Henri Paul passou à história como o motorista da última viagem de Diana, ao volante nesse agosto de 1997 que custou a vida à Princesa de Gales. O que poucos saberão é que sete meses antes, na piscina do hotel Ritz, em Paris, foi ele quem tentou reanimar a nadadora que acabara de sofrer uma hemorragia cerebral. Seriam as últimas braçadas da então embaixadora dos EUA em França, que um dia depois, em 5 de fevereiro, no hospital americano em Neuilly-sur-Seine, se despedia de uma vida de glamour, escândalo, e intriga ao mais alto nível.
Na hora do adeus a Pamela Beryl Digby Churchill Hayward Harriman (1920-1997), François Chirac velou-a na capital francesa, Bill Clinton concedeu-lhe oito minutos de elogio fúnebre em Washington, e os dois lados do Atlântico continuaram indecisos sobre o epitáfio reservado àquela a quem a história atribuiu o rodapé de uma das cortesãs mais famosas do século XX. Sónia Purnell quis fazer justiça à filha de um barão sem posses, criada para “se casar bem”, mas que não conseguiu encontrar marido durante a sua primeira temporada em Londres, em 1938. A aristocrata inglesa que aos 21 anos viu a porta de saída da monotonia de Dorset na proposta de casamento de Randolph Churchll, o único filho do antigo primeiro-ministro britânico, carimbando a sua ascensão social e política num continente em pré-guerra. Instrumental durante o conflito, valeu-se da inteligência, magnetismo e talento entre lençóis, seduzindo e convertendo as mais relevantes autoridades americanas, captando-as para a causa britânica contra os nazis.

Em janeiro de 1941, na capa da Life, com o filho bebé ao colo, era a imagem do soft power britânico, desesperado por empatia. Winston recebera o nome do avô (1940-2010), mas ninguém como a forasteira da família conseguiu ir mais longe na fama do apelido depois da II Guerra. A vida de aventuras, a coleção de amantes (na senda da sua antepassada Jane Digby (1807–1881)), e a sucessiva caça de fortunas, terão ofuscado o legado de A Fazedora de Reis (D. Quixote), que depois do divórcio privou com o príncipe Aly Khan, o empresário italiano Gianni Agnelli, o milionário dono da Fiat, e o banqueiro francês Élie de Rothschild, que foram financiando a sua luxuosa vida.
Já nos EUA, voltaria a casar com quase 40 anos, com Leland Hayward, produtor de sucesso na Broadway e em Hollywood, mas foi durante as últimas décadas de vida, ao lado do terceiro marido, Averell Harriman, que Pamela ganhou estabilidade e poder em Washington, ajudando a financiar e promover candidatos do Partido Democrata, de Carter a Clinton, que em sinal de agradecimento lhe garantiu o posto na capital francesa.

A mulher que só teve o seu primeiro trabalho formal aos 73 anos soube influenciar a partir da mansão onde o seu Van Gogh impressionava a elite, sobreviver ao infame artigo de Truman Capote para a Esquire (1975) que expôs os caprichos mais sórdidos do seu círculo de “cisnes”, e deixar uma marca duradoura fora de portas. Quando o casal Gorbachov foi a Washington em 1987, Raisa visitou Pamela na sua casa de Georgetown, onde simbolicamente deram as mãos perante as câmaras de todo o mundo e desempenhou um papel secreto mas histórico como interlocutora entre Chirac e Clinton durante a guerra da Bósnia. “Claro que esta também é uma história de roupa maravilhosa, belas casas, carros rápidos, iates e jóias. Mas também há coisas muito importantes sobre a guerra, a paz e a vida das pessoas, e ela esteve envolvida em tudo isso.”, defende ao Observador a jornalista que colaborou com The Economist, The Daily Telegraph, e The Sunday Times, e que nos traz uma biografia épica que, who knows?, pode chegar em breve ao ecrã.
