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De ex-deputada conservadora a estrela de reality-shows. A morte da porta-voz de Farage que está a chocar o Reino Unido

Participante no Big Brother e ex-deputada conservadora, Ann Widdecombe foi encontrada morta em sua casa com marcas de violência. Polícia investiga, mas parece afastar morte com motivações políticas.

José Carlos Duarte
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“Nós vamos embora e estamos felizes por ir embora.” No Parlamento Europeu em 2019, a eurodeputada britânica Ann Widdecombe fez um discurso em que criticou duramente o funcionamento da União Europeia (UE), comparando as instituições comunitárias a “opressores”. “Colónias contra impérios, camponeses contra barões feudais e escravos contra os seus donos”, proclamou a mulher que pertencia ao Partido do Brexit — o agora Reform UK liderado por Nigel Farage, ao lado do qual pronunciou estas palavras.

As comparações com a escravidão foram bastante criticadas no Reino Unido e na UE. Mas mostravam a natureza desbocada e combativa de Ann Widdecombe, a eurodeputada e antiga secretária de Estado do Partido Conservador. A atual porta-voz do Reform UK foi encontrada, esta sexta-feira, morta em sua casa. A polícia britânica abriu uma investigação e já deteve um suspeito de 26 anos. Um homem branco que terá sido o responsável pelo homicídio de Ann Widdecombe.

Conservadora em termos sociais — era contra o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo —, Ann Widdecombe era mais do que uma simples política no Reino Unido. Participou em reality shows como o Big Brother Famosos (onde ficou em segundo lugar, na edição de 2018), ou o Strictly Come Dancing, o popular programa em que celebridades aprendem a dançar e que é transmitido na BBC. Era, por isso, uma figura bastante conhecida nos círculos sociais do jet set britânico. À porta-voz do Reform UK era associada uma presença carismática de uma avó meio desajeitada e ligeiramente inconveniente, que a tornava uma personalidade televisiva apelativa.

Politicamente, nas funções de porta-voz, Ann Widdecombe converteu-se num dos rostos mais visíveis do partido de Nigel Farage. O líder do Reform UK não poupou elogios à antiga eurodeputada após a notícia da sua morte: “Ela é a política mais conhecida desde Margaret Thatcher, eu não penso em mais ninguém que lhe chegue perto”, destacou o dirigente partidário, lembrando que, em Bruxelas, ela trabalhava “arduamente”, mas não “dizia não a um copo de whisky”.

Apesar de estar em primeiro lugar nas sondagens para vencer as eleições gerais no Reino Unido, o Reform UK está longe de ser consensual no país. Alguns britânicos hostilizam a mensagem antissistema e populista do partido liderado por Nigel Farage. Tendo em conta a natureza controversa do partido, surgiu de imediato a possibilidade de que a morte da antiga eurodeputada pudesse ter tido motivações políticas. Contudo, numa conferência de imprensa esta sexta-feira, a polícia britânica não apontou para esta hipótese, ainda que não a tenha afastado: “Não há informações para acreditar até agora que é um crime politicamente motivado”.

A líder das Prisões que abandonou os conservadores

Recentemente, o nome de Ann Widdecombe estava associado a programas de grande sucesso na televisão do Reino Unido. Mas nem sempre foi assim. Durante 23 anos, foi consecutivamente eleita para o cargo de deputada na Câmara dos Comuns pelo círculo eleitoral de Maidstone, no sudeste de Inglaterra. Esteve décadas associada ao Partido Conservador e foi secretária de Estado em pastas importantes, como a das Prisões ou do Emprego.

Nascida na cidade de Bath em 1947, Ann Widdecombe era filha de um funcionário do Ministério da Defesa e chegou a estudar em Singapura durante a infância. Na Universidade de Birmingham, licenciou-se em Latim e, mais tarde, frequentou a Universidade de Oxford, onde estudou Filosofia, Política e Economia. Foi aí que se envolveu ativamente no prestigiado clube de debates universitário, do qual viria a ser tesoureira.

