Heráclito de Éfeso, o filósofo grego pré-socrático, ficou conhecido pela máxima que atravessou dois milénios e meio de pensamento ocidental: “nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio”. Uma frase sobre o fluir da vida e sobre a impossibilidade de o mundo se repetir a si mesmo.
Ora, para quem vive hoje em Almada, Heráclito perdeu a sua atualidade e relevância, não porque o rio mudou, mas porque simplesmente secou. Ou seja, a água deixou de correr nas torneiras.
Os problemas de abastecimento de água em Almada, em especial na Costa da Caparica, não são propriamente recentes, existindo nos últimos dois anos um agravamento e uma maior frequência das interrupções no fornecimento.
A falta de investimento e modernização da rede, a incapacidade de limitar e reduzir as taxas de perda de água e as sucessivas ligações ilegais, as famosas “picadas”, em diversos pontos do concelho (como Penajóia) explicam o estado atual da gestão da rede hídrica almadense.
E assim chegamos a julho de 2026, no auge de uma onda de calor, a esta ironia amarga: dar razão, finalmente, ao mal-afamado Ministro das Obras Públicas socialista, Mário Lino. Almada é, de facto, um deserto.
Um deserto no sentido literal, em especial na Costa da Caparica, mas também um deserto figurativo, no sentido em que 40 anos de gestão comunista e 9 anos de gestão socialista conseguiram secar as oportunidades deste concelho, culminando na degradação da qualidade de vida dos almadenses: na água, na habitação, na mobilidade e na economia.
A situação miserável que se vive no nosso concelho, sob a administração do PS de Inês de Medeiros, não é novidade para os almadenses, mas esta semana passou a ser novidade para todo o país.
Depois de Penajóia, do desastre na gestão da crise das intempéries de fevereiro, e da crise dos desalojados do Porto Brandão, voltamos a ver Almada em destaque, em horário nobre, pelos piores motivos. Assim, entre bairros ilegais e falta de água, é caso para perguntar se estas notícias são sobre Portugal ou sobre alguma localidade para os lados do Chade, do Sudão do Sul ou da Somália.
Os últimos nove anos de administração em Almada foram, sem dúvida, uma tragédia grega. E hoje vivemos o seu último ato: a doutrina Medeiros da “desculpabilização”. Não através do mea culpa, mas de uma completa ausência de responsabilidade sobre os temas da nossa cidade. Problemas na habitação? A culpa é do IHRU. Falta de limpeza das ruas? A culpa é dos munícipes sem modos. Falta de água? Os almadenses é que esbanjam água como se fosse um luxo digno de Versalhes.
A diferença desta situação para as demais é que não afeta apenas uma parte da população, nem a culpa pode ser atribuída aos “suspeitos do costume”: Governo, APA, IHRU e outras entidades perdidas na administração pública portuguesa. Como o algodão não engana, a gestão e administração da rede de abastecimento de água são da exclusiva responsabilidade municipal, através dos SMAS de Almada.
A forma como os SMAS são administrados é um reflexo do estado da rede e dos problemas reais. A empresa tem sido completamente politizada nos últimos mandatos: a título de exemplo, o atual Conselho de Administração não tem qualquer experiência na área, visível aqui.
Ao observar as competências profissionais e académicas, constata-se que o presidente, Luís Palma, tem formação base como professor. A segunda vogal é Inês de Medeiros, cuja competência para governar uma autarquia já é discutível, quanto mais uma empresa com especificidades técnicas como os SMAS. Aliás, a única experiência prévia à política, como gestora, foi como realizadora, sendo de destacar a curta-metragem “Senhor Jerónimo”, que atualmente tem uma classificação de 4,6 em 10 no IMDb e venceu o “aclamado” prémio de cinema no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Vila do Conde. Fechando o trio, temos Nuno Pólvora, licenciado em Ciências Sociais, na especialidade de Serviço Social, pela Universidade Aberta, que, na minha humilde opinião, não difere muito da “Universidade do YouTube”.
A realidade vivida nos SMAS não é muito diferente da que se vive na Câmara Municipal de Almada, onde devemos sempre perguntar como estão realmente a ser geridos os serviços mais críticos da autarquia e quem os está a gerir. Assim, deixo as perguntas que deviam incomodar qualquer almadense: quem foi nomeado presidente da Wemob? Qual foi a nomeação da Câmara para a CostaPolis? Fica o convite à investigação.
Por último, gostaria de terminar esta crónica refletindo que esta situação não é excecional, é apenas mais uma gota no oceano da má governação autárquica em Portugal.
A falha da nossa fiscalização em Almada foi clara: a incompetência do PS e de Inês de Medeiros era evidente desde o primeiro mandato. No entanto, conseguimos, enquanto almadenses, eleger esta presidente três vezes.
É fácil culpar o PS e a presidente pelo caos em que vivemos. Mas quem aponta o dedo devia também olhar para a própria mão: a culpa é acima de tudo nossa, de cada vez que votamos sem exigir.