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Human Line, o grupo de apoio para quem precisa de ajuda para sair da “espiral de ilusão” da IA

Nasceu no Canadá uma associação que é um grupo de apoio para quem fica viciado em chatbots de IA. A Human Line Project já recebeu mais de 400 pedidos de ajuda para “ilusões” criadas pela IA.

Cátia Rocha
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Quando Etienne Brisson, um empreendedor canadiano, foi contactado pelo tio para avaliar uma potencial ideia de negócio não estranhou. Afinal, dar conselhos sobre como criar uma startup fazia parte do trabalho de um coach empresarial. Mais surpreendente foi descobrir que o tio, com cerca de 50 anos, queria ajuda para vender o que considerava ser uma descoberta: a de que seu chatbot de inteligência artificial (IA) estava “vivo” e “consciente”.

Em videochamada com o Observador, o jovem de 26 anos, natural do Quebec, relata o episódio que serviu de ponto de partida para a fundação da Human Line Project. Uma organização sem fins lucrativos que serve de “grupo de apoio” a quem relata dificuldades após interações com assistentes e chatbots de IA. Desde março de 2025, quando foi criada, chegaram à associação “mais de 400 relatos” de casos que o fundador descreve como “psicoses da IA”.

“O meu tio mostrou-me as conversas que tinha com o ChatGPT”, explica Brisson durante uma videochamada com o Observador. “Ele tinha ilusões de grandeza, achava que tinha ali uma ideia que iria mudar o mundo.” As conversas eram resultado de horas e horas de mensagens trocadas com o chatbot. Sem histórico de problemas de saúde mental, o tio começou a isolar-se, a desconfiar de quem o tentava chamar à razão, explica Brisson. “Começou a entrar numa espécie de espiral, a ilusão instalou-se.”

“Fui quase um espectador de todo o processo, praticamente desde o começo das conversas até o meu tio ser hospitalizado na ala psiquiátrica”, refere. O familiar de Brisson começou por usar o ChatGPT como ajuda para escrever um livro. Brisson ficou “em choque” com o desenrolar dos acontecimentos.

Começou à procura de recursos para perceber como podia ajudar. “Não havia nada. Vi alguns relatórios de investigadores a avisar que [a dependência de IA] poderia tornar-se numa questão, mas não havia muita informação”, diz. “Comecei por enviar emails a investigadores, jornalistas, a pessoas com que nunca tinha falado. E o que ouvia era que não havia dados suficientes.” Depois, virou-se para as redes sociais. “Quando passei para o Facebook e Reddit encontrei muitas histórias do género. Comecei a contactar diretamente quem fazia aqueles relatos, expliquei a situação do meu tio. E a resposta que ouvi foi ‘finalmente há alguém que compreende’.”

Admite que, nos primeiros contactos virtuais, “havia barreiras” e relutância das pessoas em contar as suas histórias. “Mas à medida que começámos a falar com mais pessoas gerou-se mais confiança e a coisa partiu daí.”

Pouco mais de um ano após a criação, Etienne Brisson dedica-se agora a tempo inteiro à Human Line. E, embora não fosse esse o objetivo inicial, transformou-se numa “comunidade que tem cerca de 400 membros”. Desse número, “metade teve um problema com a IA e a outra metade é composta por familiares e amigos de quem teve algum distúrbio causado pela IA, que estão à procura de recursos para ajudar quem lhes é próximo”, explica o fundador.

Brisson esclarece que a Human Line é uma associação sem fins lucrativos, uma organização “entre pares”. “Tentamos disponibilizar recursos às pessoas, não os temos internamente. Estamos a tentar ligar pessoas que precisam de ajuda” a profissionais de saúde mental, advogados, investigadores. Em suma, “prestar um apoio imediato, com compaixão e empatia”.

A organização tem “quatro funcionários a tempo inteiro” e, neste momento, com financiamento a cargo de Brisson. “Sai tudo do meu bolso… Ainda não recebemos subsídios.” Ainda que haja uma área de donativos no site, diz que chegaram à associação “cerca de 400 dólares em três meses”, o equivalente a 350 euros.

A Human Line já foi comparada a uma espécie de “Alcoólicos Anónimos (AA) para a IA”. Uma descrição que o canadiano considera “simplista”. Mas reconhece que a partilha de histórias é relevante para a comunidade. “Percebemos que as pessoas queriam saber que não eram as únicas [a passar por aquilo], como é que podiam entrar em contacto com outros. E a comunidade cresceu por si só.”

