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(A) :: O Partido da Guerra Limitada — desde que seja Infinita

O Partido da Guerra Limitada — desde que seja Infinita

Há um método infalível para demonstrar que qualquer campanha militar fracassou: esperar que termine e, só então, redefinir-lhe os objectivos.

Bernardo Ribeiro da Cunha
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Há uma espécie curiosa que floresce nos salões ocidentais. Não veste uniforme, não conhece o cheiro da pólvora, não escuta o ruído das sirenes, mas nunca perde uma batalha no papel. Habita colunas de jornais, estúdios de televisão e gabinetes climatizados, onde as guerras são sempre limpas, as revoluções democráticas estão sempre iminentes e os povos estrangeiros obedecem, com tocante disciplina, ao guião escrito nas capitais europeias.

Esta espécie possui uma qualidade extraordinária: consegue condenar simultaneamente uma guerra por ir longe de mais e por não ir longe o suficiente.

Se Trump bombardeia o Irão, é irresponsável. Fez subir o preço do petróleo, alimentou a inflação, perturbou os mercados e traiu a promessa de evitar novas guerras.

Se interrompe a campanha antes de derrubar o regime, é cobarde. Desperdiçou uma oportunidade histórica, deixou o trabalho por concluir, salvou a República Islâmica e enfraqueceu o Ocidente.

Se evita outra guerra interminável no Médio Oriente, falta-lhe coragem estratégica.

Se a prolonga, reincide no velho imperialismo americano.

O gesto muda.

O veredicto permanece.

Há qualquer coisa de profundamente bulgakoviana nesta lógica. Recorda o burocrata soviético que condenava um cidadão por chegar atrasado ao trabalho e, no dia seguinte, pelo crime de chegar cedo de mais. O problema nunca era o relógio.

Era o acusado.

No caso presente, o problema raramente é a estratégia.

É Trump.

Mas esta crítica revela uma obsessão mais antiga e mais profunda. Muitos comentadores continuam prisioneiros do grande mito da política externa ocidental: a convicção quase religiosa de que existe sempre uma democracia liberal pronta a nascer, desde que alguém lance mais algumas bombas.

Foi-nos prometida em Bagdade.

Foi-nos prometida em Cabul.

Foi-nos prometida em Trípoli.

Agora espera-se por ela em Teerão.

A revolução chega sempre na próxima semana.

Entretanto passam-se décadas.

Talvez seja apenas uma impressão, mas Portugal vive uma inesperada primavera clausewitziana. Nunca se viram tantos estrategas militares por metro quadrado. Há especialistas em supremacia aérea, campanhas de interdição, escalada horizontal, centros de gravidade, operações de decapitação, mudança de regime e equilíbrio estratégico do Golfo. Infelizmente, esta extraordinária proliferação parece ter produzido um efeito secundário curioso: quanto mais especialistas surgem, menos se lê Clausewitz.

Porque Clausewitz começa precisamente onde muitos comentários terminam. Antes de perguntar como se combate uma guerra, pergunta para quê. Antes da estratégia vem a política. Antes dos meios vem o fim. A guerra não possui uma lógica autónoma; é um instrumento ao serviço de um objetivo político.

É por isso que a pergunta essencial quase nunca é feita.

Qual era exactamente o objectivo da campanha?

Se o objectivo era destruir capacidades nucleares, degradar a cadeia de comando iraniana, restaurar a liberdade de navegação, reforçar a dissuasão americana e evitar outra guerra de ocupação no Médio Oriente, então a sobrevivência do regime, por si só, não demonstra o fracasso da operação.

Há um método infalível para demonstrar que qualquer campanha militar fracassou: esperar que termine e, só então, redefinir-lhe os objectivos.

Se a missão era destruir instalações nucleares, passa a dizer-se que deveria ter derrubado o regime.

Se a missão era restaurar a dissuasão, afirma-se que apenas a ocupação de Teerão poderia ser considerada uma vitória.

Se a missão era limitada, conclui-se que deveria ter sido ilimitada.

É um jogo impossível de perder para o comentador e impossível de ganhar para qualquer comandante.

É precisamente aqui que merece atenção Sebastian Gorka, director sénior para o contraterrorismo no Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos e um dos principais responsáveis pela comunicação da estratégia de segurança da Administração Trump. Independentemente de se concordar ou não com as suas posições, Gorka resumiu a doutrina da Casa Branca numa frase simples: “maximum pressure, no regime change”.

