No século XIX a explosão dos nacionalismos, associada aos ecos sucessivos da Revolução Francesa, foi a força motriz da História europeia. Dependendo da geografia, o nacionalismo ora serviu de conteúdo “cultural” de consolidação dos recentes Estados soberanos, ora actuou como agente de subversão dos impérios que ainda governavam uma parte considerável do território europeu. Simultaneamente um momento de tomada de consciência histórica e uma ideologia que ia sendo forjada por diferentes filósofos, juristas e aventureiros, o nacionalismo tornou-se o novo horizonte político de todas as latitudes e, até certa altura, unificador de esquerdas e direitas.
No final do século XIX, a predominância dos marxismos e anarquismos cortou a esquerda do nacionalismo que ajudara a fundar propondo em troca um internacionalismo da emancipação da Humanidade da opressão a que fora sujeita durante milénios. Porém, assim que os marxismos tomaram o poder, o internacionalismo, ainda que mantido na retórica proclamatória, foi substituído pelo nacionalismo conveniente para justificar o fracasso da revolução no Ocidente ou para mobilizar a população contra a invasão nazi da União Soviética.
Foi após a Segunda Guerra Mundial que o nacionalismo chegou ao seu momento de crise. Enquanto nas colónias dos impérios ultramarinos se importava o nacionalismo europeu para dar consistência à revolução independentista, a Europa que preparava a descolonização atribuía também ao nacionalismo a responsabilidade moral pela destruição e pelos crimes das duas guerras. Gradualmente, os povos europeus foram encaminhados para um futuro em que o “egoísmo nacional” seria um arcaísmo e uma má memória. Porém, esse futuro tardou. Entretanto, o sonho e as belas intenções foram-se desvanecendo, em grande medida por pressão de um mundo exterior que aprendera com os Europeus a ser “nacionalista”.
No desporto, apesar de todas as divisas, o Mundial de futebol proporciona o palco tendencialmente pacífico da confrontação agónica das “nacionalidades”. De 4 em 4 anos, os povos do mundo inteiro sem excepção deliram com a intensidade das lealdades, das emoções, das rivalidades absolutamente nacionais que movem jogadores e adeptos. Donde vem tanta energia emocional? Qual a fonte de tamanha efusão de paixões devocionais? É muito bonito falar na bondade dos ideais desportivos, que a propaganda da FIFA e das organizações que a acompanham tenta diluir em tendências politicamente correctas. Mas nada disso move as mulheres e os homens até este limiar da lealdade fanática, da partilha do sofrimento da derrota ou da alegria da vitória.
Não vale a pena ter ilusões: o futebol é a simulação de um certo tipo de guerra antiga, a guerra aristocrática travada entre grupos de heróis ou de “campeões” até à subjugação do adversário – uma subjugação do derrotado e o reconhecimento de superioridade do vencedor. A atracção nacional persiste com uma força psicológica indomável e o fascínio pelo combate dos heróis também. Todo o rito do nacionalismo moderno é meticulosamente praticado, desde a devoção à bandeira até ao hino cantado com uma emoção que nenhum outro momento da vida quotidiana consegue reproduzir. Mas não são apenas os ritos do nacionalismo moderno. Cada selecção e cada público recupera e reencena símbolos e práticas pré-modernas que, de modo autêntico ou fabricado pelo próprio nacionalismo moderno ou pela cultura popular contemporânea, sublinham a distinção de cada identidade nacional. Até a eleição do melhor jogador de cada equipa ao estatuto de herói nacional obedece à mesma pulsão.
Nos estádios de futebol, nas esplanadas e nas casas das famílias, o fervor que os fundadores das comunidades europeias tanto temiam regressa sem pretextos nem remorsos. Recordemos que o “ideal” europeu foi pós-nacionalista. E, enquanto a Europa dominou o mundo, a contradição com os restantes países “nacionais” parecia (aos Europeus) um sinal de confirmação de superioridade – uma espécie de vanguarda histórica que em breve seria imitada pelos outros povos. No Mundial de 2026, pelo contrário, o apoio fervoroso dos símbolos nacionais no estádio, e o sucesso desportivo das equipas europeias nos relvados, fazem do “ideal” do pós-Segunda Guerra Mundial um sintoma de debilidade.