A publicação de O Seio constitui a mais recente etapa da gigantesca e muito meritória empreitada da Dom Quixote, que parece apostada em verter para português as obras completas de um dos mais extraordinários e fecundos escritores do século XX, ficando agora a faltar apenas meia dúzia de romances e praticamente toda a sua obra não ficcional, composta essencialmente por Shop Talk (uma colectânea de entrevistas de Roth a nomes como Milan Kundera ou Primo Levi e de reflexões do escritor acerca de duas das suas maiores influências literárias: Saul Below e Bernard Malamud), pela autobiografia Patrimony e pelo sublime Reading Myself and Others.
É curioso notar que temos já disponível em português toda a obra ficcional publicada entre 1977 e 2004, os anos maiores de Roth, durante os quais — e pasme-se que se trata de um intervalo de vinte e sete anos e dezassete romances — praticamente tudo o que saía da sua Olivetti Lettera 22 parecia ouro, sendo portanto os fascículos em falta apenas referentes ao princípio e fim da carreira. Nada disto seria, claro, muito surpreendente. É bastante compreensível que no princípio da carreira não se tenha ainda cristalizado o que mais tarde se revelará a maior força de determinado escritor, tal como compreensível será que no fim da sua vida os livros não tenham já a força de outrora. Abundam os exemplos disso mesmo.
Contudo, mais peculiar é notar que os anos menos representados no mercado editorial português sejam os que orbitam em torno de dois dos três mais excepcionais (e dizer isto acerca da obra de Roth não é coisa pouca) dos seus romances: O Complexo de Portnoy (1969) e o agora muito citado quando se discute o estado dos Estados Unidos A Conspiração contra a América (2004) — o terceiro romance de que falo é, claro, A Pastoral Americana, de 1997. Como se o esforço requerido para a construção destes marcos da literatura ocidental secasse tudo à sua volta.
Ora, O Seio (1972) vem precisamente na esteira de O Complexo de Portnoy e isso é evidente de muitas formas. A história de Portnoy, escrita em discurso direto no contexto de uma sessão de psicoterapia, narra a absoluta explosão da sexualidade de um protagonista (como sempre, judeu, como sempre de Nova Jérsia) cuja infância fora marcada por uma forte castração e por um sentimento de culpa que lhe foram impostos imposto por pais compreensivelmente atormentados pelo que a comunidade a que pertenciam passara nos anos trinta e quarenta do século XX. Em certo sentido, todos estes temas são recuperados em O Seio, uma novela explicitamente inspirada nas viagens gulliverianas narradas por Jonathan Swift e, sobretudo, em duas das mais célebres histórias de dois autores a que Roth regressaria uma e outra vez ao longo da sua obra: Franz Kafka (A Metamorfose) e Nikolai Gogol (O Nariz).

A narrativa é, por assim dizer, surrealista mas fácil de resumir. Certo dia, o prestigiado professor universitário de literatura europeia David Kepesh (protagonista de O Professor de Desejo e O Animal Moribundo) acorda com uma comichão na virilha e pouco depois vê-se inexplicavelmente transformado num seio feminino de setenta quilos, que fala e ouve através do mamilo. Roth usa esta bizarria para explorar uma considerável panóplia de impulsos humanos, que aqui serão exacerbados mas que, contudo, não diferem em espécie dos que todos nós, em menor ou maior grau, teremos já experimentado ao longo da vida.
Isso é, aliás, explicitado logo no arranque quando, num tom semelhante ao do final d’O Nariz, Kepesh aponta para a estranheza da história, sem a colocar num patamar radicalmente diferente do da nossa experiência humana comum: “Começou de maneira estranha. Mas de que outra maneira, que não fosse estranha, podia ter começado? É certo que se diz que tudo o que existe debaixo do sol começa de maneira estranha e acaba de maneira estranha e é estranho. Uma rosa perfeita é ‘estranha’, como estranha é uma rosa imperfeita, e também a rosa de vulgar cor rosada que cresce no jardim do seu vizinho”. Ao começar neste tom a narrativa de um homem que se vê transformado num seio de setenta quilos, Roth parece sublinhar que a estranheza que narra deriva apenas da sua improbabilidade estatística, não sendo, no fundo, mais estranho que um homem de 38 anos se transforme num seio do que se se transformasse num homem de 39 anos.
Nesse sentido, até o termo surrealismo confere às obras assim categorizadas uma aura de estranheza que nos anestesia para o que estas invariavelmente nos tentam mostrar: é que, quando Kafka arranca a Metamorfose com a célebre frase “Quando, uma manhã, Gregor Samsa despertou de sonhos inquietos, achou-se na sua cama transformado num bicho monstruoso”, está a falar da transformação do protagonista numa barata gigante, sim, mas está também a falar de todos nós, num tom que aliás parece remeter para os Pensamentos de Pascal, onde o homem é tantas vezes descrito nestes termos.
De seguida, Roth levará Kepesh a confrontar-se com as frias tentativas da Medicina para racionalizar o incompreensível (“um influxo hormonal descontrolado”; “uma catástrofe endocrinopática”; “uma explosão hermafrodítica de cromossomas”), com a cultura do entretenimento massificado, que o fará temer ter-se convertido num objecto de museu, exposto no centro de Nova Iorque, ou num qualquer canal televisivo em exibição 24 horas por dia, e sobretudo com os seus inglórios esforços para fazer sentido da mais absurda das situações, imaginando-se ora em coma, ora a sonhar, ora enlouquecido pelos livros em que andava a trabalhar (evidentemente, a trindade já referida), o que constitui, claro, uma reflexão sagaz acerca do que poderíamos definir como “maneiras de ler”, segundo a qual o melhor leitor seria o que se revelasse capaz de transformar em vida os objectos artísticos que mais ama — um tema que nos levaria de volta, assim houvesse espaço, a um dos mais extraordinários comentários que encontramos na obra de Roth, em Engano, precisamente a propósito das Cartas ao Pai de Kafka.
Contudo, Roth não seria Roth se o seu protagonista se transformasse numa barata, num nariz ou noutra qualquer criatura dessexualizada, sendo o carácter libidinoso do objecto em causa a ocupar o centro do livro e das preocupações deste mui estimável professor, que assim se vê confrontado com uma hipersexualização, quando imaginava esse lado da sua vida na melhor das hipóteses adormecido, explodindo deste modo o lado humorístico que invariavelmente encontramos na obra de Philip Roth.
Seria possível afirmarmos, ainda assim, que O Seio está longe do brilhantismo de outras obras rothianas. Mas isso talvez valesse também para a quase totalidade da ficção do último século.