(c) 2023 am|dev

(A) :: O vulcão que deu quatro voltas ao planeta revelou um mundo escondido. Cientistas descobrem 73 gigantes submarinos até agora desconhecidos

O vulcão que deu quatro voltas ao planeta revelou um mundo escondido. Cientistas descobrem 73 gigantes submarinos até agora desconhecidos

A explosão do Hunga Tonga alterou temporariamente a atmosfera da Terra e mostrou o poder destrutivo dos vulcões submarinos. Quatro anos depois, uma investigação revela 73 caldeiras semelhantes.

Filomena Martins
text

A explosão do vulcão submarino Hunga Tonga-Hunga Ha’apai, em janeiro de 2022, foi tão poderosa que é difícil colocá-la em números e os estudos ainda se sucedem. Equivalente a 5 bombas atómicas, a onda de pressão atmosférica gerada deu pelo menos quatro voltas completas ao planeta. O tsunami de 15 metros de altura que gerou chegou ao Peru, a quase 10 mil quilómetros de distância, e sentiu-se em todos os oceanos. A coluna de cinzas, gases e vapor de água que lançou chegou aos 57 km de altura — a mais alta alguma vez registada por satélite —, destruiu cabos submarinos e deixou uma ilha sem ligação ao exterior por vários dias. Desencadeou 200 mil relâmpagos numa hora e injetou tanta água na estratosfera que encheria um milhão de piscinas olímpicas, o que alterou temporariamente a composição da atmosfera e o balanço radiativo da Terra. Por isso, a erupção tornou-se um ponto de viragem para os vulcanólogos: se um único vulcão submarino foi capaz de produzir impactos sentidos à escala planetária, quantos outros gigantes semelhantes permaneceriam escondidos sob os oceanos?

https://www.youtube.com/watch?v=c6EAgwtjbFg&t=2s

Um grupo internacional de investigadores já conseguiu responder. Num estudo publicado na revista Communications Earth & Environment, a equipa identificou 73 grandes caldeiras vulcânicas submarinas até agora desconhecidas — três delas precisamente no mesmo arco vulcânico de Tonga —, aumentando em mais de 150% o número destas estruturas. Segundo os autores, o novo catálogo “preenche uma importante lacuna observacional” e fornece uma metodologia que poderá ser continuamente melhorada para caracterizar vulcões submarinos e incorporá-los nas futuras avaliações globais do risco vulcânico.

Uma caldeira vulcânica não é apenas uma cratera. Forma-se quando um vulcão esvazia rapidamente uma parte significativa da sua câmara magmática durante uma grande erupção. Sem o suporte do magma, o topo da estrutura colapsa sobre si próprio, originando uma enorme depressão que pode atingir dezenas de quilómetros de diâmetro. São precisamente estas erupções formadoras de caldeiras que estão entre as mais violentas da história geológica da Terra. O próprio estudo recorda que estes eventos podem remodelar paisagens, alterar o clima global e continuar ativos durante milhares ou milhões de anos, mantendo sinais de deformação do terreno, sismicidade e circulação de magma. Ou seja, o facto de haver caldeiras descobertas não significa que todas elas estejam ativas ou que possam entrar em erupção. Mas algumas podem estar e ser tão poderosas como o Hunga Tonga.

No caso dos vulcões submarinos, o perigo vai além da própria erupção. Estes sistemas podem gerar tsunamis, destruir infraestruturas no fundo do mar — como cabos de telecomunicações — e provocar perturbações atmosféricas de grande escala, como demonstrou o Hunga Tonga. Foi precisamente esse episódio que, segundo Andrea Verolino e os restantes autores do estudo, evidenciou “a capacidade das caldeiras submarinas para gerar perigos geológicos significativos“, reforçando a necessidade de as integrar nas futuras estratégias de monitorização e avaliação do risco.

Sabemos mais sobre Marte do que sobre o fundo dos oceanos

Apesar de a maior parte da atividade vulcânica da Terra ocorrer debaixo de água, os investigadores lembram que os vulcões submarinos continuam “largamente inexplorados e pouco documentados”. A principal razão é simples: a cartografia detalhada do fundo oceânico ainda cobre menos de um terço dos oceanos. Como escreve Andrea Verolino no texto que acompanha a publicação do artigo, estudar o vulcanismo submarino era, muitas vezes, “como tentar observar um mundo inteiro através de uma janela embaciada”.

Foi essa limitação que levou a equipa a procurar uma solução improvável: adaptar um algoritmo desenvolvido por Christopher Lee para identificar crateras de impacto em Marte. Afinal, tanto as crateras como as caldeiras são grandes depressões aproximadamente circulares. Aplicado ao modelo batimétrico global GEBCO, o algoritmo identificou inicialmente 87.435 estruturas. Depois de vários filtros automáticos, validação manual por especialistas e análises estatísticas, restaram 78 caldeiras, das quais apenas cinco eram já conhecidas pela comunidade científica.

Entre elas pode estar um novo Hunga Tonga.