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Uma versão enganadora da história da humanidade. Parte 5: o mundo depois de 1945

"A Maldição de Golias", de Luke Kemp, denuncia as falhas das democracias, revela que o capitalismo está onde menos se espera e olha com saudade para o tempo em que éramos mais felizes — e mais altos.

José Carlos Fernandes
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[Este é o quinto de seis artigos sobre A maldição de Golias. Os anteriores podem ser lidos aqui:]

A vida sob o jugo do Golias Global

O mundo de hoje, que começou a ganhar forma após o término da II Guerra Mundial, é para Luke Kemp, o mundo do “Golias Global”, i.e., de “um conjunto de hierarquias interligadas em todo o planeta, no qual alguns indivíduos dominam outros para controlar a energia e o trabalho. No nosso mundo contemporâneo, isto inclui hierarquias como o Estado, o patriarcado, ricos e pobres (assente numa economia capitalista global) e em mitos sobre a necessidade de hierarquia” (pg. 506). É um mundo onde, na melhor das hipóteses, vigora uma versão “fraca da democracia, na qual as regras continuam a ser aplicadas pela força bruta” e em que “todas as outras dimensões da vida humana continuam organizadas em hierarquias de dominação. A maior parte de nós tem empregos nas nove às cinco que são como miniditaduras […], rezamos em igrejas hierárquicas e investimos em mercados controlados de forma desproporcional por umas quantas empresas. Mesmo os cidadãos da Noruega, dos EUA, da Austrália ainda vivem num Golias. De facto, toda a humanidade vive, hoje em dia, num Golias” (pg. 94-95).

Este retrato da condição humana no século XXI é lúgubre, mas poderá ser suavizado pela ideia de que, embora não passemos de títeres das “hierarquias de dominação”, ao menos somos (pelo menos nos países desenvolvidos) títeres bem alimentados e desfrutamos de uma panóplia de confortos, mordomias, prazeres, entretenimentos, cuidados de saúde e assistência na velhice que seriam impensáveis para os nossos antepassados paleolíticos e que resultam, em boa parte, da articulação do progresso tecnológico com a economia capitalista global.

Truque de ilusionismo em quatro passos

Porém, até a modesta suposição de que a vida material no século XXI beneficiou com muitos séculos de progresso tecnológico e diligência humana é demolida por Kemp:

1) Na pg. 285, afirma que “o cidadão médio que vivia sob a égide de um Estado teria visto poucas melhorias no seu bem-estar nos 6000 anos que medeiam entre 3600 a.C. e 1700 d.C. Um camponês europeu do século XVIII estava tão bem na vida quanto um camponês egípcio” (pg. 285).

A parte sobre a persistência da miserável condição dos camponeses é verdadeira: em 1700, continuavam a labutar todo o ano, de sol a sol, executavam trabalhos penosos sob qualquer meteorologia, tinham dietas monótonas e desequilibradas, estavam constantemente no limiar da subsistência e morriam relativamente novos, alquebrados pela faina incessante e pelas privações. A artimanha retórica de Kemp é usar o facto de a vida pouco ter mudado para os camponeses, para afirmar que o mesmo aconteceu com a vida do cidadão médio. Acontece que, em 1700, as sociedades europeias incluíam uma “classe média”, formada por artesãos, operários especializados, lojistas, mercadores, artistas, professores, médicos, advogados e funcionários públicos, que era mais vasta, mais diversificada e mais bem remunerada do que a da sociedade egípcia do tempo dos faraós.

2) Porém, estribando-se nesta falsidade, Kemp sente-se autorizado afirmar que “o que a tendência geral revela é que o nível de vida da maior parte das pessoas não melhorou drasticamente ao longo da história”. É uma generalização ambígua, uma vez que não deixa claro se quer dizer ao longo de TODA a história (dos primeiros Homo sapiens ao presente), ou entre as balizas temporais de 3600 a.C. e 1700 d.C. que tinha estabelecido inicialmente?

3) No trecho imediatamente a seguir, Kemp emprega nova formulação: “Em termos de qualidade de vida, a história ficou praticamente imóvel entre a transição para a agricultura e o fim da Revolução Industrial. Isto é extraordinário, se levarmos em conta os milhares de anos de avanços tecnológicos entretanto ocorridos” (pg. 285).

O sentido é similar ao das afirmações anteriores, mas as balizas temporais foram (sub-repticiamente) expandidas: agora a (suposta) estagnação estende-se de c.11.000 a.C. (início da agricultura no Crescente Fértil e Ásia Oriental) a 1914 (convencionou-se que a Primeira Revolução Industrial, a da máquina a vapor e do carvão, vai até 1870 e a Segunda Revolução Industrial, a do motor de combustão interna, da electricidade e do petróleo, vai até 1914). A asserção parece vir na continuidade da comparação entre os camponeses de 3600 a.C. e de 1700 d.C., mas é flagrantemente falsa: considerando os indicadores convencionais de esperança média de vida, saúde, educação, rendimento, etc., o cidadão médio do mundo ocidental desfrutava, no início do século XX, de uma qualidade de vida muito superior ao dos primeiros agricultores ou ao dos cidadãos comuns de qualquer período anterior. Na Grã-Bretanha de 1900, a classe média representava 12-15% da população total, a taxa de alfabetização rondava 95% e, embora abundassem os pobres (dos abjectamente pobres aos remediados), não se morria de fome em massa como em séculos precedentes. Na Europa, as últimas grandes fomes – não contando as que resultaram de conflitos bélicos ou foram deliberadamente causadas com motivações políticas (como o Holodomor na Ucrânia) – tiveram lugar em 1866-68 na Finlândia (270.000 a 275.000 mortes) e em 1845-52 na Irlanda (um milhão de mortes, um milhão forçado a emigrar).

4) Após uma página de considerações discutíveis sobre a evolução de um parâmetro objectivo – a evolução da estatura humana – e a evolução de um parâmetro extremamente subjectivo e sobre o qual a informação é escassíssima – a felicidade – Kemp sente-se à-vontade para avançar para este desconcertante balanço da marcha da civilização: “Apesar de terem passado 11.000 anos desde a domesticação das plantas e animais, a maior parte das pessoas é mais triste e pequena do que os seus antepassados do Paleolítico” (pg. 287).