Vive entre os dois países, Pamela também se dividiu entre continentes. Tem sentido diferenças no acolhimento do livro?
Não o diria. Acho que a Pamela desafia a opinião de muitas pessoas onde quer que vá, seja América, França, Grã-Bretanha ou em qualquer outro lugar da Europa. Muitas vezes foi descartada como uma mulher obcecada por sexo, ou que era bastante ridícula. Muitas dessas opiniões eram de homens, mas não apenas. Acho que a maior divisão é entre aqueles que a conheciam muito bem e viram o que ela fazia atrás de portas fechadas em segredo. E aqueles que apenas podem fazer suposições sobre ela. Se olhar para aqueles que realmente trabalharam de perto com ela, como na campanha presidencial de Clinton em 1992, em outras épocas do partido Democrata ou mesmo nos anos 40, durante a II Guerra Mundial, todos eles ficaram impressionados. A imagem contrasta com frequência com a realidade privada.
É possível apurar a opinião mais justa sobre a sua vida e carreira?
Bom, ela não é uma santa e eu certamente não iria escrever que é uma santa, e tenho a certeza de se uma mulher naquela altura tivesse um marido rico iria ficar assustada, porque era possível que ela se envolvesse com ele. Mas se fizermos um balanço geral da sua vida, os seus contributos são enormes. Quando olhamos para a forma como ajudou ao triunfo na II Guerra Mundial, a evitar um novo conflito, a mudar a face da política norte-americana, a trazer paz à Bósnia ou a contribuir para o fim da Guerra Fria, são aspetos relevantes.
Decisiva mais em grandes arcos da história do que a uma escala mundana?
Sim, mas há uma coisa nela que também adoro: ela era muito boa para com as pessoas que estavam na mó de baixo. Por exemplo, há pessoas que não chego a nomear no livro, mas havia uma mulher encantadora que tinha perdido o marido num acidente de avião horrível, e que me contou que Pamela a vinha visitar em privado, dia após dia, durante quinze dias, com um cesto de comida, porque é fácil nem pensares em alimentar-te quando passas por uma coisa destas. Ela aparecia só para ver se a mulher estava bem. E falei com mais pessoas que me contaram como ela, apesar de ser muito ocupada, esteve presente quando elas passaram por maus momentos. Enfim, claro que ela tinha um lado implacável, podia ser duríssima, mas fez coisas incríveis pelo mundo e por uma série de indíviduos. No entanto há uma série de pessoas, mulheres incluídas, que parece que têm inveja. Claro que Pamela não se ajudou muito quando se metia com homens casados…
O que parecia quase um ponto de honra ou desafio acrescido, de facto. Quase todos eram casados.
Sim, e não estou aqui para desculpar o que fez mas ao mesmo tempo interrogo-me se teria sido criticada como foi se fosse um homem. Olhe o JFK. Quer dizer, o Jack Kennedy tinha coisas absolutamente terríveis e no entanto continuam a olhar para ele com admiração. Tudo o que conseguiu como presidente. Penso que devemos avaliar as mulheres pelos seus feitos e não pelo que fazem no quarto.

Mas admite que a vida pessoal de Pamela contribuiu para diminuir as suas conquistas profissionais?
Claro, claro que sim. É evidente que muitas vezes ela usou o sexo para conseguir o que queria. Quer dizer, durante a II Guerra Mundial ela usou o sexo como ferramenta para aproximar os EUA, para os convencer a ajudar Inglaterra. Usou o sexo e sabia do seu poder. E mesmo depois da guerra, quando se viu sem dinheiro e sem trabalho. Estava habituada a um certo estilo de vida e claro que não ia trabalhar para uma loja. Mas tal como ela, muitas outras fizeram isso porque escasseavam oportunidades para uma mulher que procurava uma vida excitante e interessante. Era preciso ligar-se a um homem com uma vida excitante para ter uma vida excitante.
Pamela é completamente um produto do século XX?
