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(A) :: Culpar o país pelo falhanço do PS em Almada? Não, obrigado

Culpar o país pelo falhanço do PS em Almada? Não, obrigado

A falta de água em Almada não é um exemplo do falhanço do país. O país fez progressos visíveis no abastecimento de água potável. O que falhou em Almada foi um poder municipal abaixo de medíocre

Helena Matos
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É ponto assente: quando o PS está no governo e falha a culpa é do mundo. Já quando o PS falha à escala local a culpa é do país. E assim, nos últimos dias e perante o espectáculo AdisAbebiano de Almada sem água, lá surgiu a explicação do falhanço do país no seu todo para explicar o falhanço particular do PS em Almada. Ora o que falhou em Almada foi um poder municipal abaixo de medíocre mas exímio no domínio da linguagem do bondadismo progressista. (Não quero dizer que à direita sejam mais competentes, simplesmente não podem falhar tanto e por tanto tempo porque, felizmente para o país, não estão abençoados pelo diáfano manto do porreirismo progressista de que beneficia a esquerda ex-caviar agora woke).

O que é o bondadismo progressista? Veja-se a capa da última revista editada pelo município de Almada cuja directora é Inês de Medeiros. Data de Abril deste ano e nela a presidente, directora e entrevistada Inês de Medeiros declara numa espécie de megalomania planetária “Almada é um foco de humanidade num mundo cada vez mais desumano”.

Por essa altura, a direcção do município não ignorava que era responsável pela baixíssima renovação da rede (uma das baixas, senão a mais baixa do país); pelas perdas da rede que se contam entre as mais altas do país; pelo laxismo em relação às captações ilegais das piscinas e das explorações agroindustriais; pela proliferação das habitações clandestinas; pela desatenção aos problemas com os furos que ficam em Corroios e que motivaram uma querela em tribunal com o Seixal. Também não desconhecia o executivo almadense que o número de habitantes aumentara ao longo dos anos; que desde há mais de sessenta anos os portugueses procuram as praias da Caparica e que é no Verão que os portugueses vão para a praia. Mas acompanhando as declarações do incrível executivo almadense de que esta publicação é um exemplo, o abastecimento de água não era de modo algum uma preocupação ou sequer uma prioridade.

Na página em que se detalham as prioridades orçamentais para este ano de 2026 (e note-se que no município de Almada, tal como acontece nos restantes, dinheiro não falta), constam a habitação, acessos às praias, uma loja do cidadão e até um centro de recolha animal. Mas sobre água nada. Na longa entrevista feita a Inês de Medeiros não há referências à água e o próprio vereador Luís Palma, que detém a presidência do Conselho de Administração dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada (SMAS), prefere falar da “ofensiva em curso de destruição do Serviço Nacional de Saúde” em vez de informar sobre aquilo que os SMAS iriam fazer para melhorar o seu serviço em Almada. Aliás as únicas referências a água e aos SMAS nesta publicação encontram-se numa pequena notícia que dá conta da contratação de mais 16 trabalhadores para esse serviço em Janeiro deste ano. A água é um assunto praticamente omisso nestas comunicações, à excepção da revista de Outubro de 2022 onde Inês de Medeiros, depois de citar uma daquelas platitudes de Guterres — “O valor da água é profundo e complexo. Não há nenhum aspeto do desenvolvimento sustentável que não dependa fundamentalmente dela” —, afirma que Almada é um “concelho assente sobre uma reserva quase inesgotável de água de grande qualidade”. Seguem-se páginas e páginas com explicações de um sistema perfeito com ilustrações de reservatórios, torneiras de seccionamento, colectores e ramais, tudo inevitavelmente com muito azul.

Entretanto no subsolo de Almada a água perdia-se numa rede que não se renovava e pontos de acesso não contabilizados que proliferavam. Acreditando na propaganda, Almada vivia no melhor dos mundos possíveis no que à rede de distribuição de água potável dizia respeito. Estava-se em 2022. A realidade era bem diferente e piorou desde então.

O que está a acontecer neste Verão de 2026 é precisamente um choque entre a realidade e a propaganda naquele município e também entre o argumentário da esquerda e a realidade no país: como bem sabem aqueles que não vivem em Almada, e que quando abrem a torneira vêem água correr, é mentira que Portugal não tenha sido capaz de fazer o necessário neste assunto. Em 2026, os portugueses têm, na sua esmagadora maioria, acesso a água de qualidade e em quantidade. Não são assim tão longínquos os tempos em que nas casas portuguesas existiam sempre uns garrafões de reserva para aqueles dias em que a água faltava ou uns recipientes para a ir buscar ao chafariz mais próximo. Ou em que beber água da torneira não era opção no Algarve. Existem obviamente falhas pontuais provocadas por cheias, rupturas na rede, obras… mas são isso mesmo: pontuais.

O que agora está a acontecer em Almada nada tem a ver com o Portugal de 2026 mas sim com esse país de há algumas décadas, em que nem sequer fomos poupados à discussão paleolítica sobre a “água de Almada” e “a água do Seixal” (como se o aquífero tivesse muros a separá-las!) entre dois autarcas, Inês de Medeiros e Paulo Silva, que nunca foram capazes de avançar para uma gestão integrada do aquífero, quer entre eles, quer com os outros autarcas que dependem deste aquífero para o abastecimento dos seus munícipes.

A falta de água em Almada não é um exemplo do falhanço do país, como alguns socialistas nos querem fazer acreditar. O país fez progressos visíveis no abastecimento de água potável. O que falhou em Almada foi o pensamento mágico socialista.