As linhas despendidas com estes breves trechos de A maldição de Golias justificam-se por eles revelarem o modus operandi de todo o livro: parte-se de um elemento factual ou plausível – a sorte dos trabalhadores rurais não melhorou significativamente entre 3600 a.C. e 1700 d.C. – e, através de um ardiloso encadeamento de raciocínios falaciosos e frases ambíguas, chega-se a uma conclusão aparentemente lógica e irrefutável, mas, na verdade, descabelada: o cidadão médio de um país desenvolvido dos nossos dias vive pior do que um caçador-recolector do Paleolítico.

Interlúdio: dança dos anões macambúzios

Antes de passarmos à discussão do estado da democracia e da felicidade no mundo actual, há que examinar mais de perto a obsessão de Kemp com a estatura das pessoas. Esta atravessa toda A maldição de Golias e Kemp usa-a constantemente como principal (ou até único) critério para determinar a saúde e o bem-estar dos povos e, através de um malabarismo lógico, também o seu nível de progresso.

Após sublinhar que “a altura média diminuiu com a transição da caça e recolecção para a prática mais intensa da agricultura”, em resultado de (supostamente) a dieta se ter tornado menos nutritiva e variada (teremos aqui um adepto da “dieta paleolítica” e de outras vogas hiperproteicas que hoje fazem furor na “machosfera” e nos ginásios?), Kemp observa que “em todo o mundo, no decurso dos últimos 2000 anos, a altura tem oscilado em torno dos 170 cm. Houve flutuações, mas não houve aumentos duradouros até ao século XIX” (pg. 286). A estagnação da altura do cidadão comum nos últimos 2000 anos tem, para Kemp, a mesma raiz que a estagnação dos rendimentos e do bem-estar do cidadão comum: o facto de “a maior parte do excedente criado pela tecnologia e pelo crescimento económico [ter sido] absorvido pelas elites” (pg. 287). Já as flutuações para baixo na estatura são, segundo Kemp, culpa do vilão-para-todo-o-serviço: os “Golias”. Afirma Kemp que “a altura tendeu a diminuir em períodos de império e a aumentar durante os períodos de colapso” (pg. 286). O capitalismo, o outro ogre de A Maldição de Golias, também é responsável pela estatura decepcionantemente modesta da humanidade ao longo dos últimos séculos: “É fácil assumir que a ascensão do capitalismo, por volta de 1600, e a industrialização, 150 anos mais tarde, levaram a melhorias na condição humana. […] Na verdade, o que se passou foi o contrário. […] A altura média dos homens que se alistaram no exército, da década de 1890 até à I Guerra Mundial, era de 168 cm, ainda abaixo do seu ponto mais alto antes do capitalismo” (pg. 337).

Kemp reconhece que “o mundo moderno registou, sem dúvida, enormes progressos que merecem ser celebrados” e que, “desde o século XIX, aproximadamente, a altura média global [ter aumentado] cerca de 8 cm para as mulheres e 9 cm para os homens”, mas lamenta que “os homens de hoje ainda sejam mais baixos do que os seus antepassados do Paleolítico” (pg. 336).

Os políticos costumam prometer aos seus eleitores “um médico de família para cada cidadão”, “mais dinheiro no bolso”, “acabar com a mama dos subsídios”, ou “devolver o país aos portugueses”, mas ainda nenhum deles tinha dado atenção ao candente problema da estatura. Isto mudou em Maio passado, quando Luís Montenegro lançou o slogan “Fazer Portugal maior”, quiçá por ter concluído que a sua grande promessa anterior, de fazer o salário mínimo subir para os 1600 euros e o salário médio para os 3000 euros até ao fim da legislatura, era pouco apelativa (ou plausível) e crer que o país seria galvanizado pelo desígnio de fazer a estatura média dos portugueses equiparar-se à de Neemias Queta dentro de apenas duas gerações.

As insuportáveis imperfeições da democracia

Resolvida a questão da estatura (ou da falta dela), regressemos à cáustica crítica de Kemp à democracia liberal nascida do pós-II Guerra Mundial: “A maior parte dos regimes políticos, historicamente, não eram particularmente democráticos, mas as democracias modernas também não o são. Os sistemas parlamentares modernos baseiam-se na soma de votos para seleccionar alguns líderes com características idênticas (na sua esmagadora maioria, indivíduos mais velhos e ricos), que depois praticam pouca deliberação genuína” (pg. 173). Mesmo as mais avançadas democracias do nosso tempo “assentam na frágil noção de que escolher, a cada quatro anos, entre alguns governantes possíveis é quanto basta de partilha de poder. O partido com maior financiamento tende a ganhar e os governos raramente representam a opinião popular ou implementam as medidas mais apoiadas pelo público” (pg. 94)

Querer fazer crer que, por serem imperfeitas, as democracias modernas não são melhores do que as autocracias ou que os despotismos de antanho é uma falácia análoga a argumentar que a frase “a Terra é uma esfera” não é mais verdadeira do que a frase “a Terra é plana”, uma vez que a Terra, sendo achatada nos polos, não é, se quisermos ser absolutamente rigorosos, uma esfera.

A forma de democracia que (por enquanto) prevalece no mundo ocidental (ainda que esteja em recuo no cômputo global) não é um “produto acabado” ou “o fim da História”; é um processo de aprendizagem e aperfeiçoamento, que nunca está concluído e que, ocasionalmente, nalguns países, sofre retrocessos, pelo que requer vigilância constante. É verdade que 1) nem as democracias do Norte da Europa, que costumam liderar as avaliações da qualidade da democracia, estão isentas de problemas; que 2) a democracia representativa degenera facilmente para uma oligarquia partidária; que 3) alguns deputados podem ser sequestrados por grupos de interesses do sector empresarial; que 4) o poder legislativo e o poder executivo são condicionados pelo lobbying; e que 5) é frequente existir uma “porta giratória” entre funções governativas e cargos de topo no meio empresarial, por vezes no mesmo sector de actividade que era tutelado pelo ex-governante. Porém, a tendência genérica dentro dos regimes democráticos é de progresso.

