As obras num imóvel em São Teotónio, concelho de Odemira, reveladas pelo semanário Nascer do Sol, estão a dar dores de cabeça ao ministro da Administração Interna. Trata-se de obras que se iniciaram em 2024 e que ainda hoje não terminaram, mas que já custaram à empresa unipessoal da mulher de Luís Neves o valor de 27.483 euros.
É este o valor total registado no portal e-fatura que faz parte de uma listagem fornecida ao Observador por fonte próxima de Luís Neves. O valor total de 27.483 euros corresponde a materiais e a serviços de construção adquiridos pela empresa AL-Campos, da mulher de Neves. Entre empresas de materiais de construção do concelho de Odemira, está igualmente a Construbarcelos, do empreiteiro João Carvalho, que faturou um total de 5.000 euros em nome da empresa da mulher do ministro da Administração Interna entre o dia 11 e o dia 20 de fevereiro de 2025.
https://observador.pt/2026/07/09/empreiteiro-que-fez-construcoes-da-pj-faz-obras-no-monte-de-luis-neves/
O Observador solicitou ao ministro da Administração Interna o acesso aos comprovativos de pagamento dos 5.000 euros, mas Luís Neves não cedeu tal documentação. “O registo de faturas no portal da Autoridade Tributária (o portal e-fatura) é, na nossa perspetiva, um comprovativo de pagamento”, é a posição do ministro explicada através de fonte oficial do Ministério da Administração Interna (MAI).
Não foi, assim, possível confirmar a forma de pagamento desses 5.000 euros: cheque, transferência bancária ou em dinheiro, sendo igualmente certo que o registo de uma fatura no portal da Autoridade Tributária apenas comprova que tal fatura foi emitida, mas não comprova o pagamento.
Luís Neves já tinha afirmado, numa declaração enviada ao Observador esta sexta-feira de manhã, que “não foram obras de dimensão a exigir um projeto ou um contrato”.
As obras que a Construbarcelos ganhou na PJ e como Luís Neves conheceu o construtor João Carvalho
A empresa Construbarcelos celebrou contratos com a PJ entre 2019 e 2025 relacionados com obras de remodelação do Departamento de Investigação Criminal da Guarda e a Unidade Local de Investigação Criminal de Évora.
Ou seja, até à altura em que Luís Neves diz ter conhecido o empreiteiro (2023), a Construbarcelos ganhou empreitadas no valor de 1,5 milhões de euros — um valor que corresponde a 70% do total que foi adjudicado à empresa de Barcelos.
Os restantes 688 mil euros estiveram relacionados com empreitadas já anteriormente contratualizadas para o DIC da Guarda e para a ULIC de Évora.
Em declarações enviadas ao Nascer do Sol e, posteriormente, a outros media, Neves garantiu que conheceu João Carvalho “vários anos” depois de “2019”. O Observador sabe que o então diretor nacional da Polícia Judiciária terá conhecido o empreiteiro João Carvalho em 2023, precisamente por causa de uma obra adjudicada à Construbarcelos para remodelação do edifício do Departamento de Investigação Criminal da Guarda da Polícia Judiciária.
A obra estava atrasada, Luís Neves quis inteirar-se das causas desse atraso e foi assim que os dois acabaram por conhecer-se numa visita do então diretor nacional da PJ à Guarda. João Carvalho invocou problemas familiares graves para explicar o atraso nas obras e, nas semanas e meses seguintes, Neves apercebeu-se da instabilidade emocional do empreiteiro.
Numa tentativa de o ajudar, ter-lhe-à solicitado mais tarde um conselho sobre a obra que queria realizar na segunda casa de São Teotónio — imóvel que tinha adquirido pouco tempo antes. E foi assim que a relação entre Luís Neves e João Carvalho começou.
Na declaração que emitiu esta sexta-feira, Luís Neves diz que contratou a empresa de João Carvalho porque estava registada no Gabinete Nacional de Segurança, “requisito exigido nos concursos da Polícia Judiciária”. “Ofereceu-me garantias, uma vez que se tratava de uma empresa validada por um organismo independente do Estado, com responsabilidade em matéria de segurança”, lê-se numa declaração enviada ao Observador na manhã desta sexta-feira.
A história dos dois imóveis e o que explicam as faturas emitidas em nome da empresa da mulher de Luís Neves
Há dois imóveis nesta história. O primeiro, que a mulher de Luís Neves herdou, situa-se também em São Teotónio e também teve obras que terão terminado há mais de 10 anos. Esse imóvel está agora a ser explorado em regime de Alojamento Local pela empresa unipessoal AL-Campos, que pertence à mulher do agora ministro da Administração Interna.
O segundo imóvel, que foi adquirido por Luís Neves e pela mulher em 2023, é que está no centro da polémica. O imóvel foi adquirido com o objetivo de aumentar a exploração de Alojamento Local, sendo, para tal, necessárias obras de remodelação.
Essas obras ter-se-ão iniciado em 2024. De acordo com o registo da faturação que foi disponibilizado ao Observador, as primeiras faturas para a obra de remodelação datam de fevereiro, de março e de abril de 2024. São faturas que totalizam cerca de 2.900 euros e que foram emitidas por empresas de materiais de construção da zona de São Teotónio e de Odemira, mas também por uma empresa de construção da zona de Barcelos chamada M. Rodrigues & Filhos.
Fonte próxima de Luís Neves explica que a obra acabou por ser feita ‘aos solavancos’. A declaração oficial do ministro da Administração Interna já apontava no mesmo sentido: “Foram intervenções casuais, faseadas mediante a minha disponibilidade e da empresa, cujos pagamentos foram sendo feitos à medida que me foram apresentadas as faturas.”
Em 2025, o total das faturas relacionadas com o imóvel de São Teotónio atingiu um total de 12.434,72 euros. Uma vez mais, trata-se de faturação relacionada com materiais de construção, mas quase metade prende-se com duas faturas de um valor total de 5.000 euros que foram emitidas pela Construbarcelos em nome da empresa da mulher de Luís Neves.
Uma fatura de 2.500 euros foi emitida a 11 de fevereiro e outra no mesmo valor foi emitida a 20 de fevereiro. E foi precisamente sobre esse valor que o Observador solicitou ao ministro da Administração Interna os respetivos comprovativos de pagamento.
Na sua declaração oficial da sexta-feira de manhã, Luís Neves deixou claro que ainda faltam realizar pagamentos à Construbarcelos. Ou seja, a empresa de João Carvalho ainda tem de emitir faturas dos serviços prestados e que ainda não foram terminados.