Era o grande acontecimento da noite e um dos momentos mais esperados do ano na música portuguesa. Uma década depois, os Buraka Som Sistema regressaram aos palcos como cabeças de cartaz do terceiro e último dia do NOS Alive. Perante cerca de 55 mil pessoas, a faísca foi atiçada logo ao primeiro tema, com a vibrante Hangover (BaBaBa), entoada em coro, dançada em bando.
Em palco, Branko e RIOT assumem a retaguarda ao ocuparem-se, respetivamente, da parafernália de máquinas e da bateria. Na frente, Blaya, El Conductor e Kalaf são os MCs de serviço, entregando os versos de uma música que é sobretudo física e instrumental, e instigando o público até alcançar a apoteose. Tornaram-se uma banda conhecida pelas performances intensas e festivas e não deixaram de fora nenhum dos principais argumentos.
A emblemática Sound of Kuduro, a explosiva Stoopid, Vuvuzela — Carnaval ou (We Stay) Up All Night foram alguns dos temas acarinhados por uma multidão composta por diferentes gerações, dos quarentões que assistiram a dezenas de concertos do grupo no passado aos jovens de 20 e poucos anos que só agora tiveram a sua oportunidade. Era também, e sem surpresa, uma audiência predominantemente branca, com poder de compra, o típico público que frequentemente encontramos no Passeio Marítimo de Algés e que de alguma forma também simboliza o percurso e o legado dos Buraka Som Sistema.
Afinal, foi num gesto da periferia para o centro, empunhando a Buraca no nome mas reivindicando sobretudo Lisboa como casa, que esta banda formada há 20 anos contribuiu decisivamente para democratizar elementos do kuduro angolano e outros sons (e tons de pele e sotaques) associados às margens, mesclando-os com uma eletrónica global sem fronteiras nem limites, quebrando barreiras musicais e sociais precisamente junto de um público mainstream.




É claro que, ao fazerem-no, e sobretudo quando foram impulsionados por uma impressionante carreira internacional — cuja marca se continua a manifestar nas várias datas no estrangeiro que a banda se prepara para efetuar ao longo dos próximos meses —, os Buraka Som Sistema também se afastaram das periferias de onde emergiram. Especialmente uma década depois, com todos os movimentos culturais e artistas que se foram sucedendo, os sons mais crus e frescos que se foram destronando, dificilmente esta música será das mais escutadas na Buraca ou em qualquer outro subúrbio da Grande Lisboa.
Porém, talvez o aburguesamento fosse o sacrifício necessário para concretizar a missão a que os Buraka Som Sistema se propuseram desde o início. A verdade é que, depois deles, a música feita em Portugal nunca mais foi a mesma. Basta pensar em Dino D’Santiago, em Pedro Mafama, na renovação sonora de Ana Moura, na revolução também operada por nomes como Slow J. É claro que nem tudo é obra de um fenómeno só, num mundo globalizado de constantes interferências, mas também repleto de outras referências locais — Sara Tavares, homenageada no Alive através da canção que partilhou com o coletivo, Voodoo Love, vem-nos imediatamente à memória — mas os Buraka Som Sistema são indubitavelmente um capítulo maior nessa história.
O legado desta banda é profundo ao ponto de ser virtualmente impossível beliscá-lo com qualquer que fosse o resultado do concerto de regresso. “Sentiram a nossa falta? Vocês são mentirosos”, provocou Kalaf em tom jocoso. Mesmo sem a cadência de outros tempos — o que é perfeitamente natural, tendo em conta os 10 anos de ausência dos palcos, o envelhecimento que ainda assim não impediu os movimentos impactantes de Blaya, e um público sem o hábito de os ver ao vivo, com outros códigos culturais e geracionais, que também não era conhecedor de alguns dos temas tocados — os Buraka Som Sistema foram mais reis da festa que o Passeio Marítimo de Algés pedia.
O novo tema divulgado há três meses, uma abordagem ao semba intitulada Puro Mambo, foi amplamente bem recebido. Kandonga provou como tantas destas faixas envelheceram tão bem. Yah!, o primeiro single de sempre, trouxe de volta aos palcos a carismática cantora Petty, mesmo que sem a explosão de outrora. Em Aqui Para Vocês foi a vez de convocar Deize Tigrona, referência do funk brasileiro que antes tinha tocado no Palco WTF Clubbing, que neste dia contou precisamente com curadoria a cargo dos Buraka Som Sistema. Tira o Pé voltou a demonstrar como “a Buraka é dona do terreno” sempre que está ao comando da festa.