Sim, completamente, ela pertence ao século XX. Estamos a falar de outro mundo.
Ao mesmo tempo tem interesses que muitas mulheres daquele tempo não manifestam. Pamela não é a dona de casa tipo, apesar da educação nesse sentido.
Isso é um ponto interessante porque ela reflete o século XX e reflete também o progresso da condição feminina durante esse tempo. Ela só tem o seu primeiro trabalho formal aos 73 anos. A verdade é que o seu grande interesse é o poder, a política, o palco internacional. Em Pamela isso vem de trás, mas é apenas nos anos 80 e 90 que muitas outras mulheres começam a interessar-se pelas coisas que lhe interessavam há anos, pelo que se aproximou muito também das mulheres.
Muito à frente do seu tempo e também descaradamente sem vergonha dos seus atos, algo igualmente progressista?
Ela foi condicionada pelo seu tempo e pela falta de educação. Ela só foi à escola um ano da vida dela, nunca frequentou a universidade, basicamente não aprendeu nada além de costura e cozinha e não tinha intenção de fazer nenhuma das duas. Ninguém a levava muito a sério, exceto aqueles que levavam e esses levavam mesmo muito a sério.
Com o tempo, muitos dos grandes nomes que a história consagrou.
Façamos uma lista: Winston Churchill, Clinton, Nixon, Kennedy, o General de Gaulle e muitos, muitos, outros grandes líderes. Perceberam que ela sabia muito, apesar de não ter tido uma educação formal. A verdade é que com uma diferença de 50 anos, tanto Churchill como Clinton, cada um do seu lado do Atlântico, dependeram dela. Já nem falo do presidente Chirac e da enorme influência que Pamela teve. Não consigo pensar em nenhuma outra mulher que tenha tido um papel tão influente ao longo destes 50 anos. É fascinante quando falamos com pessoas que a conheceram e que nos dizem que não há ninguém como ela.

Falamos de uma muito jovem aristocrata, que falhara como debutante, e que aposta numa união que se vem a revelar uma catástrofe mas também uma porta para o elevador social. O casamento com Randolph Churchill é crucial na ascensão, mas como chega a arrebatar Winston da forma que se vê? Bastaram os seus atrativos?
Penso que é uma combinação de aspetos. Winston Churchill tinha uma relação complicada com os seus próprios filhos por várias razões, mas a Pamela apareceu e sim, ela era atraente; sim, ela ria-se das piadas dele; sim, ela acendia o charuto dele. E, sim, ela era uma defensora devota de tudo isso, o que obviamente é muito importante. Mas o que ele e a sua esposa Clementine perceberam muito cedo foi que ela foi capaz de absorver inúmeros factos e compreendê-los e ser incrivelmente discreta. Assim que ela foi convidada para um jantar ultra-secreto garantiu o acesso a Chequers e começou a ficar a par de todos os segredos de guerra. Ela saberia muito mais do que a maioria do gabinete de Churchill, por exemplo, porque eles sabiam que podiam depender dela, que ela era capaz de guardar segredos, algo que nem todos podem, mas também ela entendia o que era importante e o que não era importante.
Era mais relevante o que sabia calar do que o que poderia dizer.
Sim, ela entendeu a coisa mais importante de todas, e compreendeu isso muito cedo. Winston percebeu que não havia nada mais importante em 1940 que tentar obter apoio americano porque eles não estavam na guerra ainda, mas a Grã-Bretanha não poderia continuar a lutar por conta própria, sozinha. Fosse através de financiamento, de alimentos, máquinas, qualquer coisa. A Grã-Bretanha não sobreviveria sem os EUA e ela estava preparada para ajudar. Foi quando ela começou esta campanha; esta operação de sedução EUA.
Talvez não seja o método que primeiramente vem à ideia quando gizamos um plano em plena guerra. E no entanto os conhecimentos que travou, as relações sexuais que manteve, a influência que exerceu, terão feito mais pelo curso do conflito do que imaginamos?
