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WEIRDos

Foram estas elites WEIRD a impor progressivamente a sua visão do mundo e a sua ética da autonomia, aprovando uma agenda progressista desenfreada em múltiplas áreas

Patrícia Fernandes
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1 WEIRD

Começo, mais uma vez, com uma palavra em inglês, mas prometo terminar com um bom português. De acordo com o Merriam-Webster Dictionary, a palavra “Weirdo” começou a ser usada na década de 1950 como substantivo a partir do adjetivo “weird”, que significa “estranho” ou “fora do vulgar”. Weirdo seria, assim, uma pessoa que é estranha ou excêntrica, comportando-se de forma não habitual e podendo gerar algum desconforto em quem a rodeia. Pode ser usado com um sentido positivo em relação a alguém que se destaca pela diferença, mas, por regra, é um termo que revela desaprovação por se sair da norma.

Em português podíamos dizer, talvez, “esquisito” – o problema é que não funciona no domínio da Teoria Política. Por influência dos estudos realizados pelos psicólogos culturais Joe Henrich, Steve Heine e Ara Norenzayan, WEIRD é usado como acrónimo para Western, Educated, Industrialized, Rich e Democratic [pessoas com formação superior de países ocidentais, industrializados, ricos e democráticos] remetendo, assim, para uma forma específica de pensar o mundo e que corresponde a um pequeno subconjunto da população.

O problema é que, de acordo com aqueles autores,

Os cientistas comportamentais publicam regularmente afirmações genéricas sobre psicologia e comportamento humanos com base em amostras provenientes exclusivamente de sociedades ocidentais, instruídas, industrializadas, ricas e democráticas (WEIRD). Os investigadores partem do princípio — muitas vezes de forma implícita — de que ou existe pouca variação entre as populações humanas ou que estes “sujeitos-padrão” são tão representativos da espécie como qualquer outra população.

Trata-se, na verdade, de um erro metodológico muito grave: as pessoas WEIRD são as menos representativas e particularmente invulgares quando comparadas com o resto da população, pelo que não é possível generalizar sobre psicologia humana, comportamento humano e valores a partir deste grupo.

2 Moralidade WEIRD

Em A mente justa, Jonathan Haidt aprofunda esta ideia, aplicando-a a questões de moralidade de acordo com a seguinte regra: quanto mais WEIRD se é, mais se vê um mundo como composto por objetos separados, em vez de relações. As coisas estariam isoladas pelo que a maioria das decisões morais não afetaria outras pessoas ou objetos que não o próprio agente e seria, assim, possível avaliar o comportamento moral de acordo com uma ética da autonomia.

Foi este raciocínio individualista a fundamentar a “moralidade liberal” (de Liberalismo filosófico) ou a “moralidade do dano”, a partir de Immanuel Kant e John Stuart Mill, que caracteriza as pessoas WEIRD. Para estas, o domínio da moralidade é mais limitado do que para as pessoas não-WEIRD porque é estabelecido a partir de uma simples pergunta: provoca dano a alguém? Se resultar de um ato consentido e não provocar dano a terceiro, não seria imoral – o que amplia o espaço de ação e liberdade individuais.

As pessoas não-WEIRD pensam de forma diferente: não se baseiam apenas no dano para definir critérios de moralidade e englobam outras componentes – mais relacionais – que podem ir do respeito à comunidade (há decisões individuais que podem prejudicar a comunidade) até certas intuições básicas do sagrado (há decisões individuais que podem violar as regras do sagrado).

Como exemplo, podemos pensar num dos exercícios que Haidt utilizou na sua investigação: é errado se dois irmãos (de sangue) decidirem, durante uma viagem de férias, ter relações sexuais recorrendo à pílula e ao preservativo para garantir máxima contraceção?

Mesmo que uma pessoa WEIRD se sinta desconfortável com esta situação (e isto é uma outra parte do argumento de Haidt que não cabe aqui), ela não terá vocabulário para julgar moralmente aqueles irmãos. Já as pessoas não-WEIRD, como têm um domínio moral mais amplo, não terão dificuldades em dizer que é moralmente errado: para estas, a moralidade é muito mais do que atos consentidos que não provoquem dano.

Mas consideremos outra conclusão que Jonathan Haidt retirou do seu trabalho de campo desenvolvido nos Estados Unidos, no Brasil e na Índia: tendo aplicado os seus inquéritos em diferentes classes sociais de três culturas distintas, Haidt verificou que o efeito da classe social era mais forte do que o efeito do país: ou seja, “as pessoas instruídas das três cidades eram mais semelhantes entre si do que relativamente aos seus vizinhos das classes mais baixas”.

3 WEIRDos

Não é difícil perceber as implicações políticas desta observação e como ela nos ajuda a compreender os fenómenos políticos da última década. Foram estas elites WEIRD a impor progressivamente a sua visão do mundo e a sua ética da autonomia, aprovando uma agenda progressista desenfreada em múltiplas áreas (como vimos na semana passada) e gerando, como contrarresposta, a revolta populista (nacionalista ou de direita).

David Goodhart captou esta divisão no seu livro The road to somewhere (infelizmente, ainda sem tradução entre nós), quando identificou aqueles que, tendo frequentado o ensino superior, se tornavam “pessoas de lado nenhum” [anywheres] e aqueles que, não o tendo feito, continuavam enraizados na sua comunidade, nas suas tradições, nos seus valores [somewheres]. Outras palavras têm sido usadas para representar também esta ideia: podemos falar em “desenraizados” e “cosmopolitas” vs. “enraizados” e “localistas”.

Os dois grupos representam formas distintas de olhar para o mundo, sem que nenhuma esteja objetivamente errada: dão forma ao pluralismo moral que marca a humanidade. O que está errado é o grupo minoritário querer impor a sua maneira de pensar, a sua agenda, os seus valores à maioria e exigir que essa maioria se cale e aceite sem reclamar.

Em Portugal, encontramos estas diferenças no uso subtil de certas palavras. Como naquele momento em que, há algumas semanas, uma jornalista que entrevistava Jaime Nogueira Pinto a propósito do 28 de maio, disse que o golpe militar tinha vindo “da província”. Não fazia ideia de que em Lisboa se continuava a dizer “província” como se fosse um mundo diferente, nem que Braga era considerada “província”. Mas aceitei. Há, de facto, uma moralidade diferente no resto do país, mas não somos nós os WEIRDos.

À sua maneira, Jorge Jesus é também um provinciano e em todos os bons sentidos da palavra. Trabalhou muito, venceu e interpretou pintores, sem nunca deixar que as críticas snobes o afetassem – e agora está de regresso a casa. Falando sobre o orgulho em ser português, já prometeu trabalho, trabalho, trabalho. O que há de mais inspirador do que isto – sobretudo nos nossos tempos?