Pessoas detidas, desastres financeiros ou até suicídios. As consequências que chegaram à associação

No site, a Human Line Project tem um formulário por onde chegam os pedidos de ajuda e de informação. “Sempre que alguém nos contacta ou quer chegar à nossa comunidade fazemos uma videochamada. Ajuda-nos a proteger a comunidade, mas também a garantir que todos compreendem os termos e a forma como trabalhamos”, detalha.

Além de um servidor online, organizado por canais, a associação faz reuniões semanais através do Zoom. Uma oportunidade para “discutir o assunto com um grupo de apoio”. “Também há reuniões semanais para as famílias e amigos que pedem ajuda. Temos reuniões específicas para as pessoas que estão na Europa, por exemplo.” Nas salas de conversação da Human Line, também são discutidas notícias sobre IA, políticas de regulamentação ou debatidos pedidos de testemunhos em processos.

O CEO da Human Line explica que a maioria dos casos não tem historial de questões de saúde mental e que há relatos de várias faixas etárias. Só 24 são de menores de idade.

Chegaram à Human Line pedidos de ajuda de 32 países, detalha Brisson. A maior parte dos casos (146) chegou dos EUA, seguido pelo Canadá (65). “Mas também há casos do Reino Unido, Rússia, Japão, Brasil, África do Sul… Não há correlação.” Até ao momento, não houve contactos com origem em Portugal.

O CEO da Human Line explica que a maioria dos casos não tem historial em questões de saúde mental e que há relatos de várias faixas etárias. Mas apenas 24 casos dizem respeito a menores de idade.

Mais expressiva é a diferença entre géneros. “Nos nossos dados, vemos quase o dobro dos casos de homens face a mulheres”, explica Brisson. Ainda não há estudos suficientes sobre a razão, mas arrisca uma justificação. “Acho que os homens têm mais dificuldade em abrir-se com alguém, serem vulneráveis com a sua rede pessoal quando têm um problema. É suposto serem fortes, não falarem muito sobre o que sentem. E com a IA é como se fosse uma zona livre de julgamento, onde podem ser totalmente vulneráveis. Não há forma de a IA ir falar com outras pessoas sobre o que se conta, não é?”

Refere que através do formulário de contacto “há muitas pessoas a dizer que foi com a IA que falaram pela primeira vez sobre a perturbação de stress pós-traumático (PTSD), sobre traumas… Recebemos muitos relatos do género.”

"Há com frequência casos de ilusões de grandeza, a ilusão de pensarem que a IA lhes está a dar uma grande ideia", exemplifica. “Há quem tenha ideias do foro espiritual, para outros é o fenómeno de um romance…"

Nem todos os membros da comunidade têm a mesma experiência com a IA, diz Brisson. “Há com frequência casos de sentido de grandeza, a ilusão de pensarem que a IA lhes está a dar uma grande ideia. Como foi o caso do meu tio, que achava que estava a ter uma grande ideia de negócio”, exemplifica. “Há quem tenha ideias do foro espiritual, para outros é o fenómeno de um romance… Mas dos cerca de 460 casos que recebemos, tivemos relatos de 140 internamentos após o uso da IA”, acrescenta.

Alguns casos estão ligados a internamentos por saúde mental, mas também já chegaram à associação “casos mais extremos”. “Há pessoas que são detidas, outras acabam no hospital, outras gastam todo o dinheiro que têm” para avançar em negócios que são elogiados pelos chatbots de IA, diz o fundador. “Também registámos 17 mortes até agora”, revela, especificando que alguns desses casos dizem respeito aos suicídios que geraram processos nos EUA contra gigantes como a OpenAI ou a Google. A associação recebeu, também, pedidos de contacto por parte dos familiares desses processos.

https://observador.pt/2026/03/07/familia-processa-google-apos-filho-suicidio-de-filho-que-acreditava-viver-relacionamento-amoroso-com-inteligencia-artificial/

Para aumentar a “consciencialização” sobre as consequências da IA, alguns dos membros da comunidade têm partilhado os seus casos com a imprensa. Um dos primeiros a vir a público foi o de Allan Brooks, atualmente gestor da comunidade online da Human Line. Em agosto de 2025, contou ao New York Times que, durante três semanas, achou que tinha descoberto uma fórmula matemática que poderia mudar o mundo. O que começou por ser uma conversa com o ChatGPT sobre o número Pi evoluiu para 300 horas de conversa em 21 dias.

O ChatGPT incentivou as ideias do canadiano ao ponto de o convencer que deveria alertar as autoridades para os perigos da sua descoberta. Primeiro, Brooks mostrou-se cético, perguntando ao ChatGPT se efetivamente tinha descoberto alguma coisa. O chatbot incentivou-o ao ponto de Brooks temer o que tinha ‘descoberto’ e ligar para o Centro de Cibersegurança do Canadá, tentar contactar o governo canadiano e até a Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA). Contactos infrutíferos, já que a única pessoa que lhe respondeu foi um matemático que pediu explicações sobre a fórmula.