Tome-se, por exemplo o caso concreto do direito ao voto no país natal de Kemp: a Austrália tem funcionado ininterruptamente em regime de democracia liberal desde 1 de Janeiro de 1901, dia em que foi aprovada a Constituição (é o 10.º país do mundo em termos de antiguidade da democracia) e abriu o direito de voto às mulheres em 1902 (foi o 2.º país do mundo a fazê-lo, após a Nova Zelândia). Embora as mulheres pudessem, desde 1902, ser candidatas ao parlamento, só em 1943 lograram ser eleitas para ele.

Os indígenas australianos, de qualquer dos sexos, foram excluídos do direito ao voto até 1962 e foi preciso esperar mais dez anos até que um deles fosse eleito para o parlamento, como senador; no que diz respeito ao outro órgão do parlamento, a Câmara dos Representantes, o primeiro indígena australiano foi eleito apenas em 2010 (seria também o primeiro indígena a ocupar um cargo ministerial). Podemos lamentar as imperfeições da democracia australiana e a exasperante lentidão com que foi evoluindo, mas só o mais obtuso demagogo se atreverá a negar que houve uma evolução positiva e significativa (já agora, a Austrália figurou , em 2025, no 13.º lugar no ranking anual de qualidade da democracia elaborado pela revista The Economist; Portugal ficou em 20.º lugar; o 1.º lugar foi para a Noruega).

“Oligarquia com ornamentos”

Ao cepticismo cínico que insiste em apontar as insuficiências, hipocrisias e perversidades da democracia moderna, pode sempre contrapor-se a pergunta: que sistema de governação se perfila como alternativa? Passados cerca de 6000 anos desde a constituição dos primeiros Estados e tendo sido ensaiados tão variados modelos de governação da sociedade, qual deu provas de ser mais satisfatório do que a democracia liberal moderna?

Kemp faz dela uma apreciação arrasadora: “Aquilo a que habitualmente chamamos democracia – sistemas nos quais um subconjunto da população […] vota de quatro em quatro anos ou de cinco em cinco anos num pequeno número de representantes (regra geral, ricos), que são alvo de lobbies ou mesmo directamente financiados por grandes empresas (para as quais muitos trabalham depois de sair da política), e que tomam medidas que tendem a beneficiar interesses privados mais do que a representar a opinião pública – é mais correctamente descrito como uma oligarquia com ornamentos” na pg. 493).

Depreende-se, ao longo da leitura de A Maldição de Golias, que Kemp preferirá a democracia directa e, embora não empregue este termo, acaba, na pg. 477, por advogar explicitamente algo similar, que designa por “democracia aberta”: “governação responsável e inclusiva liderada pelas massas, pondo cidadãos comuns no centro da tomada de decisões”. Todavia, ainda que as variantes “aberta”, “directa” ou “participativa” possam parecer promissoras em teoria, que provas deram os ensaios realizados até à data de poderem afirmar-se como formas eficazes, equilibrada e justa de governação à escala de um país?

As modernas democracias representativas têm vindo a incluir elementos pontuais de democracia directa, não à escala nacional mas à escala local. A sua forma mais corrente em Portugal são os “orçamentos participativos”, em que as câmaras municipais reservam uma verba no seu orçamento para ser repartida por projectos propostos e votados pela sociedade civil. Porém, estas iniciativas nem sempre comprovam a mítica “sabedoria das multidões” e a superioridade da democracia directa sobre a democracia representativa, pois são facilmente capturadas pelos grupos de interesses que têm maior capacidade de mobilização nas redes sociais, pelo que acabam, frequentemente, por financiar a erecção de estátuas e outra “arte pública” e a criação de parques caninos e refúgios para gatos vadios (nota: dentro dos vários tipos de parques urbanos, o parque canino é o que tem registado maior crescimento no século XXI; o número total acende a 800-1000 e só em Portland existem 38).

O pior de todos os sistemas…

Em A Maldição de Golias, as recorrentes denúncias das falhas e hipocrisias das modernas democracias liberais contrastam com o silêncio absoluto em relação às numerosas experiências que tiveram lugar no século XX para criar sociedades em que os meios de produção são propriedade colectiva ou, pelo menos, são geridos pelos próprios trabalhadores; em que a propriedade privada, se não é abolida, é pelo menos, desincentivada e severamente restringida; em que a riqueza gerada é distribuída de acordo com as necessidades de cada cidadão; em que as decisões são tomadas em assembleias populares, comissões de trabalhadores e comités de bairro; em que todos os cidadãos estão no mesmo patamar; em que não há lugar à exploração do homem pelo homem.

A utopia preconizada por Kemp no epílogo, sob o título “Como matar o Golias” não anda longe do comunismo, mas Kemp tem o cuidado de não escrever esta palavra, talvez por estar consciente de que todas as tentativas para criar na Terra sociedades sem classes estiveram longe de cumprir as expectativas (para dizer o mínimo) e que nem mesmo a sua desfaçatez na manipulação de dados e na reescrita da história seria capaz de ocultá-lo. Na verdade, os exemplos da URSS, da República Popular da China, do Kampuchea Democrático, da República Popular Democrática da Etiópia, da Albânia de Hoxha, da Roménia de Ceauşescu, da República Democrática Alemã, da República Popular da Bulgária e dos outros países da Europa de Leste entre c.1945 e c.1990, bem como desses fósseis vivos que são a Venezuela bolivariana, Cuba e a República Popular Democrática da Coreia do Norte, atestam que, seja qual for a latitude, o clima, a geografia, a geologia, a ecologia, a composição étnica e os antecedentes históricos, o mais próximo que os projectos para criar sociedades sem classes chegaram foi a distribuição uniforme da pobreza pela esmagadora maioria da população.

