem asiática meditativa com os seus instrumentos tradicionais de sopro e uma série de ambiências eletrónicas a servir de base. Um cão de um festivaleiro circunda lentamente as muitas pessoas sentadas, sobe as escadas que dão acesso à horta, enquanto vai sendo acariciado por dezenas de mãos — mais uma vez, um símbolo visual de todo o cuidado e sensação de carinho que percorre esta aldeia e festival.
Ao longo do Nascentes, vibramos com o jazz post-punk dos britânicos Vipertime; com o renascido Conjunto Contratempo, banda cabo-verdiana formada na Linha de Sintra; com a extravagância sónica e estética dos japoneses WaqWaqKingdom, dupla radicada na Alemanha que funde sons nipónicos, eletrónica europeia e influências da cultura soundsystem jamaicana.
As performances mais surpreendentes, contudo, acontecem no cenário do rio — numa das margens, um palco instalado junto a uma casa devoluta, com uma longa grua amarela por trás, proporciona uma cenografia entre o industrial e a natureza pós-apocalíptica. Do outro lado, milhares de pessoas preenchem a rua marginal enquanto vislumbram os concertos — seja dos colombianos Indus, dos bascos EZEZEZ ou dos turcos Elektro Hafiz.
São muitos os festivaleiros que optam pela água fria do Lis como bálsamo para o corpo, transformando o rio em pista de dança de rave ou arena de rock’n’roll. O cenário visual é impressionante — as luzes do palco tornam a água vermelha ou azul, em vez de mosh há batalhas de quem atira mais água e, concerto após concerto, os artistas parecem, tal como nos outros palcos, arrebatados pela experiência de estarem a tocar num festival tão ímpar quanto este.
Um festival de música como reforço de uma comunidade
O Nascentes — que já foi retratado em documentário, Onde Nasce o Rio, Morre o Medo, realizado pela Casota Collective — é fruto de um namoro antigo entre o programador e produtor cultural Guilherme Garrido e a aldeia das Fontes. Natural da cidade de Leiria, fundador do festival A Porta, ligado à estrutura da editora e agência Omnichord Records, foi perto do Natal há quase uma década que se deu o clique. Frustrado com a confusão e a lógica consumista da época natalícia, resolveu escapar e mostrar a aldeia das Fontes à companheira e aos filhos. “Estava um dia de inverno, super bonito, sem ninguém”, recorda ao Observador. “Há uma parte de ti que pensa: uau, este tesouro tem de ficar escondido. Mas também há o outro lado: e se este tesouro for partilhado? Se houver noção e cuidado…”




Ao mesmo tempo, estava cada vez mais interessado em organizar eventos culturais de pequena escala, de maior proximidade, longe dos centros urbanos. Começou a idealizar uma residência artística nas Fontes, que nunca chegou a acontecer graças à pandemia de 2020. Ainda assim, foi nesse ano, numa visita à aldeia, que descobriu uma casa que estava a ser vendida por um amigo agente imobiliário. Rapidamente fizeram uma proposta que foi aceite. Desde então passou a viver entre Lisboa e as Fontes, criando raízes na aldeia leiriense, tornando-se parte ativa da comunidade local. “Mudou completamente a minha perspetiva. Se calhar há uns anos só queria estar no centro da cidade, mas isto mudou a minha vida em todos os sentidos.”
Houve uma edição zero em 2021, mas com um programa ao longo de cinco semanas focado em residências e instalações que juntavam músicos e artistas visuais. “Ainda não tínhamos o conhecimento do território e das pessoas como hoje, percebemos que realmente não era aquilo que mais fazia sentido neste lugar.” E é então que nasce o modelo de festival do Nascentes, a partir de 2022, sem qualquer tipo de expetativa, com um acolhimento imediato mas ao mesmo tempo uma estranheza por parte das poucas centenas de moradores da aldeia. “Primeiro estranha-se, são coisas a que não estão habituados: nem à programação, nem ao cuidado, nem ao discurso. Como é um evento gratuito, também há um grau imenso de imprevisibilidade. Malta, não sabemos se vêm 5 pessoas ou 50. Mas vieram muitas mais: tivemos entre três a quatro mil pessoas ao longo dos vários dias no primeiro ano.”
Responsável pelos comes e bebes, uma das senhoras da aldeia estava tão ausente de expetativas que só comprou 10 bifanas para servir no primeiro dia. Escusado será dizer que seriam precisas muitas mais e que tantas outras foram encomendadas para os dias seguintes. “As pessoas deram logo uma grande abertura. ‘OK, estás-me a pedir a minha casa, mas o que é que vai mesmo acontecer?’ E até acontecer as pessoas não tinham propriamente noção.”