Juntou-se ao Partido Conservador aos 29 anos. Uma das suas principais ambições era ser deputada, candidatando-se em vários círculos eleitorais. Não teve muito sucesso inicialmente, vindo a ser eleita para a Câmara dos Comuns em junho de 1987, a dias de fazer 40 anos. Na vida pessoal, assumiu ter tido apenas uma relação amorosa de três anos, com um colega na Universidade de Oxford. Confessou que, apesar do relacionamento que manteve, era virgem.

Já na casa dos 40 anos, deu um passo que era uma consequência das suas ideias políticas: converteu-se ao catolicismo. Tendo crescido num ambiente anglicano — o seu irmão dez anos mais velho era inclusivamente pastor —, Ann Widdecombe decidiu romper com o anglicanismo, nomeadamente após a aprovação da ordenação de mulheres como sacerdotisas.

“Deixei a Igreja de Inglaterra porque havia muitos problemas. A ordenação de mulheres foi a gota de água, mas foi apenas uma de muitas. Durante anos, estive desiludida com a Igreja de Inglaterra por parecer ceder em tudo. A Igreja Católica não se importa se algo é impopular”, justificou Ann Widdecombe, numa entrevista. No Partido Conservador, a política destacou-se sempre como uma das vozes que mais se opunha a medidas que encarava como progressistas: era frontalmente contra o aborto e a eutanásia, defendendo até publicamente o regresso da pena de morte no Reino Unido.

Widdecombe defendia acerrimamente as suas ideias e não tinha qualquer pudor em debatê-las, mesmo sabendo de antemão que gerariam forte rejeição. Como descreveu Nigel Farage num vídeo publicado nas redes sociais, a antiga eurodeputada “nunca foi popular, mas levantava-se e lutava por aquilo em que acreditava”.

Na Câmara dos Comuns, essa intransigência nem sempre era bem vista pelos restantes parlamentares, como lembra o Guardian. Um exemplo claro disso foi quando a antiga deputada tentou avançar com uma proposta que previa multas automáticas para quem fosse apanhado com substâncias ilícitas. A medida revelou-se altamente impopular entre os próprios parlamentares, muitos dos quais tinham admitido ter experimentado drogas na juventude.

Apesar de não se associar totalmente com as políticas neoliberais da antiga primeira-ministra, Ann Widdecombe sempre defendeu o legado de Margaret Thatcher. E sempre fez questão de a elogiar: “Era uma mulher muito, muito determinada e deixa um grande legado para as mulheres, porque há toda uma geração que, desde os cinco anos até ao momento em que puderam votar pela primeira vez, não conheceu mais nada, além desta mulher a liderar o país”.

Foi sob a liderança de John Major — o sucessor de Margaret Thatcher nos conservadores — que a antiga deputada subiu na hierarquia e chegou ao Governo. Em 1993, assumiu funções no Ministério do Emprego e, dois anos mais tarde, passou para o Ministério da Administração Interna, onde ficou responsável pela tutela das Prisões. Após a vitória dos trabalhistas de Tony Blair em 1997, Ann Widdecombe exerceu as funções de ministra-sombra da Saúde e, mais tarde, da Administração Interna.

O longo período dos trabalhistas no poder deixou Ann Widdecombe na oposição durante anos. Aliás, quando os conservadores voltaram ao poder em 2010, a antiga deputada decidiu abandonar a Câmara dos Comuns. O motivo? Opunha-se frontalmente a David Cameron, um representante da ala mais moderada dos tories. A animosidade entre os dois políticos manteve-se durante anos e a ex-deputada chegou a acusá-lo de vetar uma eventual nomeação sua para a Câmara dos Lordes.

“Um político de segunda categoria”: era assim que a ex-deputada descrevia o antigo primeiro-ministro. Quando David Cameron convocou o referendo para a saída do Reino Unido da União Europeia, Ann Widdecombe manteve-se firmemente do lado que apoiava a saída do bloco comunitário. Fez campanha ativa e tornou-se uma das vozes mais assertivas na defesa do Brexit no Partido Conservador, preservando o seu habitual estilo dogmático e assertivo.

