Os principais rostos do Livre vocalizaram como nunca a vontade de integrar um Governo, no Congresso deste fim-de-semana. Jorge Pinto referiu-se a Isabel Mendes Lopes como “futura ministra“, Rui Tavares lançou em entrevista ao Observador uma mão cheia de nomes de ministeriáveis e a líder parlamentar disse que o Livre “não pode ter medo de dizer que quer ser Governo”. Pode parecer um delírio de grandeza vindo de um partido que teve 4,1% nas últimas legislativas, mas os dirigentes do Livre estão empenhados em mostrar que não. De qualquer forma, os membros do partido ouvidos pelo Observador entendem que, por princípio, os próximos passos do Livre serão dados sozinhos.
Isabel Mendes Lopes, primeira candidata da Lista A ao órgão executivo do Livre, confirma que a intenção é ir a votos sozinhos. “À partida, em eleições legislativas não faz sentido haver coligações pré-eleitorais, porque há a possibilidade de entendimentos pós-eleitorais, consoante o peso que cada partido tem. São regras de jogo diferentes, por exemplo, das autárquicas, onde faz todo o sentido haver coligações pré-eleitorais porque quem ganha é quem tem mais votos”, afirma em entrevista ao Observador.
Não querendo “imaginar cenários” de potenciais coligações pré-eleitorais com o PS, a co-porta-voz do Livre não fecha definitivamente a porta, justificando que “cada eleição é uma eleição” e será necessária uma “análise” mais próxima da altura das eleições. Mendes Lopes retira urgência à questão: “As próximas eleições que estão previstas são em 2029. É daqui a muito tempo e só nessa altura que faremos a avaliação do panorama político e percebemos como é que nos vamos apresentar.”
O resultado das legislativas de 2024 poderia influenciar os dirigentes do Livre e do PS a considerarem seriamente a hipótese de um acordo pré-eleitoral. Somando os respetivos votos, os dois partidos ultrapassariam a AD por 150 mil votos nessas eleições, ainda que a direita mantivesse a maioria no Parlamento. Nas eleições de 2025, essa vantagem já não se verificou: PS e Livre somados ficaram a cerca de 300 mil votos da AD.
Livre confiante que pode crescer sozinho
Apesar de o Livre se apresentar desde a fundação como um federador das esquerdas, vários dirigentes do partido explicam ao Observador que, estrategicamente, uma coligação com o PS dificilmente fará sentido num futuro próximo. Por outro lado, a cúpula dirigente do partido acredita não ganhar em afastar esse cenário definitivamente porque ainda não sabe qual será o contexto político à data das próximas eleições. “Seria estúpido fecharmos a porta. A verdade é que não há um governo progressista em Portugal sem o PS”, comenta um dirigente.
No entanto, todos os incentivos são em sentido contrário, especialmente, porque o Livre foi o único partido de esquerda que cresceu nas últimas duas eleições legislativas. A equipa dirigente confia que não atingiu um teto com a eleição de seis deputados para a Assembleia da República. Existe a expectativa de que o Livre possa eleger mais deputados nos três distritos onde já elegeu (Lisboa, Porto e Setúbal) assim como noutros grandes círculos eleitorais (Braga e Aveiro) onde nunca elegeu.
Ao crescer nas três últimas legislativas, o partido tem conquistado alguma centralidade que procurava na relação de forças de esquerda, mas os seus seis deputados ainda não lhe conferem um poder negocial substancial em conversas com os socialistas. A decisão sobre um acordo pré-eleitoral será forçosamente adiada o mais para a frente possível porque as sondagens terão um papel decisivo no poder do Livre. “Se tivermos 2% temos um poder negocial, se tivermos 8% temos outro”, afirma.
Os estudos de opinião feitos na antecâmara da campanha eleitoral também poderão esclarecer a liderança do partido sobre a real vantagem de se coligar com o PS. Um dirigente do Livre, confessadamente mais avesso à ideia de acordos pré-eleitorais, tem dúvidas sobre se a articulação dos dois partidos é maior do que a soma das partes. “Há eleitores do PS que iam passar a votar no PSD. Há eleitores do Livre que iam deixar de votar em nós”, admite em conversa com o Observador.
Sá Fernandes alerta que poder “não está ao virar da esquina”
Ricardo Sá Fernandes, que se candidata a presidente do Conselho de Jurisdição contra a lista A, concorda, em abstrato, com a ideia de acordos pré-eleitorais com o PS, entendendo que “a história do Livre é sempre uma história de busca de parcerias”. No entanto, deixa um aviso aos futuros membros da direção do partido sobre a pretensão manifesta de integrar um Executivo.
“Acho muito bem que os novos candidatos ao Grupo de Contacto tenham uma fasquia alta, estou com eles. Mas, como não sou o candidato, tenho uma perspectiva mais reflexiva. Tenho noção da crise que a esquerda atravessa. Não nos iludamos: o Livre é um dos sobreviventes da esquerda, mas a esquerda é um conjunto. Hoje vivemos numa situação em que a esquerda está na mó de baixo. E reverter este ciclo não é fácil”, afirma o candidato a presidente do Conselho de Jurisdição ao Observador.