Na aldeia das Fontes, todos conhecem Carlos Pereira como “Caricas”, uma alcunha que já vem do seu bisavô, e cuja história se perdeu nos confins do tempo. Viveu a grande parte da vida no Canadá, onde era um “Jack of all trades, master of none”, alguém que fazia diferentes biscates, entre a agricultura e a construção civil, passando pelos casinos, e que depois de se reformar por invalidez regressou à terra-natal em Portugal.
Embora não tenha uma propriedade com dimensão suficiente para acolher concertos, é um dos vários moradores da aldeia que procuram ajudar a realizar o Nascentes. Logo na primeira edição, foi desafiado por Guilherme Garrido a dar uso ao seu inglês fluente para gravar uma voz-off publicitária sobre o festival. Costuma acolher pessoas em sua casa, onde também passou a organizar o Desabafar, atividade de partilha à mesa, integrada na programação do festival, em torno do abafado caseiro que produz a partir da sua vinha.

Este ano, graças à onda de calor e ao risco elevado de incêndio, as autoridades obrigaram a organização a suspender as atuações no principal palco do festival, precisamente na nascente do rio Lis, uma zona verdejante. Uma aldeia inteira foi obrigada a mudar, em apenas seis horas, todas as infraestruturas para outros locais — palcos, material técnico, casas de banho e demais instalações. Carlos “Caricas” foi um dos que se juntaram imediatamente à causa, transportando colunas e material de som no seu trator pela aldeia fora.
Guilherme Garrido descreve mesmo as soluções arranjadas em pouco tempo como “um milagre”. “Surpreendeu-me e a verdade é que todos se entregaram. Uma coisa são as equipas técnicas e artísticas, mas muitas pessoas da aldeia também. Há um problema para resolver, então vamos todos ajudar. Em seis horas conseguiu-se montar o festival possível.”
Para os moradores das Fontes, mais do que o concerto de uma banda experimental da Escandinávia ou do Extremo Oriente, o grande momento do Nascentes é a chamada Jantarada d’Aldeia. Tem acontecido sempre na sexta-feira à noite, na rua principal, onde são colocadas várias mesas e se prepara um manjar comunitário ao ar livre. Este ano, participaram 360 pessoas — a prioridade é para os habitantes da aldeia e para os seus familiares, mas também se abrem algumas vagas para os festivaleiros, que esgotam sempre em poucos minutos.
Irene Neves e Júlia Cunha, primas e reformadas, nascidas e criadas nas Fontes — de 70 e 72 anos, respetivamente — são duas das muitas senhoras que se dedicam à preparação da jantarada. Diz-se que praticamente todas as casas ou famílias da aldeia têm pelo menos uma pessoa a ajudar nos preparativos. Para elas, esta refeição partilhada chega a ser mais importante do que o Natal. “As pessoas vibram com isto. É uma alegria tão grande no ar, à noite. É extasiante, é o nosso momento alto do ano. Porque é uma comunidade em conjunto”, comenta Júlia Cunha com o Observador.
Ambas sublinham que o Nascentes veio reforçar os laços comunitários nas Fontes. “Isto faz muito bem à nossa mente, é uma forma de não estarmos tanto por casa, de convivermos mais uns com os outros. Há pessoas a que eu só dizia ‘bom dia’ ou ‘boa tarde’ e agora estou durante uma hora ao lado delas a trabalhar, a trocar ideias e a conversar acerca de vários assuntos”, acrescenta a dona Júlia, que também fala sobre o gosto que as pessoas da aldeia têm por acolher os concertos nas suas casas. “Até aprimoram o local, gostam de ter as coisas em ordem. Se for preciso vão pedir umas plantas à vizinha, gostam de embelezar o lugar, é uma forma de mostrar que gostam de acolher com brilho.”
Além disso, há a interação com o público diverso que chega de fora. “A aldeia tornou-se conhecida, as pessoas manifestam muito interesse em viver aqui, as casas têm tido uma saída muito grande. O festival contribuiu muito para isso. Não temos aquela pacatez e a privacidade de antes, mas é enriquecedor, porque há um intercâmbio de outras formas de pensar e de ser, outras gentes e tudo isso é muito importante para o desenvolvimento da comunidade. É uma mais-valia haver pessoas diferentes, de outros locais e de outras culturas”, acredita Júlia Cunha.




