(c) 2023 am|dev

(A) :: Backrooms, ou a fonte dos nossos terrores

Backrooms, ou a fonte dos nossos terrores

Talvez a Geração Z se sinta particularmente sozinha, e filmes sobre infindos espaços desolados a atraiam por isso; mas, verdadeiramente, não estão sozinhos nessa circunstância de estarem sozinhos.

Hugo Dantas
text

O género cinemático do terror é peculiar, porque é paradoxal. Percebe-se sem dificuldade que as audiências procurem comédias, porque nos é natural procurar o conforto e o riso. Mais difícil é compreender que queiram ser perturbadas e amedrontadas, quando passam a vida a fugir da perturbação e do medo. É certo que o terror dos filmes, por maior que seja, é sempre um terror pela metade. Depois de cada susto, o espectador encontra-se intacto na sua cadeira; a quarta parede nunca se desmorona verdadeiramente e até os mais inquietantes filmes, por mais que durem, acabam sempre por terminar. Tudo isto me leva a especular que só procuramos o terror pela certeza do alívio que se seguirá; pelo conforto de saber que, ainda que por uma hora nos sintamos acossados e perdidos, estamos, na verdade e por enquanto, a salvo.

Mas haverá alguma boa razão para maçar o leitor durante um parágrafo com as minhas teorias sobre o assunto? Há, pelo menos, uma razão actual. Dois dos filmes mais populares do ano são filmes de terror: um é sobre salas vazias que se sucedem umas às outras, entre alcatifa e papel de parede amarelo; o outro é sobre um jovem que suscita um feitiço de amor por não ter coragem de convidar para sair a rapariga de quem gosta. Chamam-se, respectivamente, Backrooms e Obsession. Escolhi começar por ver o primeiro.

Backrooms é o desenvolvimento em forma de filme de um conceito surgido na internet. A cultura da internet é profícua na produção de objectos perturbadores. É natural que seja assim. Se pensarmos bem, a internet é a promessa de uma liberdade sem freio e de uma transparência completa. É como uma estrada que leva a toda a parte ou como uma aldeia do tamanho do mundo que converte estranhos nos antípodas em vizinhos. Até ao surgimento da internet, para a maior parte da humanidade poder partilhar os seus pensamentos e feitos com um número grande desconhecidos tinha de passar pelo crivo de directores, editores e redactores. Existia um conjunto de guardiões da expressão pública, e se sempre concedeu que poderiam ser tutores benévolos do interesse geral e do pudor, também sempre desconfiámos que poderiam estar, de comum acordo, a esconder-nos alguma coisa. Na internet, os guardiões não existem. As portas são abertas e amplas. A promessa da internet é que cada um possa dizer e mostrar o que quiser. Os que faziam coisas terríveis, mostrariam as coisas mais terríveis. Os que conheciam os segredos do mundo, que os canais oficiais reprimiam, poderiam finalmente revelá-los. Milhões de vozes foram libertadas. A internet, em algum lugar, guarda a verdade sobre o mundo, e não conseguimos desligar-nos desta ideia de que a verdade pode ser também horrível.

A origem de Backrooms é uma história de terror contada na internet por um anónimo, em que a fonte de terror é um lugar. O lugar é aquela sucessão de salas violentamente amarelas, em que cada uma apenas promete uma próxima, sem desenlace e sem esperança de socorro. É uma ideia que se liga com outra, maior, um verdadeiro género, que é a de espaço liminar: outro artefacto da cultura da internet. O espaço liminar é um lugar vazio, construído para receber gente, mas onde, por alguma razão, não se vê gente. Pode ser o amplo átrio de um edifício, um longo corredor de um hotel, o centro comercial morto, a fábrica abandonada. Contemplando a fotografia de um espaço liminar, sentimo-nos sozinhos, talvez irremediavelmente sozinhos. Talvez sejamos forçados a desviar o olhar da imagem e a procurar o conforto de um rosto humano próximo.

Fui ao cinema, a uma Sexta-feira à noite, porque esperava ver desdobrado o terror existencial que suscitam os espaços de limite. Er porventura inevitável que eu me desiludisse e saísse com a conclusão que a ideia foi implacavelmente chacinada. Backrooms começa bem ou mesmo muito bem a lembrar a tradição do raw footage, explorado com mestria nesse hoje clássico do terror, The Blair Witch Project. Depois dessa cena inicial, estou tentado a dizer que o verdadeiro terror provém das actuações. É certo que nem um Lawrence Olivier, se enviado para o horizonte das câmaras com um roteiro manhoso, poderia inspirar-nos com performances de génio. O roteiro, em vez de reter o espectador na inquietude da dúvida, a película cede sem resistência aos elementos sobrenaturais explícitos, e o argumento parece indeciso entre explorar a perturbação própria dos labirintos desolados, converter-se em trama de alucinação psíquica ou refazer os tropos cansados da perseguição de humanos indefesos por criaturas desengonçadas, ou mesmo ingénuas, mas que não sabem medir a sua força nem conter o seu apetite.

O filme desvia-se insensatamente da força primeva da ideia e no caminho mostra demasiado. Ora, o conceito de espaço liminar e o de backrooms desconfortam pelo que se vê, mas apenas porque é sinal do que não se vê. Esta é, parece-me, a receita dos melhores filmes de terror. O que é sugerido é sempre mais temível do que o que é visto, porque em todos nós mora o medo do inferno, daquilo que é demasiadamente terrível para ser descrito por palavras ou retratado com imagens. Quando se mostra um monstro, podemos encerrá-lo num conceito, e, portanto, situá-lo na ordem cósmica, medi-lo contra o universo. Quando não o vemos, ele pode ser tudo, incluindo aquilo que nos esmaga por completo, um Deus todo-poderoso virado contra nós.

Um artigo no The Economist aventava que Backrooms, como o seu gémeo, Obsession, vibrou alguma corda no coração da Geração Z, o que seria a razão dos seus bons números na bilheteira. O artigo dizia que em ambos o tema é uma profunda solidão e isolamento, o receio de não virem a ter um lugar seu. Talvez a Geração Z se sinta particularmente sozinha, e filmes sobre infindos espaços desolados a atraiam por isso; mas, verdadeiramente, não estão sozinhos nessa circunstância de estarem sozinhos. A solidão é a fonte de terror de todos os homens, e o abandono, incluindo ou sobretudo por Deus, é a origem do maior brado de terror da história, que mesmo os ateus podem voltar para si, fazendo aquela pergunta de Bernardo Soares no Livro do Desassossego, «Onde está Deus, mesmo que não exista?».

Quando vi Backrooms, fiquei com a impressão de que era, de facto, o mais velho da sala. Talvez quando vir Obsession, constate o mesmo. Talvez devêssemos ir com eles aos seus filmes de terror. Pode ser que estejam a tentar-nos dizer alguma coisa sobre si, e nisto talvez nos digam, muito eficazmente, alguma coisa sobre nós.