Não foram, porém, capazes de evitar a emergência, nessa planície desolada e uniforme, de uma casta de sumos-sacerdotes laicos, únicos intérpretes legítimos das tábuas sagradas do marxismo-leninismo, assessorada por três classes cuja cumplicidade e lealdade era (é?) paga com regalias modestas: os apparatchiki, ou seja, os funcionários da tentacular burocracia estatal; os militares; os membros das forças de segurança e ordem pública e dos serviços de informação. Os dois últimos grupos tenderam a ter uma dimensão muito superior aos dos seus homólogos nas democracias, pois a manutenção de “sociedades sem classes” requer um implacável e omnipresente aparelho de vigilância e repressão – o que fez com que os “paraísos dos trabalhadores” se assemelhassem a infernos na Terra.

O que o trágico fiasco de todas estas experiências “igualitárias” acaba por revelar é que os pressupostos sobre a natureza humana formulados por Jean-Jacques Rousseau – e abraçados por Kemp – estão completamente errados e que, logo, as ideologias e utopias sociopolíticas que neles se alicerçam estão condenados a ruir fragorosamente.

O primeiro MacDonald’s em Pyongyang está por dias

Na pg. 326, Kemp defende que, “do ponto de vista económico, todos os países são actualmente capitalistas”. Prevendo que algum leitor pudesse invocar a Coreia do Norte como excepção óbvia, Kemp explica, em nota, que mesmo esta “tem muitos dos ingredientes-chave do capitalismo: mercados privados, empresas privadas, trabalho assalariado e o crescimento económico como objectivo. […] A Coreia do Norte é mais capitalista do que se pensa”, e lembra que “o líder norte-coreano Kim Jong Un foi educado em Berna, na Suíça”. Com efeito, a governação de Kim Jong Un tem, notoriamente, sido inspirada no modelo social, político e económico da Suíça e há rumores de que o ensino do canto tirolês poderá tornar-se obrigatório nas escolas norte-coreanas. Em 2003, já tínhamos descoberto, graças a Bernardino Soares, que a Coreia do Norte poderia ser uma democracia e agora Kemp revela-nos que a Coreia do Norte já pouco se distingue de um país capitalista. Está assim explicada a razão de Kemp não mencionar no livro as alternativas marxistas-leninistas ao sistema capitalista: todas elas são ou foram “mais capitalistas do que se pensa”.

Ponhamos de parte a ironia e passemos a verificar os “factos” apresentados por Kemp: sim, existem “mercados privados” na Coreia do Norte, mas estes fazem parte da economia informal e só ganharam relevância após as grandes fomes de 1994-99 terem colocado a nu a inoperância da economia estatal e a sua incapacidade para prover à sobrevivência dos cidadãos norte-coreanos. Os mercados privados, conhecidos como jangmadang, começaram por vender produtos básicos como arroz e verduras e, pouco a pouco passaram a vender outros produtos alimentares, vestuário, sapatos, cosméticos, revestimentos sintéticos para o soalho e alguns electrodomésticos, quase todos contrabandeados da China. O Estado norte-coreano, reconhecendo que os jangmadang colmatam algumas das muitas falhas da economia estatal e permitem minorar os surtos de fome e os riscos de tumultos, acabaram por assumir, discretamente, a sua existência, passando a licenciá-los e a cobrar pela ocupação do espaço público. Ainda assim, os jangmadang estão mais perto do mercado negro do que do mercado das sociedades capitalistas.

O juche, a peculiar versão norte-coreana do marxismo-leninismo, não abdica do conceito de “propriedade colectiva dos meios de produção”: há empresas estatais, há quintas colectivas, há empresas que são propriedade das Forças Armadas e há parcerias público-privadas nos domínios em que a Coreia do Norte não dispõe de know-how e tecnologia e necessita de parceiros estrangeiros. Porém, não há verdadeiras “empresas privadas”, que são, aliás, expressamente proibidas pela Constituição. Existem alguns “empresários” informais, conhecidos como donju, que vivem nos interstícios do sistema e operam, por vezes, a coberto de parcerias público-privadas, mas também eles têm um carácter marginal face à economia estatal.

Quanto ao trabalho assalariado, a Coreia do Norte não difere dos restantes regimes comunistas: quer na Cuba dos nossos dias, quer na antiga URSS, quer nos restantes países que têm ou tiveram regimes comunistas, o Estado é o empregador primário (ou até exclusivo) e, naturalmente, paga salários aos seus trabalhadores. O único Estado moderno a ter abolido o trabalho assalariado – e também a propriedade privada, os mercados, o sistema financeiro e o dinheiro – foi o Kampuchea Democrático, isto é, o Cambodja sob a governação do Khmer Rouge (Partido Comunista do Cambodja), entre 1975 e 1979. Os comunistas do Khmer Rouge não se limitaram a eliminar essa sinistra instituição capitalista que é o trabalho assalariado: no dia em que entraram em Phnom Penh, a 17 de Abril de 1975, fizeram explodir o Banco Nacional do Cambodja e começaram a retirar e destruir todas as moedas e notas em circulação. Num primeiro tempo, o regime ainda fez imprimir novas notas, mas estas não chegaram a entrar em circulação, pois concluiu que o seu modelo de sociedade requeria a obliteração do sistema monetário – na verdade, também conseguiu a obliteração da economia nacional e, se tivesse tido tempo para tal, teria obliterado o próprio povo cambodjano, já que, em apenas quatro anos, liquidou um quarto da população do país e infligiu sofrimentos inenarráveis a boa parte dos restantes. Representará o Kampuchea Democrático a alternativa à democracia capitalista com que Kemp sonha?

Hipermasculinidade e liderança

Na pg. 195, Kemp afirma que o “impulso autoritário em situações de crise é algo tão primordial e instintivo em nós que altera as nossas preferências em matéria de líderes políticos. Estudos mostram que, em tempo de guerra, as pessoas preferem líderes mais altos e com feições mais masculinas. O velho lugar-comum segundo o qual pessoas amedrontadas se viram para líderes do tipo ‘homem-forte’ revela-se, assim, verdadeiro. O que não falta são exemplos contemporâneos”. Dá como exemplos Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu e prossegue: “Líderes como Bolsonaro, no Brasil, e Trump, nos EUA, mostraram-se exímios na arte de ganhar votos culpando os estrangeiros pelo problemas do país”.

