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(A) :: "Gostava de fazer as duas coisas: assinar os cabelos e apresentar uma coleção". Diogo Cerqueira, da moda ao hairstyling

"Gostava de fazer as duas coisas: assinar os cabelos e apresentar uma coleção". Diogo Cerqueira, da moda ao hairstyling

O cabeleireiro responsável pelos looks de passerelle do Portugal Fashion também já passou pelo concurso Bloom e não esconde o desejo de regressar à moda, sem deixar a paixão pelos cabelos.

Sâmia Fiates
text
Inês Lacerda
photography

Bastam alguns passos pelo corredor que se forma entre as fileiras de cadeiras e espelhos, para Diogo Cerqueira ser abordado. Logo pega num secador de cabelo ou num spray. Olha através do espelho para a modelo que deixa os seus cabelos serem moldados, mais uma vez, para o próximo compromisso à passerelle. O hairstylist fez pelo menos uma dezena de vezes o trajeto por entre as manequins, no mezanino do pavilhão usado como backstage do Portugal Fashion, que nesta edição usou o M-Odu como quartel-general no Porto. À função principal de coordenar todos os penteados do evento de moda, faz vezes um pouco de conselheiro, um pouco de bombeiro de serviço, a lidar com os imprevistos e mudanças de última hora. “Tivemos um problemazinho com as ligações elétricas e com os nossos secadores e tivemos que fazer uma alteração. Um look que era bastante polido e seco passou a ser um wet look um bocadinho mais natural. Visualmente, no final, funcionou muito melhor. Portanto, ainda bem que aconteceu!”, diz o hairstylist ao Observador, num intervalo entre desfiles.

“É desafiador o facto de serem tantos desfiles seguidos e tantas propostas de cabelo diferentes. Nós temos que ter um mindset muito programado e uma boa comunicação entre a equipa, para conseguirmos lidar com tudo isto. E também o facto de os produtos, principalmente da gama Session Label, estarem tão programados precisamente para as semanas da moda, porque é uma gama de finalizantes que foi pensada para este tipo de eventos e permite-nos mudar muito rapidamente de designer para designer”, diz o hairstylist. Aqui, trabalha com a equipa da Schwarzkopf Professional, responsável pelos cabelos de mais uma edição do evento de moda do Porto. “Obviamente há sempre um pequeno briefing antes de cada preparação. Mas para cada desfile eu tento também entender um bocadinho diretamente com o designer. Porque muitas vezes eles mandam-nos vários tipos de influências e nós temos que encontrar juntos algo que se vá de facto enquadrar ali na coleção.” Um trabalho de conexão entre cabelo e moda, que vem de muito mais cedo.

“Comecei pela moda e depois passei para os cabelos”, conta Diogo Cerqueira, que estudou design de moda na Escola Artística Profissional Árvore, no Porto, e depois iniciou a faculdade de design têxtil em Paris. “Posteriormente decidi fazer o curso de cabeleireiro, um bocadinho na ideia de completar a parte da moda. Precisamente para facilitar uma comunicação com cabeleireiros e tudo mais. O que é facto é que eu apaixonei-me por esta área e iniciei logo com alguns trabalhos de moda pontuais”, recorda o profissional, que já soma 15 anos de carreira.

Em 2017, Diogo Cerqueira venceu a etapa nacional do concurso Style Master, e representou Portugal no evento internacional. “A partir desse concurso a minha carreira como cabeleireiro catapultou”, assume. Foi quando passou a integrar equipas dos backstages das principais semanas da moda internacionais. “Há cerca de seis anos tive a oportunidade de ser chamado pela primeira vez como assistente para desfiles na semana da moda de Paris, onde trabalhei em desfiles da Dior, por exemplo”. Mais recentemente, integrou a equipa de um dos nomes mais conhecidos no meio da moda — trabalhou com Guido Palau em desfiles como da Fendi ou Versace, durante a semana da moda de Milão.

