Quando, em 1733, se deu a crise da sucessão ao trono da Polónia, parte da Europa encontrou no irmão mais novo de D. João V a solução para o problema. D. Manuel de Bragança vivia há 20 anos entre as diversas cortes europeias e podia ser o homem certo para agradar aos dois lados em contenda. Tudo parecia correr às mil maravilhas até que a proposta foi apresentada em Lisboa e D. João V a recusou sem grandes hesitações. E a razão foi simples: o monarca português ter um irmão rei da Polónia implicava um maior envolvimento de Portugal no leste da Europa. Ora, a prioridade portuguesa era outra. Mais: a tradição portuguesa não era essa.
Desde a sua fundação que Portugal é marcado pela tensão entre o continente e o mar, entre as ameaças do interior e a promessa de libertação e independência do oceano. Jorge Borges de Macedo demonstra-o de forma sublime no seu estudo de geopolítica, ‘História Diplomática Portuguesa, Constantes e Linhas de Força’, publicado pelo Instituto de Defesa Nacional. À distância de nove séculos podemos concluir que a resposta encontrada, difícil porque equilibrada, esteve no meio. Períodos atlanticistas alternaram-se com outros mais europeístas. Para não irmos tão longe basta recordar o século XIX e a obsessão pela modernidade europeia, único meio de o país vencer o atraso endémico relativamente aos estados europeus mais ricos, trocada depois, no último quartel desse século, pela obsessão do império como único modo de o país se regenerar e voltar à grandeza de outrora, substituída em 1974 pela necessidade de integrarmos de vez a família europeia e o país apanhar o comboio europeu do desenvolvimento. É interessante como a história se repete, não só nos acontecimentos, mas nos pensamentos, na lógica, no raciocínio, na esperança, na fé, na ideia do agora é que é porque descobrimos a pólvora, mesmo que o país lide com este dilema há 900 anos. Foi, é assim e assim será até ao fim dos tempos portugueses.
É natural que a nossa vida e o nosso tempo sejam para nós únicos e eternos. Para os mais novos, que nasceram após a adesão à CEE, o destino de Portugal foi sempre a Europa e o fim do império ditou a secundarização da opção atlântica. Para os que nasceram depois do 25 de Abril, a democracia em Portugal é um facto consumado. Uma conquista que alguém jamais em tempo algum porá em causa. Mas um breve olhar para o passado recente mostra-nos outras vidas. Famílias que viveram em África, famílias que tiveram e até perderam entes queridos na guerra colonial, famílias que viram pais, avós, filhos, netos, sobrinhos ou primos presos, seja no Estado Novo, seja no período revolucionário.
E se esse olhar, por muito breve que venha a ser, se detiver na Europa a que Portugal aderiu em 1986 será fácil darmos conta de que essa Europa, a então CEE, não é a que temos hoje. A ‘Europa’ a que aderimos em 1986 era constituída por estados ocidentais, a maioria atlanticista, marítimos todos e com uma forte ligação com os EUA. Reino Unido, França, Países Baixos, Bélgica, Itália, Irlanda, Alemanha Ocidental, Dinamarca, Grécia e Luxemburgo. Ou seja, a viragem de Portugal para a Europa, por muito que implicasse o fim do império ultramarino, não significou o afastamento do mar porque essa Europa era marítima, garantia a sua segurança com a nova potência dos mares por via de uma aliança no Atlântico Norte. A outra Europa, a de leste, encontrava-se subjugada pela URSS, a versão então existente do antigo império russo. Polónia, estados bálticos, Bulgária, Roménia, Hungria, só para mencionar alguns.
Essa realidade mudou com os alargamentos da UE para leste em 2004 e 2007. A entrada dos países de leste na UE trouxe para o seio das instituições europeias histórias e realidades que Portugal tradicionalmente desconhece. Naturalmente que a segurança e os interesses de Portugal estão ligados à segurança e interesses destes estados da Europa de leste. Essa realidade é por demais evidente até porque a tecnologia encurtou o espaço e o tempo, sem esquecermos o que aconteceu no continente nos últimos séculos que fez depender os estados europeus cada vez mais uns dos outros. Independentemente disso, a verdade é que a Europa virou definitivamente a sua atenção para o leste. E fê-lo ao mesmo tempo que os EUA se afastam. Comprovamos isso quando vemos que os temas mais quentes da Europa estão lá: na dependência do gás e petróleo russo, na Hungria, na Ucrânia, nos países bálticos, nas divisões políticas da Polónia (velhas de séculos), nas fricções fronteiriças da Roménia e da Hungria, sem mencionar a permanente ameaça russa. São problemas com que Portugal vai ter de lidar ao longo deste século. Mas são também problemas que Portugal terá de compensar noutro lado. Problemas para os quais Portugal terá de encontrar forças noutras regiões de modo a não perder o pouco peso que tem na Europa e não ver os seus interesses postos em causa.
Problemas que estarão em cima da mesa de cada vez que tiver lugar uma cimeira da NATO como a última em Ancara. Portugal é um dos 12 estados fundadores da NATO, em 1949, e a viragem europeia que o regime democrático encetou não fechou as portas ao Atlântico. Os EUA garantiram a nossa segurança, o Brasil continuou a ser um escape para as empresas portuguesas e Angola e Moçambique foram uma fuga milagrosa na crise de 2011-2015. Mas esta situação mudou nos últimos anos com a Europa mergulhada nas ameaças vindas do leste e com uns EUA cada vez mais distantes. Uma vez mais: problemas que afetam a aliança atlântica e para cuja resolução Portugal tem um dever especial. Não só estão em causa os seus interesses geoestratégicos fundamentais como também Portugal é um dos poucos estados (se não mesmo o único) com excelentes relações com todos os estados banhados pelo Atlântico.
O desafio de Portugal neste século está em reencontrar o velho equilíbrio que nos mantém vivos e independentes há 900 anos. Se o fizermos talvez as opções fora da Europa se mantenham tão presentes quanto as que nos chegam do próprio continente. Haja sabedoria.