Esta é uma situação recorrente em A Maldição de Golias: Kemp justapõe ideias aparentemente relacionadas, mas que, quando examinadas durante dois segundos, revelam não ter nexo entre si. Uma coisa é possuir aparência máscula, que tem a ver com características físicas objectivas e mensuráveis, outra é ser um “homem forte”, que tem a ver com atitude, discurso e capacidade política; a história está cheia de “homens fortes” de estatura modesta, corpo flácido e feições espapaçadas e anódinas. Por outro lado, os “homens fortes” caracterizam-se por projectarem uma imagem de determinação, foco, eficiência e intransigência, o que nada tem a ver com a conversão dos estrangeiros em bodes expiatórios – o medo do estrangeiro é um argumento que também pode ser usado pelo mais inerme dos políticos.

É verdade que as pessoas assustadas tendem a votar em políticos de discurso autoritário e é por isso que todos os populistas que aspiram a governar tentam criar a ilusão de que o país está a mergulhar num declínio do qual só poderá ser resgatado com a sua força e determinação (ver capítulo “O caos como estratégia” em Donald Trump: A arte do ludíbrio na era digital e capítulo “Em nome da liberdade de expressão” em Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 4: Liberdades). Por outro lado, embora Putin e Netanyahu cultivem a imagem de “homem-forte”, nenhum deles tem a compleição de um titã – Putin tem mesmo uma altura abaixo da média (1.70 metros), o que o levou, quando era mais novo (agora, aos 73 anos, assumiu a pose de estadista), a tentar compensar a sua modesta estatura com uma interminável sucessão de encenações, em que posava como homem de acção e desportista (a cavalgar pela estepe siberiana de tronco nu, a nadar num lago gelado, a voar em asa delta, a participar em competições de judo e de hóquei no gelo, como atirador de elite, piloto de competição, piloto de combate, caçador de ursos e tigres, mergulhador, submarinista, etc.).

[As trepidantes férias de Verão de 2017 de Vladimir Putin:]

https://youtu.be/9sw3fjLvNiU

Uma estratégia recorrente das campanhas eleitorais e das presidências de Donald Trump tem sido, com efeito, retratar os estrangeiros como sub-humanos, doentes mentais e criminosos e culpá-los pelos problemas do país (ver capítulo “O guardião da pureza do sangue americano” em Donald Trump pelas suas próprias palavras), e muitos partidos europeus de extrema-direita têm também um discurso obsessivo contra imigrantes e minorias étnicas (sobretudo as não-caucasianas). Todavia, os estrangeiros não foram tema nas campanhas eleitorais (de 2018 e 2022) de Jair Bolsonaro, ainda que este tenha apontado a necessidade de controlar a entrada de refugiados venezuelanos no estado de Roraima. A verdade é que, mesmo com o afluxo recente de venezuelanos (mais de 200.000 desde 2020), a percentagem de estrangeiros residentes no Brasil ronda os 0.5% (1 milhão numa população de mais de 200 milhões), pelo que é natural que a ameaça da diluição da identidade nacional pelos estrangeiros não povoe os pesadelos dos eleitores brasileiros.

Perfil e papel do líder: breve panorâmica histórica

Kemp não é claro sobre o período a que se refere quando menciona a suposta preferência por “homens fortes” e de aspecto atlético e masculino em tempo de guerra. Mas, à partida, essa suposta preferência apenas dirá respeito a democracias modernas, pois os ditadores não querem saber das preferências do povo e os monarcas pré-democráticos governavam por direito divino.

Em tempos recuados, era frequente os soberanos estarem presentes nas grandes batalhas, mas nem todos carregavam a cavalo contra o inimigo – a maior parte ficava na retaguarda, a acompanhar a evolução dos acontecimentos, rodeado pela sua guarda pessoal, e eram lestos em partir quando percebiam que os eventos no campo de batalha não estavam a correr-lhes de feição. Sim, houve Alexandre o Grande, Ricardo Coração de Leão, Eduardo III de Inglaterra, Carlos o Temerário (Duque da Borgonha), Gustavo Adolfo da Suécia e Napoleão Bonaparte, mas estão longe de representar a atitude típica dos líderes em tempo de guerra.

É plausível que nas tribos de caçadores-recolectores ou nas pequenas comunidades de proto-agricultores se esperasse que o líder estivesse na linha da frente do combate, mas, com o desenvolvimento dos Estados, os soberanos tenderam a resguardar-se, mesmo que os textos e monumentos que celebravam as suas vitórias militares e conquistas os representassem em pose heróica a decapitar ou espezinhar inimigos. Com o passar do tempo, os líderes políticos tornaram-se cada vez menos afoitos e, depois de Napoleão, passaram a ser exclusivamente criaturas de gabinete ou de bunker e a rodearem-se de rigorosas medidas de segurança, nalguns casos a roçar a paranóia.

No século XX, mesmo os que praticaram um discurso belicista, radical e incendiário nunca se aproximaram das frentes de batalha – o exemplo paradigmático é Hitler, que, depois da experiência nas trincheiras da I Guerra Mundial, sempre manteve várias centenas de quilómetros entre si e a frente de combate, se furtou a visitar áreas bombardeadas e soldados feridos e só contactou com o furacão de destruição e sofrimento que iniciou em 1939 quando, em Abril de 1945, este bateu à porta do bunker da Chancelaria, em Berlim. Diga-se, de passagem, que Hitler, embora exibisse uma agressividade histérica e estridente quando discursava, não podia estar mais longe de ter um porte atlético (abominava a ideia de exercício físico e tinha vários problemas de saúde) e não foi certamente pelo aspecto físico que os alemães votaram nele. Aliás, os cabecilhas do III Reich (Goebbels, Himmler, Göring, Ribbentrop, Bormann, Speer et al.) não só não eram nenhumas “estampas”, como, ironicamente, não exibiam as marcas da raça ariana que a ideologia racial nazi tanto exaltava.