O momento mais esperado esteve reservado quase até ao fim. Que não haja dúvidas de que Kalemba (Wegue Wegue) é o maior êxito de todos dos Buraka, provocando um alvoroço geral, fazendo balançar até os corpos mais inertes. O efeito do ritmo, da batida, a resposta do corpo e todo o potencial balanço social que daí advém é a mais significativa herança dos Buraka Som Sistema.
Esta noite foi de celebração da obra, da memória e de todo o património cultural e emocional edificado por estes cinco que, nos seus percursos a solo e projetos paralelos, continuaram e continuam a escrever história. A Buraka é que continua a cuiar e nem precisava de uma introdução descontextualizada de Ricardo Araújo Pereira, com o comediante a declamar parte da letra cantada por Pongo, naquilo que só podemos supor ser um gesto de humor no contraste entre conteúdo e forma — os versos são mesmo “rima pesada tipo embondeiro” e a sua validez artística, demolindo os conceitos de alta e baixa cultura, também é fruto das muitas sementes que os autores de From Buraka To The World lançaram à terra desde 2006.
Da estreia de Teddy Swims à teatralidade de Florence + The Machine
O dia começou bem mais cedo, ao final da tarde, quando assistimos à performance de Fidju Kitxora no Palco WTF Clubbing. Projeto artístico que vive acima de tudo nos palcos — onde, neste caso, se desdobrou em quatro músicos — é um tratado de progressão e tensão sonora, de libertação e contenção, ao longo dos temas de pendor eletrónico, particularmente baseados no ritmo do funaná mas não só, cuja essência reside nos samples e gravações de campo efetuadas em Cabo Verde. São vozes arrastadas pela correnteza sónica, suspiros que ecoam no tempo, melodias crioulas difusas envoltas num turbilhão onde abundam as percussões. Uma alma cabo-verdiana que ultrapassa as fronteiras do arquipélago atlântico e do próprio tempo, uma música que reflete diretamente a vivência diaspórica e os imensos limbos existenciais que persistem. Há novo disco para ouvir, Ti Manxe, que embora mais sombrio vem perfeitamente na linha da estreia de Racodja.
Pouco tempo depois, seria a estreia de Teddy Swims em Portugal. Cantor norte-americano, autor de uma pop que vai beber à soul e ao R&B, ladeado por uma banda competente, dificilmente imaginaríamos estas canções doces se apenas víssemos imagens do concerto. Homem portentoso de alargadores nas orelhas e tatuagens a cobrir-lhe o corpo e a cara, grillz dourados nos dentes e uma bandana castanha por cima de um chapéu, com um microfone em formato de soqueira, pensamos numa banda de nu metal dos anos 90 ou no novo rapper sujo de Atlanta, de onde de facto Teddy Swims é natural e o que ajuda a explicar bastante do descrito — a cidade do sul dos Estados Unidos da América é a capital do trap, mas também foi um epicentro importante para géneros afro-americanos como a soul e o R&B.


Teddy Swims é, por isso, também um produto dessa cultura local. Estrela musical que irrompeu subitamente nos últimos anos, com canções em torno das temáticas do amor, da perda ou da autoaceitação, mostrou o alcance da sua voz poderosa, o sangue quente das suas veias soul e a sensibilidade pop que qualquer artista no seu lugar necessitaria de ter. Presenteou os milhares de fãs com a sua nova canção, Break Up In Reverse, desvendada há apenas um dia; mas o momento alto foi naturalmente a interpretação de Loose Control, a derradeira faixa e o seu gigantesco êxito radiofónico.
Numa noite repleta de concertos populares, seguiu-se a vez de Lorde no palco principal do Passeio Marítimo de Algés. A cantora neozelandesa trouxe na manga Virgin, o mais recente álbum, mas o alinhamento percorreu as canções emblemáticas da sua trajetória de 13 anos.
Numa performance minimalista, começou sozinha antes de a banda se juntar a si numa das pontas do palco. Acabou a encher a garrafa de água num bebedouro portátil, um gesto simples mas profundamente anti-pop, como quem executa uma tarefa banal em cima de um palco sem se tratar de um elemento conceptual e performático. É a espontaneidade que sempre caracterizou a sua forma de estar e que lhe deu mesmo um certo cunho de rebeldia perante os padrões da pop.
Entre as baladas e os momentos mais dançáveis, Lorde foi envolvendo o público — nesta fase dividido entre a zona de refeições e o Palco Heineken, onde tocavam os Pixies — no universo da sua música íntima, sobretudo movida a sintetizadores, texturas eletrónicas e guitarras distorcidas. Pelo meio, declarou o seu amor por Lisboa, que visitou pela primeira vez aos 17 anos. “Lembro-me de vir cá e achar que era a cidade mais fixe em que já estive. Vocês têm uma certa energia!”, atirou, antes de brincar com a participação portuguesa no Mundial de futebol. “Não precisamos de falar disso”, comentou.
Sublinhou ainda quão “especial” era para abrir um concerto de Florence + The Machine, uma artista que costumava ouvir em pequena no carro, nas viagens com a mãe a conduzir. Entre os temas que falam de transformação, perda ou reestruturação emocional, foi refletindo com os fãs sobre as quezílias existenciais. “Muitas vezes a vida não é fácil”, disse. “Despedaçamo-nos, depois reconstruímo-nos juntos e essa é a viagem. Obrigada por me acompanharem na minha viagem.”


Era outro dos momentos mais aguardados da noite. Florence Welch e os seus The Machine, que já haviam sido felizes naquele palco em 2022, protagonizaram um espetáculo teatral que trouxe para o palco todo o seu imaginário místico de terror folclórico, um tema central no seu mais recente disco, Everybody Scream, sexto álbum de originais, editado no ano passado e inspirado por uma cirurgia de urgência que salvou a vida à artista.
Nos movimentos que faz em palco, coordenados com um grupo de quatro bailarinas bem expressivas que estão a interpretar papéis num jogo cénico de bruxaria e ocultismo, há uma performance amadurecida e trabalhada que só demonstra a experiência e audácia de Florence Welch. A meio, sugeriria à plateia, particularmente envolvida e atenta ao concerto, que quem subisse para os ombros de alguém seria uma “oferenda” de verão, evocando a prática dos sacrifícios. “O verão promete ser bom”, disse após contar uma série de fãs no alto.
Sem surpresa, temas icónicos como Dog Days Are Over e a versão de You’ve Got The Love foram dos mais aplaudidos e acarinhados pelo público. Mas, curiosamente, o mais emocionante dos momentos terá sido a interpretação de Sympathy Magic, com Florence Welch a descer ao público para entoar a capella os últimos versos da canção, numa partilha comovente com os fãs das filas da frente. Entre o amor, a catarse e o balanço do corpo, o NOS Alive terminou mais uma edição. O festival regressa ao Passeio Marítimo de Algés a 8, 9 e 10 de julho de 2027.