Mas ainda considera eventos como o Portugal Fashion mais significativos. “É um grande orgulho poder ter estado naqueles backstages. É completamente distinto aquilo que se faz aqui e aquilo que se faz lá fora, porque são dimensões completamente diferentes. Mas se me perguntarem a mim ao qual eu dou mais importância, e de uma maneira muito transparente, provavelmente vou dizer que dou muito mais importância a isto: ao estar em casa, porque acho que uma pessoa quando está a jogar em casa se sente mais confortável, estamos a fazer pelos nossos.”

Entre o afeto das noivas e os egos da moda

Apesar da conexão tão grande com a moda, o seu trabalho como hairstylist arrancou a sério no mercado dos casamentos. “Comecei como freelancer com noivas e só depois é que passei para o salão. O meu primeiro trabalho remunerado foi uma noiva“, conta Diogo Cerqueira, que hoje também tem um salão em nome próprio em Ermesinde. “Gosto de trabalhar com pessoas e gosto de trabalhar com momentos felizes. Para mim tem um significado muito especial, porque estamos a partilhar de um momento que à partida será o dia mais importante da vida de uma mulher. É uma responsabilidade grande. E tirei grandes amigas que chegaram a mim enquanto noivas e que hoje em dia são pessoas muito importantes para a minha vida”, assinala.

A comparação com o mundo da moda, entretanto, é inevitável. “Trabalhar com moda é mais desafiador, porque estamos a trabalhar às vezes com egos grandes demais. As inseguranças também acabam por estar bastante presentes e dizer isto às vezes pode soar um bocadinho bruto, mas é transparência”, considera o hairstylist. “Há muita tensão a acontecer nestes eventos”, assume. Egos que no exterior podem ser ainda maiores, considera Diogo Cerqueira, “mas se calhar não há tanto deslumbre”, afirma, em relação às semanas da moda internacionais. “Aqui, estamos a falar de criadores que para nós já têm muito peso mas que não têm, infelizmente, a mesma estrutura que outras marcas têm. Lá fora estamos a falar de investimentos megalómanos, equipas gigantescas, tudo a acontecer ao mesmo tempo. É muito difícil comparar”.

Um regresso à moda?

Apesar de estar afastado do universo da confeção, Diogo Cerqueira assume que desenha “muitas vezes”, especialmente no âmbito do seu trabalho com noivas. “Às vezes em conversas acabo por sugerir algum tipo de alteração ao vestido. Às vezes as noivas já sabem que eu passei por essa parte de design e pedem uma outra opinião. E às vezes dá-me vontade de pegar num livro só para desenhar, o que também é giro”, conta o hairstylist. “Sou muito apreciador do feminino e tudo o que for muito delicado. Tudo o que valoriza a mulher, não só enquanto figura, mas enquanto ser humano, para mim fascina-me completamente. E gosto de uma vibe mais renascentista, ou então de coisas com influência histórica, de estilos de arquitetura ou pintura”, conta, sobre o seu estilo de criações. “Mas lá está, posso ter um devaneio e criar algo completamente distinto”, brinca.

No segundo ano consecutivo a coordenar os cabelos do Portugal Fashion, Diogo Cerqueira pode estar a ensaiar um regresso à passerelle também a criar roupas. “Foi-me feita uma proposta por uma pessoa que está associada à direção da organização do Portugal Fashion. O desafio de criar novamente uma coleção“, conta o hairstylist, que já chegou a apresentar em 2011 dentro da plataforma Bloom, o concurso para jovens designers do Portugal Fashion. “Na altura apresentei uma coleção extremamente couture, era muito direcionada para vestidos de noite, inspirados em roupa interior, onde eu trabalhei com rendas francesas muito delicadas”, recorda.

E será possível ver Diogo Cerqueira no calendário de 2027? “Obviamente que tenho alguma vontade de voltar e se calhar de fazer até as duas coisas em simultâneo, de assinar os cabelos e conseguir apresentar uma coleção. É algo que eu tenho pensado muito. Na próxima edição pode acontecer. Se eu conseguir reorganizar a minha agenda para isso, de certeza que vou fazer muita força para isso acontecer”.