Stalin não tinha aparência mais máscula e atlética do que Hitler e evitou tanto como este aproximar-se da frente de combate e do contacto com a destruição e sofrimento, Na juventude, tinha sido o “cérebro” de grupos bolcheviques formados por gangsters e arruaceiros e dedicados a raptos, assaltos a bancos e comboios e violência sortida, mas nunca se envolveu na acção. E, embora, ao longo de 29 anos no poder, tenha sido responsável pela morte de largos milhões de cidadãos soviéticos (quer sacrificando soldados em acções militares vãs, quer fazendo fuzilar regularmente as chefias das forças armadas, quer ordenando a execução, tortura, deportação e internamento em campos de trabalho de civis anónimos), agiu sempre como um carniceiro de secretaria, interpondo uma muralha de burocracia e hipocrisia entre si e as suas incontáveis vítimas. Stalin estava plenamente consciente de quão longe estava do perfil de herói másculo e destemido, pelo que a 24 de Junho de 1945, na Parada da Vitória de Moscovo, celebrando a rendição da Alemanha, terá ficado abespinhado ao ver o marechal Georgy Zhukov (comandante-chefe das forças armadas e o verdadeiro obreiro da vitória sobre os nazis, já que Stalin era fraco estratega militar) cavalgar garbosamente um corcel branco na Praça Vermelha. Consta que Stalin ficou roído de inveja pelo brilharete de Zhukov e que esse momento terá marcado a queda em desgraça do marechal. Embora Stalin nunca tivesse tido a coragem de afastar ou eliminar uma figura tão popular, Zhukov foi sendo despromovido para cargos cada vez mais obscuros e remotos e foi acusado de locupletar-se com bens confiscados à Alemanha.

No século XXI, a tese da preferência, em tempos de crise e conflito, por líderes altos e com feições masculinas não tem qualquer ligação à realidade. No campo das autocracias, além de Putin, temos figuras como Xi Jinping, Kim Jong Un, Aleksandr Lukashenko, Theodor Obiang ou Daniel Ortega, que, embora se eternizem no poder e sejam temidos, não projectam uma imagem marcial e viril. Nas democracias, tornaram-se frequentes as mulheres em lugares de liderança, inclusive nos partidos que apreciam o autoritarismo, e os políticos do sexo masculino têm quase todos aspecto inofensivo e amorfo, sejam eles de extrema-esquerda ou de extrema direita, inclinados para o autoritarismo ou não. A foto de grupo de uma cúpula partidária ou de um gabinete ministerial não se distingue da foto de um congresso da associação dos mediadores imobiliários ou da ordem dos solicitadores e não é fácil encontrar entre as legiões de políticos e governantes que formigam nas democracias liberais ocidentais alguém digno de figurar, em tronco nu, na capa da Men’s Health ou de bikini na Woman’s Health (no número de Maio de 2019 da edição lusa da Men’s Health, o país descobriu “Duarte Pacheco, o deputado mais fit de Portugal”, mas foi um caso invulgar – até o director da revista confessou ter ficado “estupefacto”).

Há também que lembrar que, durante a maior parte da história das civilizações, apenas uma pequena fracção do povo tinha oportunidade de ver de perto os seus soberanos e, assim, poder aquilatar da sua estatura e aspecto mais ou menos másculo. A era dos meios de comunicação de massa permitiu ao governados um escrutínio próximo dos seus governantes, mas os meios tecnológicos de produção de imagens e os mass media são susceptíveis de manipulação, ocultação e controlo – como comprova o facto de os americanos, num período de crise grave e conflito generalizado, terem eleito para presidente por quatro vezes (em 1932, 1936, 1940 e 1944), Franklin D. Roosevelt, sem nunca se terem dado conta de que ele tinha perdido o uso dos membros inferiores (desde 1921).

É preciso também considerar que, apesar de os “homens fortes” serem apelativos para um certo tipo de eleitores, na Europa dos nossos dias, com estrutura demográfica envelhecida e em que a abstenção entre os jovens é elevada, muitas eleições são decididas pelos reformados, um grupo propenso a assarapantar-se com políticos vociferantes e de ar zangado que prometem mudanças radicais. Assim sendo, os europeus continuarão, predominantemente, a eleger criaturas com a aparência e os modos de contabilistas, farmacêuticos, funcionários bancários e gestores de condomínio, não colossos façanhudos saídos da série televisiva Vikings ou de um ringue de wrestling. Nos EUA, apesar da retórica testosterónica dominante nos círculos MAGA e na administração Trump 2.0 (cujo expoente de “masculinidade patética” é Pete Hegseth, o “Secretário da Guerra” – a “defesa” é coisa de sissies), da fixação da “machosfera” (maioritariamente pró-MAGA) em bíceps hipertrofiados, em linhas de mandíbula hiperdefinidas e no consumo de esteróides anabolizantes, e da entrada na linguagem corrente de termos como looksmaxxing e mogging, não é provável que o próximo presidente dos EUA seja Pete Hegseth, Joe Rogan ou Clavicular.

O mundo como arena para os machos-alfa

Apesar das muitas tolices e inexactidões que Kemp produz sobre masculinidade e liderança, há um ponto da sua argumentação que é válido e pertinente: a visão da competição por status como principal força motriz, para o bem e para o mal, da história da humanidade. Eis uma síntese dos seus argumentos: “O status existe em duas modalidades: prestígio e dominação. […] Prestígio é quando os outros procuram a nossa liderança devido às nossas competências e sabedoria. […] A dominação […] é a faculdade de ganhar status através da violência, da intimidação ou do controlo dos recursos” (pg. 56). “A necessidade de competir pelo status varia de indivíduo para indivíduo. Desde logo, os homens têm maiores probabilidades de ser sedentos de status, e também de tentar obtê-lo através da dominação dos outros. […] A procura de status através da dominação […] é mais comum entre aqueles que têm classificações elevadas naquilo que os psicólogos chamam a ‘tríade negra’: psicopatia (indiferença para com os outros, falta de empatia e remorso), narcisismo (um sentimento exagerado da própria importância e presunção) e maquiavelismo (a manipulação das outras pessoas para benefício próprio)” (pg. 57).