O objectivo declarado não era reconstruir o Irão à imagem da América. Não era repetir as grandes experiências de engenharia política do Iraque ou do Afeganistão. Era impedir que Teerão adquirisse armas nucleares, degradar a sua capacidade militar, restaurar a dissuasão e evitar outra guerra de ocupação.

Pode discutir-se se essa estratégia é suficiente.

Pode discutir-se se produzirá resultados duradouros.

Pode discutir-se se deveria ter ido mais longe.

O que dificilmente faz sentido é condenar uma campanha por não atingir um objectivo que os seus próprios responsáveis declararam, desde o início, não perseguir.

O mais interessante é que esta lógica não surgiu com o Irão.

Na Venezuela, a Administração Trump desejava claramente uma transição política. Reconheceu Juan Guaidó, intensificou sanções, isolou diplomaticamente Nicolás Maduro e exerceu pressão económica e financeira sobre o regime. Mas não lançou uma intervenção militar para impor essa mudança. Apostou antes na pressão externa e na erosão interna, esperando que a transformação viesse de dentro e não de uma invasão.

Pode discutir-se se essa política foi eficaz.

Pode discutir-se se falhou.

Pode discutir-se se foi demasiado ambiciosa ou demasiado tímida.

Mas não se pode criticá-la seriamente por não fazer aquilo que deliberadamente recusou fazer: invadir, ocupar e reconstruir.

A doutrina parece, portanto, mais ampla do que o caso iraniano. O objectivo da força — ou da ameaça da sua utilização — não é necessariamente mudar regimes. Pode ser alterar comportamentos, degradar capacidades, impor custos e restaurar a dissuasão.

Clausewitz reconheceria imediatamente esta distinção.

A política define o fim.

A guerra fornece o meio.

O comentador, infelizmente, prefere frequentemente inverter a ordem: primeiro observa o resultado, depois inventa o fim que teria permitido chamar-lhe fracasso.

A contradição torna-se ainda mais evidente quando muitos dos mesmos comentadores exigem, simultaneamente, duas coisas incompatíveis.

Querem que a América cumpra a promessa de evitar outra guerra interminável no Médio Oriente.

E censuram-na por não iniciar precisamente essa guerra interminável.

Porque derrubar um regime com cerca de noventa milhões de habitantes não se faz com editoriais elegantes nem comentários televisivos.

Faz-se com ocupação.

Faz-se com centenas de milhares de militares.

Faz-se com anos de administração.

Faz-se com biliões de dólares.

Faz-se com erros.

Faz-se, sobretudo, com caixões.

Estranhamente, essa parte do plano raramente aparece impressa.

A guerra imaginária dos comentadores possui uma característica admirável.

Nunca mata os filhos dos comentadores.

Os comentadores de salão parecem sofrer de uma nostalgia curiosa. Condenam o intervencionismo americano, excepto quando a América não intervém o suficiente. Denunciam as aventuras militares, mas lamentam que elas não terminem em mudança de regime. Criticam as ocupações prolongadas, mas exigem resultados que, historicamente, apenas ocupações prolongadas poderiam produzir.

Querem uma guerra sem guerra.

Querem mudança de regime sem ocupação.

Querem vitória total sem custos totais.

É uma forma superior de alquimia estratégica.

Na sua imaginação existe um botão vermelho com a inscrição “Mudança de Regime”. Basta carregá-lo e, alguns dias depois, surge uma democracia liberal, reconciliada consigo própria, respeitadora dos direitos humanos, amiga do Ocidente e, se possível, pronta a organizar eleições exemplares.

Infelizmente, a História continua a recusar colaborar.

Os povos têm memória.

Os Estados não desaparecem por decreto.

Os regimes autoritários sobrevivem frequentemente a derrotas militares.

E as guerras possuem o desagradável hábito de produzir consequências que nenhum comentador antecipou.

No fundo, este padrão de argumentação revela menos sobre Trump do que sobre uma certa elite intelectual ocidental. Continua convencida de que a realidade deve obediência às suas categorias morais. Quando os factos se recusam a confirmar a teoria, nunca é a teoria que está errada.

É a realidade que insiste em comportar-se mal.

Talvez Bulgakov sorrisse perante este espectáculo.

E Clausewitz, provavelmente, faria apenas uma pergunta, tão simples quanto devastadora:

Qual era o objectivo político da guerra?

É uma pergunta extraordinariamente simples.

E talvez por isso tenha desaparecido de tanto comentário estratégico contemporâneo.