O advogado lembra que atualmente o Parlamento tem dois terços de deputados de direita e duvida que a alteração de ciclo esteja para breve. “Temos de ter consciência de que para chegarmos a um ponto em que se possa pensar que o Livre e o PS possam ser governo, ainda vai muito caminho. A esquerda tem de ganhar de novo a confiança dos portugueses. Mais tarde ou mais cedo, a esquerda vai voltar ao poder. E acho que o Livre está numa boa posição para fazer parte desse projeto. Mas não é ao virar da esquina. É muito difícil que o ciclo eleitoral se inverta já nas próximas eleições”, termina.
Ao Observador, elementos próximos da Lista A explicam que lançar nomes de futuros ministros é, para já, mais um “statement político” do que uma previsão. “Se for uma self-fulfilling prophecy ainda melhor”, resume um deles. A estratégia de sublinhar a ideia de que o partido tem quadros tem como objetivo contrariar a ideia de que o Livre é um partido de protesto, acrescenta outro.
Relação com PS não se alterou com Carneiro
Rui Tavares é, por vezes, apelidado como um “pai espiritual da geringonça”, porque foi dos que mais claramente manifestou a ideia de coligar a esquerda na campanha eleitoral pré-geringonça. No entanto, o Livre ficou a ver da bancada o desenrolar dessa experiência inédita na política portuguesa e, durante os oito anos de governação socialista, nunca teve um grupo parlamentar que contasse para as contas do Parlamento. Isto significa que, mesmo querendo ser a cara da união à esquerda, o Livre nunca participou em discussões sérias para criar um acordo nesse campo político à escala nacional.
Nas legislativas de 2024, Rui Tavares chegou a propor ao Bloco de Esquerda e ao PS um acordo de mínimos programáticos, que nunca obteve respaldo dos outros líderes partidários. Nas eleições do ano passado, a aproximação não foi maior. Ou seja, até hoje, apesar de existir diálogo entre as partes, o Livre nunca se sentou à mesa com outro partido realmente interessado em alcançar um acordo nacional. “Nunca houve reuniões para discutir a hipótese de uma coligação. Nem sequer houve o passo anterior a esse”, revela ao Observador um dirigente.
A diferença de 50 mil votos entre PS e AD nas eleições de 2024 poderia ter levado os socialistas a olhar com bons olhos numa coligação com o Livre para 2025, mas os dois partidos preferiram sempre ir a votos sozinhos. Os dirigentes do partido não esperam que antes das próximas eleiçoes, caso as sondagens mostrem PS e PSD em empate técnico, o então Secretário-geral socialista se volte para o Livre. “O Livre nunca sentiu pressão do PS nesse sentido”, acrescenta o mesmo militante.
Os membros do Livre ouvidos pelo Observador concordam que a relação com o PS não se alterou com a mudança de liderança no PS, embora um dirigente admita que José Luís Carneiro pareça “mais apostado em apelar ao eleitorado de centro-direita“. Mas isso não é entendido como um fator relevante, sendo que Pedro Nuno Santos, visto como mais próximo da restante esquerda, mostrou o mesmo desinteresse em coligações pré-eleitorais com o Livre. “Mais do que o líder, o que importa são os programas eleitorais e a possibilidade de eventualmente fazer um comum”, remata um dirigente.
Livre impõe regras para entrar em reedição da geringonça
A atual maioria constitucional de direita é também um fator que pode desencorajar acordos prévios com o PS. Fonte da cúpula dirigente do Livre acredita que PSD e Chega “não teriam dificuldade em entender-se” caso os socialistas ganhassem as eleições mas fosse a direita com uma maioria parlamentar. Outro destacado membro do partido discorda que o cenário mais provável a sair das próximas eleições seja uma maioria de direita. “Tal como a maioria sociológica de esquerda se esboroou em dois anos, também esta maioria de direita se pode esboroar.”
No caso de uma maioria de esquerda, porém, o partido quer levar para a mesa de negociações algumas lições do passado. Apesar de Rui Tavares e Jorge Pinto já falarem em futuros ministros, uma fonte ouvida pelo Observador afirma que a representação governativa não será uma linha vermelha para apoiar um Executivo de esquerda no Parlamento. No entanto, o mesmo dirigente defende que uma coligação com três ou mais partidos de esquerda terá de ser feita com todos sentados à mesma mesa — ao contrário do que aconteceu na geringonça, em que a negociação era feita bilateralmente pelo PS.
Todavia, os dirigentes do Livre recusam elaborar mais sobre cenários com os quais só esperam ter de lidar 2029. Fonte do partido mostra-se confiante de que a atual legislatura chegará ao fim e, assim sendo, o Livre apenas voltaria a votos depois do próximo Congresso. Até lá, a estratégia vai passar por pressionar o PS a absorver as posições políticas do Livre, algo que Jorge Pinto já experimentou neste Congresso. “Não é inevitável termos uma oposição à esquerda que passa cheques em branco. Não é inevitável termos um PS que pré-aprova Orçamentos do Estado independentemente do que lá está. Não é esta a nossa política.”