A prima, Irene, comenta no mesmo sentido. “Há muita gente que vem cá e diz: ‘eu vivo em Leiria e só conheci esta terra hoje. Não me perdoo’. Então eu digo-lhes: ‘então a partir de hoje, quero vê-lo aqui mais vezes, é para continuar a vir que isto não é só hoje!’ O festival dá-nos vida porque antes não tínhamos aqui ninguém, era uma pasmaceira.”
Até ao Nascentes, Irene conta que nunca tinha visto um concerto em toda a sua vida sem ser de “música pimba”. “Eu nunca tinha ido ao MEO Arena ou coisa parecida. Então fui com o meu marido ver um concerto, levámos uma mantinha, sentámo-nos numa zona inclinada e vibrei… Fiquei admirada comigo própria. Afinal, fez-me bem ver aquele concerto.” Não se recorda do nome do grupo, mas a experiência deixou uma memória feliz. “Era música moderna, tipo roqueiro, de abanar o capacete. Gravei muito aquilo na minha memória, vibro com aquele momento que vivi, com aquelas luzes pelas árvores acima, com três mil pessoas, num sítio onde brincávamos ao faz de conta em pequenos. Mas isto é verdade?! É bom para a nossa mente, ver as coisas a evoluir.”
Tanto Júlia como Irene pertencem ao Coro das Fontes, grupo dinamizado por outra moradora local, a cantora Inês Bernardo, de 37 anos, que há quatro anos foi desafiada por Guilherme Garrido a desenvolver o coletivo para participarem em todas as edições do festival. Neste momento são cerca de 15 mulheres: costumavam interpretar cantigas tradicionais e até recuperaram uma marcha antiga das Fontes, Sou das Fontes, Sou Feliz, que as senhoras mais velhas ainda preservavam na memória. Entretanto, o coro tem feito residências artísticas todos os anos — nesta edição em parceria com os artistas Carincur e João Pedro Fonseca — para desenvolverem performances mais exploratórias.
“Hoje em dia o que fazemos são coisas que de alguma forma nos transportam para a força da água, da nascente ou da nossa força interior”, explica Inês Bernardo, que faz parte da banda A Catraia, de folclore português. “É muito à base do som, nem são canções. De vez em quando há umas palavras e frases, mas muito à base da improvisação.”
Inês Bernardo tem participado de outras formas no Nascentes. Este ano, foi desafiada a fazer outra residência — com o seu marido, João Maneta, baterista, em colaboração com os músicos Ricardo Martins e Rui Gaspar, e o grupo Os Mimos — para construir o espetáculo de abertura do festival, a que deram o nome de Correntes.
Nesta edição, a sul-coreana Dasom Baek atuou no seu terreno e utilizou a sua casa como camarim antes da performance. “Os meus filhos adoram. No ano passado foram umas senhoras espanholas, agora foi uma senhora coreana. Estão lá em casa connosco e eles deliram com isso. É muito giro porque reforça ainda mais essa sensação de acolhimento. Tu literalmente abres a porta da tua casa. Quando vou atuar em festivais muitas vezes fico num camarim que é um contentor branco, daqueles removíveis, uma coisa impessoal, e de repente as pessoas que aqui vêm estão a tomar chá com a dona Emília na sua salinha ou estão na nossa casa com três crianças a espreitar pela janela e a brincar. Sentem-se em casa, estão confortáveis.”

Habituada a frequentar festivais de música enquanto cantora, Inês Bernardo argumenta que, enquanto consumidora, o modelo dos grandes eventos a saturou com o passar dos anos. “Acho que isto é uma alternativa extraordinária. O contacto com a natureza, com as pessoas, ainda por cima este festival tem muitas crianças, e é extraordinário poderem ir com os pais para um sítio onde estão completamente à vontade, podem ir para o rio, para os jardins, ver as hortas e as galinhas, tudo o que temos aqui… Como mãe, se pudesse ir a um festival assim todos os fins de semana iria adorar. E há aqui grupos de pessoas que nunca se iriam deslocar para ir assistir a este tipo de música. Então, tudo isto transforma os ecossistemas. Lembro-me perfeitamente de uma fotografia num dos primeiros festivais, de uma senhora muito querida aqui da aldeia que é das mais velhas, com 94 anos, a dona Emília, sentada ao lado de uma menina com piercings e tatuagens, o cabelo pintado às cores e estarem as duas a rirem-se uma para a outra… Acho aquela imagem de uma beleza que não tem fim.”
Foi em busca de uma vida mais tranquila e com sentido de comunidade que Inês Bernardo e o marido João Maneta se mudaram para as Fontes há quase uma década. Tornou-se rotina ter um cesto à porta de casa com ofertas das hortas dos vizinhos; certa vez chegou a casa e estavam vários moradores de surpresa a soldar o portão da sua propriedade, que estava danificado.
