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(A) :: Seis meses após fecho do cinema, Sporting faz "intervenções" nas salas do Alvaláxia sem pedido de desafetação ao Ministério da Cultura

Seis meses após fecho do cinema, Sporting faz "intervenções" nas salas do Alvaláxia sem pedido de desafetação ao Ministério da Cultura

Duas salas poderão ter "transmissão de partidas" e "oferta cultural mais vasta" associada ao museu, esclarece o clube. Alteração de uso de recintos de cinema depende de autorização da tutela.

Joana Moreira
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Um vídeo publicado pelo Sporting Clube de Portugal na rede social Instagram a 3 de julho revelou o interior das antigas salas de cinema do Alvaláxia, no complexo do estádio do clube, em Lisboa. Sob o descritivo “Future is Coming”, as imagens foram partilhadas e replicadas pelo jornal desportivo Record, que titulou: “Sporting mostra imagens da renovação das antigas salas de cinema do Alvaláxia”, que “serão transformadas para proporcionar experiência imersiva”. No vídeo é possível ver o interior de uma sala já desmantelada, sem cadeiras.

Por lei (Decreto-Lei n.º 23/2014, de 14 de fevereiro), a demolição ou a alteração de uso de recintos de cinema depende de uma autorização prévia do membro do Governo responsável pela área da cultura, sob parecer da Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC). Mas o Ministério da Cultura, Juventude e Desporto não recebeu qualquer pedido de desafetação para as salas, confirmou o Observador junto do gabinete de Margarida Balseiro Lopes.

A ausência de qualquer pedido de desafetação do Cinema NOS Alvaláxia é igualmente comprovada pelo Relatório do Grupo de Trabalho Informal Desafetação de Recintos de Cinema e Exibição Cinematográfica em Portugal, divulgado em março. O documento, consultado pelo Observador, elenca todos os pedidos de desafetação em apreciação no país — onde constam 11 pedidos pendentes de decisão e um em fase de instrução (Cinema King). Dos onze pedidos pendentes, três foram requeridos em 2024 (Cinema City Beloura, Cineplace Algarve Shopping e Maia Shopping), cinco pedidos em 2025 (Fórum Barreiro, Gaia Shopping, Cineplace Rio Sul Shopping, CinePlace Braga, Cineplace LoureShopping) e três requeridos em 2026 (Cineplace Guarda, Cineplace Caldas da Rainha e Cinemas NOS Tavira).

Do anúncio de compra ao encerramento-surpresa

Foi em agosto de 2025 que o Sporting anunciou a conclusão da compra do espaço comercial Alvaláxia (onde está integrado o complexo de cinema), numa operação avaliada em 17 milhões de euros, e no âmbito do projeto “Cidade Sporting”, que incluiu a criação de um museu do clube. Na altura, não houve qualquer menção às salas de cinema exploradas pela NOS.

Só em janeiro deste ano foi conhecido que o clube não previa continuar com o cinema que ali funcionava desde a inauguração, em 2003. As doze salas de cinema NOS Alvaláxia, localizadas no complexo do estádio do Sporting, em Lisboa, fecharam sem anúncio a 1 de janeiro e só no dia seguinte, já encerradas, é que o facto foi tornado público, com o diretor-geral da exibidora NOS, Nuno Aguiar, a confirmar o desfecho à agência Lusa e explicando que a decisão de não renovar o acordo de exploração partiu do Sporting Clube de Portugal. “Eram salas que gostávamos de ter, mas foi essa a decisão”, afirmou Nuno Aguiar à Lusa, remetendo mais explicações para o clube desportivo.

O encerramento repentino surpreendeu moradores, que através de duas associações se manifestaram contra o fecho das salas. Numa carta conjunta, a Associação de Residentes de Telheiras e a Associação de Residentes do Alto do Lumiar pediram esclarecimentos à Inspeção-Geral das Atividades Culturais, considerando que o fim destes cinemas representa “uma alteração estrutural da oferta cultural” naquela zona de Lisboa.

Na altura da notícia, fonte do Sporting garantia à agência de notícias que já tinha sido submetido o pedido junto da Inspeção-Geral das Atividades Culturais para a desafetação das salas para permitir “a criação de um espaço inovador, alinhado com as novas formas de consumo de entretenimento e com a visão estratégica do Clube para o seu ecossistema desportivo, cultural e de lazer”.

Mas, na verdade, tal nunca aconteceu. Numa resposta enviada ao Observador a 5 de janeiro, dias após a notícia do encerramento, a IGAC esclarecia: “No seguimento da questão colocada, oferece-nos informar que a IGAC não recebeu, até à presente data, qualquer pedido de desafetação de atividade cinematográfica referente aos cinemas Alvaláxia”.

Sporting recua e diz que “não existe motivo” para pedir desafetação, mas admite “intervenções”

Seis meses depois, o clube continua sem ter submetido qualquer pedido de desafetação de atividade e recuou nas intenções anteriormente anunciadas. Questionado pelo Observador sobre o porquê de não ter feito o pedido junto da IGAC ou do Ministério da Cultura, o gabinete de comunicação do Sporting responde: “Não foi solicitada a desafetação, nem existe motivo para o fazer enquanto o projeto de desenvolvimento desses espaços não estiver concluído”.

Sobre as intervenções visíveis no vídeo partilhado nas redes sociais no início do mês, o clube diz que se encontram em curso “intervenções de modernização e valorização de duas salas, incluindo a atualização dos equipamentos e sistemas audiovisuais”. De acordo com o Sporting, estas duas salas poderão ser utilizadas para a transmissão de partidas em dias de jogo e, nos restantes períodos, integradas num projeto de “oferta cultural mais vasta” associado ao Museu Sporting (com conteúdos imersivos) e como auditórios. Quanto às restantes salas, o clube refere que “encontram-se em fase de projeto” e assegura que o Grupo Sporting “tem vindo a cumprir com todos os procedimentos e obrigações legais no que se refere aos trabalhos e obras em desenvolvimento nos seus espaços e edifícios”.

Relatos ouvidos pelo Observador dão conta de obras no local desde fevereiro, altura em que foram colocadas grades no interior do centro comercial Alvaláxia para impedir o acesso ao piso dos cinemas, além de placas de sinalização de obras e passagem proibida — embora sem qualquer sinalização visível sobre a duração, finalidade ou alvará da obra.

O Observador contactou a Câmara Municipal de Lisboa (CML) para saber se foi submetido algum pedido de licenciamento urbanístico para as salas de cinema. A autarquia esclarece que o único processo submetido não abrange intervenções nas salas: “Informa-se que o único procedimento urbanístico submetido e apreciado pelo Município foi um Pedido de Informação Prévia (PIP), incidindo exclusivamente sobre intervenções na ‘circulação vertical Este’ do Centro Comercial Alvaláxia e na fração ‘Estádio’, não abrangendo nem prevendo qualquer intervenção nas antigas salas de cinema do Centro Comercial Alvaláxia”.

O encerramento destas salas dita o fim de um espaço com relevância histórica para a exibição cinematográfica em Portugal. À data da sua inauguração, em 2003, o complexo do Alvaláxia — então designado Cinemas Millennium Lisboa — contava com 16 salas de cinema, sob a exploração do produtor Paulo Branco. Foi precisamente neste recinto que se inaugurou a projeção digital em Portugal, a 10 de outubro de 2003. Na data de inauguração do cinema, a Sala 4 abriu ao público equipada com um projetor digital Barco D-Cine Premiere DP50, um sistema inédito no país. A partir de 2007, as salas passaram a ser exploradas pela NOS Lusomundo.