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(A) :: Um país antigo e improvável que sobrevive a tudo

Um país antigo e improvável que sobrevive a tudo

"Portugal Refractário" é uma espécie de extenso diaporama em 512 páginas, profusamente comentado, com a amplitude — e também a liberdade — que só o conhecimento dá ou pode dar.

Vasco Rosa
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Duarte Belo é um invulgar caminhante solitário, mas é também, muito claramente, um homem de diálogos, pois boa parte dos seus livros representam conversas com figuras destacadas da história, da geografia e das ciências naturais — Mattoso, Daveau, Ribeiro, Domingues, Galopim, Catarino, e até, noutro contexto, Tolentino Mendonça —, a que se junta agora António Araújo, neste Portugal Refractário. Um país entre o imobilismo e a mudança.

Reconhecemos aqui o modelo criado em 1997 com Portugal: Sabor da Terra. Um retrato histórico e geográfico por regiões e que vem até Paisagem Portuguesa, de 2022, e muito provavelmente prosseguirá noutras parcerias construídas sobre o maior arquivo fotográfico sobre o território português, em contínua ampliação e que, como alguém disse há pouco, deveria um dia ser guardado na Torre do Tombo. Mas reconhecemos também a inconfundível marca de Araújo, que acrescenta abundantes notas de bibliografia lida ou sugerida, ou de debates com amigos, oferecendo aos leitores um roteiro de largo espectro para inquirições futuras — veja-se, a título de exemplo, o verbete 88, sobre “Portugal como um dos países mais feios da Europa”, pp. 235-36, o 128, sobre “o atraso português”, p. 377, ou, ainda, o 129, sobre a “pobreza fundamental do país”, pp. 380-84, interminável discussão. Muitos outros poderiam ser apontados, como aquele sobre os barros de Estremoz (pp. 50-55), confirmando ser o historiador e investigador um leitor voraz como poucos, mas também um leitor assaz actualizado (muitas obras citadas são já desta década) que encontrou nas fotografias de Duarte Belo o gatilho para o cruzamento com as suas próprias deambulações de livraria ou biblioteca.

Nunca saberemos quem escolheu as fotografias para este livro (exceção feita à de Vila do Bispo, que “pedi ao Duarte pois não só ali passei férias durante alguns anos, como sempre admirei a saga épica dos mariscadores do Barlavento”, p. 45). A quem se proponha escrever um ensaio sobre este Portugal Refractário, obrigatório se afigura contrastar o seu portefólio tanto com aquele de A Paisagem Portuguesa como quanto o de Portugal: o Sabor da Terra, porquanto os especificados temas do imobilismo e da mudança — em marcante subtítulo de Portugal Refractário —, inconfundíveis todavia com tradição e progresso, e o seu contraste dinâmico, não nos ocorrem à primeira vista em considerável parte das imagens deste livro. Mais ainda: em nenhum outro livro de Duarte Belo se propõe uma abordagem temática tão focada como esta, que traz a primeiro plano os “territórios em espera”, expressão deveras instigante para designar o interior do país continental e que o fotógrafo andarilho instituiu em trabalho anterior, e no entanto pode dizer-lhe que ao fotógrafo escaparam muitas declinações dessa mudança em curso no país.

Sendo “a paisagem rural pontuada amiúde por objectos da mais variada índole ou feitio, uns mais móveis do que outros, todos em decomposição galopante” (Araújo, p. 33), só folheamos seis fotografias desse “Portugal desarrumado” (v. pp. 32, 37, 139, 191, 325, 387), totalmente esquecidas que foram as dezenas de ruínas expostas em Contaminações: Minas abandonadas. Fotografias 1994-2009, o álbum de José Afonso Furtado publicado em 2019 pela Documenta. A desativação da rede ferroviária está presente — como não podia deixar de ser, até por anteriores campanhas de Belo —, mas muito menos do que seria suposto, com apenas quatro imagens das corroídas linhas do Sabor, do Douro, e em Mértola e Évora. Em quatro décadas (1968-2017), contudo, o país perdeu um pouco mais de 1000 km de ferrovia. Precisamente, o verbete 143 de António Araújo classifica a “famosa” bitola ibérica como um “símbolo do isolamento peninsular” (p. 427) e aponta para “um sem-fim de voltas e reviravoltas em matéria de transportes ferroviários”, “acompanhadas de inconcebíveis falhanços nos domínios do planeamento, da execução e da fiscalização de obra”, até fustigar a lentidão do programa Ferrovia 2020 (p. 428). Alguém poderia ainda assinalar que a uniformização da paisagem nacional levada a cabo pela “infestante” indústria eólica, que espalhou a norte e centro parques de ventoinhas gigantescas e ruidosas, não tem aqui a devida contestação visual e textual que o próprio Belo já lhe havia feito, e de modo veemente, em Caminhar Oblíquo, de 2022. O historiador chama-lhe “religião eólica”, mas admite não ter competência para opinar sobre a edificação de parques eólicos (p. 141).

Por outro lado, temas essenciais como a erosão costeira, os parques naturais (referidos uma única vez, na p. 363, mas a propósito do lobo) e a sua crise, mas também a implantação acelerada de superfícies de painéis solares a perder de vista ou a monocultura extensiva da oliveira e do abacateiro, ajudariam a reflectir mais assertivamente sobre onde nos pesa o imobilismo e para onde nos atira a mudança. Se os riscos de seca extrema são lembrados no verbete 51 (pp. 136-37), os grandes incêndios ocupam as pp. 308-11, mas a fotografia de um em Vila Real não dá expressão cabal à monstruosidade de tudo o que sucedeu em 2017 e arriscamos que suceda a cada verão. A imprudente construção em falésias e arribas surge apenas num caso, e madeirense (p. 411), motivando um curto verbete de três linhas. A grave poluição atmosférica causada por navios de cruzeiro, e a inconveniência para qualquer cidade dum turismo massificado como esse, são discutidas no verbete 98 — “o mal está feito e (muito) mal feito” (p. 275) —, temos também o desastre urbanístico da Praia da Rocha (pp. 368-69), ou o resort golfista com “casas horrendas” em Castro Marim (pp. 242-43), mas faltam contrapontos a essa devastação, que são as belas casas senhoriais e quintas vinícolas que salvaguardam a sua conservação e economia através do enoturismo e afins, o cicloturismo no Alentejo oriental, que se faz notar, ou o turismo para surf, fortemente implantado há décadas (v. p. 281), até nos Açores. Muitos outros aspectos de benfazeja, luminosa e discreta mudança podem ser encontrados em indústrias de ponta, com prestígio e mercado internacional, onde nada mais resta desse Portugal refractário, isto é: “um país que geme e que luta e esbraceja para se manter à tona d’água” (pp. 202-3), com “traços feudais que persistem, sobretudo nas mentalidades” (p. 29), que “subsiste e resiste à mudança” (p. 63), “uma criação ou um resíduo dos nossos dias, uma realidade mais contemporânea do que julgamos” (p. 185).

Fico com a impressão de que Duarte Belo não buscou completar o seu valioso arquivo com imagens sugeridas pela temática deste novo livro, aqui e ali externa à linha geral do seu trabalho de fotógrafo, o que teria permitido a António Araújo explorar mais esses novos impulsos da grande mudança que tarda neste “pequeno país [que] é uma realidade mais complexa do que parece” (p. 84).

Quando a fasquia já está alta, somos empurrados a pensar que ela pode subir ainda mais. Mas, muitas vezes, nem somos nós que saltamos…