O antigo primeiro-ministro Boris Johnson descreveu-a como uma “heroica apoiante do Brexit” após a notícia da sua morte. A saída do Reino Unido da União Europeia converteu-se numa das suas principais causas políticas. Sem informar previamente os conservadores, candidatou-se em 2019 ao Parlamento Europeu nas listas do Partido Brexit, liderado por Nigel Farage. A consequência desta ação foi a expulsão do Partido Conservador. 

À medida que se foi afastando da política, e nos nove anos que antecederam a sua eleição para o Parlamento Europeu, Ann Widdecombe começou a participar em vários programas de televisão. Ao mesmo tempo que debatia fervorosamente o Brexit e defendia causas conservadoras, era presença assídua em talk shows, reality shows e chegou até a participar na série Doctor Who.

No Parlamento Europeu, voltou à política ativa e à sua retórica assertiva e combativa — como no discurso sobre a “escravidão” —, mas apenas por um ano. Em 2020, com a saída formal do Reino Unido do bloco comunitário, os eurodeputados britânicos deixaram o hemiciclo. Ainda assim, manteve-se sempre próxima de Nigel Farage, que a nomeou porta-voz do Reform UK em 2023. Esse era agora o seu novo partido, embora Ann Widdecombe pouco se envolvesse nos assuntos internos — afinal, era já vista como uma veterana da política britânica com pouco a provar.

A morte misteriosa da política

Muitos britânicos associavam a imagem de Ann Widdecombe às suas participações em programas de televisão, como o Big Brother, em que manteve acesos debates com a vencedora da edição de 2018, a drag queen australiana Courtney Act. Com uma presença televisiva irreverente, a sua carreira política acabava por ficar em segundo plano para muitos. “Ela chegou mais além da política. Ela não era apenas uma política, era uma celebridade”, descreveu Nigel Farage.

A sua morte está agora envolta em mistério. Esta sexta-feira, estava na sua casa em Haytor, uma área rural remota no condado de Devon, no sudoeste de Inglaterra, onde vivia há anos. O corpo foi encontrado por uma empregada e havia marcas de violência e sangue no chão. Terá sido uma morte politicamente motivada? A polícia parece afastar essa hipótese, mas ainda não é bem claro.

Matt Longman, assistente da polícia de Devon e Cornwall, apenas indicou que este homicídio “não está a ser tratado como terrorismo”, mesmo sendo “um incidente extremamente trágico”. A polícia abriu uma investigação para apurar os contornos da morte. Nigel Farage já fez um pedido nas redes sociais: que se pare com a “especulação” em redor do que poderá ter motivado este suposto homicídio.

“Não sabemos se há motivos políticos. Poderá ter sido um roubo que acabou mal? Nós não sabemos”, frisou o líder do Reform UK, que, ainda assim, sublinhou que as coisas “estão a ficar mais perigosas” principalmente no “espaço político” com o qual se identifica. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, também assinalou a “divisão política” que existe no Reino Unido: “Todo o país está totalmente chocado com esta notícia horrível”.

Entretanto, foi detido um homem branco com 26 anos. Num vídeo nas redes sociais, antes da sua detenção, Keir Starmer descreveu-o como sendo “perigoso”, mas não deu mais detalhes, pedindo apenas para quem tivesse informações para contactar as autoridades. A identidade do suposto homicida ainda não foi revelada pela polícia britânica.

https://twitter.com/Keir_Starmer/status/2075610445486928191

Ainda que seja incerto o que causou a morte de Ann Widdecombe, há dez anos registou-se uma morte com motivações políticas no Reino Unido. Dias antes do referendo sobre o Brexit, a deputada trabalhista Jo Cox foi alvejada e esfaqueada, acabando por morrer na sequência dos ferimentos. O responsável foi Thomas Mair, um homem associado a grupos de extrema-direita. Durante o ataque, gritou “Britain First” [“Britânia em primeiro lugar”]. Foi condenado a prisão perpétua.

O perfil de quem matou a antiga deputada que era um dos principais rostos do Reform UK deverá ser conhecido em breve. Na memória coletiva britânica, a imagem de Ann Widdecombe ficará para sempre associada ao seu conservadorismo social, à irreverência das suas participações em programas de televisão e à forma controversa e carismática com que sempre defendeu as suas opiniões — nunca temendo ser impopular.