Ao longo do livro, Kemp, com a sua costumeira falta de rigor, emprega os termos “tríade negra” e “psicopatia” como se fossem equivalentes, ainda que a psicopatia seja apenas uma das três componentes da tríade negra. É disso exemplo o trecho, cáustico, em que realça que “os psicólogos tendem a distinguir psicopatas com sucesso de psicopatas sem sucesso. Psicopatas bem-sucedidos acabam nos parlamentos e nos conselhos de administração, ao passo que os sem sucesso acabam na prisão” (pg. 196). A observação tem alguma razão de ser, mas a generalização é demasiado ampla: convém que cada grupo parlamentar tenha pelo menos um macho-alfa, mas convém que o grosso da representação seja constituído por gente submissa, leal e respeitadora escrupulosa da disciplina de voto.

A competição dentro da elite política conduz frequentemente a guerras, a repressão, a encarceramento e deportação em massa e até a genocídios, mas a competição dentro da elite económica, se produz inovação e aumento da riqueza produzida, também tem inconvenientes: “a competição exacerbada no seio da elite tende a desenrolar-se a par do empobrecimento geral da população”; Kemp menciona um estudo, liderado por Peter Turchin e Dan Hoyer, que sugere que “o aumento da desigualdade, o empobrecimento popular e a competição entre as elites parecem ter desempenhado um papel crucial numa série de colapsos ao longo da história” (pg. 248).

Kemp sublinha que a competição das elites pelo poder político e pelo poder económico nem sempre decorre em pistas separadas e menciona “figuras como os bilionários Donald Trump e Elon Musk e a tentativa de instrumentalizar o descontentamento popular e transformar o seu poder económico em poder político através do condicionamento do governo americano” (pg. 249). A leitura que Kemp faz do “fenómeno Trump” é simplista e inexacta: não se trata de um empresário de sucesso (até porque boa parte da sua carreira foi marcada por fiascos e falências) que se fez eleger para aplicar o seu ideário à governação (até porque Trump nunca deu mostras de possuir algo que se assemelhasse a uma ideologia), mas da obliteração (para usar um termo caro a Trump) das barreiras éticas entre negócios privados dos governantes e política. A monetização e aviltamento do cargo presidencial por Trump é um dos fenómenos mais pertinentes da actualidade política, mas extravasa o escopo deste artigo.

O que vem afinal a ser o progresso?

Mesmo entre os economistas há quem admitia que a capitalização bolsista das empresas tem uma componente especulativa e que o PIB é uma medida imperfeita da geração de riqueza de um país. Daí que, quando se pretende fazer uma avaliação mais abrangente e subtil do progresso, se recorra também a indicadores de condições de educação, saúde, salubridade e conforto material. Porém, Kemp considera inadequado este entendimento do progresso: “Os avanços de que habitualmente falamos e que vemos representar em gráficos têm que ver com melhorias ao nível da saúde e do conforto material. Mas se, em vez disso, falarmos da melhoria das nossas condições interiores – da felicidade e das ligações sociais – e ou do tratamento do meio ambiente [presume-se que quer dizer “a forma como interagimos com o ambiente” ou a “pegada ambiental da humanidade”], subitamente começa a parecer que a maioria das sociedades retrocedeu desde o tempo dos caçadores-recolectores igualitários” (pg. 338-39).

Kemp não apresenta inquéritos de opinião realizados durante o Paleolítico, mas invoca “estudos sobre a felicidade dos grupos nómadas igualitários [do presente, presume-se] [que] sugerem que são mais felizes do que os seus homólogos industrializados em mais de uma dezena de países estudados” (pg. 339), retomando argumentação já exposta na pg. 286, em que refere que, para lá da felicidade medida pelos questionários, “os estudos etnográficos sobre caçadores-recolectores estão repletos de reflexões sobre a vida feliz e despreocupada destes, com comunidades muito unidas e com tendência para começarem a cantar e a dançar de forma espontânea”.

Nas últimas décadas têm-se multiplicado as vozes que contestam os conceitos ortodoxos de progresso, assentes em indicadores como o PIB per capita, os quilómetros de auto-estrada e ferrovia, o consumo de energia per capita, ou a percentagem de população com educação superior. Um dos primeiros índices de progresso alternativos foi a Felicidade Interna Bruta (FIB, ou GNH, na sigla inglesa), um conceito apadrinhado pelo Governo do Butão. Como o nome sugere, a FIB foi proposta em contraposição ao PIB e contempla nove domínios: bem-estar psicológico, saúde, uso do tempo, educação, resiliência e diversidade culturais, governação, vitalidade das comunidades, resiliência e diversidade ecológicas e níveis de vida (mas não a “tendência para começar a cantar e a dançar de forma espontânea”).

Apesar de formulado no início da década de 1970, o conceito da FIB apenas ganhou visibilidade em 2008, quando foi inscrito na Constituição do Butão como o principal objectivo da governação do país e foi lançado o primeiro inquérito nacional. A imagem idealizada do Butão no resto do planeta – um pequeno e pacato reino budista nos Himalaias, apegado a tradições imemoriais, ainda não corrompido pelos males da civilização moderna e amante fervoroso da paz – favoreceu o acolhimento da FIB nos mass media e nas instituições internacionais, e fez com que, em 2011, o indicador recebesse o endosso da Assembleia Geral da ONU, numa resolução com o título “Felicidade: Rumo a uma abordagem holística do desenvolvimento”, que aconselhou os países-membros a adoptarem-no (“budista” e “holística” estão a seis letras de distância no dicionário, mas andam quase sempre juntas quando o assunto é a vida do espírito).