“Na pandemia e agora nas tempestades também houve um grande espírito de entreajuda. Houve sítios com muito mais estragos, mas também tivemos problemas nos telhados… A minha casa, por eu ter três filhos pequenos, foi logo uma das primeiras que os meus vizinhos foram arranjar, antes mesmo de arranjarem a deles. O meu telhado às 10 da manhã do dia seguinte estava arranjado. Diz muito sobre o que é esta comunidade. E o festival veio reforçar ainda mais essa união, porque obriga as pessoas a estarem em comunidade, durante várias horas a trabalhar, o que é muito bonito porque temos mesmo de lidar com as diferenças uns dos outros. Acho que até acaba por devolver esperança às pessoas de fora: ainda é possível viver numa comunidade onde as pessoas realmente gostam umas das outras e se apoiam. Esta estrutura toda que aqui está é simbólica disso. Talvez as pessoas de fora pensem que isto é possível ou ‘eu posso levar um bocadinho deste amor para a minha casa, para a minha comunidade e recriar isto noutros sítios’. Isso acaba por ser uma mensagem que passa para os visitantes que vêm ao festival.”
Antes de cada concerto, Guilherme Garrido sobe ao palco para apresentar a banda mas, acima de tudo, para apelar ao bom senso dos festivaleiros, contextualizando o festival, explicando os locais onde estão, agradecendo aos anfitriões, incentivando para que tudo seja feito com máximo cuidado, para que não haja beatas ou lixo no chão, plantas pisadas ou quaisquer outro tipo de danos.
“Noutro dia estava a ouvir o Gui a falar com a equipa técnica e ele estava a dizer que, se alguém da aldeia quiser conversar, desabafar, dizer alguma coisa que seja importante para essa pessoa, nada daquilo que a organização esteja a fazer naquele momento é mais urgente do que parar para ouvir aquele desabafo”, revela Inês Bernardo. “Isso reflete muito a ligação que a organização tem com as pessoas daqui. Distribuem cartões pelas casas das pessoas a agradecer, são mesmo muito cuidadosos.”
O futuro: melhorar sem ter de crescer
O objetivo é que o Nascentes se torne um festival cada vez melhor, mas não necessariamente maior. “Quero crescer qualitativamente, não quantitativamente. São coisas que também tenho vindo a aprender. Não me interessa essa coisa de crescer, crescer, crescer. Às vezes há pessoas que me dizem: ainda cabia aqui mais gente. Mas não temos de vender 200 barris de cerveja, não têm de estar aqui 50 mil pessoas. Há sítios para essas coisas, este não é o lugar”, argumenta Guilherme Garrido.




Embora o futuro seja sempre “incerto”, tendo em conta que o festival, com uma programação de entrada livre, depende significativamente do apoio financeiro da Direção-Geral das Artes — bem como da Câmara Municipal de Leiria e do Turismo Centro Portugal — a ideia é continuar a fazer os possíveis para melhorar os detalhes sem interferir com a essência.
“Enquanto fizer sentido, enquanto trouxer um impacto positivo das mais diversas formas, de visitas, o impacto económico que também tem ajudado a associação local, um polo fundamental desta aldeia que conseguiu melhorar as suas infraestruturas… A malta vai buscar forças e continuar a unir-se.”
Há sempre um equilíbrio delicado entre dar visibilidade ao projeto e atrair visitantes sem querer massificar um festival que não vende bilhetes e que, por isso, não tem controlo do número de entradas. Por isso mesmo, em sentido inverso de quase todas as estratégias mediáticas, a própria comunicação do Nascentes é limitada de forma intencional, para que não esteja em todo o lado ao mesmo tempo. “Só comunicamos um mês e meio antes do festival, não quero ter muitos media partners e já recusámos várias coisas… Acho que neste momento estamos na escala certa”, aponta, sendo que este ano deverão ter tido um total de cerca de 10 mil entradas ao longo dos cinco dias de evento, sendo que muitos festivaleiros são repetentes de vários dias.
Ao longo destes anos, o espírito do Nascentes também já desaguou noutros projetos complementares, algo que se mantém nos planos para manter a aldeia das Fontes com uma vitalidade cultural ao longo de todo o ano. Uma das principais iniciativas é a Fontes Sonoras, com instalações de som com curadoria de Raquel Castro, um programa focado na ecologia acústica. Além disso, estão a planear programar concertos ao longo dos meses na aldeia. “Estas portas estão abertas o ano todo e isso é muito especial.”