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(A) :: A Poesia que cria Clero é uma Traição

A Poesia que cria Clero é uma Traição

A poesia que nos põe de bem com a vida é especialmente ímpia. A verdadeira poesia põe este mundo em susto. O poema ruge e o povo quando sabe isto não deixa os sacerdotes refastelados.

Tiago de Oliveira Cavaco
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Não sou o maior leitor de poesia, mas à medida que o tempo passa tenho-me dedicado mais. Faço por lê-la em voz alta. Aliás, como sou um pregador inclino-me para achar que qualquer texto que não se leia em voz alta fracassou (é curioso que o Kierkegaard tinha a mesma opinião e, no entanto, por vezes é difícil lê-lo de boca aberta ou fechada). Este é o meu credo poético e protestante: se o texto não funciona oralmente, está morto. Quando se lê um texto dá para ver se o autor o leu em voz alta. Acho uma irresponsabilidade publicar sem esse cuidado.

A Bíblia, que estudo continuamente por ser pregador, está cheia de poesia. Até antes de me dedicar mais à poesia, já vivia cercado dela. Mas reconheço que costumava achar a poesia uma espécie de propriedade que me estava vedada e sobretudo por razões sociais. Deixem-me tentar explicar: a partir do 12.º ano ganhei amigos que liam poesia e que o faziam de um modo não tão diferente assim de como a Bíblia era lida na Igreja. Isso inquietou-me porque era como se a poesia criasse uma espécie de religião alternativa, na qual eu me sentia do lado de fora.

Sejamos sinceros: geralmente os fãs de poesia lêem-na de um modo irritante e afectado, como se fossem a Joana D’Arc sem a fogueira. Não quero exagerar na minha má vontade protestante, mas impaciento-me com misticismos e a poesia dá à boquinha esfomeada portuguesa o pãozinho sem sal que ela tanto anseia. O português lê poesia como se estivesse na missa. Isso é ainda mais insuportável tendo em conta que muitos dos nossos poetas não são religiosos mas, com total falta de noção, comportam-se como os mais beatos de todos. A pior religião é a que vem disfarçada.

Nos anos da Faculdade o sentimento intensificou-se: os meus colegas que gostavam de poesia ficavam cada vez mais distantes de mim, catequizados convictos numa fé cujos primeiros credos eu não conseguia pronunciar. Eles jubilavam no culto poético, riam com bem-aventuranças que me escapavam, choravam em arrebatamentos que me faziam rir: tudo estava descoordenado nos raros encontros que tinha com os meus colegas da poesia. Por um lado, eu queria ser mais poético; por outro, revoltava-me contra esta religião tão segura do seu clero.

À medida que o tempo foi passando, fui descobrindo que a poesia que me tocava não estava nos incensos do mistério que o nosso Portugal santinho tanto adora. Pelo contrário, comecei a encontrar poesia na frase simples que, com tão pouco, resumia tanto que também havia em mim. Fui-me encontrando com poetas e poemas que revelavam mais do que escondiam, que me ofereciam o Apocalipse que acontece quando as palavras tornam concreto o que anda gasoso na nossa cabeça ou no nosso coração. Essa poesia foi-me ganhando e eu fui-me dando a ela.

Isso aconteceu com a Adília Lopes, com a Adélia Prado, com o Pessoa que me irritava mas agora deixei-me de tretas, com a poesia da música do Leonard Cohen e do Bob Dylan, só para dar uma mão cheia de exemplos. Quando leio este pessoal choro e rio, sinto-me mais santo e confesso os meus próprios pecados, quero ajudar o mundo e desistir dele, entre tantas coisas que se sentem e pensam e que não são necessariamente coerentes. Acho fundamental que a poesia seja o altar e a necessidade de o derrubar também—em Portugal, infelizmente, ela está sob o monopólio da primeira operação.

Quero dar um exemplo de poesia bíblica. A Bíblia, como disse, está cheia de poesia. Começámos agora na Igreja da Lapa a estudar um livro do Velho Testamento, o do profeta Amós. Amós profetiza em poemas. Pensemos nisto: o profeta é o poeta e o poeta é o profeta. O melhor que este profeta poeta tem a fazer, uma vez mais, não é ficar no conforto da sua auto-iluminação, mas trazer a palavra para o povo. Sim, qualquer poema deve ser para o povo porque as pessoas na Bíblia são criadas pela palavra que é Cristo. Logo, o profeta Amós começa a dar o recado divino poetizando.

E entra duro: “Por três transgressões de Damasco e por quatro, não retirarei o castigo”. Vai repetir esta frase aplicada a outro lugares além de Damasco. Diz uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito vezes. Fiz questão de escrever todos os números porque a repetição é essencial. Quando lemos poesia, percebe a nossa cabeça e sente o nosso coração, há razão e há ritmo. A poesia é também a maneira que Deus usa para a sua palavra não apenas falar mas rugir. Quem não lê poesia perde a profecia e uma Bíblia em estado mais animal. A poesia não é um modo de a linguagem se portar bem. A poesia nas Escrituras é o discurso sem trela. Os profetas, sendo poetas, acabavam muitas vezes mal à custa disso.

É por isso que geralmente desprezo os poetas da moda. São gatos domésticos que o mais alto que miam é pela ração. Já nem cio têm. Há um poder tremendo de castração na poesia que nos converte ao mundo, que nos concilia com a sociedade, que nos harmoniza com o universo. A poesia que nos põe de bem com a vida é especialmente ímpia. Os poemas bíblicos são doutra dimensão e, sobretudo, criam problemas. A verdadeira poesia põe este mundo em susto. O poema ruge e o povo quando sabe isto não deixa os sacerdotes refastelados. A poesia ou é popular ou não é poesia. A poesia que cria clero é uma traição.