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(A) :: O dirigente que revolucionou o futebol africano, desafiou Blatter e presidiu à FIFA durante 141 dias: quem foi Issa Hayatou

O dirigente que revolucionou o futebol africano, desafiou Blatter e presidiu à FIFA durante 141 dias: quem foi Issa Hayatou

Bateu recordes no atletismo, mas foi no futebol que fez história. Reforçou a influência da CAF e tornou-se um dos dirigentes mais poderosos do futebol mundial, chegando à presidência interina da FIFA.

Tiago Gama Alexandre
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Foi uma das figuras mais influentes da política desportiva mundial e tornou-se, fruto de um intenso trabalho de bastidores, num dos dirigentes mais poderosos da história do futebol africano. Chama-se Issa Hayatou e, durante praticamente três décadas, foi um dos maiores nomes do futebol africano, tendo presidido a Confederação Africana de Futebol (CAF) entre 1987 e 2017, reforçando o peso do continente na FIFA e no futebol mundial ao longo desse período. Um dos seus feitos foi o aumento do número de vagas a atribuir a África no Campeonato do Mundo, antes de ter sido determinante na atribuição do Mundial de 2010 à África do Sul, naquela que foi a primeira edição de sempre em solo africano. Foi como vice-presidente que chegou à presidência interina da FIFA entre o final de 2015 e o início de 2016, por conta da suspensão de Joseph Blatter. Entre os dez presidentes da história do organismo, é aquele que esteve menos tempo no cargo, fazendo a transição até à chegada de Gianni Infantino.

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Nascido em Garoua, no norte dos Camarões, a 9 de agosto de 1946, Issa Hayatou era filho de um sultão e começou desde cedo a desenvolver a paixão pelo desporto. Inicialmente foi atleta de meio-fundo e professor de Educação Física, mas acabou por ter uma carreira de sucesso no basquetebol, onde chegou a fazer parte da seleção camaronesa. Por outro lado, no atletismo conseguiu bater os recordes nacionais dos 400 metros e dos 800 metros. No dirigismo, Hayatou começou por integrar a Federação Camaronesa de Futebol (FECAFOOT), da qual foi secretário-geral com apenas 28 anos, em 1974.

Na década seguinte chegou a presidente e foi eleito membro do comité executivo da CAF. Com a saída do etíope Ydnekatchew Tessema, que se retirou por motivos de saúde e viria a morrer pouco depois, o camaronês foi eleito o quinto presidente da CAF em agosto de 1987, assumindo formalmente o cargo em março de 1988, depois de um período que Abdel Halim Mohamed assumiu de forma interina. Hayatou permaneceu no cargo até março de 2017, quando perdeu para Ahmad Ahmad e falhou a sétima reeleição.

Nos quase 30 anos em que esteve na liderança da CAF, Issa Hayatou viu de perto os sucessos de Senegal (quartos de final em 2002), Nigéria (oitavos de final em 1994, 1998 e 2014) e Camarões (quartos de final em 1990) no Campeonato do Mundo. Foi com o seu contributo que o número de vagas para as seleções africanas passou de três, até 1994, para cinco, entre 1998 e 2022 – em 2026 passaram a ser nove vagas diretas e uma no playoff intercontinental. Em 2010, Hayatou foi um dos principais impulsionadores da candidatura bem-sucedida da África do Sul, liderando a fase de apresentação do projeto e o comité que organizou o primeiro Mundial africano da história do futebol. Foi o culminar de uma reivindicação iniciada ainda nos anos 90.

Foi também no seu mandato que o Campeonato Africano das Nações (CAN) passou a contar com 16 equipas – entretanto já vai em 24 –, distribuindo a fase de qualificação em seis regiões e por cinco confederações regionais, num continente que tem mais de 50 países. Em termos de clubes, a Liga dos Campeões africana também passou a ser disputada por mais clubes, foi criada a Taça das Confederações africana que é disputada pelos vencedores das taças nacionais e as melhores equipas dos respetivos campeonatos, a Taça da CAF foi expandida e a Supertaça africana ganhou mais protagonismo. A expansão e o desenvolvimento chegaram às camadas jovens, ao futsal, ao futebol de praia e ao futebol feminino.

Quando assumiu a presidência da CAF, o camaronês tinha como objetivo criar incentivos que levassem os clubes do continente a reter o talento e a retardar a venda dos jogadores para a Europa. Contudo, esse “projeto” pouco sucesso teve, em parte por conta do poderio financeiro das equipas da UEFA em comparação com as da CAF. Para Hayatou, o problema era colonial, chegando a afirmar que “os países ricos importam a ‘matéria-prima’, ou seja, o talento, e enviam para lá os treinadores, que não têm tanto valor”, referindo-se à contratação de treinadores estrangeiros por parte das seleções africanas na década de 90.