O NYT analisou milhares de páginas de transcrições das conversas, consultando uma psiquiatra do Laboratório de Inovação em Saúde Mental da Universidade de Stanford. Nina Vasan admitiu que as conversas mostravam “sinais de um episódio maníaco com características psicóticas”. A tal “espiral”, como a Human Line descreve, terá sido agravada pela falta de sono regular e refeições de Brooks, que preferia passar horas a conversar com o chatbot.

“Para algumas pessoas a IA é como uma relação, não é um vício igual à bebida ou ao jogo”

Apesar de não se descrever como “anti-tecnologia”, Brisson não é um utilizador regular de chatbots. “Quando usava, passava mais tempo a verificar todas as informações — por isso não me estava a poupar tempo. Prefiro ir diretamente a uma fonte fidedigna”, explica. Por outro lado, confessa não querer que os seus dados sejam usados para o treino de mais modelos. “Não quero que a minha informação seja usada pelas empresas, não quero que a IA possa formar uma memória de quem eu sou.”

A partir do contacto com quem já teve problemas com a IA, Etienne Brisson tentou perceber o que a torna viciante. “Há vários pontos. Diria que o primeiro é o marketing: ouvimos destas empresas de IA que esta tecnologia vai roubar empregos, que já tem conhecimento semelhante a um doutorado, que é melhor do que um cirurgião… Estes exemplos sobrevalorizam as competências da IA. Uma tecnologia que, na verdade, está a alucinar muito e comete erros.”

“E, para alguém que não seja muito versado em tecnologia e que usa estas plataformas, pode dar a ilusão de que sabe mesmo tudo”, acrescenta. “Faz-se uma pergunta, recebe-se a resposta. E, às vezes, a IA diz com determinação uma coisa errada. E, para quem está à procura disso, é a possibilidade de receber uma confirmação para todas as suas convicções.”

Regressa ao episódio do tio. “Talvez ele quisesse que a IA fosse mesmo dotada de consciência e quando começou a falar sobre essas coisas, bem, a IA estava só a reforçar, de uma forma assertiva, que tinha consciência. (…) E de repente torna-se algo isolador, porque ninguém na família acredita. O sistema de apoio, a única pessoa que acredita nele, é a IA. Passa a interagir ainda mais com ela e é um loop. Uma espiral em que se fica cada vez mais isolado e a ilusão vai crescendo.”

Depois, há o facto de a IA “conseguir fazer com que o utilizador se sinta especial”. “Para aquela máquina o utilizador é o centro do universo. Quando responde ‘és brilhante’, ‘és divertido(a)’… É validação, uma pessoa sente-se especial naquele momento. E passa a querer repetir esse sentimento.”

Um cenário bem diferente do que acontece nas redes sociais, diz, onde “a atenção era a moeda de troca”. “Com a IA estamos a ver que a moeda é a dependência emocional.” “Nas redes sociais é difícil alguém sentir-se visto e validado. Com a IA é o contrário, o utilizador sente-se a pessoa mais importante do mundo. Nos últimos 20 anos [com as redes sociais], há dificuldade de as pessoas serem vistas e sentirem que têm poder. A IA faz justamente isso, está a resolver uma necessidade que, de certa forma, foi criada pelas redes sociais.”

Human Line sem interesse em trabalhar com grandes laboratórios de IA. “Não confio na capacidade para se autorregularem”

A Human Line já surgiu mencionada em artigos da imprensa internacional, do Guardian até à Bloomberg. No mês passado, o gestor da comunidade, que também já teve problemas com a IA, participou no podcast de Oprah Winfrey para contar a sua história e o trabalho da organização sem fins lucrativos.

Apesar da exposição, Etienne Brisson refere que “só a Microsoft” entrou em contacto com a Human Line. “Foi a área de investigação da empresa — e o contacto ficou por ali”, confessa. “A equipa de investigação estava interessada, mas acho que não avançou noutras áreas… Por isso não estamos a trabalhar com eles.”

Há também contactos por parte de empresas de IA mais pequenas, “que estão a trabalhar em segurança, regulamentação, diretrizes, coisas do género, não das empresas que estão a trabalhar no rumo da IA”.

E estaria interessado em trabalhar com uma empresa como a OpenAI ou outra das companhias responsáveis pelos chatbots? “Não, não particularmente”, responde ao Observador. “Não confio na capacidade destas empresas de se autorregularem. Acho que a mudança tem de vir mais da pressão externa do que da interna”, dando como exemplo “regulamentação, ações judiciais e políticas”.