Churchill notou que ela tinha esse poder quase magnético sobre homens poderosos mais velhos, eles derretiam-se por ela e acediam a todos os seus pedidos, nomeadamente conseguir que Washington apoiasse a causa britânica, contra a Alemanha nazi.
Pamela agarrou uma oportunidade única apesar de ser mulher ou precisamente pelo facto de ser mulher? Se por um lado vivia num tempo dominado por homens, dificilmente ascenderia a este protagonismo se em vez de lidar com Winston estivesse a lidar com uma elite feminina?
Era um mundo muito diferente. Sim, isso é verdade. Mas Winston e Clementine Churchill também tinham mães muito promíscuas. Eles estavam habituados a este tipo de coisas. Não se chocavam facilmente, apesar de serem muito dedicados um ao outro. Isto não era nada do outro mundo para eles. Na verdade, na Grã-Bretanha do século XX, a primeira metade do século XX, pelo menos, era muito normal os britânicos de classe alta terem vários casos extraconjugais. E se pensarmos bem, era o filho deles que Pamela estava a trair, mas encararam a situação como uma emergência nacional, uma emergência nacional como nenhuma outra antes. Eles sabiam que o casamento deles estava condenado ao fracasso, e que era a última das preocupações na lista de prioridades de Inglaterra.
Falamos de uma Pamela com 21, 22 anos.
Sim, muito jovem, e é incrível como alguém com 21 anos operava a tão alto nível, com milhões de vidas em jogo. Foi excecional.
Segundo li, chegou a Pamela enquanto escrevia sobre outra figura feminina de relevo desta era, Clementine, a mulher de Churchill. Tinha alguma noção prévia do impacto de Pamela ou foi uma absoluta revelação?
Quando estava a escrever sobre a Clementine, perguntei-me muitas vezes o que tinha esta nora, uma jovem do campo, que não era muito sofisticada, para começar, e de quem se dizia que Clementine e Winston tanto dependiam. Um dia soube que os documentos de Pamela seriam tornados públicos pela Biblioteca do Congresso. Estava à espera que isso acontecesse. Fui a Washington durante a Covid, numa brecha do confinamento. Não tinha sequer a certeza de que conseguiria ter acesso à biblioteca, apenas quatro de nós viram acesso garantido por algumas horas, por apenas um dia, e eu não tinha sequer tempo para me sentar e tirar notas. Tirei umas 3 mil fotos de papéis. Nem fazia ideia o que havia neles, usei o iPhone e disparei. Voltei para Londres e comecei a lê-los. E percebi que esta era uma história muito maior do que podia ter imaginado, e repare que eu nem chego a abordar muita coisa no livro, como a relação com Biden ou Mandela.
E assim ficou cinco anos de volta do projeto.
Porque aparecem todos os nomes em todo o lado, é extraordinário. O projeto devia ter-me levado dois anos e meio, no final acabaram por ser cinco porque as coisas continuavam a aparecer. Muitas informações que até então eram completamente desconhecidas ou secretas, registadas aqui e ali.
O que a surpreendeu mais ao escrever sobre esta mulher? A extensão da teia em que esteve envolvida?
Sim, o facto de estar envolvida em tanta coisa e a quantidade de pessoas que dependiam dela. Eu sabia que ela tinha tido uma vida interessante, mas quando entrevistei o Bill Clinton para o livro não esperava que me dissesse que ela tinha sido decisiva para ele vencer as eleições em 1992. Quer dizer, falamos de uma mulher que não estudou, nasceu no Reino Unido, que chega a América apenas mais tarde, depois da guerra.

Onde começou por ter um loja de roupa em Nova Iorque, onde vendia o “estilo Pamela” a clientes como a mulher de Bobby Kennedy, Ethel. E que no fim de contas se revelou uma verdadeira atlanticista?