Em setembro de 1997 negociou com a UEFA um acordo que definia que os clubes europeus tinham de pagar uma taxa às federações e clubes africanos pelos jogadores de origem africana que competiam na Europa, o chamado Projeto Meridian. No projeto, foi assegurado que os pagamentos aconteciam a cada dois anos. Foi também criada a Taça Meridian, um torneio de Sub-18 entre seleções da UEFA e da CAF que não passou de 2007. Em 1999 apareceu o Projeto Golo, em parceria com a FIFA, que distribuía um milhão de dólares por ano, durante quatro anos, a 46 federações africanas.

Com todas essas negociações, Hayatou começou a estreitar laços com os líderes da UEFA, pelo que, em 2002, o camaronês foi apoiado pela federação europeia à liderança da FIFA, com vista a derrotar Sepp Blatter. Ainda assim, Issa Hayatou acabou por não conseguir quebrar a supremacia do suíço, que contava com o apoios das confederações americanas e asiática, e venceu com 139 votos contra 56. Ainda assim, a derrota não comprometeu a relação de ambos, dado que Hayatou continuou na vice-presidência da FIFA e voltou a apoiar Blatter nas eleições seguintes, consolidando a influência de África dentro do organismo. Um dos temas polémicos a nortear o presidente da CAF aconteceu na CAN-2010, quando a seleção do Togo foi vítima de um ataque terrorista na província de Cabinda, em Angola, que matou três pessoas da comitiva e feriu nove. Inicialmente, o Togo retirou-se do torneio, mas depois voltou atrás na decisão para honrar os mortos. Contudo, a CAF rejeitou essa decisão e suspendeu a seleção togolesa das duas edições seguintes da CAN por interferência do governo junto da federação.

https://www.youtube.com/watch?v=dzS17YJcYYg&t=1s

Em novembro de 2010, poucos meses depois do Mundial da África do Sul, a BBC revelou detalhes de uma investigação que ligava Issa Hayatou a um eventual suborno relativo à negociação dos direitos de transmissão do Campeonato do Mundo. Segundo a reportagem, o presidente da CAF terá recebido 100 mil francos franceses (cerca de 15 mil euros) da empresa de marketing ISL, que venceu o leilão dos direitos. Hayatou negou as acusações, alegando que o dinheiro não foi para benefício pessoal, mas sim entregue à CAF, e processou o canal estatal britânico. Contudo, poucos meses depois, o The Sunday Times deu conta de que o nome do camaronês estava implicado no caso de corrupção que afetou a FIFA, alegando que este e Jacques Anouma, membro do comité executivo da entidade, foram acusados de ter recebido 1,5 milhões de dólares (1,3 milhões de euros) em subornos para votarem na candidatura do Qatar na corrida pelo Mundial-2022.

Este último caso fez com que Hayatou tivesse sido investigado pelo Comité Olímpico Internacional (COI), sem nunca se ter provado o seu envolvimento. Nessa altura, a FIFA chegou a anunciar que o vice-presidente era o seu novo representante no COI, cargo em que esteve entre 1992 e 2006, mas acabou por negar essa informação, classificando-a de “erro técnico”. Curiosamente, foi devido ao escândalo de corrupção na FIFA que Issa Hayatou chegou ao mais alto cargo da sua vida: o de presidente interino da entidade que tutela o futebol mundial. Foi depois da destituição de Sepp Blatter que o presidente da CAF assumiu o cargo, no qual esteve até 26 de fevereiro de 2016, data em que Gianni Infantino assumiu a liderança. A sua presidência é a mais curta da história da FIFA: apenas 141 dias.

https://observador.pt/2015/10/08/manda-agora-na-fifa-na-uefa/

Depois de ter saído da FIFA, o dirigente viu-se ligado a mais um escândalo de corrupção, mas na CAF. Em 2015/16, o organismo assinou um contrato de 12 anos com a agência francesa Lagardère Sports (que entretanto passou a Sportfive) avaliado em mil milhões de dólares (873 milhões de euros), com vista à cedência dos direitos de transmissão e marketing. Contudo, o negócio acabou por gerar controvérsia quando se soube que a CAF ignorou uma proposta concorrente de 1,2 mil milhões (mil milhões de euros). Devido a isso, a FIFA suspendeu Hayatou durante um ano por violação de dever de lealdade, sanção que acabou anulada pelo Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) por falta de provas. Issa morreu a 8 de agosto de 2024 em Neuilly-sur-Seine, em França, um dia antes de completar 78 anos.