Há um episódio célebre no governo de Francisco Sá Carneiro em que o ministro Álvaro Barreto pediu solenemente a palavra numa reunião para falar e começou assim: “Francisco, eu que não sou político acho que…” O primeiro-ministro interrompeu-o de forma severa: “Retire imediatamente o que disse. Você é meu ministro e todos os meus ministros são políticos. Se você não quer ser político, então saia do governo.” É um problema comum em Portugal: os políticos que não querem ser políticos. Só que existe um outro problema igualmente comum, mas incomensuravelmente mais grave: os políticos que não sabem ser políticos.
É o maior equívoco das nossas democracias. Convencemo-nos todos de que um académico brilhante, um empresário brilhante ou um cozinheiro brilhante serão, seguramente e sem qualquer dúvida, políticos brilhantes se quiserem. E algumas pessoas até acreditam que um académico analfabeto, um empresário com acalculia ou um cozinheiro sem papilas gustativas também podem ser políticos brilhantes porque, vamos lá ser honestos, aquilo não tem nada que saber. Quando estava prestes a tornar-se primeiro-ministro do Reino Unido, um amigo de David Cameron perguntou-lhe se ele se sentia verdadeiramente preparado para assumir o cargo e a resposta foi esta: “Quão difícil é que aquilo pode ser?”
Na verdade, “aquilo” pode ser — e é — extraordinariamente “difícil”. Como, de resto, o próprio David Cameron perceberia de forma dolorosa no final dos seus anos como primeiro-ministro. Um bom político tem de somar uma série de competências que, lamentavelmente, não se vendem no supermercado da esquina. Um bom político tem de saber definir prioridades num país onde a maioria das coisas corre mal; tem de saber explicar aos eleitores as virtudes das suas escolhas; tem de saber dominar a máquina do Estado para conseguir executar as suas decisões; tem de saber reagir a contrariedades na aplicação das suas medidas; tem de saber quando recuar e quando avançar; tem de saber responder a críticas, umas certeiras, outras disparatadas; e tem de saber compreender e antecipar as ansiedades, os medos e as esperanças daqueles que governa. E este é apenas o começo de uma longa lista de exigências.
Um ministro não está a ser um bom político quando, perante um atraso na correção dos exames, afirma que as famílias dos alunos revelaram “imprudência” por acreditarem que o Estado cumpriria as suas obrigações. Uma autarca não está a ser uma boa política quando, confrontada com a falta de água nas torneiras dos seus munícipes, gagueja, hesita e confunde. Um líder partidário não está a ser um bom político quando quer propor ao eleitorado uma medida que já se revelou inegavelmente desastrosa em todo o lado onde foi aplicada.
A política não é uma carreira: não se tira um curso superior específico, não se é promovido por antiguidade, não se tem estabilidade laboral. A política não é uma profissão. E menos ainda é uma atividade com garantia de emprego. Mas a política também não é um mero ato de vontade: não basta querer para ser.
Há um caso que serve de exemplo e de aviso. Em 2005, o canadiano Michael Ignatieff decidiu entrar na política levando atrás dele toda a sua genialidade. Ele era um académico inspirador, que dava aulas nas melhores universidades do mundo, e era um escritor admirado, que chegou a ser finalista do invejado prémio Booker. Alguns seguidores antecipavam que ele seria “um rei filósofo que se tornaria primeiro-ministro”. Em apenas três anos, Ignatieff conseguiu conquistar a liderança do Partido Liberal e, seguindo a ordem natural das coisas, deveria ter chegado ao poder nas eleições de 2011. Mas tudo correu terrivelmente mal. Entre muitos outros problemas de falta de lucidez e de empatia, Michael Ignatieff foi descrito como tendo “o hábito infeliz de olhar para baixo e para o lado quando falava pela primeira vez com pessoas que não conhecia”. O que, como se compreenderá, é uma característica fatal num político. No final, perdeu as eleições e, numa derradeira humilhação, perdeu o seu lugar no Parlamento.
Se um político não souber o que anda a fazer, é preferível calçar as pantufas, vestir um roupão e ficar em casa. É melhor para ele — e para nós.