Completamente. E é realmente interessante até hoje. Eu perdi a conta a quantos democratas americanos entraram em contacto comigo de várias maneiras diferentes e me disseram que continuam a reler os capítulos 33 e 34, e que me perguntam: mas como é que ela conseguiu isto ou aquilo? Até me perguntam quem poderia ser hoje uma Pamela e eu realmente não faço ideia, não acho que exista uma. Ela mudou o curso da política.
Já havia pelo menos duas biografias de Pamela Harriman, focadas no seu lado glamouroso, festivo, escandaloso. A história da mulher que até na morte tem uma cena dramática, depois de um episódio na piscina do Ritz de Paris, em 1997. Faltava contar o outro lado?
Essas biografias foram publicadas enquanto ela ainda estava viva. Os autores não tiveram acesso a toda a papelada e arquivo a que tive, incluindo 50 horas de entrevistas extraordinárias com ela, cartas de líderes políticos, etc. Muito do que foi escrito até então foi baseado em presunções sobre a vida da Pamela. O que quis fazer foi, ok, podemos já ter ouvido falar dela, imaginar que é assim ou assado, mas o que tenho para mostrar é algo diferente. Nunca foi explorado o seu papel enquanto embaixadora dos EUA em Paris, ou o papel que teve no fim da guerra na Bósnia.
Mas no livro tem um nível de detalhe enormíssimo, como referir que ela estava a usar um robe cor de rosa quando se envolveu com a ou b, como por exemplo.
Daí os cinco anos de trabalho. Cinco anos a ler cartas, diários, não apenas os dela mas de várias pessoas que com ela conviveram, e que escreveram sobre as suas experiências com ela, portanto lateralmente havia muito por pesquisar. Estamos a falar de centenas e centenas de fontes. A minha ambição foi a mesma que sigo com outros livros, fornecer o máximo de detalhe possível, porque o meu objetivo é que o leitor se sinta na mesma sala que Pamela. O meu agente às vezes pergunta-me porque é que levo tanto tempo. É por isto. Porque quero ir ao limite da pesquisa, ter a autoridade do detalhe que me permite colocar-me naquela sala. É esse nível de precisão que torna a história viva.
O que foi mais difícil confirmar?
Houve muita coisa que levou muito tempo. Recordo por exemplo quando Pamela foi ver o líder da União Soviética em 1983. Eu sabia que ela tinha tido uma reunião, até vi uma fotografia dela a entrar no prédio, mas não conseguia obter os detalhes que pretendia. No final descobri um site obscuro onde encontrei o testemunho de um oficial do Departamento de Estado que esteve lá com ela, que infelizmente já morreu, mas antes de morrer ele tinha dado uma entrevista para um projeto de história oral. Foi muito revelador. É um daqueles momentos eureka. O fantástico é conseguir preencher as lacunas, estamos sempre à procura da próxima peça. Claro que nem sempre conseguimos chegar a todas. Nem podemos incluir tudo. Com Pamela tinha tanto material, que tive que cortar 70.000 palavras. Precisaria de uma espécie de carrinho de mão para carregar tudo o que havia sobre ela.

Esta biografia de 500 páginas lê-se de um sopro, como um romance, com ritmo novelesco. Tem a base perfeita para uma adaptação para uma série ou filme?
Pode acontecer, sim, vamos fazer figas (risos). Muita gente acha que seria interessante.
Quem poderia fazer de Pamela?
Isso é outro desafio, seria um esforço extra. Depende da idade que estamos a tratar, mas pelo que ouvi dizer, há muitas atrizes que matariam para ter este papel. Quero dizer, tem de ser alguém que seja sexy, mas também muito inteligente. Um dos seus truques de mágica aparentemente era o efeito hipnotizante daqueles olhos azuis safira. Falei com muitos homens que referiram esse detalhe. Teria que ser alguém com esse nível de presença e carisma. Certamente haverá uma pessoa certa. Ela anda por aí!