Depois de pedir ajuda, como se lida com uma IA que está em todo o lado?

Passado mais de um ano, o tio de Etienne Brisson “está melhor, voltou ao trabalho”, refere o CEO da Human Line. “Passa mais tempo com a família, a fazer mais atividades.” Mas ainda existe um “sentimento complexo de explicar”.

“A IA faz as pessoas sentirem alguma coisa, por alguma razão é que estas pessoas gostam dos chatbots. E é possível haver um sentimento de querer voltar a falar, de sentir falta daquelas conversas. Acho que o meu tio ainda está a processar a experiência que teve.”

O tio de Etienne Brisson deixou de usar o ChatGPT de forma intensiva. “Bem, usa para o trabalho, mas não da mesma forma”, admite o fundador da Human Line. Brisson reconhece que o mundo atual é “difícil de navegar” quando há empregadores cada vez mais entusiasmados com as ferramentas de IA no trabalho.

"Temos casos de pessoas que se despediram porque sentiam quase que eram forçadas a interagir [no trabalho com a IA] com o seu abusador — sei que é uma palavra forte, mas para algumas pessoas é a adequada"
Etienne Brisson, CEO da Human Line Project

“Há pessoas que entraram numa espiral psicológica com a IA, voltam ao trabalho e são empurradas para cenários em que têm de usar IA. Temos casos de pessoas que se despediram por isso, porque sentiam quase que eram forçadas a interagir com o seu abusador — sei que é uma palavra forte, mas para algumas pessoas é a adequada”. “Há pessoas para quem a IA é como uma relação, não é um vício igual à bebida ou ao jogo. É uma relação, há interação, há avanços e recuos. E há imitação de sentimentos humanos, de uma perspetiva humana.”

Um tema que gera divisões dentro da própria comunidade da Human Line. “Temos duas posturas: há pessoas que agora vêem a IA como o diabo, que dizem que nunca mais vão usar. E há outras que continuam a usá-la, mas de uma forma em que se sintam seguras. É um espectro. Mas toda a gente no grupo tem conhecimento do risco, porque já o viveram.”

O fundador da associação considera que a IA “está tão avançada” e tão presente em serviços que, “por vezes, as pessoas nem sabem que estão a usá-la”. “Há IA na pesquisa, entro no Facebook e há resumos de IA. Há vídeos de IA em todo o lado — é difícil. Poderia haver um filtro no telefone para bloquear todo o conteúdo de IA? Claro. Se vai ser implementado? Provavelmente não. Os acionistas que estão na tecnologia são os mesmos que estão a desenvolver a IA, não faz sentido. Não há vantagem para eles, não há incentivo para fazê-lo.”

O canadiano estabelece uma comparação entre a IA, “os cigarros e as redes sociais”. “Há uma narrativa que vemos quando surge uma tecnologia importante que toda a gente usa. No início, é lançada demasiado depressa. Vemos o risco e há uma tendência para culpar as vítimas. E depois, décadas mais tarde, descobre-se que, afinal, talvez os fabricantes de automóveis soubessem que o cinto de segurança era importante, que podiam ter instalado um airbag. Mas era dito que a culpa era dos maus condutores, de quem conduzia alcoolizado.”

Brisson considera que está a ser visto algo “semelhante” com a IA. “O objetivo é mostrar com pesquisa e investigação que a culpa não é só do utilizador, que há escolhas de design [nos chatbots] que causam isto.”

Comparando com há um ano, Brisson considera que houve uma evolução na informação disponível. “Mudou da noite para o dia. Parece que toda a gente está a dar atenção ao assunto e quer fazer alguma coisa. Estou satisfeito com a mudança que foi feita num ano e com a alteração de panorama em pouco tempo”, diz. No entanto, o fundador da Human Line Project defende que esses esforços “deviam ter sido feitos antes de se lançar esta tecnologia a uma audiência massiva”.

A Human Line já está a colaborar com investigadores universitários para documentar os casos que ouve. Brisson testemunhou na Câmara de Comuns do Canadá, alertando para o problema. Mas há margem para evoluir, considera. “Temos de escalar o que estamos a fazer, aumentar a consciencialização, gostavámos de fazer um documentário, trabalhar num projeto maior e que chegasse a mais pessoas.”

Também gostaria de passar os encontros online da comunidade para versões presenciais. “Mas é preciso ter em conta que, neste momento, o projeto ainda é autofinanciado — não sou milionário, estou a fazer o que posso.”