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(A) :: Slock voou sozinho até Merlier cortar-lhe as asas: Tim Merlier repete triunfo de Bordéus e vence oitava etapa da Volta a França

Slock voou sozinho até Merlier cortar-lhe as asas: Tim Merlier repete triunfo de Bordéus e vence oitava etapa da Volta a França

Slock esteve em fuga solitária durante grande parte da oitava etapa e só foi apanhado a 1,3 quilómetros da meta. Ao sprint, Tim Merlier voltou a mostrar-se mais rápido que todos. Na geral, nada mexeu.

Manuel Conceição Carvalho
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Há batalhas que se resolvem em metros e outras que se resolvem em milésimos de segundo. A Volta a França 2026 já tinha tido as duas. A prova arrancou em Barcelona com uma corrida contra o relógio em equipa, que deu a primeira camisola amarela — a que veste o líder da geral — a Jonas Vingegaard. A resposta da UAE Team Emirates-XRG, equipa de Tadej Pogačar, veio logo no dia seguinte: foi um mexicano, Isaac del Toro, quem venceu a etapa, depois de Pogačar lhe oferecer a vitória como reconhecimento pelo trabalho que o colega tinha feito por ele ao longo do dia.

O braço de ferro entre Pogačar e Vingegaard, os dois grandes candidatos à vitória final, ficou ainda mais renhido em Les Angles: a camisola amarela mudou de dono por apenas 870 milésimos de segundo, a favor do esloveno. Poucos dias depois, nos Pirenéus, Pogačar deixou de se limitar a responder aos ataques e passou a atacar: isolou-se durante 43 quilómetros e chegou sozinho à meta, naquela que foi a 23.ª vitória de etapa da sua carreira na Volta a França — um número que o coloca ao lado dos maiores nomes da história da prova. Vingegaard perdeu mais de dois minutos nesse dia e entrava na segunda semana com esse atraso na geral, mas dizia acreditar que a sua melhor forma ainda estava para chegar.

Nem tudo, no entanto, girou à volta destes dois nomes. Torstein Traeen, um corredor bem menos conhecido, vestiu de surpresa a camisola amarela na quarta etapa, depois de os favoritos o deixarem ganhar uma vantagem enorme numa fuga. O sonho durou pouco: acabou de forma dramática dois dias depois, numa queda que lhe fraturou costelas e lhe causou uma concussão, obrigando-o a desistir da prova. Já em Bordéus, foi a vez dos velocistas — os especialistas em etapas planas, decididas num sprint final — mostrarem-se, com Tim Merlier a vencer com autoridade.

Era com esse pano de fundo que a caravana chegava a Périgueux para a oitava etapa, rumo a Bergerac. Depois da montanha, o percurso desta etapa era quase todo plano, o que significava descanso para os candidatos à vitória final e nova oportunidade para os velocistas. Depois do triunfo em Bordéus, Merlier chegava como favorito, mas não sozinho: Olav Kooij, que já tinha vencido nesta edição, e Mads Pedersen, líder da classificação de regularidade, prometiam disputar-lhe a chegada.

Ficavam, por isso, algumas dúvidas para responder ao longo do dia: se Merlier conseguiria repetir o triunfo de Bordéus ou se surgiria um sprinter capaz de o travar; se, depois do desgaste dos Pirenéus, a etapa seria mesmo tão tranquila para os homens da geral, ou se alguém tentaria aproveitar a folga para fugir; e, sobretudo, o que restava a Vingegaard para responder a um rival que já não corria atrás — corria para aumentar a vantagem.

A fuga do dia formou-se cedo, com três corredores a tentarem a sorte: Jakub Otruba, Liam Slock e Thibault Guernalec. O pelotão nunca se mostrou preocupado, deixando a vantagem oscilar entre os 1.20 e os 2 minutos, sinal de que a corrida pelo sprint final estava mais garantida do que a fuga. Foi ainda antes das duas dificuldades do dia que se resolveu a luta pela camisola verde: no sprint intermédio de Saint-Cyprien, Mads Pedersen reforçou a sua vantagem na classificação de regularidade, chegando aos 214 pontos — mais 61 do que Biniam Girmay, agora em segundo, com 153. Max Kanter, Tim Merlier e Jasper Philipsen seguiam-se na luta pelo top da tabela.

A corrida ganhou outro tom quando o pelotão se aproximou da Côte de Domme, a primeira das duas subidas de quarta categoria da etapa — um teste que, mais do que ameaçar a fuga, servia para testar a atenção dos homens da geral. Com as equipas de sprint a controlar o ritmo e a manter tudo sob vigilância, a corrida entrava na fase decisiva rumo a Bergerac, com o cenário todo desenhado para um novo sprint em massa — o terceiro nesta Volta a França.

E foi mesmo isso que se seguiu, ainda que não sem drama pelo meio. Guernalec foi o primeiro a ceder, largado logo na segunda das duas dificuldades do dia. Liam Slock teve outros planos: destacou-se de Otruba ainda antes do topo dessa subida e arrancou sozinho, a uns 40 quilómetros da meta, com uma vantagem que chegou a aproximar-se dos dois minutos. O corredor da Lotto-Intermarché, que já tinha somado o ponto da montanha na Côte de Domme, resistiu longos quilómetros em fuga solitária — ainda tinha um minuto de avanço a dez quilómetros da meta. Para uma equipa que já tinha visto Arnaud de Lie obrigado a abandonar a corrida, e que levava o prémio da combatividade do dia anterior nas mãos de Baptiste Veistroffer, a fuga de Slock prometia ser o momento de virar a página. Não foi bem assim: o pelotão apanhou-o a apenas 1,3 quilómetros da meta, tão perto que chegou a fazer sonhar com uma surpresa.

https://twitter.com/LeTour/status/2075963408763982167

Com a fuga anulada, tudo ficou entregue aos velocistas, como seria de esperar. A reta final, já dentro de Bergerac, escondia uma curva traiçoeira a 400 metros da meta — o cenário ideal para a confusão que se seguiu. Jasper Philipsen voltou a ficar mal posicionado nos metros decisivos e viu a vitória escapar-lhe. Quem não falhou foi Tim Merlier: o corredor da Soudal Quick-Step repetiu o triunfo de Bordéus e bateu Biniam Girmay num sprint muito renhido, decidido em poucos centímetros.

https://twitter.com/LeTour/status/2075964508456042647

Ficam assim resolvidas duas das três dúvidas que a manhã tinha deixado no ar. Merlier confirmou-se como o velocista mais rápido desta Volta a França, e a etapa foi, de facto, o dia tranquilo que se esperava para os homens da geral: ninguém tentou aproveitar a folga para atacar, e Pogačar manteve a camisola amarela sem sobressaltos. Quanto à pergunta sobre o que resta a Vingegaard para responder ao esloveno, essa vai ter de esperar por outro palco.