Pamela privou com quem quis, terá tido romances com nomes como Sinatra, Ali Khan, Gianni Agnelli, e no entanto a certa altura queixa-se de nunca ter tido um verdadeiro marido. Talvez tenha encontrado maior estabilidade na terceira união oficial, ao lado de Averell Harriman, empresário e político americano do Partido Democrata. Conseguiu perceber se foi realmente feliz?
Aqui entra mais o meu instinto, vale o que vale, mas penso que fiquei a conhecê-la depois disto. Acho que o Gianni Agnelli foi o grande amor da sua vida.

E ela provavelmente o de Gianni, porque ele continuou a ligar lhe até ao fim dos seus dias, mesmo casado com Marella?
Sim, todos os dias, até morrer. Acredito que mais tarde se tenham arrependido de não se terem casado. Acho que havia muitas questões culturais pelo meio. Vamos lá ver, quantos homens poderosos do século XX queriam casar-se com mulheres poderosas do século XX? Ela estava um pouco à frente de seu tempo e isso foi difícil. Mas continuaram a encontrar-se quase até ao fim. E fiquei realmente impressionada quando o caixão dela esteve no exterior da embaixada dos EUA em Paris. O Presidente Chirac estava a fazer o elogio fúnebre, havia um grupo de pessoas sentadas em redor, e lá estava Gianni, completamente destroçado. Havia algo entre aqueles dois. Foi muito especial. Acho que Pamela também amou Averell Harriman, mas não estava apaixonada por ele.
Chegados a 2026, já estamos preparados para compreender e escapar ao julgamento de uma mulher como Pamela?
Não sei. Ainda acho que as mulheres são julgadas mais duramente do que os homens. Claro que imaginamos que hoje seja mais fácil do que há cem anos, acho que se ela tivesse nascido agora teria achado mais fácil, mas não sei se mesmo assim as suas conquistas não seriam abafadas. Ela foi julgada, é um facto, mas provavelmente conseguiu livrar-se de um tipo de escrutínio que hoje é mais duro. No entanto, basta ir ao YouTube ver o que disse Bill Clinton quando ela morreu para perceber a sua importância.
Oito minutos que o Washington Post achou “um disparate”, como sentenciaram no dia a seguir.
Exatamente. Temo que, como mulher, sempre foi o seu destino ser julgada da forma como tem sido. O meu livro é uma tentativa de lhe dar uma atenção justa. Como eu disse, não era nenhuma santa. Claro que esta também é uma história de glamour, roupa maravilhosa, belas casas, carros rápidos, iates e jóias. Há tudo isso. Mas também há coisas muito importantes sobre a guerra, a paz e a vida das pessoas e ela esteve envolvida em tudo isso.

Ligamos a Pamela também, ou antes de mais, pelo apelido que continuou a usar, o Churchill, que cem anos depois continua a ressoar. Nostalgia? Falta de liderança?
É interessante, talvez em tempos tão estranhos como estes em que vivemos procuremos líderes. Procuramos por pessoas que foram ícones no passado e talvez queiramos orientação sobre o que devemos fazer. Mas é curioso pensarmos no poder do apelido Churchill porque se virmos bem, os outros Churchill, os descendentes, são o tipo de filhos que nunca conseguiram realmente fazer algo de incrível como poderiam ter feito.
Randolph vivia à sombra da síndrome do Grande homem, e não seria o único.
E é muito difícil ser filho de grandes homens. É interessante que seja Pamela, uma pessoa que vem de fora da família, a continuar o legado da forma mais brilhante. Ela foi a única com o apelido Churchill a fazer coisas grandiosas depois de Winston. Como também é interessante olharmos para os discursos dele, vermos quão brilhantes eram, e lembrar que muitos deles foram escritos pela mulher. Portanto, ele tinha duas mulheres incríveis à sua volta e percebia que dependia de ambas. Embora boa parte da história não o reconheça, ele tinha noção disso.