Desde então, a ONU tem vindo a publicar anualmente o Relatório Anual de Felicidade, que calcula o FIB com base nos nove descritores acima mencionados. Porém estes relatórios têm vindo a desmentir o preconceito, muito disseminado entre os adeptos do budismo, das terapias holísticas e da alterglobalização, de que os habitantes dos países desenvolvidos são muito mais infelizes do que os dos países num estado incipiente de desenvolvimento. O ranking apurado pelo relatório de 2025 é dominado pelos países ocidentais industrializados que costumam liderar também os rankings de prosperidade material, com o top 5 a ser composto pela Finlândia, Dinamarca, Islândia, Suécia e Holanda (por esta ordem) e com apenas dois representantes do “Sul Global” a intrometerem-se no top 20 – a Costa Rica (6.º lugar) e o México (10.º lugar). Portugal tem desempenho no FIB muito inferior ao do PIB, com um modestíssimo 60.º lugar (nem outra coisa seria de esperar de um país cuja música nacional é o fado). Nos últimos cinco lugares da tabela não há surpresas: Zimbabwe, Malawi, Líbano, Serra Leoa e Afeganistão (por esta ordem).

O país que criou o conceito de FIB não figura no relatório de 2025, mas andou, em anos anteriores, pelos lugares 95-97, o que poderá ser surpreendente a quem tenha do Butão a imagem rósea acima referida. Acontece que o conceito de FIB foi criado e propagandeado pelo Governo butanês, não com o intuito de melhorar a compreensão da natureza humana e promover a felicidade, mas para disfarçar o facto de a maior parte da população do pequeno reino viver na miséria (material), de o regime ser corrupto e ineficiente e também de, em 2008, ano em que a FIB foi convertida em desígnio nacional do Butão, o Governo ter promovido uma limpeza étnica, expulsando do país a minoria nepalesa do país, de fé hindu, estimada em 100.000 pessoas – cerca de 1/6 da população total. A ênfase na FIB tinha também o propósito de contrariar a crescente penetração no país pelos modernos meios de comunicação de massas e pela mensagem consumista por eles veiculada, ao arrepio dos ensinamentos do budismo.

Antropologia forense da felicidade

Desde o aparecimento da FIB e, em particular, da excitação gerada em torno dela em 2008, várias instituições têm proposto outros índices “alternativos” para avaliar o progresso humano. Assim surgiram, entre outros, o Índice de Desenvolvimento Humano (HDI, na sigla inglesa), o Índice Planeta Feliz, o Índice Vida Melhor da OCDE (Better Life Index), o Índice de Prosperidade Legatum, o Índice de Qualidade de Vida (calculado pela Economist Intelligence Unit) e o Índice de Bem-Estar Emocional da Gallup.

Alguns deste índices produzem resultados consistentes entre si (por exemplo, a FIB não anda longe do HDI), mas outros geram resultados fortemente discrepantes. Por exemplo, a Colômbia surgiu no Relatório Anual de Felicidade de 2018 no 37.º lugar, mas obteve o 1.º lugar no Índice de Bem-Estar Emocional da Gallup, que se baseia apenas na impressão pessoal de bem-estar emocional relatada pelos inquiridos – o autodiagnóstico de felicidade é tão pouco fiável quanto os autodiagnósticos de desempenho na cama ou ao volante e estranha-se que a Gallup, uma respeitável empresa de sondagens, perca tempo com tal indicador.

O que é bizarro é que Kemp, que apela enfaticamente à redefinição do conceito de progresso, de forma a colocar a ênfase na “felicidade e nas ligações sociais”, não mencione sequer a existência de vários índices que se esforçam, precisamente, por fazer aquilo que ele reclama. Não terá ouvido falar deles? Conhece-os, mas não os considera cientificamente credíveis? Está a par dos resultados que têm produzido, mas omite-os porque desacreditam a sua teoria de que a prosperidade e as “mordomias tecnológicas” criadas e disseminadas pelo capitalismo não incrementam a felicidade?

Os índices que pretendem aferir felicidade e bem-estar têm fragilidades e limitações que acabam por expor as fragilidades e limitações ainda maiores das assunções de Kemp sobre felicidade e bem-estar em épocas distantes: se índices como a FIB e o HDI, que são alimentados com informação estatística recente, precisa e abrangente, compilada meticulosamente pelas burocracias estatais e pelas instituições internacionais, e pelos resultados de inquéritos realizados de acordo com rigorosos padrões sociológicos e estatísticos produzem resultados díspares e de baixa fiabilidade, o que dizer da credibilidade das estimativas de felicidade entre caçadores-recolectores modernos e, sobretudo, entre caçadores-recolectores do Paleolítico?

Se o conceito de “felicidade” é intrinsecamente fugidio (todos julgamos ter uma ideia do que é, desde que não sejamos instados a defini-la), se o entendimento da felicidade varia imenso, não só entre tempos e culturas, como entre indivíduos do mesmo tempo e cultura, e se a percepção da felicidade pode alterar-se bruscamente em resultado de variações mínimas de atmosfera e contexto, como pode alguém atrever-se a afirmar ou sequer sugerir que, no que respeita à felicidade, “a maioria das sociedades retrocedeu desde o tempo dos caçadores-recolectores igualitários”? Se mesmo quando inquirimos pessoas de carne e osso, do nosso tempo e da nossa cultura e meio social, paira sempre a incerteza sobre o que entendem exactamente por ser “muito feliz”, “feliz”, “resignado”, “infeliz” e “muito infeliz” e se não sabemos se respondem com sinceridade ou de acordo com aquilo que crêem ser socialmente validado, se são capazes de distinguir entre a sua situação emocional pessoal e a atmosfera emocional gerada pelos mass media e pelas redes sociais e pelos resultados recentes do seu clube de futebol, e se medem a sua felicidade em função do que têm ou do que (sentem que) lhes falta, como podemos ter a audácia de nos julgarmos capazes de avaliar a felicidade de quem viveu há muitos milhares de anos e apenas nos legou ossos, artefactos rudimentares e ténues vestígios de acampamentos?

A seguir: O próximo colapso