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(A) :: Homem inglês encontrou frasco de perfume e deu-o à namorada. Mas era, afinal, o veneno mortal usado para envenenar ex-espião russo

Homem inglês encontrou frasco de perfume e deu-o à namorada. Mas era, afinal, o veneno mortal usado para envenenar ex-espião russo

Na pacata vila de Salisbury, no Reino Unido, homem encontrou em 2018 o que achava ser frasco de perfume. Ofereceu-o à namorada. Mas era, afinal, o mesmo veneno usado para tentar matar ex-espião russo.

Edgar Caetano
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O que um homem inglês julgou ser um simples frasco de perfume, que encontrou num caixote de artigos oferecidos por caridade e decidiu dar como presente à namorada, transformou-se numa tragédia pessoal com ligações a um dos mais mediáticos casos de espionagem entre o Reino Unido e a Rússia.

O caso, que foi mediático na altura e agora foi recuperado num documentário da CNN Internacional, remonta a uma tarde de junho de 2018. Charlie Rowley estava a remexer num contentor de doações – algo que fazia habitualmente, à procura de objetos oferecidos à caridade com algum valor. Foi aí que encontrou um frasco da luxuosa marca Nina Ricci – ainda embalado.

Achando que tinha acabado de ter um enorme golpe de sorte, decidiu oferecê-lo à namorada, Dawn Sturgess, sem imaginar que aquele frasco continha, na realidade, Novichok, o agente neurotóxico que as autoridades britânicas acreditam que tinha sido usado, três meses antes, na tentativa de assassinato do antigo espião russo Sergei Skripal, na mesma vila de Salisbury.

O meu objetivo era oferecer-lhe um presente especial. Ela ficou contente quando o recebeu, mas tudo correu terrivelmente mal“, recorda Rowley, em declarações feitas para o documentário da CNN.

Dois dias depois de encontrar o frasco, entregou-o à companheira, que vivia numa casa para pessoas sem-abrigo mas que estava a preparar-se para ir viver com o namorado, Charlie. Assim que abriu a embalagem, a mulher, de 44 anos, estranhou que o pulverizador estivesse separado do frasco, tendo que ser acoplado manualmente.

Charlie Rowley lembra-se disso. Mas não se lembra de muito mais. Dawn aplicou o líquido no pulso e aproximou-o do nariz, para sentir o cheiro, mas os dois repararam que não tinha, afinal, qualquer aroma.

Minutos depois, a mulher começou a sentir-se mal e rapidamente perdeu os sentidos. Em pânico, o namorado chamou uma ambulância que a transportou para o hospital. Foi a última vez que a viu.

Sem suspeitar de um envenenamento, após a namorada ser levada, Rowley permaneceu em casa durante algumas horas, mas acabaria, também ele, por desenvolver sintomas graves e pedir ajuda. No hospital, entrou em coma e assim permaneceu durante várias semanas.

Quando saiu do coma, sofreu um acidente vascular cerebral que lhe deixou sequelas com as quais ainda hoje vive – incluindo a perda de mobilidade num dos braços. Dawn Sturgess morreu dez dias depois de ter sido exposta àquele veneno letal, quando Rowley estava ainda em coma – foi um médico que informou o namorado que a mulher tinha morrido.

Segundo um antigo responsável pela luta antiterrorista no Reino Unido, que dá o seu testemunho no documentário, aquela pequena embalagem continha quantidade suficiente de Novichok para matar mais de 10 mil pessoas.

Envenenamento ocorreu meses após caso de Sergei Skripal

O caso ocorreu poucos meses depois de Sergei Skripal, antigo oficial dos serviços secretos militares russos que colaborara com o MI6 britânico, e a filha, Yulia, terem sido envenenados em Salisbury. A investigação britânica concluiu que dois operacionais dos serviços militares russos aplicaram Novichok na porta da casa de Skripal antes de regressarem a Moscovo.

Porém, ambos sobreviveram ao ataque, apesar de terem estado em grave perigo de vida. Hoje, vivem noutro local sob proteção e identidades falsas.

O Kremlin sempre rejeitou qualquer envolvimento no caso, tendo Vladimir Putin classificado as acusações como “absurdas”. Os dois suspeitos identificados pelas autoridades britânicas nunca foram detidos e alegaram que estavam em Salisbury apenas como turistas.

Mas oito anos depois, Rowley continua a viver com as sequelas físicas e psicológicas do envenenamento. Além do braço cuja mobilidade perdeu, diz sofrer de problemas de equilíbrio e dificuldades de memória. O pior, porém, é o sentimento de culpa que carrega, pela morte da companheira.

Fiquei em choque. Era o presente que eu lhe tinha dado. Senti-me terrivelmente culpado e continuo a lidar com esse sentimento até hoje.”

Apesar de ter chegado a reunir-se com o embaixador russo em Londres na esperança de obter respostas, Charlie afirma ter perdido a expectativa de que alguém venha a ser responsabilizado pela morte de Dawn Sturgess. “Já não está nas minhas mãos. Não há nada que eu possa fazer“, lamenta.